Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Esta é a história do dia da Rádio Observador: como derrotar uma tempestade perfeita de chamas.
"E olhe, minha senhora, nós costumamos ver isto na televisão e, neste momento, chegou a nossa vez e estamos a viver realmente esta aflição. É realmente aflitivo, nós estamos realmente impotentes."
Ana Paula deu conta, em direto na Rádio Observador, do que vivia e sentia. Pertence à Junta de Freguesia de Massinhata do Seixo, no Conselho de Oliveira de Azeméis. As previsões e os alertas foram lançados durante o fim de semana e, por estes dias, estão reunidas as condições perfeitas para incêndios muito severos, que já provocaram vítimas mortais e danos muito elevados. Até que ponto as previsões são exatas e até que ponto nos podem ajudar a prevenir o mal destrutivo do fogo? E esta situação que estamos a viver é comparável à de Pedrógão Grande? São algumas das perguntas para Carlos da Câmara, climatologista, professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia, de terça-feira, 17 de setembro. Bem-vindo, professor Carlos da Câmara.
Muito obrigado pelo convite, Ricardo. É sempre um gosto estar com a Rádio Observador.
Professor, o que é o índice FWI? E já agora, por que é que estaremos a falar dele?
Ora bem, FWI é um acrônimo em inglês, quer dizer Fire Weather Index, e que em português se traduziria por qualquer coisa como índice de perigo meteorológico de incêndio. E, portanto, a primeira coisa é percebermos bem o que é perigo, porque há muita confusão e aqui temos que ser precisos. Perigo é a probabilidade de se ter um determinado evento, num determinado local, num determinado instante. Portanto, no fim de contas, isto vai ser um número que me vai dar a ideia de qual é a probabilidade, portanto, qual é a possibilidade de eu ter um evento de grandes proporções num determinado local, num determinado instante. De onde é que ele vem? Os canadianos, nos anos 70, preocuparam-se em arranjar um sistema pra auxiliar o serviço de bombeiros, e esse sistema era dado por um conjunto de números que traduziam determinados aspectos da vegetação, em particular das coníferas canadianas, a estarem mais estressadas e, portanto, mais propícias a ter um grande incêndio ou não. O que acontece é que outros países ou outros ecossistemas, como o ecossistema mediterrânico, em particular Portugal, o que se tem feito é adaptar esse mesmo sistema canadiano para os nossos ecossistemas. E, portanto, se quiser, na prática, no fundo, um número muito elevado, quer dizer que eu posso ter, com facilidade, uma ignição que se transforma num grande incêndio, enquanto que o número baixo traduz uma dificuldade em que isso aconteça. Quando eu digo dificuldade ou facilidade, isso é tudo contextual. O que eu quero dizer com isto? Quer dizer que um valor de 30 numa determinada região pode ser horrivelmente mau, um valor de 60 numa determinada região até pode não ser muito preocupante. Dou um exemplo, uma caricatura. O Saara vai ter índices de 100 ou de 120, mas no Saara não há nada para arder e, portanto, não é perigoso. Portanto, no fim de contas, eu tenho que sempre olhar pra estes valores em contexto.
Então, se pudermos decompor este índice, podemos falar, por exemplo, de temperatura, umidade, material combustível. Quanto à temperatura e umidade, quanto a esses dois indicadores, em que ponto é que estamos nestes primeiros dias desta semana?
Ora bem, quando fala temperatura e umidade, há que acrescentar ainda vento e precipitação, ou se quiser, a ausência dela. Portanto, pra pôr isto de uma forma simples, os bombeiros têm sempre uma regra, que utilizam há muitos anos, que é a chamada regra dos três 30. Se eu tiver uma temperatura superior a 30 °C, tiver uma umidade do ar inferior a 30%, uma velocidade do vento superior a 30 km/h, e eu costumo acrescentar mais 30 dias sem chuva, está o caldo entornado. Este sistema canadiano é apenas uma forma mais sofisticada de utilizar estes quatro ingredientes numa perspectiva de dificuldade de combate ao incêndio, de uma facilidade de propagação de um incêndio, etc. O FWI, portanto, resulta da combinação, uma amálgama de uma série de outros índices, que é extremamente útil. Então, na situação que estamos correntemente a experienciar, o que acontece é que os valores desse FWI são muito extremos, no sentido de que, em algumas regiões do país, chegam a atingir o primeiro lugar ou o segundo lugar do ranking de um conjunto de mais de 8 mil dias, que são aqueles que têm sido contados desde 2001, e portanto, estão completamente fora daquilo que é o habitual, portanto, é mesmo Um extremo muito extremado, quase supraliminar.
E em termos de material combustível, imagino também que, com base nesses indicadores, esteja também muito material disponível para arder. Também é isso que nos dizem esses números.
O que acontece é que, em qualquer ecossistema, mas muito em particular no caso português, há dois fatores que são aqueles que são anteriores à estação de incêndio propriamente dita e aqueles que são durante a estação de incêndios. Ora, na época anterior, lembra-se, com certeza, que tivemos uma primavera bastante chuvosa, com temperaturas muito amenas, e o mesmo aconteceu no início de junho, julho. Ou seja, temos vegetação não estressada e muita biomassa, porque ela se desenvolveu. Quando agora atingimos setembro, o que acontece é que parte dessa vegetação, ou essa vegetação, foi secando, foi estressando. Com dias, com situações extremas meteorológicas, o que vai fazer é que temos não só condições meteorológicas propícias a que haja incêndios de grandes dimensões, como temos muita biomassa, portanto, muito combustível para arder. Daí o estado preocupante que estamos a experienciar.
Professor, podemos dizer que estamos aqui a viver, os jornalistas às vezes gostam destes títulos, estamos a viver uma tempestade perfeita? Comparando com os últimos anos, e o professor falava desses 8 mil e tal dias, desde 2001, estes dias que estamos a viver, a circunstância que estamos a atravessar agora, é mesmo muito preocupante?
É muito preocupante e ainda bem que atempadamente foram acionados, quer estados de alerta pra vermelho, quer todos os dispositivos em que põe o país num status especial relativamente a restrições que possam conduzir a ignições. Ainda bem que isso aconteceu, porque, de facto, a situação justifica, dada a sua anomalia do ponto de vista meteorológico.
Já voltamos à conversa com o professor Carlos da Câmara, climatologista. O que podemos e devemos fazer para lidar com esta situação de tempestade perfeita que atravessamos. Estamos de regresso à conversa com o professor Carlos da Câmara, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Professor, estamos em setembro, o outono começa a 23 de setembro, já na próxima semana, às 12h44. Isto é o que diz o Google, não sei se está certo ou se não. E vem aquela frase tradicional nestas alturas: "Esta brasa não é normal nesta altura". É ou não é normal?
Ora bem, tudo depende do que se considera ser normal. Há uma coisa que um climatologista se preocupa, não é nunca com um determinado evento em si, mas com coletividades de eventos. E, portanto, quando eu olho para os últimos 40 ou 50 anos, há uma coisa que é mais do que evidente: é que nos últimos 30, e com uma tendência a intensificar-se, as estações de incêndio têm vindo a alargar. Portanto, enquanto que antes era julho, agosto e setembro.
Geralmente até era 15 de julho, 15 de setembro, salvo eu, era uma coisa assim.
Exatamente. Felizmente, isso já deixou ou, se quiserem, infelizmente, porque as situações se estão a agravar.
Era quase como a época balnear.
Exatamente. Neste momento, é preciso não esquecer que Pedrógão foi em junho.
E eu quero falar sobre isso, com o senhor já a seguir.
E depois tivemos o 15 de outubro, que foi o dia mais dramático, e portanto, foi em outubro. Há uma coisa que é muito importante: a época em que ocorrem incêndios está a começar mais cedo e a acabar mais tarde. E há um outro aspecto também muito importante, é que os extremos meteorológicos estão a aumentar em número, em extensão e em intensidade. E nós sabemos por quê. Sabemos que isso tem a ver, de facto, com alterações climáticas. E há uma coisa que não sabemos e que é preocupante: é que esses extremos estão a ser mais gravosos do que os modelos climáticos anteviam.
São ainda piores, é isso que está a dizer?
São piores. O problema é que há qualquer coisa ainda que escapa, o que é muito interessante do ponto de vista científico. Quer dizer que nem tudo ainda está totalmente entendido, mas infelizmente, é para pior e não para melhor. Portanto, isso é uma das coisas que se debate agora entre climatologistas, é tentar perceber o que é que aqui está a falhar, porque de facto, os extremos estão a ser mais graves do que os modelos anteviam.
E isso pode nos levar a dizer que estamos aqui a viver uma situação extrema, como o professor está a dizer, mas deixe-me pôr aqui a palavra normal, só pra tentar simplificar um pouco o discurso. Ou seja, podemos comparar isto a um eclipse. Nós sabemos que os eclipses são raros, mas acontecem. O que está a acontecer é que temos cada vez mais eclipses e mais prolongados.
Exatamente. E se reparar, uma coisa que é extremamente interessante do ponto de vista climatológico, é que nós, aqui em Portugal, estamos com índices de perigo de incêndio completamente anômalos, a bater recordes. Mas aqui ao lado, na Europa Central, temos inundações com registros históricos de precipitação que nunca tinha sido registrada. Ou seja, o que está acontecendo? Está acontecendo aquilo que os climatologistas há anos sabiam que iria acontecer, que é as alterações climáticas não só vão provocar um aumento de temperatura ou superaquecimento global, mas sobretudo, vão fazer com que a atmosfera tenha mais energia disponível. O que isto quer dizer? Quer dizer que eu vou ter mais propensão pra extremos, quer de um lado, quer do outro. O que eu quero dizer, quer com água a mais, quer com água a menos, com secas, quer com temperaturas brutalmente elevadas e ar extremamente seco. Se quiser, utilizando uma linguagem econômica, eu diria que é o mercado em que há inflação, porque está sempre a aumentar, mas ao mesmo tempo, muito mais volatilidade, ou seja, a tendência pra haver extremos, quer pra um lado, quer pra outro, está a aumentar. Tudo isto está conforme aquilo que eu aprendi há 30 anos.
E os modelos têm sido conservadores, como estava a explicar. E de alguma forma, podemos comparar esta situação que estamos a viver com o que tivemos em Pedrógão, em 2017?
Ora bem, 2017 foi um ano muito mais grave, por uma razão muito importante, é que houve uma seca brutal antes. Portanto, a vegetação já estava estressada ainda antes de ter começado o verão. E por que isso é importante? É aquela analogia que eu gosto sempre de fazer, da areia quente, da areia seca e da areia molhada na praia. Porque a areia seca e a areia molhada na praia recebem, as duas, a mesma quantidade de energia solar, está na praia, mas na areia seca não aguenta a temperatura e na areia molhada aguenta. Por quê? Porque a água tem uma dupla propriedade muito interessante. Por um lado, a água é capaz de absorver muita energia sem aumentar a sua temperatura. Toda gente sabe que demora imenso tempo a aquecer um panelão de água.
Então se estivermos a olhar pra panela, ela não ferve mesmo.
Exatamente. E segunda coisa, é o equivalente à nossa transpiração. A água, quando evapora, necessita de muita quantidade de energia e, portanto, arrefece com o fato de estar a evaporar. Portanto, quando nós temos a areia molhada, que é o mesmo que a vegetação que não está estressada, ela não só aquece menos, a sua temperatura aumenta menos, como ainda as plantas transpiram e regulam a sua temperatura. Em 2017, esse mecanismo não existia de todo, porque tinha havido uma seca brutal antes. Portanto, este ano, uma das coisas que levou a que tivéssemos um verão com menos incêndios, foi de fato termos uma vegetação menos estressada. E há um outro aspecto que eu não posso deixar de falar, apesar de não ter perguntado, mas que é muito importante no meu ponto de vista, é que de 2017 pra cá, houve uma mudança total de paradigma, em particular no que respeita ao combate aos incêndios. É que passou-se a utilizar uma abordagem científica. Portanto, sempre que o país tem zonas razoavelmente bem delimitadas de perigo extremo de incêndio, já lá estão de sobreaviso os meios. E, portanto, este ano, deve ter reparado que os poucos grandes incêndios que houve, ou de potenciais grandes incêndios que houve, caíram com tudo em cima e portanto, eles foram dominados ao fim de um dia ou menos. A situação anômala é a que estamos agora a atravessar, porque na realidade, temos muitos incêndios espalhados. Em 2017, não foi a loucura. Tínhamos todos os dias incêndios por todo lado e mais ainda, eu diria que do ponto de vista estratégico, muito se melhorou desde então e portanto, para isso também contribuiu. Ou seja, neste momento, eu acho que Portugal está muito bem preparado para situações que não sejam extremas. Estas, que são extremos dos extremos, eu diria que é muito complicado.
Então, se temos essa capacidade de alerta, se temos essa capacidade de olhar também para os incêndios com olhar mais científico e garantindo uma melhor resposta. Professor, por que continuamos impotentes perante esta muralha de chamas? Porque não há uma forma, ou a força da natureza é tal que é impossível, nem com todos os homens do mundo, com todos os bombeiros do mundo e meios aéreos, conseguiríamos travar um incêndio com estas situações que estamos a viver nesses dias.
Ora bem, pra isso tem que perceber a mecânica dos incêndios, que é uma espécie de uma trilogia, eu diria que é como uma lareira em casa. Para ter um bom incêndio, tem que ter, ponto um, boa lenha, porque é que se quiser o equivalente a ter vegetação estressada, tem que ter madeira seca, tem que ter uma boa chaminé, e é metereologia, tem que ter a possibilidade de alimentar com oxigênio a chama. E há um terceiro elemento muito importante, tem que ter um fósforo, uma ignição. Portanto, a razão porque nós temos incêndios muito grandes neste período que estamos a atravessar, é que, na realidade, a metereologia está a fazer uma tiragem fantástica e temos muita lenha para queimar A única coisa que nós podemos controlar neste momento é as ignições. As estatísticas mostram que tem havido progressos significativos, porque tem havido uma diminuição do número de ignições. É preciso não esquecer que boa parte dessas ignições eram por negligência. O número de ignições tem vindo a diminuir. Eu, como professor, prefiro as medidas pedagógicas, portanto, isto que eu estou a dizer: "Por amor de Deus, não façam ignições, mesmo que acham que podem, não façam". Mas como professor, também costumo dizer: "Bom, mas depois também há o exame e as pessoas chumbam". Aqui, o que eu diria é, do ponto de vista pessoal, não sei se está a ser utilizado, mas oxalá estivesse, há a possibilidade de eu detetar, através de câmaras térmicas a bordo de drones ou mesmo de aeronaves, detetar sítios onde foram feitas ignições, onde foram feitas queimadas ilegalmente. Seria muito bom que houvesse essa possibilidade de vigilância, porque essa detecção até poderia servir de prova de acusação. Eu não estou a dizer que haja, eu diria que devia haver, por quê? Porque nestes dias, toda a ignição é criminosa, mesmo que as pessoas achem que estão a fazer com cuidado, porque na realidade, uma ignição que se transforme num grande incêndio é mais um sítio que obriga que as forças se subdividam e fazem com que possa tornar-se o país incontrolável, como aconteceu em 2017. Eu estou convencido que não vai acontecer, até porque o período é mais curto, mas sobretudo, o único lado, do triângulo que eu falei, neste momento, é as ignições, porque a vegetação está lá e porque a boa tiragem da meteorologia também lá está.
E já agora, professor, vamos ter mais humidade e se calhar chuva no final desta semana ou ainda não?
Ao que parece, os dias que aí vêm, vai haver um dia complicado e depois a seguir as coisas vão tender a melhorar significativamente. No entanto, há uma coisa que ainda me preocupa, é que as previsões a longo prazo indicam que para Portugal vai continuar a haver uma anomalia negativa, portanto, condições de seca razoavelmente prolongada. Isto quer dizer que não podemos estar a desleixar-nos, porque senão podemos voltar a ter uma situação desagradável.
Obrigado, professor Carlos da Câmara.
Foi um gosto.
Carlos da Câmara é climatologista, professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Pedro Oliveira, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.