Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Esta é a história do dia da Rádio Observador: a vida numa aldeia sob ocupação russa. Vitaly Cherkasor atravessa o pátio de casa e guia-nos até a entrada da cave, onde a família se abrigou. Conta que um soldado abriu a porta e gritou lá para dentro que se não saíssem, atirava uma granada. Que pediram lá de baixo para não o fazer. E que quando a mulher Olena e a filha Eva saíram para o exterior, começaram a viver um inferno. Um inferno a que Vitaly atribui o nome de mundo russo. Andriivka é uma pequena aldeia ucraniana que se concentra quase toda em torno de uma rua. Fica a cerca de 70 km de Kiev e é vizinha de nomes que entraram no vocabulário comum pelas piores razões: Irpin, Bucha, Borodyanka. A aldeia esteve um mês ocupada pelas forças russas. Houve mortes, violações, destruição e várias tentativas de fuga. Hoje vou conversar com o editor de sociedade, Carlos Diogo Santos, e com o editor de fotografia, João Porfírio, que testemunharam na Ucrânia a história desses 30 dias. Olá, Carlos.
Olá, Catarina.
O João Porfírio junta-se a nós a partir da Ucrânia. Olá, João.
Olá aos dois, tudo bem?
Carlos e João, vocês passaram vários dias em Andriivka. Lembram-se da vossa primeira impressão quando chegaram à aldeia?
Sim, uma aldeia que é praticamente composta por uma rua, quase não tem transversais e, portanto, todas as casas ladeiam essa rua principal. É uma aldeia que tem dois quilómetros, em que começa, para quem vem de Kiev, numa bandeira da Ucrânia e termina sensivelmente ao pé da escola, que durante este período serviu de quartel para os russos.
Vamos simular uma viagem de drone, como as que vocês gravaram no local, e comecemos pela casa de Tetyana, uma moradia de dois andares. A perspectiva aérea permite-nos ver alguns danos no telhado e na cerca em torno do quintal. Permite ver a marca de um grande buraco numa parede lateral. Que história encontraram aqui, Carlos?
Esta família esteve durante vários dias a viver na cave de Tetyana e do marido. Chegaram a ser 10 pessoas, sendo que uma delas era uma idosa, a sogra de Tetyana, que com o frio da cave muitas vezes não conseguia sequer levantar-se. As caves são divisões com entrada independente pelo quintal e que são extremamente frias. Parece que se está a entrar para um frigorífico. E durante este tempo em que os russos estiveram nesta aldeia, cerca de 30 dias, eles viveram em condições desumanas. Não tomaram banho. A partir de determinado momento, passaram a ter pouca comida e às vezes tendo de partilhar com os militares russos. E mais, sempre com muitos medos. Em primeiro lugar, o medo da morte. Em segundo, o medo de violações. A filha de Tetyana é ainda jovem e esse medo percorreu toda a nossa conversa. Aliás, foram-nos dado exemplos de que a filha vestia as roupas da avó, ia esfregar-se na vaca que eles tinham perto do celeiro para não ficar atraente para os militares russos. São muitas histórias e muito pesadas. E depois, o medo de perder tudo aquilo que construíram, que também existe, o lado mais material da casa, porque são famílias que não têm muitos rendimentos. Muitas daquelas casas, não é o caso da Tetyana, mas para se perceber o nível das pessoas que vivem nesta aldeia, têm ainda cozinhas e casas de banho independentes, que são espécies de anexo, porque não conseguiram construir uma casa de raiz e as casas que tinham, não tinham estas duas divisões.
Nessa casa, a Tetyana guiou-vos até à cave que referias, onde se abrigou com a família durante um mês. João, consegues recuar a esse momento e replicar esse momento da entrada na cave, esse primeiro embate com aquele espaço?
Sim, Tetyana levou-nos a ver essa cave, esse abrigo, onde estas pessoas estiveram durante toda a ocupação russa nesta aldeia. E a primeira imagem que vemos quando chegamos perto desta cave é a palavra "pessoas". A palavra "pessoas" que está escrita à mão, com caneta, numa porta branca nesta cave, ou seja, que é para indicar aos soldados russos que ali estão pessoas, estão civis inocentes perante toda esta guerra e esta invasão. Descemos então até à cave, onde estas pessoas passaram mais de 30 dias fechadas. Tetyana avisa-nos que é melhor descermos de lado, porque as escadas são muito estreitas, os degraus são muito pequenos e assim que chegamos, Tetyana começa a nos explicar que parte dessa porta foi partida devido às explosões. Entramos dentro
Efetivamente, dentro do bunker onde estas pessoas estiveram a passar todo este tempo. Uma escuridão total é aquilo que encontramos nos primeiros segundos. Tetyana apressa-se a ligar a lanterna do telemóvel, as pessoas que estavam conosco fizeram exatamente o mesmo pra nós conseguirmos ver aquilo que estava lá dentro. Ligadas as luzes, é um amontoado de roupa, um amontoado de cobertores, imensas almofadas. E Tetyana começa a explicar o que é cada coisa e onde dormiam. Ao fundo deste bunker estavam as batatas, do lado esquerdo da entrada estavam as cenouras, por exemplo, e todas essas pessoas dormiam no meio deste bunker. Tetyana explica que estava muito frio, portanto, era muito difícil viver ali, mas foi o possível perante aquelas condições. E depois começa por mostrar todo o tipo de alimentação, da pouca alimentação que tinham. Mostra-nos o chá, mostra-nos as bolachas, mas mostra-nos também ração de combate das tropas russas. É uma caixa verde com uma estrela bem grande na parte frontal, que já todos certamente vimos essas imagens. Explica-nos também uma coisa muito curiosa, que tanto ela como a sua sogra fazem muitos bordados. E explica-nos que elas esconderam esses bordados para que as tropas russas não só não destruíssem esses bordados, mas também não gozassem com elas. Porque são bordados tipicamente ucranianos. Na Ucrânia, existe muita tradição de bordar panos, bordar toalhas e portanto, estas duas mulheres faziam isso e com medo de serem gozadas, com medo desses bordados serem destruídos, esconderam-nos naquela cave também.
Um pouco mais à frente, há uma habitação de dois andares em tijolo. As casas vizinhas estão completamente destruídas. No alpendre está estacionado um carro com marcas de tiros, vidros partidos, cheio de lixo nos bancos de trás e com essa caixa de ração de combate russa que referias há pouco também, essa caixa verde com a estrela que vimos em várias casas, estava também nesse banco de trás desse carro. Georgi, o dono da casa, abre a porta. A mulher, Natália, está a encher sacos com roupa espalhada por todo lado.
Sim, Georgi diz-nos nesse momento que se tivéssemos chegado duas horas mais cedo, não conseguiríamos entrar nesta casa.
O Georgi apanhou um grande susto logo no primeiro dia de invasão. Conta-nos o que aconteceu, Carlos.
Sim, logo no dia da chegada dos russos, quando há aquele primeiro momento em que os militares vão bater às portas das casas desta aldeia e vão bater para perceber, primeiro, quem vive lá, para perceber se há alguém ligado à resistência ucraniana, mas também, e isso é nos dito por várias famílias, para ver, em muitas casas, aquilo de que poderão servir-se nesse período em que vão estar ali instalados. E logo nesse primeiro dia, Georgi correu até à porta, a rastejar, e conta-nos que pediu para que não houvesse disparos, gritou, porque havia uma criança no interior dessa casa. E de resposta àquilo que recebeu foi um novo tiro na fechadura que lhe passou por cima da cabeça. Portanto, todo este testemunho emocionado e que se segue a esta visita à casa de Georgi, numa altura em que o filho já não está, permite perceber como a tensão, que muitos dizem que começou a intensificar-se já na segunda e na terceira semana de ocupação, essa tensão existiu logo no primeiro dia.
Nesta casa de Georgi, ninguém morreu, mas duas casas ao lado, Gregori ainda está para perceber o que aconteceu exatamente com a sogra, que encontrou estendida no exterior da casa na manhã de 7 de março.
Grigori, que é um construtor civil de 34 anos, esteve em casa todo este período da ocupação com a mulher, a sogra e o filho. A determinado momento, os soldados pediram-lhe pra que ele saísse de casa, da sua casa, para passar para a cave, uma espécie de bunker que todas as casas têm e que neste momento é usado mais para guardar batatas e outro tipo de alimentos. Durante alguns dias eles estiveram nessa cave, mas a determinado momento os soldados pediram para que este homem abandonasse também a cave e passasse pra uma casa de um vizinho, uma cave de um vizinho. E nesse momento, nós estamos ainda a falar no início do mês de março, ele ficou sem acesso nem à casa, nem à cave. Dias depois, a sua sogra saiu de casa pra apanhar ar. Muitas vezes as pessoas arriscavam isto, não conseguiam estar 24 horas numa cave e ficou muito tempo até que este homem, construtor civil, viesse cá cima e percebesse que a sogra estava estendida no chão. Nesse momento ele tenta abanar, tenta perceber se ela tem algum tipo de reação, não encontra reação e pede ajuda aos soldados russos, porque o corpo da sogra precisa de ser enterrado. E recebe como resposta: "Não, tem duas hipóteses, ou a deixa aqui estendida, ou a leva pra dentro de casa e a deixa lá".
E foi isso que ele fez. Ele achou aquilo desumano, mas ele conta-nos e diz-nos uma frase que é muito interessante, que é: "Eu também tinha que ter alguma inteligência emocional. Eu sabia lá se daqui a uns dias eu também estaria vivo. E portanto, eu trouxe a minha sogra pra dentro, abri uma vala no quintal da casa dele", de onde ele foi expulso, junto a uma trincheira que os russos tinham aberto também, e enterrou lá o corpo da sogra.
Na altura em que vocês visitaram a aldeia de Andriivka, Gregori já tinha, entretanto, transladado o corpo da sogra aí definitivamente.
Já tinha havido a exumação, já tinha retirado novamente o corpo e levado para o cemitério. Mas isso só aconteceu a partir do início de abril, que é quando a aldeia foi novamente tomada pelas forças ucranianas. Até aí, o cadáver esteve sempre naquele buraco que ele abriu, naquela vala que ele abriu.
Naquela campa temporária.
Sim.
Nas várias filmagens que fizeste, João, aparece precisamente esta cova que Gregori teve que improvisar no quintal dele e salta à vista outra cova, que parece ser uma grande trincheira, já aqui referida pelo Carlos. Há várias destas covas em vários outros quintais que aparecem sobretudo nas imagens de drone, isso é muito perceptível. Nós sabemos exatamente para que servia cada um destes locais, destas escavações feitas pelas tropas russas?
Sim, em vários quintais de praticamente todas estas casas desta aldeia, havia imensas trincheiras. Estas trincheiras estavam viradas para o horizonte. Fazia com que os militares russos conseguissem perceber se havia algum tipo de ofensiva da parte do exército ucraniano para tentar reconquistar novamente esta aldeia. E esta trincheira tinha à volta não só vestígios de grandes combates ali. Este homem que nos fez uma visita guiada por todo o seu terreno e pelo interior de sua casa, a dada altura, começa agachado à procura de munições utilizadas pelos russos.
Ainda aqui, na casa de Gregori, nota-se pelo testemunho dele enquanto vai falando convosco, que está furioso. Repete incessantemente que há fuligem nas paredes todas. E diz que não percebe por que tinham de vandalizar tudo.
Mesmo quando não há uma destruição da casa, de paredes, de teto, da infraestrutura em si, mesmo quando há uma divisão que até foi minimamente preservada do ponto de vista da infraestrutura, é impossível entrar lá dentro, porque foi tudo revirado e muitas das coisas pode ter sido por ondas de explosões, obviamente, móveis caíram, mas percebe-se claramente que foram os soldados que reviraram tudo à procura de documentos, de fotografias, muitas vezes à procura de roupas. E isso também é interessante, porque as roupas, segundo nos contaram vários moradores, que os soldados russos levavam não estavam adaptadas para o clima que eles encontraram. Portanto, muitas vezes eles usavam roupas dos próprios ucranianos para se proteger do frio, para fazer nesses buracos que foram abrindo ou até mesmo aproveitando algumas das caves onde eles foram dormir, mas para fazer camas. Por exemplo, há uma das casas onde todos os tapetes foram levados para fazer uma base onde eles poderiam dormir de forma mais confortável. Portanto, mesmo quando a destruição não é uma destruição de paredes, de teto, todo o recheio da casa não está em condições de ser reaproveitado.
Além de que há vários testemunhos a dizerem que eles, no fim, levaram uma série de coisas, eletrodomésticos, televisões e tudo isso.
Sim. Muitos dos moradores até sorriam no meio de conversas que eram sempre muito sérias, porque o que estava em causa era a vida deles. Mas havia um pequeno sorriso quando diziam: "Levaram este eletrodoméstico, mas deixaram o cabo de ligar a eletricidade". E isso eles associam muito ao fato de para ali terem ido muitas pessoas muito novas, de regiões periféricas da Rússia, algumas da fronteira com a China, que nunca tinham visto determinados aparelhos, que percebiam que eram aparelhos eletrónicos e que queriam levar, mas que não sabiam sequer como aquilo funcionava. Muitos moradores nos contam isto. E pegando no que o João estava a dizer, de quando este morador nos mostrava a casa e o sítio onde ainda tem algumas armas e algumas munições, ele mostra-nos também uma placa de um colete à prova de bala e diz: "Sabem por que eles tiraram esta placa? Para poder guardar no espaço desta placa smartphones que roubavam as pessoas". E isto é muito interessante, percebe-se como, ponto número um, estes homens iam para tentar aproveitar-se e não só para destruir telemóveis para que aquelas pessoas não comunicassem com os ucranianos. E uma segunda parte, que é eles não tinham noção nenhuma do que era a estratégia militar, muitos deles. Claro que havia oficiais russos que teriam, mas muitas destas pessoas que tiravam as próprias proteções do corpo para poderem levar coisas de casa das pessoas escondidas, mostravam que não percebiam os riscos que estavam ali a correr. Deixa-me só voltar um pouquinho atrás, muito rápido. Na entrada da casa deste homem, foi a primeira vez que nós vimos uma letra que é o símbolo desta invasão.
Uma mina atingiu o telhado
Existem duas letras que as tropas russas fazem questão de cravar na casa das pessoas e em todos os seus veículos, que é a letra Z e a letra V. E nesta casa havia duas inscrições com a letra V. Quando entrámos na casa deste homem, havia duas paredes com esta letra V, que simbolizava que as tropas russas invadiram aquela casa.
E eram inscrições que vocês foram encontrando em várias outras casas. Havia aqui um pormenor que o Carlos referia há pouco, que era destes objetos e cobertores que tinham sido levados das casas, estarem muitas vezes a forrar algumas destas trincheiras. Há um caso precisamente assim no quintal de Vadim, uma casa que fica numa das extremidades da aldeia. Mas o que salta à vista quando vemos as tuas imagens de drone, João, quando nos aproximamos do terreno, é que a casa praticamente desapareceu.
Sim, toda esta casa ficou completamente destruída. Esta casa para ser reconstruída tem obviamente que ser demolida, porque apenas ficaram as paredes verticais da casa. Todo o telhado caiu, desabou. Este homem perdeu tudo o que estava no interior de sua casa e a casa ficou completamente destruída. O seu carro ficou completamente destruído. Portanto, este homem terá que refazer toda a sua vida neste local ou noutro.
E por que a casa foi destruída?
É interessante percebermos a forma como as tropas russas se posicionaram ao longo desta aldeia. No caso desta casa, ela era uma de três usada para guardar munições e armamento. E quando os russos foram embora, ainda que em determinados pontos da aldeia pareça que assim que eles saem, houve uma destruição total. Neste caso em concreto, essa destruição poderá ter estado relacionada com o fato de estas casas serem para guardar munições e eles não quererem que com essa saída apressada, deixassem para trás material que pudesse ser usado pelos ucranianos. E o morador, o Vadim, diz-nos isso mesmo, que acredita que como a sua casa serviu para guardar munições, no final, os russos não quiseram deixar o que restava para os ucranianos e portanto, acabam por destruir. E nessa casa, é bastante interessante que nós vemos pela primeira vez umas setas pequeninas espalhadas pelo terreno do quintal, cujo nome técnico são flechetes, são pequenas flechas, que estão dentro dos projéteis. Cada projétil tem várias bolsas, cada uma penso, com 8 mil flechetes. Estes projéteis usados pelos russos e que não são novos, já vêm de outros conflitos, quando rebentam, estas setinhas são disparadas em forma de cone e atingem alvos, que podem ser pessoas, de forma indiscriminada. É interessante por quê? Porque se nós recuarmos àquilo que foram as mortes numa cidade não muito longe, também nos arredores de Kiev, Bucha, muitas dessas mortes foram provocadas por estes flechetes, que provocam umas feridas muito fininhas, mas que atingem órgãos vitais e levam à morte das pessoas. Neste quintal nós encontrámos vários flechetes, que fazem parte da constituição de alguns projéteis usados pelos russos e que estavam lá espalhados pelo terreno.
Junto ao terreno de Vadim, há também um morteiro completamente destruído, carbonizado, e Vitaly Cherkassor, que é um dos responsáveis pela defesa territorial da aldeia, contou-vos que este morteiro foi atingido por um Bayraktar, um drone turco e uma das armas mais eficazes a que tem recorrido a defesa ucraniana.
Uma das coisas que ele nos diz é exatamente isso que dizias, que os russos a determinado momento ficaram espantados com a capacidade do armamento ucraniano. Mas isso até leva para um outro ponto, que é: nem é só uma surpresa. Isso levou também à frustração. Isso levou semanas em que, dia após dia, eles percebiam que, e isto sobretudo a partir do dia 15 de março, estavam cada vez mais cercados. Essa questão das trincheiras nas traseiras que o João falava, é muito isso. É para tentar que, já que eles não conseguem entrar aqui porque na rua principal nós estamos, temos que vigiar as traseiras das casas.
Vamos agora centrar-nos precisamente nessa história de Vitaly, porque ele tem uma história, de fato, muito particular. A casa dele fica numa das entradas da aldeia, dependendo de onde chegamos, e foi a primeira em que os russos entraram.
Entraram pra perceber várias coisas. Para já, se havia pessoas que fossem apologistas do nacionalismo ucraniano, perceber se havia pessoas ligadas às Forças Armadas Ucranianas ou pelo menos à defesa territorial, ou até mesmo, segundo ele nos conta, pessoas ligadas à ajuda humanitária. A casa de Vitaly, ao contrário das outras que fomos referindo, era uma casa com muitas condições. Tinha canteiros nos jardins, tinha um celeiro.
Tem um pergolado grande na entrada, que permite reuniões familiares grandes, percebe-se isso.
Exatamente. É uma casa de alguém que tem outro nível socioeconómico. E quando eles chegam e encontram lá a mulher, a filha mais nova e o cunhado de Vitaly, eles começam por fazer algumas perguntas, perceber onde está o seu marido, por que ele não está aqui. E a mulher começa sempre a dizer: "Bom, o meu marido não está aqui porque ele vive em Kiev, ele está em Kiev e só vem aqui ao fim de semana". Mas estas eram desculpas que com o passar dos dias eles iam perguntando: "Mas ele ainda não chegou. Por que ele ainda não chegou?" Tudo isto levou a um estado de tensão que, a determinada altura, Vitaly conta-nos que a mulher começou a ser ameaçada de todas as formas que possamos imaginar. Por exemplo, num dos dias foi trazida pra rua e começaram a disparar perto da cabeça dela. Havia também ameaças muito claras, sobretudo de um oficial russo, de violação. A determinada altura, quando a mulher estava na cozinha, porque só podia ir à cozinha quando os russos a chamavam para fazer alguma coisa, há um oficial que diz: "Onde é que está a tua filha, Eva? Ela é muito bonita". E ela diz: "Ela está escondida, está na cave, está abrigada". E ele diz: "Mas traz até aqui pra eu poder falar com ela". Toda esta intimidação que a mulher consegue gerir e até se mostrar muito prestável, dizendo: "Devem estar muito cansados, eu posso fazer-lhes qualquer coisa". Ela acaba por conseguir, com esta conversa toda, que ele fique na cozinha a beber três garrafas de vinho. E com esta estratégia, digamos assim, ela conseguiu adormecê-lo e conseguiu que naquele momento em concreto não houvesse nada. Mas o pânico voltava logo no dia a seguir, porque no dia a seguir ele já tinha acordado. Vitaly conta-nos dias que pareciam uma eternidade, com estratégia, ele fugido na floresta, sem se poder aproximar senão era morto, a mulher a tentar evitar o pior cenário pra ela e pra filha, dias de muito terror psicológico.
Essa família acabou, ainda assim, por conseguir sair da aldeia ao fim de oito dias. Foram oito dias dessa tensão constante, permanente, mas acabou por conseguir fugir.
Sim, há uma altura em que é lançada uma granada pra dentro da casa e com a explosão os próprios russos esconderam-se, tanto os oficiais como os soldados. Dessa explosão, aliás, resultou a morte da sogra de Vitaly. E o que aconteceu foi que eles perceberam que era o momento de fugir, mas com uma condição: tinham que desenhar no carro um V, porque senão seriam mortos logo naquele checkpoint que havia ao pé da escola, que era mesmo ao pé da casa deles. Aquele V que o João Pereiro falava ainda há pouco, eles tiveram que o desenhar no carro pra dizer: "Nós somos dos vossos".
João, foi precisamente Vitaly que vos fez uma visita guiada à escola, que funcionava como quartel general das tropas russas em Andriivka. O que é que encontraram lá dentro?
"Eu sou mau e isso é mau. Eu nunca me vou tornar bom e isso é mau". Esta frase que acabei de dizer é uma das muitas frases que estão escritas no quadro das salas de aula desta escola. Uma delas, muito curiosa e até bastante difícil de perceber, é uma que é uma frase escrita na vertical, uma palavra escrita na vertical, que quer dizer: desculpem. E logo ao lado, há outra que diz: nós não queremos isto. E logo ao lado, existe uma caricatura do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy, também que terá sido feita pelos militares russos neste quadro verde, a giz branco. Há muitas marcas de balas nos tubos, nas paredes. Há muitos vidros partidos, praticamente todos os vidros das salas estão partidos. Este homem, que pertence à Força Territorial, fez-nos essa visita guiada e no exterior, através de uma janela de uma sala do primeiro andar, conseguimos ver os campos de futebol e de basquete desta mesma escola. Pois nesses campos de futebol estão lá, bastante visíveis e bastante grandes, as valas comuns que os russos terão feito para, depois de matar alguns civis, os irem enterrar ali.
É pelo menos o que acreditam os habitantes que falaram convosco, porque as valas, de facto, não chegaram a ser usadas.
Ali foi montado um quartel general autêntico das forças russas. Na cave desta escola era onde as pessoas ficavam presas e na parte de cima, no primeiro e no segundo andar, era onde os militares não só dormiam, mas também faziam a sua comida, era ali que viviam, basicamente. A entrada está completamente cravada com marcas de balas, o que nos leva a crer que ali foram travados também duros combates e a acreditar, obviamente, que ali era o sítio onde as tropas russas comandavam toda a ocupação daquela aldeia.
Depois de tudo o que aqui nos contaram, o que é que estas histórias desta pequena aldeia nos revelam do modus operandi das forças russas nos locais ocupados, Carlos?
Revelam-nos muitas coisas. Desde logo, quando entram e não têm o objetivo de se fixar, apenas de tomar Kiev, e não conseguem e voltam para trás. Ou seja, a tomada daquela aldeia em si já é uma tomada frustrada de Kiev, porque o objetivo não era aquela aldeia inicialmente. Portanto, logo aqui nós conseguimos perceber que os russos não mediram bem o que precisavam e que foram controlando estas localidades, cidades, aldeias à volta de Kiev à medida que iam ficando frustrados com as tentativas não concretizadas de derrotar os ucranianos às portas de Kiev. Isto é a primeira lição que podemos tirar daqui. Depois, há uma outra frustração, que é a frustração de todo o período em que estão ali. Numa primeira fase, ainda que haja relatos de soldados que vagueavam bêbados pelas ruas, há pessoas que até nos dizem que acreditam que não era só álcool, que havia outras substâncias ali e que eles roubavam carros, faziam corridas com os carros das pessoas e que tinham este comportamento, algumas pessoas falam até, selvagem. Muitos deles passam a um comportamento mais agressivo à medida que o tempo vai passando. Há várias explicações para isso. A primeira é que começam a ficar sem combustível, sem comida, a dormir em condições que, até mesmo por questões de temperatura, estão longe de ser boas. E depois disso, porque percebem que do outro lado há uma grande resistência e que essa resistência não vai acabar. E mais do que isso, as pessoas estão ali à espera que os seus os expulsem. E tudo isto misturado faz com que nós possamos daqui concluir que o modus operandi desta aldeia, ou utilizado nesta aldeia, diz muito sobre aquilo que foi esta invasão russa, que é uma invasão que em determinados pontos não calculou bem o que precisava para atingir os seus objetivos e que depois de conseguir objetivos marginais, digamos assim, também não se conseguiu implementar, não conseguiu mostrar que era o controle correto. E mais do que isso, percebeu que estava sempre como o inimigo. E as pessoas dizem-nos isso, todas elas, das mais velhinhas aos mais novos com quem falámos, que estavam à espera de que isto acabasse. A Tatiana até nos diz uma coisa que é: "Eu estava lá dentro e um dos meus principais focos era não saber nada. Porque se me dissessem que isto era um, dois, três dias e que depois acabava, tudo muito bem. O problema é que eu não sabia quando é que os meus iam chegar". E, portanto, isso mostra como eles nunca perceberam bem aquilo onde se estavam a meter, nem quando queriam tomar uma grande cidade, nem depois quando conseguiram estas pequenas localidades, que não era o objetivo principal.
Essa capacidade de resistência foi subavaliada, digamos assim. As forças ucranianas chegam à aldeia ali entre a passagem do fim do mês de março e início do mês de abril. Quando vocês estiveram na aldeia, João, o que é que perceberam que sobrou desta passagem dos russos por ali? Como é que está a aldeia agora?
É uma pergunta difícil de responder, porque pouco ou nada sobrou, infelizmente, daquela aldeia. Poucas são as casas que não estão totalmente danificadas. As que não estão totalmente danificadas estão, naturalmente, com muitos estragos, muitas paredes partidas ou mesmo todos os vidros das casas partidos, porque ali caíram muitos mísseis, muitas bombas e, portanto, poucas são as casas que de fato resistiram, por sorte, a estes bombardeamentos tão intensos que foram travados nesta zona. Sobraram, sobretudo, as pessoas que sobreviveram.
Mas pelo menos vocês já encontraram a aldeia numa fase em que se percebe que as pessoas começam a pensar ou programar como é que vão conseguir reconstruir as casas. E, por exemplo, a casa de Vitaly está neste momento a ser usada como uma espécie de centro de ajuda alimentar. Portanto, a aldeia começou a reorganizar-se para recomeçar do zero, digamos assim.
Sem dúvida. Aliás, há pessoas que estão em cima de escadotes a arranjar cada buraco feito pela bala, cada buraco feito pela bomba, a tentar tapar com plásticos impermeáveis, com madeira, com telhas improvisadas. Portanto, as pessoas querem ficar ali, é ali que as pessoas nasceram, é ali que as pessoas viveram a sua vida toda. Portanto, não vão sair dali, apesar das suas casas estarem Total ou parcialmente destruídas. Aliás, João, não sei se te recordas, logo no nosso primeiro dia, uma senhora que até recusou falar connosco porque o marido tinha morrido, estava lá com dois familiares, uma casa totalmente destruída, era impossível habitar, praticamente só havia paredes, e eles estavam no quintal a arrumar os tijolos.
E a limpar.
E a limpar. Mas não será possível viver ali nos próximos meses, seguramente, e é preciso que seja mesmo reconstruída. Mas estavam a arrumar tijolos no quintal como se estivessem a arrumar livros numa prateleira. E isso é impressionante. "Bom, eu não posso fazer mais nada, mas eu pelo menos venho para aqui arrumar as coisas". Aquela mulher tinha perdido o marido, tinha a vida completamente do avesso e foi arrumar tijolos para o seu quintal.
Quase no final da visita à escola, Vitaly cita-vos um provérbio. "Нет школы - нет села". Diz ele: "Se não há escola, não há aldeia". "Где наши люди, которых убили?"
E diz também que é necessário reconstruí-la e vai ser tudo como antes da guerra. Só não é possível trazer de volta aqueles que foram mortos.
É uma frase bastante simbólica de tudo isto que conversamos aqui, desta história que vocês nos trouxeram e que testemunharam e que vos obrigou a passar, de facto, para conseguirem fazê-lo muitos dias com estas pessoas nesta aldeia. Obrigada, Carlos. Obrigada, João.
Obrigado.
Obrigado.
O Carlos Diogo Santos é editor de sociedade e esteve em reportagem na Ucrânia com o João Porfírio, editor de fotografia. Ambos assinam uma grande reportagem interativa que faz a radiografia de uma aldeia sob ocupação russa durante 30 dias e que pode ler e ver no site do Observador. O João Porfírio continua no terreno, agora com o diretor adjunto Pedro Jorge Castro, a ajudar-nos todos os dias a perceber como evolui e que marcas deixa a invasão da Ucrânia pela Rússia. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Catarina Santos. Até amanhã.