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Esta é a história do dia da Rádio Observador: Leão XIV é um progressista ou um conservador?
"Questa è la pace di Cristo risorto. Una pace disarmata e una pace disarmante, umile e perseverante."
O Papa Leão XIV apresentou-se na varanda da Basílica de São Pedro como um homem de paz, um construtor de pontes. Mas o que pensa sobre o mundo e o futuro da Igreja? Será mais progressista ou mais conservador? Ou estará numa posição de equilíbrio? É sobre isto que vou conversar com o enviado especial do Observador a Roma, João Francisco Gomes. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia de segunda-feira, 12 de maio. Bem-vindo, João.
Olá, Ricardo.
João, queria começar esta conversa pelo facto curioso de de um minuto para o outro, este senhor, o cardeal Prevost, passa a ser Leão XIV, ou seja, passa de um notável desconhecido para uma das pessoas mais famosas do mundo quando surge à janela.
Exatamente. Esse processo, esse momento, eu acredito, e só posso dizer que acredito porque nunca passei por ele e penso que nunca hei de passar, que seja mesmo realmente transformador. Aliás, não é por acaso que o papa quando é eleito também muda de nome, também adota um novo nome. Ou seja, é um sinal bastante eloquente até de que há ali uma transformação que acontece. Efetivamente, a generalidade das pessoas do mundo, até à eleição do Papa Leão XIV na semana passada, não faziam ideia quem era o cardeal Prevost. Mas seguramente que nos próximos dias, meses, anos, toda a gente no mundo, tal como toda a gente sabia quem era o Papa Francisco, vai saber quem é este homem. E isto para a própria pessoa, que entrou na Capela Sistina com uma vida e saiu de lá com outra, suponho que seja profundamente transformador.
Exatamente. E as redações do mundo inteiro mergulharam à procura de informações sobre este homem, perceber quem é, o que pensa. E afinal, João Francisco Gomes, estás aí em Roma, acompanhaste este processo. Afinal, o que pensa o Papa sobre, por exemplo, o caminho que a Igreja deve trilhar no futuro?
O pequeno discurso que o Papa Leão XIV fez quando apareceu na varanda da Basílica de São Pedro deu algumas pistas. E claramente a principal pista é a de que este novo papa é essencialmente um homem da continuidade em relação ao Papa Francisco. Ele, por exemplo, menciona a ideia de uma igreja sinodal, e essa foi uma das palavras-chave para compreender o pontificado do Papa Francisco, e o fato dele ter, num discurso tão curto, feito questão de fazer essa referência, mostra que é um papa que está muito empenhado em estabelecer uma lógica de continuidade em relação ao pontificado do Papa Francisco, nas ideias e nos gestos, mas também em relação ao percurso da Igreja Católica no século XX, como se percebe, por exemplo, pelo nome que foi escolhido.
Ele fala também nesse caminho sinodal, será um adepto deste caminho sinodal. Isto significa que o Papa está mais disponível para chamar às decisões os católicos de todo o mundo e não se quer ficar pela tradicional hierarquia da Igreja, se é permitida esta imagem?
Sim, claramente. A própria palavra sinodal, ou sinodalidade, ou sínodo, que é uma daquelas palavras do jargão eclesiástico que às vezes é difícil de compreender, mas a raiz etimológica da palavra quer dizer qualquer coisa como caminhar em conjunto. Ou seja, esta ideia de que a Igreja é um conjunto de pessoas que caminham em conjunto e onde as decisões que dizem respeito a todos são tomadas por todos, e não apenas por uma elite. Isto é uma síntese deste conceito. O Papa Francisco aprofundou muito esse conceito no seu pontificado, chamando para as assembleias sinodais não apenas bispos, mas leigos, homens e mulheres de todo o mundo. E o Papa Leão XIV, ao fazer questão de mencionar a sua aposta numa igreja sinodal para o futuro, está claramente a dizer que nesse caminho de abertura da Igreja, não há hipótese de andar para trás em relação ao pontificado do Papa Francisco.
E já vamos voltar à conversa com João Francisco Gomes, que está em Roma, e o que pensará Leão XIV sobre temas ainda mais fraturantes. Estamos de regresso à conversa com João Francisco Gomes, o enviado especial do Observador a Roma. João Francisco, temos de falar sobre o papel das mulheres na Igreja. Podemos esperar algo de mais reformista deste pontificado de Leão XIV, que agora arranca?
Eu diria que relativamente à questão do lugar da mulher na Igreja ou o papel da mulher na Igreja, o pontificado de Leão XIV tem tudo para ser caracterizado também, como dizia no início, por uma grande continuidade em relação ao pontificado do Papa Francisco. Quando nós vemos o que é que o cardeal Prevost já disse sobre esta realidade das mulheres Pode ser decalcado basicamente do pensamento do Papa Francisco. A perspectiva dele é muito simples: as mulheres têm de estar mais presentes no topo da hierarquia da Igreja, têm de estar mais presentes nos centros de decisão, têm de estar mais envolvidas e têm de estar de igual para igual como batizadas e batizados, como protagonistas da vida da Igreja. Isto é diferente de, e aqui temos que chegar à grande questão fraturante, que é abrir ou não a possibilidade da ordenação sacerdotal ou pelo menos diaconal para as mulheres.
É nisso que todos pensamos também quando falamos do papel da mulher na Igreja, não é?
Exatamente. E tal como o Papa Francisco sempre disse, o cardeal Prevost também tem sempre dito o seguinte: antes de avançarmos para um momento em que a Igreja Católica já permita a ordenação de mulheres, antes sequer de se pensar nisso, a Igreja tem de fazer um trabalho anterior, que é dissociar o poder e a autoridade das ordens sacras. Ou seja, dizer assim: se as mulheres passarem a integrar a elite clerical, não se resolve o problema à partida, que é continuar a existir uma elite clerical. O que tem de acontecer, dizia o Papa Francisco, e tem dito o cardeal Prevost, o Papa Leão XIV, o mais importante é que os cargos de poder e de autoridade possam ser ocupados por leigos e por clérigos e, portanto, por homens ou por mulheres.
E aí haverá já um sinal claro de abertura. Outra das questões também fraturantes, se podemos chamar assim, é em relação aos homossexuais. Como é que o Papa se posiciona em relação a esta matéria?
Talvez essa seja a questão mais controversa em relação a este novo Papa, porque nas horas a seguir ao anúncio da eleição do Papa Leão XIV, foram recuperadas algumas declarações do então padre Roberto Prevost, em 2012 ainda, portanto há mais de uma década, em que ele era muito crítico daquilo que ele chamava o estilo de vida homossexual. Ele fez um discurso no Sínodo dos Bispos em que acusava os meios de comunicação de massas ocidentais de promoverem um conjunto de crenças e de práticas como a vida homossexual, o aborto, a eutanásia, que eram contrárias ao Evangelho. E portanto, assim que foi anunciado o nome do cardeal Prevost como Papa, estas declarações voltaram a surgir nas redes sociais e atraíram muitas críticas em relação a este Papa, como se fosse um prenúncio de um certo recuo em relação ao pontificado do Papa Francisco. A verdade é que as declarações mais recentes sobre o assunto, já do cardeal Prevost, já não são tão duras em relação a essa matéria. Por exemplo, conversava aqui em Roma com o padre jesuíta James Martin, que é muito conhecido pelo seu trabalho em defesa dos direitos da comunidade LGBTQ na Igreja, e ele dizia: isso foi há mais de uma década e acredito que o cardeal Prevost, que é um homem que é um bom ouvinte e um homem com muita capacidade de sínteses, terá ao longo desta última década também evoluído na sua opinião. É algo que vamos ter que esperar para ver.
E será este Papa, João Francisco, que, não sei se podemos pôr as coisas assim, mas estará entre Bento XVI e Francisco? Ou seja, entre um perfil talvez mais de teólogo e um perfil de um padre mais do terreno? Não sei se podemos pôr as coisas desta forma assim tão simplista.
Eu acho que a dicotomia é sempre pouco produtiva neste sentido. Aquilo que eu diria é que nós, na quinta-feira, quando vimos o Papa Leão XIV aparecer à janela, vimos basicamente um Papa vestido como Bento XVI, e isso é um sinal importante, mas a ter um discurso como Francisco, e isso também é um sinal importante. É um Papa que claramente nas ideias e na linha teológica é muito próximo de Francisco. Aliás, foi Francisco que o criou cardeal, foi Francisco que o nomeou para a Cúria Romana, era um colaborador muito próximo do Papa Francisco e da estratégia de reforma da Igreja do Papa Francisco, mas ao mesmo tempo é uma pessoa com um perfil muito mais discreto, mais reservado, mais calmo, não agita assim tanto as águas como Francisco fazia e é capaz, ao longo da sua vida, e isto é muito reconhecido naquilo que quem o conhece diz dele, foi sempre um homem capaz de fazer pontes entre aqueles que estavam a andar mais rápido e aqueles que estavam a andar mais devagar, fazer pontes entre os tais progressistas e conservadores, conseguindo sempre chegar a síntese e a pontos de consenso. E, portanto, possivelmente, aquilo que vamos ter pela frente será um pontificado de um Papa que, pegando nos processos e nos debates e nas reformas avançadas por Francisco, terá uma capacidade mais acadêmica, digamos assim, para as implementar no papel. E isso também é importante.
E a resposta para esta pergunta do nosso episódio de hoje: é um progressista ou é um conservador?
Talvez o Papa Leão XIV seja um Papa que vai ajudar-nos a todos a transcender essa dicotomia e a, de facto, ao construir pontes entre progressistas e conservadores, dar-nos uma perspectiva diferente sobre a Igreja Católica no mundo de hoje, que é de facto feita de tensões e de perspectivas diferentes.
Obrigado, João.
Obrigado.
João Francisco Gomes é jornalista, acompanha a área da religião e é o enviado especial do Observador a Roma. A missa inaugural do Papa Leão XIV, esse momento solene, está prevista para o próximo domingo, 18 de maio. Por cá, os partidos entram na última semana de campanha eleitoral também com os olhos postos em domingo, 18 de maio, o dia das eleições. Claro que vamos acompanhar tudo na Rádio Observador, numa grande emissão da noite eleitoral. E já esta terça-feira, 13 de maio, a Santa Casa da Misericórdia vai apresentar as contas relativas a 2024. Isto depois de toda a polêmica em torno da saúde financeira da instituição. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música e do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã e boa semana.