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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o pior da crise política já passou?

Propus ao Sr. Presidente da República e ele aceitou a nomeação do Dr. João Galamba para Ministro das Infraestruturas e da Dra. Marina Gonçalves para Ministra da Habitação. São duas pessoas com experiência governativa, que conhecem os meandros da administração, que não se embaraçam com as exigências da transparência e da burocracia necessária à boa contratação pública.

António Costa apresentou as mudanças no governo depois de um forte abalo provocado por mais um caso, o de Alexandra Reis. Garante que o governo está estável. Depois de vários dias de silêncio, o primeiro-ministro respondeu finalmente aos jornalistas ao cair da noite desta segunda-feira, para dizer que falou no momento certo.

E acho que falei da forma certa em cada um dos momentos. Muito boa tarde e continuação de um bom ano para todas e para todos. Muito obrigado.

João Galamba sobe a Ministro das Infraestruturas e Marina Gonçalves passa a Ministra da Habitação, um novo ministério. António Costa e o líder do PSD, Luís Montenegro, ressurgiram esta segunda-feira depois de uma semana de férias em que o governo abanou. Sai Pedro Nuno Santos e Fernando Medina fica, mas vários partidos pedem que saia. O primeiro-ministro fez alterações no governo, mas será que muda alguma coisa? E nesta crise política, será que o pior também já passou? Vou conversar com Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vindo, Rui Pedro.

Olá, Ricardo.

Rui Pedro, vamos começar com um apontamento histórico, mas que pode ser importante para percebermos o resto desta história. Afinal, o que é um jovem turco?

Costumo dizer por graça que este governo, a seguir ao de Recep Erdoğan, é o que tem mais jovens turcos. E agora parece que não muda muito, mas é um movimento que começou a ser assim chamado no PS, numa altura em que um grupo de jovens, que incluía João Galamba, Pedro Nuno Santos, eram a oposição a António José Seguro por serem uma ala mais à esquerda do PS.

Daí os jovens turcos. Já vamos regressar a esta ala. Perde-se um ministro, Pedro Nuno Santos, ganham-se dois, João Galamba e Marina Gonçalves. Para quem é criado um novo ministério de raiz, o da habitação. Afinal de contas, quem é Marina Gonçalves?

Podia dizer que era uma jovem curda, porque já é uma sucedânea de um jovem turco. Mas tendo em conta que turcos e curdos não se dão muito bem, acho que não vou por aí. A Marina Gonçalves, a melhor forma de a definir é uma pedronunista, ou seja, é alguém que cresce no aparelho e dentro do próprio governo, pela mão de Pedro Nuno Santos, de quem foi chefe de gabinete, de quem foi membra do gabinete de Pedro Nuno Santos, e depois ele puxa de chefe de gabinete para secretária de Estado na dependência dele, numa área que ele tutelava no caso da habitação. É alguém que já era do PS, era militante do PS. Foi, aliás, nas últimas legislativas, a número dois por Viana do Castelo, logo a seguir a Tiago Brandão Rodrigues, mas Pedro Nuno Santos puxou-a para a área da habitação. A melhor forma de a definir é que seria alguém pedronunista, portanto, numa ala mais à esquerda do PS, com um olhar para a habitação muito nessa área, com um pendor muito de esquerda e com preocupações sociais. E muito nesta linha de Pedro Nuno Santos.

Já João Galamba é mais conhecido, pelo menos na bolha mediática de Lisboa.

Sem dúvida. João Galamba, na verdade, um deputado que era conhecido, em parte, era uma graça por ter um piercing e agora aparece de gravata. Isto é uma prova da sua maturidade política.

Mas a gravata só apareceu no governo.

Só apareceu no governo. Ele era um enfant terrible no Parlamento, ou pelo menos era alguém muito corrosivo, que era quase um cão de guarda, passando aqui a parte mais depreciativa da palavra, da maioria de José Sócrates também, dos governos de José Sócrates. E depois mantêm-se ali como alguém que é sempre muito corrosivo. No Twitter, também teve alguns programas na televisão, nomeadamente o "Sem Moderação" no Canal Q, em que teve sempre uma postura muito corrosiva e até disruptiva, às vezes, e menos moderada. Obviamente que foi crescendo, foi se moderando e normalmente o estrume serve para fazer crescer e ele acusou um programa jornalístico, neste caso o "Séculos XXI", de ser um estrume.

Já enquanto secretário de Estado.

Já enquanto secretário de Estado. Este estrume fê-lo crescer, porque pelos vistos António Costa gostou desta postura corrosiva de João Galamba e diz que tem muitas competências, mas já nessa altura, antes de o escolher para ministro, António Costa fez mesmo uma espécie de defesa de João Galamba no Parlamento e foi forçado a vir em defesa do seu ministro secretário de Estado.

É que os membros do governo têm que ter particular nervos de aço Para ouvirem mesmo as coisas mais desagradáveis que estejam disponíveis e têm que saber conter no exercício das suas funções. É o que eu faço, roo um pouquinho mais as unhas, mas é a vida, tem que ser. Agora esteja descansado, senhor deputado, ninguém tem dúvida que o senhor deputado nunca diria isso sobre o Sextas Novas.

E sai Pedro Nuno Santos, acaba por ser substituído por dois ministros. Isto é revelador do peso político de Pedro Nuno Santos?

Sim, e desde logo do peso das pastas. Claro que a habitação ser assim individualizada é quase uma questão de política ou de escolhas políticas. Mas o fato de serem dois ministros a substituir um, é quase um elogio póstumo, em termos daquilo que é o papel ativo na governação, a Pedro Nuno Santos, porque António Costa diz: "Bom, vou substituí-lo, mas por dois". E a escolha destes dois também não é inocente na manutenção desse tal peso político e no posicionamento que estas duas pessoas têm dentro do próprio PS.

Mas há aqui um outro ponto, Rui Pedro. É que meia hora antes de António Costa falar, Luís Montenegro reapareceu, depois de uma semana de férias, para dizer que o primeiro-ministro foi às reservas.

A ir ao banco de reservas fazer uma remodelação que em bom rigor nem isso é. Não entra ninguém novo no governo na altura mais crítica da vida do governo. O doutor António Costa perdeu definitivamente a capacidade de recrutamento. Estas promoções são simplesmente ir buscar aparelho ao aparelho.

Rui Pedro Antunes, estes nomes são o aparelho, realmente não há aqui nomes novos.

É verdade, muito se fala do esgotamento do governo e da falta de capacidade de António Costa de convencer bons quadros da sociedade civil para o governo. O próprio António Costa veio dar legitimidade a esta conversa quando no final do jogo que foi assistir no Qatar, disse que o papel de Fernando Santos era muito mais difícil na hora de escolher os jogadores, porque tinha os melhores e com muita qualidade à disposição. Ele próprio não tinha um papel tão difícil, ou seja, o que é que ele disse? Na altura de ir recrutar, a minha base de recrutamento é pior que a de Fernando Santos, ou seja, eu tenho mesmo que escolher aqueles. E agora era acusado disso e de ter que ir recrutar internamente e que só alguém do PS é que poderia ocupar esses cargos. Foi o que aconteceu. O que é que António Costa diz? Que é isto que lhe garante a continuidade das políticas, que é normal que um governo do PS tenha pessoas do PS e que virem pessoas novas que não iam conhecer a burocracia, a forma como funciona a dinâmica do próprio governo, ia atrasar a concretização destas políticas. Diz até que, por exemplo, no PRR, vão ser quatro anos para gastar 2,7 mil milhões na área da habitação e que não dava para explicar, não dava para entrar outro governante. E Marina Gonçalves já conhece bem toda esta dinâmica. É esta a justificação de António Costa, precisamente para não dizerem que não conseguiu foi arranjar mais nenhum.

O que seria grave é detectar-se os problemas, eles não fossem resolvidos. E felizmente foram. E nenhum desses problemas, felizmente, sobretudo, teve consequência na vida dos portugueses. Teve no funcionamento do governo, mas não teve nenhum problema na vida dos portugueses.

Já voltamos à conversa com Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador. Temos ainda de regressar à história daqueles jovens turcos e saber se, afinal, o pior já passou.

Eu sou a Sónia Simões, sou jornalista do Observador e durante grande parte deste ano de 2022, com o jornalista João Francisco Gomes, dediquei meses a investigar casos de alegados abusos de menores por elementos da igreja. Este trabalho de investigação implica semanas de entrevistas, consulta a documentos e muitas viagens por todo o país. Isto só é possível graças aos assinantes do Observador. Assinar o Observador é fundamental para um jornalismo de qualidade.

Estamos de regresso à conversa com Rui Pedro Antunes, o editor de política do Observador. Rui Pedro, temos de falar de Fernando Medina. Luís Montenegro diz que é um peso morto.

O ministro das Finanças já perdeu a sua autoridade política. E o ministro das Finanças sem autoridade política é um peso morto no governo.

Várias vozes noutros partidos defendem mesmo a demissão.

Em relação ao Fernando Medina? Não. As oposições. Está bem, mas as oposições, quer dizer, quando as oposições forem governo, formam governo.

Como fica, afinal, Fernando Medina nesta história?

A resposta de António Costa deixa Fernando Medina muito seguro. A primeira resposta foi esta. Foi um riso. A segunda resposta foi: "Ah, a oposição diz que é para eu afastar Fernando Medina? Então um dia, quando a oposição mandar no governo, escolhe as pessoas do governo. Enquanto isso não acontecer, quem escolhe sou eu." Portanto, não é "L'État, c'est moi", como Luís XIV, mas é de António Luís Santos Costa 3, que diz: "Quem manda neste governo sou eu". E, portanto, neste aspecto, ele diz claramente a Fernando Medina que fez o correto e aquilo que, na posição, era expectável que fizesse.

Fez aquilo que devia fazer, que foi convidar a secretária de Estado a demitir-se, e demitiu.

João Galamba, já explicaste no arranque deste episódio, é um jovem turco e Marina Gonçalves uma Pedro Nunista. Como estavas a explicar há pouco no início desta nossa conversa, Rui Pedro Antunes Isto é uma forma de garantir algum equilíbrio interno, tanto no governo como no PS?

Sim, nós podemos dizer que é manifestamente exagerado que os jovens turcos, por enfrentarem António José Seguro, seja o mesmo do que os jovens turcos no final do século XIX, quando enfrentaram o Império Otomano. Mas o que é certo é que ganharam poder no PS, porque António Costa precisou deles naquela altura para fazer afrontas a António José Seguro e para o substituir na liderança do PS. E essa ajuda foi sendo paga, como era natural, porque António Costa também queria fazer esse próprio equilíbrio. O facto de essa ala estar representada no governo por Pedro Nuno Santos fazia com que houvesse uma certa paz entre todos estes sectores. Essa paz agora está em causa, ou seja, poderia começar a existir uma espécie de oposição interna. Já precavendo isso, António Costa tentou ir buscar escolhas que o próprio Pedro Nuno Santos pudesse fazer. Marina Gonçalves, sem dúvida que Pedro Nuno Santos poderia fazer essa escolha para a habitação, tanto que fez para Secretária de Estado. João Galamba é alguém para quem Pedro Nuno Santos não só é próximo e faz parte do tal grupo, como é alguém que Pedro Nuno Santos olha quase na mesma direção, não olha de cima para baixo. Obviamente que não tem o peso no aparelho que Pedro Nuno Santos tem, mas é alguém que Pedro Nuno Santos respeita como sendo um dos seus. Isto, o que é que faz? Limita um bocadinho a ação da oposição interna de Pedro Nuno Santos. Se me perguntas, Ricardo, se Pedro Nuno Santos tiver que bater em João Galamba para chegar onde quer chegar, sem dúvida que bate. No caso de Marina Gonçalves, duvido que tenha que bater, porque acho que vão estar sempre em permanente ligação e comunicação, porque são de facto muito próximos e eram membros do mesmo gabinete, do mesmo ministério e, portanto, já será mais difícil isso acontecer.

E Luís Montenegro, que esteve de férias e que agora reaparece para criticar também a ausência de António Costa nesta crise política, mas assegura agora nesta declaração feita esta segunda-feira ao final da tarde, que não será ele a criar uma nova crise política.

Este não é, pois, um tempo para abrirmos uma crise política em cima de uma crise social que atinge tão fortemente as famílias e as empresas portuguesas.

Luís Montenegro diz que o PSD está presente, mas o Presidente da República lembrava na semana passada que não há alternativas a este governo ou, pelo menos, ao Partido Socialista. Como é que Luís Montenegro também sai de toda esta história?

Luís Montenegro esteve de férias, como António Costa esteve de férias, e o segundo Primeiro-Ministro conseguiu disfarçar um bocadinho melhor. Porque toda a gente fala nas férias de Luís Montenegro e não se fala tanto nas férias de António Costa, porque apareceu ali com uma pequena declaração na televisão, no funeral de António Mega Ferreira e mandou uma nota à Lusa. Mas o que é certo é que passa um bocadinho como alguém que estava ausente numa altura. Enfim, o direito às férias é transversal a todos, ao líder da oposição e ao Primeiro-Ministro. Mas passa uma ideia de que estava ausente no momento em que devia estar presente e vem depois um bocadinho a reboque aqui em duas situações. No caso de Marcelo Rebelo de Sousa, desvaloriza e finge que não ouviu aquilo que toda a gente ouviu, que é o PSD ainda não conseguiria ganhar eleições nenhumas na leitura do presidente. Num outro ponto, vem dizer que quer a saída de Fernando Medina, que não tem mais condições, mas não quer crise política. Luís Montenegro tem experiência política suficiente para saber que se António Costa afastasse Fernando Medina, só podia estar a agravar ainda mais esta crise e tornava-se quase insustentável, afastando o Ministro das Finanças, sendo um dos pontos fundamentais as tais contas certas e o controlo da dívida e do défice. Portanto, Luís Montenegro pede tudo e o seu contrário. Na verdade, o que ele está a querer dizer é que para ele também não lhe dá jeito ter eleições agora. Foi uma resposta eventualmente tardia para aquele que é o tempo mediático na cabeça de Luís Montenegro, como tinha cá os vice-presidentes, não se passa nada e correu tudo bem.

Rui Pedro, perante tudo o que ouvimos esta segunda-feira, tanto a António Costa como Luís Montenegro, e o anúncio do nome dos novos ministros que vão tomar posse neste dia 4, às 18h, como disse Marcelo, ainda em Brasília, podemos dizer que o pior da crise política já passou ou nem por isso?

O Marcelo está no Brasil, podemos dizer que amanhã vai ser outro dia, mas vamos ver se eventualmente esse outro dia é melhor para António Costa. Isto por quê? Aparentemente, esta crise agora tem tudo para ficar um bocadinho mais apaziguada e ficar tudo mais calmo. Resta saber se vão existir novas polémicas e escolher João Galamba para ministro, à partida já se está a colocar a jeito para uma polémica de qualquer género. De qualquer forma, os ciclos mediáticos não têm estado muito favoráveis ao governo e se continuar esta cadência de saírem governantes, de ter governantes que falam demasiado, a qualquer momento, esta crise que vai agora aparentemente hibernar politicamente durante uns tempos, pode voltar a qualquer momento e de cada vez que volta, volta com mais força, porque há um desgaste acumulado dos últimos meses e já estamos a falar não de um secretário de Estado que sai por uma razão qualquer, já saiu do governo Marta Temido, os seus secretários de Estado. Já houve um afastamento de secretários de Estado em rutura com o ministro da Economia. Houve a saída do secretário de Estado adjunto do Primeiro-Ministro e houve a saída de Pedro Nuno Santos, para falar só de algumas. Portanto, são saídas com muito peso político e acho que há mesmo mau tempo no canal. Vamos ver se agora as ondas vão equilibrar um bocadinho e permitem esta continuidade desta navegação que não devia ser à vista, porque estamos a falar de uma maioria absoluta. Devia ser uma coisa um bocadinho mais pensada, estruturada e uma navegação mais tranquila.

Obrigado, Rui Pedro.

Obrigado eu, Ricardo.

Rui Pedro Antunes é editor de política do Observador. Esta foi a história do dia, que contou com a colaboração da jornalista Inês Batista. A sonoplastia e a música do genérico são do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.