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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Alexander Bortnikov, o espião escolhido por Putin para recuperar Kursk. Alexander Bortnikov está a participar numa reunião por videoconferência. Numa rara aparição pública, o líder do FSB culpa a Ucrânia pelo ataque à sala de espetáculos Crocus, na região de Moscovo, que matou mais de 140 pessoas em março deste ano. Alexander Bortnikov é o líder do FSB, o organismo que substituiu o KGB depois da queda da União Soviética. É um companheiro de armas de Vladimir Putin e um dos seus homens de confiança. Perante a incursão de tropas ucranianas na região de Kursk, Putin entregou a Bortnikov o comando das operações. É ele que tem agora a missão de resolver este problema, como fez noutras ocasiões. Mas quem é este homem e o que é que ele representa? É sobre isso que vou falar com José Carlos Duarte, jornalista da seção de internacional do Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia de quarta-feira, 14 de agosto. Bem-vindo, José Carlos.
Olá, Ricardo.
Só para nos situarmos, as tropas ucranianas invadiram território russo, estão no chamado Oblast de Kursk.
Sim, as tropas russas no passado dia 6 de agosto entraram em território russo, em Kursk, e lançaram uma ofensiva que foi muito mais do que uma simples incursão. A Ucrânia já tinha tentado várias incursões em território russo, contou muitas vezes com outros grupos aliados, que são russos, mas contra Putin, mas nunca tinha conseguido algo da dimensão desta ofensiva em Kursk. Teve um grande êxito, conseguiu apanhar os russos desprevenidos e fez com que neste momento que estamos a gravar, a Ucrânia diz que controla 74 localidades em território russo e que já avançou 1000 km².
E esta pergunta que te vou fazer agora é importante para apanharmos o fio à meada desta história que hoje estamos a contar neste episódio. Quem é nessa altura o comandante militar da Rússia?
Sim, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas russas é Valery Gerasimov, é um homem muito próximo do presidente Putin, é também considerado até um génio militar por vários dos seus apoiantes. Tem uma doutrina, inclusivamente, a doutrina Gerasimov.
Já aqui falámos dele na história do dia.
Sim, e neste momento, para além de ser o comandante das tropas russas, é também o responsável por liderar a operação militar especial, a designação que a Rússia usa para designar a guerra na Ucrânia. É um homem bastante respeitado no meio militar, só que aqui em Kursk as coisas não correram muito bem. Segundo avançam vários meios de comunicação sociais russos e até a Bloomberg, terá sido Gerasimov que está por trás desta ofensiva tão bem-sucedida da Ucrânia, porque terá recebido informações das secretas, dos serviços secretos russos, mas tê-las-á ignorado e não as comunicou ao presidente Putin, e isso fez com que a Rússia fosse apanhada desprevenida, não houvesse nenhum plano preparado para esta ofensiva e isso deu uma grande vantagem à Ucrânia inicialmente.
No fundo, falhou na sua missão. E há em Kursk algum alvo militar interessante ou relevante para os ucranianos ou é só terra?
Não diria que é só terra. Kursk fica perto da fronteira com a província ucraniana de Sumy, e é uma maneira de os ucranianos evitarem que Sumy seja atacada, que já não é atacada há muito tempo pelos russos, mas o objetivo é mais estratégico. Ou seja, a Ucrânia quer que a Rússia envie tropas que estão em território ucraniano, como no Donbass ou no sul da Ucrânia, para esta frente em Kursk.
Desviar atenções e recursos.
Exatamente, e obrigar esta transferência de homens. Também conta aqui o impacto mediático desta operação militar. A Ucrânia não estava numa fase fácil da guerra. Estava aqui uma espécie de um impasse em que a Rússia avançava, conquistava umas aldeias no Donbass, mas não havia aqui avanços significativos e parecia que a guerra ia estar sempre nesta fase. E esta forma, esta maneira de atacar e de surpreender a Rússia, é uma maneira de tomar a iniciativa de conflito e voltar a mostrar aos aliados que vale a pena apoiar a Ucrânia e que não se deve fechar os olhos à guerra da Ucrânia. Outra coisa também muito importante aqui é, por um lado, também humilhar Vladimir Putin e mostrar que a Rússia não é invencível, que a Rússia pode perder e, numas futuras negociações de paz, esta ofensiva de Kursk também pode ser muito importante. Se a Ucrânia conseguir reter estes territórios que tem na Rússia, pode usá-los como moeda de troca.
Ter algo pra trocar.
Exatamente. Ou seja, vamos supor, a Ucrânia liberta Kursk, a Rússia liberta o Donbass. E, portanto, pode ser aqui uma espécie de pressão negocial sobre a Rússia para que o conflito termine e que a Ucrânia não esteja tão vulnerável numa mesa de negociações.
E regressando aqui a Gerasimov, este comandante militar, perante esse falhanço Ele ainda manda ou já não manda?
Neste momento, ainda que continue a mandar na operação militar especial e também nas tropas russas, Valery Gerasimov já não é o responsável pela operação defensiva em curso entre as duas regiões russas.
E é aqui que chegamos ao ponto da nossa história do dia de hoje.
Exato. Quem manda neste momento é o presidente da Comissão Antiterrorista da Rússia, que é Alexander Bortnikov. É ele o responsável pela operação da Rússia de expulsar as tropas ucranianas dos territórios ocupados na Rússia.
Já regressamos à conversa com o José Carlos Duarte, jornalista da secção de internacional do Observador. Quem é, afinal, este homem, Alexander Bortnikov? Estamos de regresso à conversa com o jornalista da secção de internacional do Observador, José Carlos Duarte. Mas José Carlos, explica-nos uma coisa: se há uma invasão de tropas estrangeiras em território russo, não deveriam ser os militares a tratar do assunto? É antes montada uma operação que tu deixaste aí a nota e eu vou aqui sublinhá-la, uma operação de contraterrorismo?
Sim, esta operação de contraterrorismo acaba por haver aqui uma maior vantagem pra expulsar as tropas ucranianas, ou seja, existe um maior domínio. Esta comissão antiterrorismo tem mais poder, tem mais influência, consegue ter outras formas de controlar a situação do que propriamente o exército regular teria. Por exemplo, pode suspender as comunicações, pode monitorizar as comunicações das pessoas que vivem nestas outras regiões.
E tem poder sobre os militares.
Exatamente, um poder mais amplo, que é uma medida mais extrema para tentar terminar com esta ofensiva ucraniana.
E assim, Putin põe um homem da sua total confiança a mandar. Nessa linha do que estavas a dizer, publicamente, o Kremlin não trata esta invasão como uma invasão militar, é antes uma espécie de manobra subversiva ucraniana que é preciso tratar e vai daí, chama-se o todo-poderoso senhor do FSB.
Sim, eu acho que também se fosse algo mesmo sério, teria declarado guerra à Ucrânia, coisa que nunca fez. Portanto, aquilo que Putin quer é travar esta ofensiva, expulsar os ucranianos do território russo e recorre a este chefe do FSB para tentar que isto aconteça e para que não haja mais danos para o território russo e também mais danos para a sua reputação.
E Putin já chamou noutras ocasiões Alexander Bortnikov.
Sim, Alexander Bortnikov é alguém muito importante no regime russo. É uma pessoa que há muitos anos está ligada a Putin e, neste sentido, foi um dos principais responsáveis por muitas gestões de crise no Kremlin e principalmente por uma repressão aos críticos do regime. São conhecidos casos em que o FSB persegue, até envenena ou manda matar vários dos dissidentes ao regime de Vladimir Putin. Este chefe das secretas tem aqui um papel muito importante nesse campo, mas também noutros momentos de crise em que o regime parece estar a tremer, Alexander Bortnikov é muitas vezes chamado. Uma dessas vezes foi, por exemplo, ano passado, durante a marcha pela justiça de Prigozhin, do antigo líder do grupo Wagner. Este chefe das secretas foi chamado para negociar diretamente com Prigozhin. Foi um dos poucos que conseguiu entrar em contacto com o antigo líder do grupo Wagner.
Imaginamos que mandatado por Putin.
Exatamente. Havia sempre uma ordem da presidência. É um homem que consegue negociar com Prigozhin e faz com que ele acabe com aquela marcha que durou apenas 24 horas.
Que tinha como destino o Ministério da Defesa em Moscovo.
Não só o Ministério da Defesa, como também Valery Gerasimov, que era um dos homens odiados por Prigozhin. Daí que tenha sido chamado para solucionar este problema. Em março deste ano, quando o Centro de Espectáculos Crocus foi atacado, um ataque que o Daesh reivindicou, o líder das secretas também foi um dos responsáveis pela investigação e disse que a Ucrânia estaria envolvida no ataque terrorista e também, obviamente, como é uma linha de raciocínio destes dirigentes russos, a Ucrânia teve ajuda do Ocidente pra levar a cabo o ataque.
Foi o som que ouvimos, de resto, no arranque deste episódio da História do Dia. E tal como explicamos também no arranque da História do Dia, o FSB é o herdeiro do KGB, que terminou quando ruiu a União Soviética. E pelo que descreves, este é realmente um homem da confiança de Vladimir Putin. Eles conhecem-se há muito tempo?
Sim, não é certo quando se conheceram. Nunca nenhum dos dois revelou quando, mas já são conhecidos há bastantes anos. Há um rumor que diz que se conheceram no KGB, porque Putin também esteve no KGB nos anos 70, portanto, já são conhecidos de longa data, mas não é certo que isso seja verdade. Mas quando Putin chega ao poder, em 2000, Bortnikov começa a subir na carreira. Depois dos anos 90 e depois da dissolução da União Soviética, ficou a trabalhar no FSB em São Petersburgo, e depois até chega a liderar o ramo do FSB em São Petersburgo em 2003. Um ano depois, vai pra Moscovo e vai liderar o serviço econômico do FSB E este serviço económico é muito importante, porque é quem controla as contas dos serviços secretos, é quem vigia as empresas que o regime quer controlar.
Porque o FSB mete-se em tudo, até na economia.
Até na economia. E obviamente que não podemos esquecer aqui o papel dos oligarcas neste regime russo e Putin quis sempre ter um olho nos oligarcas e este cargo no serviço económico do FSB é muito importante para Bortnikov. Em 2008, ele chega realmente à liderança do FSB, mas não é Putin, quem o elege é Medvedev, o antecessor de Vladimir Putin, mas a decisão terá sido tomada pelo atual presidente russo.
Quando houve aquela troca de lugares, Putin ficou como primeiro-ministro e Medvedev como presidente da República da Rússia. Ou seja, este senhor, Bortnikov, tem uma longa carreira, deixe-me simplificar, como espião.
Sim, mas ele não é um espião muito habitual, porque é muito engraçado, várias fontes do FSB, várias entrevistas que foram dadas, disse que ele não tem muito carisma. E mesmo nas presenças públicas, esse carisma realmente-
Ele é esfíngico
...ele é esfíngico, ele não demonstra emoções.
Muito frio.
Muito frio. E para ser espião, aquela questão do charme.
Ter uma dose de sedutor.
Exatamente, ele não a tinha. E ele nunca saiu da União Soviética nem da Rússia, ele trabalhou sempre em São Petersburgo.
Os melhores espiões são aqueles que não têm cara de espião.
Exato. Mesmo assim, ele ficou sempre na Rússia ou na União Soviética e teve assim uma carreira muito longa, principalmente no contraterrorismo, na altura da União Soviética, e depois foi ao longo dos anos e à medida que ia subindo na carreira, foi assumindo outras responsabilidades e também atualmente controla as operações contraterroristas na Rússia.
É um homem com muito poder, muito discreto. Foi difícil encontrarmos um som dele hoje, por exemplo, para abrirmos aqui o episódio da História do Dia. E há várias informações que o ligam a alegados casos de corrupção e também a suspeitas de assassinato. No fundo, alegadamente fazer o trabalho sujo do Kremlin.
Sem dúvida, é o homem que faz o trabalho sujo e é uma pessoa que não questiona, que não faz perguntas. Vários testemunhos de antigos trabalhadores do FSB reconhecem precisamente isso, que é Bortnikov cumpre ordens, não pensa muito, faz o que tem que ser feito e isso é ótimo para um regime como este, em que todo o poder está quase nas mãos de Putin. Enquanto líder do FSB e em outros cargos, há realmente aqui um histórico de casos de corrupção e de suspeitas de assassinato, principalmente ligadas com envenenamentos. Parece ser o seu método preferido para se livrar de opositores. Em 2006, enquanto ele estava no serviço económico do FSB, mandou envenenar Alexander Litvinenko, que tinha sido um antigo dirigente do FSB que fugiu para o exílio e que acabou por morrer na sequência desse envenenamento.
Exatamente.
E depois também há sugestões que ele terá estado envolvido no envenenamento de Vladimir Kara-Murza, que é um opositor do regime russo, que foi recentemente libertado na troca de prisioneiros histórica que houve em agosto, e até Alexei Navalny. Aliás, na sequência do envenenamento de Alexei Navalny, a União Europeia, os Estados Unidos e o Reino Unido sancionaram precisamente Bortnikov pela alegada interferência e alegado envolvimento no envenenamento do opositor russo.
E Skripal também?
Não é claro, mas tendo em conta todo este historial, talvez seja muito provável que o chefe do FSB esteja ligado.
Alexander Bortnikov, no fundo, é o homem que Putin chama para resolver problemas bicudos.
Sem dúvida, é o gestor de crises do Kremlin, é alguém que sabe que age, que não perde muito tempo a pensar e que sabe precisamente o que tem de fazer. E como é um homem que ganhou tanto poder ao longo destes anos, sabe perfeitamente como manipular o regime para obter aquilo que quer.
Obrigado, José Carlos.
Obrigado, Ricardo.
José Carlos Duarte é jornalista da secção de internacional d'O Observador. Esta foi a História do Dia. Os sons que ouvimos neste episódio foram retirados da rede social X. A sonoplastia é da Beatriz Martelo Garcia e da Mariana Sousa Aguiar. A música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. A História do Dia regressa na sexta-feira, porque amanhã, 15, é feriado. Bom feriado e boas férias.