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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Passámos da seca para água a mais? E quando é que para de chover? Calma, isto é mesmo a história do dia, não é um daqueles podcasts para ajudar a adormecer ou a meditar. Este mês de março poderá vir a ser o mais chuvoso dos últimos 20 anos. E na região Sul, segundo o IPMA, já choveu duas vezes mais do que é considerado normal para esta altura do ano. Num período de cerca de uma semana, Portugal continental foi afetado por três depressões que trouxeram muita chuva. As barragens agradecem, a seca está em pausa, mas isto agora é para continuar ou não? É sobre chuva e alterações climáticas que vou conversar com o professor Pedro Miranda, climatologista, investigador do Instituto Dom Luís. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia de terça-feira, 18 de março. Bem-vindo, professor Pedro Miranda.
Boa tarde, Ricardo.
Estamos quase a entrar na primavera e temos agora duas grandes correntes de opinião, se podemos dizer assim. Os que dizem: "Esta chuva toda não é normal", e os que dizem: "É só chuva, por amor de Deus, tudo isto é normal". Professor, esta situação que estamos a viver agora é ou não é normal?
Vamos lá ver, é normal. Nós estamos num clima mediterrânico. E o clima mediterrânico tem uma característica especial, que é um pouco diferente de climas mais a norte da Europa. É que nós estamos na zona que é o limite sul da frente polar. Há certos anos em que a frente polar não chega a Portugal, ou chega pouco, e temos poucas depressões aqui a chegar. E há outros anos em que ela chega frequentemente e temos muitas depressões a chegar cá.
Exato.
E portanto, por isso o nosso clima tem muita variabilidade interanual no que se refere à chuva.
Portanto, nós agora tivemos aqui três depressões, praticamente.
Claro.
O professor está a dizer que isto é normal, mas estamos a assistir a mais fenómenos extremos, ou não? E isto é uma consequência direta das alterações climáticas?
Nós estamos a assistir realmente a mais fenómenos extremos, disso não há dúvida. Não só deste tipo, mas de outros tipos. E isso é uma consequência das alterações climáticas, também há poucas dúvidas sobre isso.
E que tipo de fenómenos é que podemos encontrar aí? Vento, chuva, períodos de seca, portanto, vários períodos extremos, fenómenos extremos.
Tudo isso. Ou seja, as alterações climáticas trazem várias coisas. Uma delas é que põe mais água no ar. Porque a temperatura é mais alta, a quantidade de água que o ar pode transportar depende da temperatura, mas varia rapidamente com a temperatura. O ar mais quente transporta muito mais água. Põem lá mais água no ar. Agora acontece que apesar de haver pouca água no ar, tudo somado é muito pouquinha, mas o nosso clima depende dessa água. Porque a água tem imenso impacto na meteorologia, porque há energia associada quando a água condensa, evapora e congela, há grandes fluxos de energia que são importantíssimos para o comportamento do ar.
E estamos a assistir, obviamente, a estes fenómenos com mais frequência, não é?
Estamos a assistir a eles com mais frequência em várias zonas do mundo de maneira diferente, porque depende do clima dessa região. No nosso caso, nós temos tido mais tempestades intensas, temos tempestades a bater recordes de vento e de chuva. Noutros locais do mundo, temos coisas diferentes a acontecer.
Mas podemos tomar nota de que esse tipo de situação veio para ficar e vamos ter de aprender a viver com ela.
Não, vamos lá ver, a variabilidade já existia.
Sim, a nível da frequência.
Nós há períodos de anos secos e anos úmidos, já tínhamos anos em que muitas depressões eram necessitadas todos os anos, já acontecia. O que acontece agora, que é um pouco diferente, é que essas depressões, em geral, têm um bocadinho mais de água. E, portanto, podem produzir precipitações mais intensas em curto período. E é claro que isso tem imenso impacto. Portanto, nós temos que nos habituar, sem dúvida nenhuma. E temos que nos preparar, não é só habituar, é preparar.
Exatamente, e preparar-nos, quer enquanto pessoas que habitam aqui o planeta, mas a nível das infraestruturas também, não é?
Claro, porque as infraestruturas são afetadas por isto. Ou seja, as estruturas são desenhadas para resistir a um certo tipo de intensidades. Quando as intensidades começam a ser mais altas, podem ser excedidas as capacidades das infraestruturas.
Já voltamos à conversa com Pedro Miranda, investigador do Instituto Dom Luís, climatologista, e com a resposta àquela pergunta que toda a gente faz nesta altura: quando é que para de chover? Estamos de regresso à conversa com o professor Pedro Miranda, investigador do Instituto Dom Luís, climatologista. Professor, entretanto, passámos rapidamente de uma situação de seca para uma situação, deixe-me pôr as coisas assim, não sei se é o termo mais correto, mas para uma situação de água a mais?
O termo é correto, nós devíamos passar de uma situação de seca para uma situação de excesso de precipitação. Mas isso acontece, não é? A seca acontece quando nós temos uma sequência de meses, tipicamente, com chuva abaixo do normal. Mas quando esse período acaba e de repente começa a ter chuva acima do normal, primeiro a chuva infiltra-se e enche os reservatórios, mas depois temos o problema que os reservatórios se enchem, porque eles têm um limite.
Pois, claro. E há alguma forma de aproveitar essa água toda que agora vamos ter em excesso?
Dentro dos limites dos reservatórios, há. As hidroféreas foram feitas exatamente para guardar a água de uns anos para os outros ou de umas estações do ano para as outras. Nós aqui há 50 ou 60 anos, tínhamos cheias constantes.
Exato.
Em muitas bacias hidrográficas, agora já não temos.
Exatamente.
O caso mais paradigmático é Coimbra, que tem o rio, que não é um grande rio, que é o Zêzere, o Mondego, aliás, não é um grande rio, mas que de vez em quando enche, e Coimbra está sempre sujeita a inundações, mas era frequentemente, várias vezes por década. Agora isso é muito raro acontecer. E o mesmo acontecia no Vale do Tejo.
Exatamente. Estava a lembrar ali do ribatejo e da zona de Santarém, em que as cheias eram um fenómeno anual.
Era quase anual, se não era todos os anos, porque tinha anos de seca, mas era várias vezes por década.
E agora não temos.
Agora temos raramente. Apesar de tudo vamos tendo, porque a infraestrutura que foi criada em cada um desses sítios são diferentes. No caso do Mondego, foi uma barragem muito grande. No caso do Tejo, há várias coisas, há vários diques, há várias coisas, por exemplo, as barragens do próprio Tejo. Só que esses sistemas são todos dimensionados para uma certa altura de água.
Claro.
Portanto, se o fluxo de água aumenta acima desse valor, eles vão ser destruídos.
Claro.
Toda a engenharia é feita assim.
Mas quer dizer, é só porque vimos de um período de seca e há quem faça esta pergunta, não é possível nós arranjarmos aqui um sistema de cisternas, não sei, ou de megacisternas para tentar armazenar toda esta água?
As barragens são isso.
Sim, mas as barragens quando atingem a cota têm que descarregar, não é?
Pois, mas tudo isso é caríssimo. É claro que as barragens têm um inconveniente, que é que elas evaporam também.
Claro.
No caso das cisternas, se houvesse cisternas, as cisternas seriam extremamente caras. Se houvesse cisternas, elas não evaporariam, ou evaporariam muito pouco, porque elas estavam tapadas.
Claro.
Mas as barragens, apesar de tudo, para grande dimensão, provavelmente é mais económico, mas eu não sou especialista nesse perfil.
Professor Pedro Miranda, temos aqui uma dúvida e de vez em quando falamos nele, no anticiclone dos Açores. E muitas vezes tenho ouvido esta conversa, perdoe-me por pôr as coisas assim de uma forma tão simplista, mas que o anticiclone dos Açores tem andado assim um bocadinho distraído, de vez em quando distrai-se. E é por isso que estamos a ser atacados por tantas depressões ou o anticiclone dos Açores tem estado a cumprir a sua missão normal?
Falamos em missão. O anticiclone dos Açores, na verdade, é muito importante porque a maior parte das depressões que nos chegam cá, não todas, mas a maior parte das depressões que produzem chuva intensa em Portugal no inverno, são depressões que se formam perto da costa do Canadá. Quando o ar chega ao Atlântico, porque o ar vem do Canadá muito frio, no inverno. E o Atlântico está muito mais quente, portanto ele nunca congela nesta região, está sempre uma temperatura muito mais alta. E essa diferença de temperatura é o ingrediente exato para produzir essas depressões. Elas formam-se nessa zona e depois deslocam-se para leste, em direção à Europa. Só que o caminho que elas seguem depende da posição e da intensidade do ciclone dos Açores. Porque elas andam no bordo norte do anticiclone. Porque o anticiclone roda no sentido dos ponteiros do relógio, o anticiclone dos Açores. Como todos os anticiclones, mexem norte. Elas vêm pelo norte do anticiclone. Se o anticiclone estiver muito para norte, e se for muito intenso, essas depressões são obrigadas a ir muito a norte, portanto para a Islândia, e vão ter Inglaterra ou a norte. Quando o anticiclone está mais para sul, ou está menos intenso, as depressões vêm mais na direção leste, sem se deslocarem para norte, mas vêm mais, aquilo a que nós chamamos zona onde para oeste. E nessa altura atingem Portugal, porque senão vêm do Canadá.
Ou seja, ele não anda distraído, ele às vezes não está é no sítio certo, é isso?
Ele não está é no sítio que nos convém. Talvez esteja errado, não sei se é a coisa certa para dizer. Às vezes não está onde nos convém, do ponto de vista, porque na verdade a nós convém-nos ter água.
Claro.
Nós queixamo-nos como cidadãos individuais do excesso de água, mas quem gere o sistema hídrico não se queixa. Só se queixa no limite, quando há cheia, mas enquanto não houver cheia, é bom ir enchendo.
Mas nesta altura, não sei se posso perguntar assim, mas estamos numa situação ideal no que toca às reservas de água, depois de todo o sofrimento que passámos com a seca, ou não?
Ideal é sempre uma maneira--
É sempre um pouco exagerada.
Mesmo nós temos várias barragens cheias e o Algarve é o caso mais complicado, segundo eu compreendo, em que a seca era mesmo mais grave e o Algarve não penso que esteja com as barragens cheias, mas no resto do país as barragens encheram e, portanto, isso quer dizer que nós temos reservas, mas é preciso dizer que a duração desta reserva depende muito da barragem. As barragens pequenas não têm um tempo de vida muito longo.
Pois.
Essas reservas. O Alqueva já dura provavelmente anos, porque ele está cheio.
Exato.
Já dura três anos. Isto é muito variável, porque as nossas dependências da água dependem muito das zonas do país. Nós tipicamente temos bastante água a norte, é verdade. E temos muito menos água a sul.
Professor, a pergunta que toda a gente faz agora nessa altura, vamos continuar a ter chuva, não é? Pelo menos aqui até à chegada da primavera. Já agora, confirme-me lá aqui uma coisa: as previsões além de 10 dias não são fiáveis, ou são?
Não são fiáveis. Depende das regiões, mas na Europa não são fiáveis. Acima de uma semana, elas começam a falhar, 10 dias é basicamente o limite. A próxima semana vamos ter chuva, que é o que está previsto. Depois a seguir, já é mais arriscado dizer o que é que vamos ter. A primavera é já daqui a pouco tempo.
Exato. Ou seja, nós não podemos dizer que abril vai ser particularmente chuvoso.
Eu não digo, pelo menos.
Exato, só porque agora está a chover muito.
Não, isso não, porque isso traía. Eu acho que o tempo de vida destes sistemas é tipo uma, duas semanas. Cada um desses sistemas não dura mais. É claro que as previsões do tempo, neste momento pioram imenso na última década, mas a partir de uma semana, semana e meia aqui na nossa zona, não são fiáveis.
Muito obrigado, senhor professor Pedro Miranda.
A eles, obrigado pelo convite.
O professor Pedro Miranda é climatologista e investigador do Instituto Dom Luís. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Matilde Andrade, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.