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Esta é a história do dia. Hoje paramos na estação de comboios de Lviv, na Ucrânia.

Eu estou na plataforma de comboios, onde é o objetivo de todas as pessoas chegarem, porque o comboio parte daqui sensivelmente há uma hora e meia se não houver atrasos, e há pessoas instaladas nas escadas há mais de 12 horas.

João Porfírio, editor de fotografia, fazia este relato na Rádio Observador a partir da estação de comboios de Lviv, no oeste da Ucrânia. O comboio que parte dali segue para a Polónia, que fica a cerca de 90 km. Lviv é o ponto de saída para a segurança, mas é também o lugar em que os homens ficam pra trás.

Muitos polícias cá em cima na plataforma pegam nas crianças das escadas, trazem as crianças cá pra cima. As crianças ficam imenso tempo à guarda da polícia até que as mães consigam subir. É esta a situação que se passa aqui na estação de Lviv. De relembrar que muitas destas pessoas-

Os dados são do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Cerca de meio milhão de pessoas já saíram da Ucrânia. O número total de refugiados pode chegar a cinco milhões. Hoje vou conversar com o editor de fotografia do Observador, João Porfírio, que está em Lviv, na Ucrânia, sobre o desespero de quem tenta apanhar um comboio para a Polônia. Bem-vindo, João Porfírio.

Olá, Ricardo.

Ainda neva aí em Lviv?

Não, já não neva, mas na rua ainda estão -2 °C, o que não é uma temperatura nada agradável.

João Porfírio, há uma fotografia tua tirada na estação de comboios de Lviv que não me sai da cabeça. Nós vemos uma janela de uma carruagem de comboio, uma janela embaciada pelo ar pesado que por certo está dentro da composição. Há uma criança com a cara encostada ao vidro, está a chorar, tem a mão espalmada na janela como se quisesse sair ou como se estivesse desesperada a chamar alguém. É uma imagem muito forte. A mãe está de casaco laranja, está em pé. Eu julgo que é a mãe, é a silhueta de uma mulher, mas a janela está embaciada, não lhe vemos o rosto. Quem é essa criança, João Porfírio?

Sim, Ricardo, era a mãe desta criança e ela estava com esta expressão porque se estava a despedir do pai. O pai que acompanhou a mulher e o filho até à estação de comboio, até à porta do comboio e a partir daquele momento esta família separou-se. Não sabemos até quando nem onde é que poderão voltar a encontrar, porque devido à lei marcial aprovada na Ucrânia está proibida a saída de homens entre os 18 e os 60 anos.

A história deste miúdo, é uma criança pequena terá dois três anos, não terá muito mais, julgo eu, JoãoPorfírio, confunde-se com outras histórias que estão também a ser vividas aí nessa estação em Lviv.

"This is my husband." "He arrived there just now". "Just now". "Now in Kyiv he arrives in Kyiv".

Completamente. A história desta família podia ser a história de qualquer outra família que estava em cima daquela plataforma à espera do comboio. Esta família andou muitos quilómetros, passou muitas horas em transportes até chegar a Lviv. Esta família veio de Odessa, portanto sul da Ucrânia e demorou 48h até chegar a Lviv. Esteve em Lviv 12h à espera de um comboio para finalmente conseguir passar pra Polônia. As pessoas vêm de todas as partes do país e vêm ter a Lviv. Por que Lviv? Lviv é das maiores cidades que faz fronteira com a Polônia, ou seja, é o destino final dentro da Ucrânia pra estas pessoas. Portanto, o destino final fora da Ucrânia é sem dúvida a Polônia, é o porto seguro dessas pessoas e dessas famílias.

Como é que tudo isto está a funcionar? As imagens que nós vimos, que tu captaste na estação de comboios dão-nos um cenário meio caótico e só poderemos imaginar o que vai na alma daquelas pessoas.

Sim, existe uma diferença substancial do que verificámos nos primeiros dias e do que se passa agora na estação de comboios de Lviv. Por quê? O número de pessoas multiplicou, a desorganização aumentou substancialmente e os comboios, por sua vez, não aumentaram a sua quantidade. E o que isso faz? Faz com que a proporção entre a quantidade de pessoas que quer sair do país e a proporção de comboios que está disponível pras pessoas saírem efetivamente do país não é proporcional. Portanto, não existem comboios suficientes para transportar os milhares de pessoas que dormem durante horas na estação de comboios de Lviv, por exemplo. Falámos com pessoas que estavam enlatadas numa escada que dá acesso à plataforma de comboios há 12 horas Sem saber quando é que poderiam apanhar os comboios.

João, essas pessoas chegam aí e vão para o desconhecido, muitas delas não sabem por onde vão, e ficam nas escadas com as crianças, com as malas, durante 12 horas ou mais? É isso que estás a explicar?

Sim, exatamente. O que acontece é que pelos comboios não terem horários, por não haver perspetiva de quando é que os comboios partem, essas pessoas são obrigadas a irem o mais perto possível da plataforma de comboios para guardar o seu lugar. E o que é que isso cria? Cria um aglomerado gigantesco de pessoas com todas as suas malas que conseguimos imaginar. Uma família inteira que esteja a fugir, conseguimos imaginar a quantidade de malas que possa trazer, a quantidade de roupa que seja necessária. A juntar à quantidade inúmera de pessoas que se junta, a quantidade de malas, as malas ocupam espaço, naturalmente, as pessoas não conseguem neste momento entrar na plataforma diretamente. Existe uma barreira humana que impede as pessoas de passar pra plataforma. E por quê? Porque neste momento está a ser feito um controle de passaportes à entrada dos comboios, e não foi isso que nós verificámos nos primeiros dias.

E esse controlo é feito pela polícia, pelo exército?

Esse controlo é feito tanto pela Polícia como também pelo Exército. E esta entrada faseada na plataforma permite que a Polícia e o Exército controlem se entram homens, se não entram homens, se só vêm mulheres e crianças. É por isso que estes aglomerados se juntaram hoje, e de uma maneira tão desordenada, que há imagens, e poderão ver essas imagens, de carros de bebê a passarem por cima das cabeças das pessoas, bebês a serem puxados pela polícia pra plataforma enquanto as mães ainda ficavam no aglomerado de pessoas, as crianças agarravam-se às pernas da polícia até que a polícia conseguisse trazer as mães pra plataforma. Não havia organização absolutamente nenhuma e o caos foi instalado. Houve vários confrontos entre refugiados, entre pessoas que querem sair do país, porque em momentos quentes como este, é muito fácil despoletar o pior que há no ser humano. O instinto de sobrevivência é flagrante nestas situações. E houve pessoas que até instigaram algum tipo de violência sobre outras, porque não havia organização, não havia quem passa primeiro, quem passa depois. Os homens estavam a ser deixados pra trás e só passava mesmo as mulheres, os filhos e os pais com família. No entanto, os pais podiam ir à plataforma pra se despedir da mulher e dos filhos, não podiam embarcar.

Os pais podem ir à plataforma pra se despedir dos filhos, como aquela criança que tu retrataste. Como é que fica o coração dos pais e dos filhos no meio de um cenário desses?

É uma pergunta muito difícil de responder. O que é certo é que esse momento em que o comboio parte fue um momento bastante emotivo pra todas as partes, Ricardo. Foi um momento emotivo pras famílias que estavam dentro do comboio e que nas fotografias consegue-se perceber o desespero de verem os seus pais e os seus maridos parados na plataforma enquanto vão prum sítio seguro. Há também o outro lado dos homens que veem a sua família partir e depois há o lado também das forças de segurança. Também vi, por exemplo, duas polícias que estavam há minutos atrás a organizar a entrada nos comboios e a carimbar passaportes. Assim que o comboio partiu, a cara destas polícias encheram-se de lágrimas, por exemplo. Este momento toca a todos, este momento tocou a todos.

E alguma estrutura de apoio pra essas pessoas na estação de Lviv?

Há tendas que servem, por exemplo, sopa em copos de plástico, onde as pessoas podem beber a sopa em copos de água ou de sumo, aqueles copos pequenos. É servida também fruta, bolos e aí é dado o primeiro aconchego, digamos assim, a essas pessoas que depois de entrarem na estação não sabem quantas horas vão lá passar.

João, essas pessoas que partem daí da estação de comboios de Lviv têm alguma noção do que as espera dali a 90 quilômetros quando atravessarem a fronteira pra Polônia?

A única coisa que estas pessoas esperam neste momento é sair do país. Dê por onde der, é a única coisa que estas pessoas querem, é sair do país, porque sabem que a Polónia é o porto seguro que elas procuram e que elas tanto precisam neste momento em que o país delas está em guerra. Elas não esperam grande coisa. Elas a única coisa que esperam é chegar em segurança, que os filhos tenham o mínimo de condições possível e que sobretudo os maridos que ficaram aqui na Ucrânia pra combater contra a Rússia consigam chegar o mais depressa possível às suas famílias.

Obrigado, João Porfírio.

Obrigado, Ricardo.

As negociações de ontem deixaram a porta aberta para novas conversações entre Kiev e Moscovo, mas no terreno continua a guerra, o medo e a resistência. Na rádio e no site estamos a acompanhar ao minuto a situação na Ucrânia, onde estão os nossos enviados especiais, o João Profírio e a Cátia Bruno. Foram eles que recolheram os sons que ouvimos nesta história do dia. A música do genérico é do João Ribeiro, a sonoplastia do Diogo Casinha. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã!