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Esta é a história do dia da Rádio Observador: como as direitas portuguesas olham para as eleições em Espanha.
Antes de mais, vamos aguardar a forma como o futuro governo poderá vir a ser empossado e entrar em funções. Mas aquilo que é hoje relevante dizer é felicitar vivamente o Alberto Núñez Feijóo e o Partido Popular pela retumbante vitória que tiveram ontem.
Luís Montenegro assistiu às eleições espanholas a partir da Madeira, território liderado pelo PSD desde 1976. O presidente social-democrata limita-se à pose institucional de quem, deste lado da fronteira, apoia o líder do PP espanhol. Núñez Feijóo ganhou as eleições, mas o governo poderá continuar nas mãos do PSOE. Estará o PSD a tirar notas sobre o que aconteceu em Espanha? E a Iniciativa Liberal e o Chega, também fazem contas? Vou conversar com Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto de política do Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vindo, Miguel.
Olá, Ricardo.
Miguel, Feijóo e o PP venceram as eleições espanholas. Porém, o Partido Socialista Operário Espanhol poderá formar governo com o apoio de vários partidos, apesar de ter ficado em segundo nas eleições de domingo. Isto soa-me a algo familiar ou estou aqui a fazer alguma confusão?
Sim, já passamos por este filme em 2015, quando o PS, mesmo tendo ficado em segundo lugar nas eleições, conseguiu formar a tão falada Geringonça e governar a partir daí. Pedro Sánchez já tinha tentado o mesmo em Espanha, mas na altura falhou. Agora tem aqui uma oportunidade de reeditar uma Geringonça à espanhola.
Nós temos estado muito atentos às eleições em Espanha, até porque Espanha é muito importante para nós. Cada vez que Espanha se constipa, Portugal sofre com isso. E o PSD tem estado de caderno de notas na mão a acompanhar todo este processo ou não?
Tem, não só no rescaldo destas eleições, mas também antes. Havia, na direção do PSD, a convicção de que estas eleições poderiam ser o tal vento da mudança de que Luís Montenegro falou depois de conhecidos os resultados e, portanto, esperavam que mais do que um vento de mudança, fosse quase um terramoto político a começar em Espanha, que depois teria reflexo em Portugal. Vamos perceber que isso não aconteceu exatamente como o PSD estava à espera.
Mas isso quer dizer, Miguel Santos Carrapatoso, que havia uma expectativa ou um entendimento de que aquilo que se passa em Espanha pode ter paralelo em Portugal, embora sendo duas realidades diferentes?
São realidades distintas. Aliás, temos visto e ouvido os dirigentes sociais-democratas fazendo alguma pedagogia e dizendo bem que a realidade espanhola não é a realidade portuguesa, e isso é factual e deve ser dito e repetido. Agora, havia muita gente na direção do PSD que olhava para estas eleições como uma espécie de laboratório do que poderia acontecer em Portugal. E laboratório, sobretudo na questão das alianças à direita. Por um lado, se Feijóo vencesse com maioria inequívoca, isso poderia dar um alento ao PSD de que também em Portugal era possível, com uma estratégia clara, conseguir esse resultado. Em contrapartida, e esse era o cenário mais provável, e foi sempre o cenário mais provável, uma eventual vitória do PP, precisando ainda assim do Vox para governar, poderia servir como uma espécie de ensaio para o que poderia acontecer também em Portugal. Isto por quê? Basicamente, se a aliança entre Feijóo e Abascal corresse bem, isso ajudaria a desarmadilhar a conversa em torno de uma aliança entre PSD e Chega. Isto porque se era possível tê-lo em Espanha, também seria possível repeti-lo em Portugal. Se, em contrapartida, isso não funcionasse em Espanha, se essa aliança viesse a dar maus resultados, o PSD poderia sempre usar isso para dramatizar o seu discurso e dizer que partidos como o Vox e como o Chega não são mesmo de confiança.
Mas pra já, e depois de um domingo em que a palavra do dia terá sido prudência e também, talvez, cautela, de visita à Madeira, Luís Montenegro deixava um desejo. Dizia ele que o mais votado deve chefiar o governo.
Conto que o governo seja liderado por quem venceu as eleições, porque é isso que é normal em democracia e é isso que é normal também na península Ibérica.
Miguel Santos Carrapatoso, isto é uma espécie de desejo para tentar minimizar uma eventual desilusão por cá, no futuro, que não sabemos ainda quando é que pode ser?
É interessante que Luís Montenegro usa a mesma estratégia que Feijóo usou em Espanha e Luís Montenegro já o vem ensaiando há muito tempo, ao dizer que a garantia que dá que se perder as eleições, vai deixar o PS governar. Isso foi uma estratégia que Feijóo fez, aliás, no debate, de entregar o acordo assinado por ele próprio, garantindo ao PSOE que poderia governar. Mas isso tem um problema, que não resulta. Não resultou em Portugal com Rui Rio, não está aparentemente a ganhar grande tração em Portugal e não resultou em Espanha E parte de um desejo, que eu percebo que Luís Montenegro persiga, de que 2015 não tenha existido. O PS, depois de aberto aquele precedente à esquerda, não voltará a cair nessa tentação de permitir, tendo condições para formar maioria à esquerda, naturalmente, de permitir que o PSD governe. E desconfio que lá no fundo o PSD acredita o mesmo. Se tiver, de facto, condições, uma maioria de direita para governar, não me parece que vá deixar o PS chegar ao poder, mesmo tendo ficado em segundo lugar.
Já voltamos à conversa com o Miguel Santos Carrapatoso. Tal como o Vox em Espanha, o Chega em Portugal poderá ser determinante para o futuro do centro-direita. E que leitura fará o Chega destes resultados em Espanha? Estamos de regresso à conversa com Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto de política do Observador. Miguel, a Iniciativa Liberal de Rui Rocha, que já disse com o Chega não, é categórico, também anda a tomar notas ou está um pouco à margem de tudo isto?
Eu acho que a Iniciativa Liberal se colocou prudentemente fora desta questão espanhola, até porque o seu homólogo, o seu partido irmão, não é bem irmão, será um primo que se foi afastando. O Cidadanos desistiu de se apresentar a votos depois de uma hecatombe nas eleições regionais e autonómicas. E, portanto, a Iniciativa Liberal está aqui de alguma forma como observador interessado, mas distante. É natural que tire notas, porque o que aconteceu em Espanha, de alguma forma, veio dar força à tese da Iniciativa Liberal que namoros ou algumas ambiguidades em relação a partidos de direita radical traduzem-se em resultados inconsequentes ou mesmo maus resultados.
E já vamos falar dessas ambiguidades. Queria primeiro perceber como fica o Chega no meio disso tudo, porque André Ventura esteve em Madrid no domingo para estar com o seu amigo Santiago Abascal, mas o Vox foi protagonista de uma derrota, perdeu 19 deputados, fica agora com 33 deputados no Congresso Espanhol. Que leitura faz o Chega deste resultado do seu partido irmão, não sei se lhe podemos chamar assim, o Vox?
André Ventura tinha tudo preparado para se colocar às cavaletas de Abascal e anunciar a tal onda que iria chegar também a Portugal e a noite correu-lhe francamente mal, embora André Ventura já tenha começado a ensaiar alguma contenção de danos nesse aspecto. Mas é natural que no Chega agora se esteja à procura de algumas leituras que minimizem o resultado do Vox. A primeira é do que o eleitorado do Vox estava de alguma forma inflacionado, que esta será mais ou menos a verdadeira dimensão do Vox e de Santiago Abascal, portanto, foi um resultado normal dentro das expectativas. Depois, a questão do voto útil. Acredita-se no Chega que o Vox foi de facto vítima do apelo ao voto útil à direita, coisa que pode muito bem acontecer com o Chega. E depois, e este é um lado mais interessante até, há quem no Chega acredite que isto é um sinal inequívoco de que o partido não pode mesmo ensaiar qualquer tipo de moderação ou de cedência aos partidos de centro-direita, porque sempre que o eleitorado do Chega, ou no caso o eleitorado do Vox, percepciona ou intui que pode existir uma aproximação a um partido de sistema, isso costuma dar mau resultado. Agora, como é que André Ventura, que quer ser poder, inequivocamente, e ao mesmo tempo quer ser antissistema, como é que André Ventura se liberta desta camisa de forças? Eu acho que nem o próprio ainda descobriu, mas é um dilema muito interessante que vai alimentando algumas discussões no Chega.
E esse dilema é importante porque Luís Montenegro, no fundo, tem deixado uma porta, vamos dizer, fechada, mas não trancada, não está fechada à chave, em relação ao Chega. Miguel, recorda-nos aqui qual é a posição oficial de Montenegro em relação a isto.
Luís Montenegro tem dito que não fará qualquer tipo de acordo com políticos e partidos racistas, xenófobos, populistas, radicais, o que pressupõe que não fará qualquer tipo de acordo com o Chega. O que é que acontece? Luís Montenegro e os dirigentes do PSD não falam nunca no nome do Chega. E não falam porque acreditam, vamos acreditar na tese mais benevolente, aquela que é dita oficialmente, que fazê-lo, ou seja, nomear o Chega, é ostracizar o eleitorado do Chega e não é isso que se pretende. O que se pretende é captar os eleitores que fugiram do PSD para o Chega. A outra tese é que desta forma nunca Montenegro será apanhado a dizer "com o Chega jamais". Isso, como dizias, abre aquela frincha que é necessária para qualquer circunstância.
E é por isso que digo que a porta não está trancada, no fundo estará encostada, mas o PSD tira alguma lição da forma como Feijó lidou com o Vox?
Não diria que tira uma lição necessariamente sobre Feijó e Abascal, mas tira uma lição para o PSD. Ou seja, o que é que pode provocar na estratégia dos sociais-democratas? É que perceberam que devem, desde já, fazer o tal apelo ao voto útil à direita. O que é que estava na cabeça dos dirigentes sociais-democratas e Luís Montenegro vinha dizendo? Que quando chegasse a altura das eleições, iria esclarecer de uma vez por todas a sua política de alianças à direita.
Exatamente.
O que perceberam agora é que talvez seja mais prudente começar a acelerar esse discurso de que um voto no Chega é um voto desperdiçado à direita. E também, ao mesmo tempo, perceberem que podem usar o exemplo espanhol, a tal incapacidade do PP, mesmo ganhando as eleições, formar uma maioria à direita e formar governo, podem usar o que aconteceu em Espanha como uma espécie de antídoto ou vacina para o próprio eleitorado português, dizendo que se vocês permitirem esse tipo de indefinição à direita, o mais provável é que a esquerda, de fato, continue a governar. E é isso, se quisermos resumir a duas lições, serão essas duas: o apelo ao voto útil à direita deve começar a ser ensaiado desde já e depois fazer ver ao eleitorado português de que um voto desperdiçado no Chega é um voto que vai ajudar o PS a manter-se no poder.
Mas Miguel, o PS não pode insistir naquela tese, o PSOE fez o mesmo, de que os socialistas são o único garante que o Chega nunca irá para o poder, essa direita mais radical não irá para o poder. Isso aparentemente terá dado resultados em Espanha, não sabemos, é uma análise. Poderá também acontecer por cá. Ou seja, ao PSD não lhe é pedido mais qualquer coisa, um sinal de que é realmente uma alternativa, que tem outra política alternativa?
Sim, de fato, isso já aconteceu. Não aconteceu apenas em Espanha. Se nos recordarmos das eleições de 2022 com Rui Rio, foi vítima desse discurso do PS, que aproveitou as últimas semanas de campanha para acenar com o papão da direita radical. E, portanto, o PSD tem esse desafio de combater a narrativa que já é e vai ser ainda mais intensamente alimentada pelo PS, mas tem que fazer um outro caminho, que é simultâneo e paralelo, que é de fato mostrar que tem uma alternativa. É muito curioso que um dos editoriais dos jornais espanhóis, no caso o do ABC, um jornal assumidamente conservador, insuspeito de ter qualquer simpatia por Pedro Sánchez ou pelo PSOE, dizia precisamente isso, que não basta ou não bastou, aparentemente, ao PP ter um discurso antisanchismo, é preciso mais, é preciso um projeto alternativo. E isso encontra alguns ecos nas críticas que se vão fazendo também cá ao PSD. Luís Montenegro, apesar de ter propostas em várias áreas, e isso é factual, ainda não conseguiu criar junto do eleitorado e junto dos portugueses a ideia de que representa, de fato, uma alternativa ao socialismo. E isso é uma fragilidade grande para o PSD e como se vê nestas idas às urnas, isso pode fazer muita diferença. Se fez a diferença com o Feijóo, que ficou a muito poucos deputados de conseguir uma maioria, talvez tenha sido um pormenor ou outro a provocar este desfecho. Pode ser decisivo também no futuro, em qualquer eleição a que Luís Montenegro se apresente a votos. Se não resolver bem a questão das alianças à direita, de forma inequívoca, clara, para um lado ou para o outro, assumindo que quer fazer alianças com o Chega ou não, isso é uma prerrogativa Luís Montenegro, mas se não conseguir fazer isso de forma clara, e se ao mesmo tempo não disser que tem um projeto alternativo ao PS, que não é um mero anti-PS, isso pode custar caro aos sociais-democratas e, portanto, é também uma lição que deve fazer refletir o PSD em Portugal.
Obrigado, Miguel.
Obrigado, Ricardo.
Miguel Santos Carrapatoso é o editor adjunto de política do Observador. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Beatriz Martelo Garcia, a música é do Genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.