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Esta é a história do dia da Rádio Observador: os juros sobem, mas continuamos a jantar fora às sextas-feiras?

Enquanto nós estivermos em pleno emprego, pode haver ajustamentos nas prestações, mas não vamos ter uma situação muito complicada. E vocês veem, não é uma questão de estrangeiros. Podem circular por Lisboa, que estão aqui para ir jantar fora a uma sexta ou a um sábado de manhã, podem circular pela rua e continuamos a ver as pessoas com um nível de um padrão de consumo, classe média e média-alta, relativamente elevado face ao histórico e à situação em que está a economia.

Castro e Almeida disse que os restaurantes em Lisboa às sextas-feiras demonstram que há dinheiro para consumir. Pedro Castro e Almeida é o presidente do Santander, que apresentou resultados esta quinta-feira, lucros de € 568 milhões no ano passado. Perante a escalada nas taxas de juro, o banqueiro diz que a realidade desmente a perceção de que a situação das famílias com crédito à habitação é muito complicada.

Eu diria, nos bancos, pelo que eu ouvi na reunião com o Banco de Portugal, e no Santander, não vemos nenhuma alteração relevante do incumprimento relativamente ao crédito à habitação, comparando com meses anteriores e com anos anteriores, e não tem nada a ver com o padrão que havia nos anos difíceis.

A conclusão do presidente do Santander pode provocar, no mínimo, desconforto em milhões de portugueses, mas importa olhar para os números e tentar tirar uma fotografia da realidade. Temos muitas variáveis em análise que, contas feitas, contribuem para o dinheiro que nos sobra na carteira: a inflação, taxa de juro, a robustez da economia, os salários, sem esquecer a carga fiscal. Tudo isto somado determina se às sextas jantamos em casa ou jantamos fora, e se comemos esparguete ou marisco. Vou conversar com o jornalista da secção de economia do Observador, Edgar Caetano. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vindo, Edgar.

Obrigado pelo convite.

Hoje é sexta-feira, não sei se vai jantar fora.

Talvez aqui no quintal.

Talvez. Vamos deixar isso para outra conversa. Vamos aqui falar de números e neste momento as pessoas que nos estão a ouvir estão a pensar: " números, conversa tão chata". Mas Edgar, vamos fazer aqui uma promessa de que esta conversa é sobre números, mas não vamos ser chatos, está bem?

Combinado.

Quando pensamos no dinheiro que temos disponível para o mês, temos que ter em conta que fatores?

O primeiro fator que nós temos que ter em conta é se temos emprego ou não.

Exato.

E isso é o principal.

Taxa de desemprego, por exemplo.

Taxa de desemprego.

Ou taxa de emprego.

Depois temos que pensar sobre o que é que conseguimos comprar com o nosso salário. Depois de gastar aquilo que é a despesa fixa, a nossa prestação de crédito, a nossa renda, qual é o nosso rendimento disponível. E com esse rendimento disponível, depois também de pagar os impostos, também é um fator importante, sobra-nos então uma maquia que pode servir para comprar mais ou menos coisas, conforme também evolui o preço dessas coisas.

Ou seja, temos que estar atentos a estes números, que às vezes parecem chatos, como a inflação, a carga fiscal, o crescimento da economia, tudo isso contribui para o dinheiro que temos disponível. O que sabemos da inflação agora, por exemplo, no mês de janeiro?

Temos já a primeira estimativa do INE, que saiu agora há poucos dias e que diz que em janeiro a inflação caiu ou desacelerou para 8,3%.

Mesmo assim é alto.

Exatamente. Quer dizer que os preços continuam a subir e a subir a um ritmo muito elevado, mas é um ritmo que está a desacelerar.

Sobem, mas sobem mais devagarinho.

Um pouco mais devagar. É como ir a 150 na autoestrada e passar a 120.

Ok.

Não é necessariamente devagar. Mas temos que ter em conta também que isto é o índice geral da inflação, que inclui preços da energia. Temos que pensar que, na verdade, há indicações de que a inflação está a generalizar na economia, por isso é que é chamada a inflação subjacente, que é a que não tem em conta a energia, nem os preços da alimentação fresca, que são mais voláteis. Esse indicador está a baixar, também está a desacelerar e está cerca de 7%.

Ou seja, podemos dizer que uma cadeira está 7% mais cara, é isso?

Em relação a janeiro do ano passado.

E depois temos o crescimento económico que foi de 6,7 no ano passado.

Isto é, o fecho do ano de 2022, sem recessão, sem queda da economia, significa que nós teremos mais capacidade para podermos cumprir os objetivos relativamente ao ano de 2023.

O ministro das Finanças a dizer que o ano 2022 foi bom. Com este resultado, um crescimento na economia de 6,7% do PIB, isto é bom ou é mau, Edgar?

É bom depois de ter subido mais de 5% em 2021, mas ter caído mais de 8% em 2020, o primeiro ano da pandemia. Portanto, ainda estamos a recuperar, até certo ponto. Já estamos acima do nível que estávamos antes da pandemia, mas se pensarmos em média nestes anos, ainda estamos num modo de recuperação. Também faz sentido referir que quando não se fala apenas em dados do ano, no último trimestre do ano passado, que é um indicador mais rápido, crescemos 0,2%, o que é uma indicação de que a economia, em princípio, não irá ter recessão.

Ainda continuando a falar de crescimento económico, ele é importante, Edgar, porque se a empresa que eu tenho ou na qual eu trabalho não crescer, não criar mais riqueza, o meu ordenado não vai subir, de certeza.

A menos que estejamos a falar de um aumento que não é correspondido por um aumento da produtividade. É preciso que os aumentos salariais sejam sustentados em aumentos da produtividade, senão estamos apenas a criar uma bolha que terá que ser paga no futuro, de certeza.

E temos ainda de falar de taxas de juro. E como fazemos parte do sistema da zona euro, como quem manda na política monetária é o Banco Central Europeu, e como a fórmula encontrada pelos economistas para tentar travar a inflação é aumentar a taxa de juro.

The Governing Council today decided to raise the three key ECB interest rates by 50 basis points, and we expect to raise them further.

A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, anunciou nova subida esta quinta-feira e em março, também já avisou, vai voltar a subir. Edgar, consegues desenhar uma linha imaginária, para quem nos está a ouvir, para percebermos, afinal, quanto subiu a taxa de referência?

Não é bem uma linha, eu acho que é mais uma espécie de estar perante uma montanha. Isto é porque nós, em julho de 2022, foi nessa altura que saímos das taxas de juro negativas, que tinham vindo desde 2019, e passamos para zero em julho de 2022, portanto faz agora meio ano, e de zero já estamos em 2,5%.

Então estamos aqui mesmo a escalar uma montanha, é isso?

Isso mesmo.

E já explicaste aqui no episódio da História do Dia que as taxas devem começar a estabilizar a partir de março. Ora, Christine Lagarde anunciou nova subida em março. Vamos começar a atingir o planalto, é isso, Edgar?

Podemos contar com pelo menos mais duas subidas da taxa de juro, além da que foi anunciada esta quinta-feira. Já sabemos que em março, próxima reunião do BCE, serão mais 50 pontos, mais meio ponto percentual, portanto a taxa dos depósitos vai para 3%. E depois sabemos que é muito provável que exista pelo menos mais uma subida depois dessa. Não sabemos se será só mais uma, nem sabemos qual será a dimensão dessa. Mas é verdade que estamos a começar a chegar a um planalto, mas não te podes esquecer que o BCE começou mais tarde que os outros bancos centrais a subir a taxa de juro.

É mesmo porque, por exemplo, quando comparado com os Estados Unidos.

Sim, os Estados Unidos já estão a começar a dar a entender que estão a desacelerar, mas também começaram mais cedo. E portanto, podemos antever que o Banco Central Europeu ainda vai ter mais um processo para continuar e não vai parar por aqui.

Já voltamos à conversa com o jornalista Edgar Caetano. Hoje é sexta-feira. Será que ainda conseguimos jantar fora? Ouviu rádio hoje?

Ouvi a pipoca mais doce, a Ana Garcia Martins.

Ouvi a Catarina Miranda. Ouvi o Manuel Serrão. Ouvi o meu amigo Júlio Magalhães.

Sim, ouvi o Paulo Ferreira.

Já ouvi a Maria João Simões. Ouvi a voz incrível da Carla Jorge Carvalho.

Ouvi o José Manuel Fernandes.

Ouvi a Helena Matos.

Ouvi, claro, Rui Ramos. Ouvi o João Miguel Tavares.

Ouvi o Luís Aguiar Conrague.

Ouvi a Susana Peralta. Já ouvi o Jorge Fernandes. Ouvi o João Marques de Almeida.

Ouvi o Bruno Cardoso Reis.

Ouvi o Carlos Filhais.

Eu ouvi o Martim Sousa Tavares.

Ouvi o Bruno Vieira Amaral.

Ouvi o Eduardo Sá.

Ouvi o Alberto Gonçalves.

Ouvi o Gabriel Alves. Acabei de ouvir o Pedro Henriques. Se também já os ouviu, ouviu a Rádio Observador. Estamos de regresso à conversa com o jornalista Edgar Caetano, especialista em Economia do Observador. Edgar, o presidente do Santander, Pedro Castro Almeida, diz que os mais afetados pelas subidas nas taxas de juro são os clientes mais recentes do crédito à habitação.

É verdade, isto tem um impacto muito grande em quem tem crédito à habitação e quem tem crédito à habitação que foi contratado nos últimos quatro, cinco anos. Porque quem tem um crédito à habitação que foi contratado há oito, 10 anos, tendo em conta o que tem sido a amortização do crédito, é muito difícil que o salto da prestação seja realmente muito significativo. Mas quem contratou nos últimos quatro anos, com prazo de 30 a 35 anos, naturalmente, isto tem um impacto.

É mesmo assim, Edgar?

É mesmo assim, não é só o presidente do Santander que diz isso, já o Banco de Portugal disse isso. A principal preocupação aqui é as pessoas que compraram casa há menos tempo, por várias razões. Primeiro, compraram mais caro, porque os preços têm subido. Em teoria, compraram mais caro, têm mais montante em dívida, estão ainda numa fase inicial, portanto estão ainda a pagar mais juros do que o capital, que é uma coisa que não se aplica a quem está a pagar há 20 anos, por exemplo. E além disso, são pessoas que basicamente não sabem o que é taxas de juro elevadas. Começaram logo com um contexto de taxa de juro muito baixa.

Porque quando fizeram o crédito, a taxa estava mesmo muito baixa, não é?

Precisamente. Houve uma simulação que as pessoas preencheram quando assinaram o crédito à habitação, que simulou o impacto do que seria mais três pontos percentuais de taxa de juro, e é isso que estamos a viver agora.

E esses clientes não foram avisados de que: "Atenção, que as taxas podem voltar àquilo que eram há 20 anos"?

Acho que foram avisadas e as pessoas perceberam. O que não anteciparam é que podia ser tão rápido, no espaço de um ano. Acabámos de falar da tal montanha. Não anteciparam que pudesse ser tão rápido e, sobretudo, não anteciparam ou não tiveram em conta que quando as taxas de juro subissem, poderiam não ser a única coisa a subir na sua vida. Portanto, não é só a prestação do crédito a subir, também é aquilo que gastam no supermercado e aquilo que gastam noutros serviços e bens.

Já nos explicaste que esta subida foi muito rápida e que estamos, se calhar, a entrar no planalto. Depois, podemos acreditar que vai baixar a igual velocidade?

Esperemos que não, que é sinal que estaremos com uma grande recessão. Esperemos que não seja assim. E não é de todo aquilo que está a ser dito pelos bancos centrais. Taxas de juro estão para subir e são para ficar nestes níveis durante muito tempo, até que a inflação baixe.

O presidente do Santander, Castro e Almeida, também fala em pleno emprego e em elevado consumo O que nos dizem os números sobre estes dois pontos, Edgar?

Os números do PIB que saíram do INE nesta semana, dizem que já está a começar a haver alguma redução do consumo privado, que tem sido muito importante para a economia, mas que está a haver alguma redução. Mas, por outro lado, temos o mesmo INE que no dia 30 de janeiro falou sobre o chamado índice da confiança dos consumidores. Ele tinha vindo a cair nos últimos meses, mas voltou a subir. Não podemos falar de uma situação em que a economia esteja a sentir uma rápida deterioração daquilo que é a forma como as pessoas veem a economia e as suas perspetivas.

E o emprego, estamos em pleno emprego?

O conceito de pleno emprego é difícil de definir, não precisamos entrar nele aqui, mas a verdade é que não só Portugal como o resto da Europa estão com níveis de desemprego muito baixos. No último mês, por acaso, em Portugal já se sentiu um pequeno aumento do desemprego, que é uma tendência que esperamos que não seja uma tendência, que seja só um efeito transitório, porque aí é que a conversa muda um bocadinho.

Se percebi bem o que nos acabaste de explicar, apesar dos ordenados em Portugal continuarem baixos, quando comparados até com outros países europeus, porque a economia também não cresce como crescem outras economias, continuamos, enquanto consumidores, com confiança, ou seja, continuamos a consumir. É isso?

Se calhar estamos muito confiantes, por exemplo, que as taxas de juro não vão subir mais. E é um bocadinho essa a ideia que está a ser transmitida. Agora, nós tivemos um efeito que foi importante, que foi a acumulação de poupança que foi feita durante a pandemia, que já foi completamente aniquilada.

Estamos a gastá-la ou já gastámos?

Acho que na maior parte dos casos já gastámos.

Já partimos o porquinho mealheiro.

Esmigalhámo-lo. Daí é previsível que exista alguma redução do consumo, porque o consumo tem sido apoiado por essa taxa de poupança, por essa poupança acumulada. A verdade é que as pessoas continuam com uma mentalidade positiva, chamemos assim. O que significa que ou sabem mais do que os economistas que anteveem tempos difíceis ou então poderão ter que se ajustar daqui a pouco tempo.

Então, Edgar, se pudermos resumir tudo isto, temos uma classe média-baixa com tempos mais complicados, sobretudo devido à inflação, ainda assim sem os encargos com o crédito à habitação, e temos uma classe média e média-alta que, apesar de tudo, apesar dos aumentos nos preços da energia, vamos incluir combustíveis, alimentação, na prestação da casa e de estar a recorrer às suas poupanças, ainda consegue ir jantar fora às sextas-feiras?

A pergunta é boa e a resposta é complexa. Começaste por dizer que a classe média-baixa não tem esses encargos com crédito à habitação e de facto é verdade. Sabemos quando falamos em aumentos grandes na prestação do crédito, estamos a falar de pessoas que contrataram um crédito à habitação nos últimos anos, o que significa que tiveram que dar a entrada, portanto, não estamos a falar da classe muito baixa. Na segunda parte da tua pergunta, classe média-alta, classe média, apesar de todos esses aumentos, ainda consegue jantar fora. Bem, se calhar, também há muitos restaurantes que fecharam. Se calhar, isso ajuda a que seja difícil obter uma reserva, que foi aquilo que estavas a dizer, que é difícil obter uma mesa para jantar fora ao fim de semana. Se calhar, há menos oferta. A procura continua a existir, porque as pessoas também estiveram alguns anos sem conseguir jantar fora e se calhar sentem mais falta disso. Também há o efeito do turismo, que também comem os turistas, e ainda bem. Mas a verdade é que estamos a viver um momento de transição que vai demorar alguns meses. Sabemos que as taxas de juro vão continuar a subir. Podem não subir tão rapidamente como têm subido até agora, mas vão continuar a subir e vai demorar algum tempo até que a economia e os salários se ajustem a isso.

Obrigado, Edgar.

Obrigado, Ricardo.

Edgar Caetano é jornalista da secção de Economia do Observador e acompanha habitualmente as flutuações nas taxas de juro. Esta foi a história do dia. Ouvimos sons da Agência Lusa e também da CNBC. Este episódio contou com a colaboração do jornalista Rui Casanova, a sonoplastia do Artur Costa e a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até segunda.