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Abrimos a porta a mais um Gabinete de Guerra na Rádio Observador, hoje com o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, bem-vindo.

Olá, boa tarde.

É o tema do dia. A Rússia começa hoje as eleições legislativas. Essa ida às urnas dura até domingo. São as primeiras desde o início da guerra. Bruno, este é um programa didático, por isso queria perguntar-te do que estamos a falar exatamente quando falamos em eleições na Rússia.

Eu costumo dizer que, por exemplo, em relação às eleições americanas, quando houve todo aquele debate sobre se devia ter sido dito que o Donald Trump ia ganhar, eu até estou à vontade, porque escrevi um artigo uns seis meses antes a dizer que o mais provável é que o Donald Trump ganhe. Mas realmente as eleições foram muito renhidas e, portanto, não havia condições para dar absoluta certeza sobre qual dos dois é que ia ganhar. Mas no caso da Rússia, vou realmente atrever-me a arriscar um prognóstico, é que certamente vai ganhar Putin e os seus aliados. E a razão para isso é muito simples, é que isto realmente é um simulacro de eleições. É até interessante por esta questão, por que ditaduras, regimes na prática autoritários, até a Coreia do Norte se dá ao trabalho de organizar eleições. De facto, nós, hoje em dia, ao contrário do que acontecia há dois séculos atrás, somos todos democratas, no sentido que é basicamente consensual que o poder legítimo deve vir do povo, da vontade do povo. Agora, a verdade é que isto não são eleições no sentido que nós entendemos na Europa democrática, ou seja, não são eleições livres e justas. Basta dizer que o partido que ainda restava, que fazia um bocadinho da oposição mais liberal, que tinha um programa que era favorável à paz, no caso da Ucrânia, o Yabloko, realmente foi proibido de concorrer, porque de repente começou a crescer nas sondagens e, portanto, Putin nem sequer arriscou poder ter um partido um bocadinho mais da oposição nestas eleições.

Mas então de onde é que vem esta vontade deste tipo de regimes de fazerem este tipo de eleições? É um sinal para fora, é um sinal também para os eleitores a nível interno?

Sim, tem várias funções, mas no fundo é um pouco essa a questão, que é dificultar as críticas externas, que é dizer que a Rússia não é democracia. Putin pode dizer: "Não, senhor, nós estamos a ter agora eleições, há vários partidos, já não é como anteriormente, não tem apenas um partido único." A questão é que todos os partidos basicamente seguem a mesma linha, concorrem em ser ainda mais subservientes e elogiosos de Putin. E, portanto, é essa a questão. É também em termos internos, no fundo, uma demonstração de poder e de impotência. No fundo, a ideia de que vocês pensam que vão conseguir fazer alguma oposição. Não, não conseguem. Nós controlamos as eleições, controlamos os resultados. É uma forma também de detetar opositores potenciais. Era uma coisa que o Estado Novo também fazia cá, que até deixava a oposição concorrer nas eleições. A seguir ao fim do período eleitoral, prendia todos aqueles que se tinham destacado nas listas da oposição. Mas realmente não tem o fim normal das eleições de uma democracia, que é dar a real possibilidade aos eleitores de escolher um novo governo e eventualmente mudar as políticas com que estão em desacordo.

Um bom exemplo disso é que vários membros do Yabloko têm sido presos ou silenciados de alguma maneira. Putin, como dizias, deve manter a maioria, não será uma previsão muito difícil de fazer, mas podemos esperar algum tipo de reorganização interna que saia destas eleições?

A grande questão que está a ser colocada é se eventualmente a seguir às eleições, e portanto, tendo passado este obstáculo, encapotado tudo para facilitar o trabalho do escrutínio, se quisermos, da fraude, até se utiliza este termo democracia gerida, ou seja, basicamente uma democracia controlada a partir de cima, que no fundo, depois disso, e realmente para evitar maiores surpresas ou mais dificuldades, Putin terá adiado a questão de um recrutamento, portanto uma vaga de recrutamento obrigatória, excepcional, para compensar as enormes baixas que está a ter na guerra da Ucrânia e o facto de aparentemente já não conseguir, com os incentivos financeiros significativos que têm sido dados, já não conseguir compensar com as entradas, com os alistamentos voluntários todos os meses, o número de baixas que estão a sofrer todos os meses, que estão, de acordo com muitas informações credíveis, acima dos 40 mil mortos e feridos graves por mês. E portanto, essa é realmente uma possibilidade, de se colocar essa questão de um recrutamento obrigatório, pelo menos parcial. Vamos ver, teremos de ver.

E pode ser também, de alguma forma, um sinal de aparente superioridade em relação à Ucrânia. Isto porque Zelensky tem recusado a ideia de eleições precisamente porque o país está em guerra e diz que não é possível fazer eleições nesse cenário. A ideia de uma Rússia que o consegue fazer também é uma forma de Putin se diferenciar em relação a Zelensky.

Sim, e aliás, Putin fez um discurso em que destacou também a questão das eleições nos territórios ocupados, ou seja, os territórios ilegalmente ocupados como resultado desta invasão russa e que a Rússia anexou. Portanto, embora isso não seja reconhecido nem sequer pelos seus aliados mais próximos, tirando a Coreia do Norte, mas nem a China, nem a Índia, nem outros países dos BRICS, por exemplo, reconhecem essa anexação desta zona do Donbass. Realmente, portanto, também há uma tentativa, no fundo, de argumentar que esta eleição legitima isso. Isto quando convém sempre recordar que no famoso referendo, em 1991, para a independência da Ucrânia, nessas regiões, o voto no Donbass, por exemplo, a favor da independência, foi um dos mais baixos, mas ainda assim estava acima dos 80% a favor da independência. Mas, portanto, há realmente essa ideia e também, obviamente, esta questão de realmente voltar a insistir que a Ucrânia não organize eleições. No caso da Ucrânia, eu tenho aqui referido que me parece compreensível, por um lado, e é algo que outros países democráticos fizeram no contexto de conflitos armados. Por exemplo, a Grã-Bretanha de Churchill esteve cinco anos sem organizar eleições enquanto a guerra estava a decorrer na Europa. Agora, é realmente um problema a prazo, ou seja, no fundo, este conflito pode se prolongar, como se está a prolongar já há caminho dos cinco anos e, portanto, a certa altura pode se colocar o problema que é: mas quando é que volta a haver eleições? Há a possibilidade de alternância ou não. Sabemos que há líderes até ucranianos, como o antigo ministro da Defesa, que já começaram a colocar essa questão. Agora, o grande problema no caso da Ucrânia é que a Ucrânia faz realmente eleições a sério e, portanto, para quem quer fazer eleições a sério, é um problema haver uma guerra, haver bombardeamentos, haver milhões de pessoas deslocadas, milhões de pessoas fora do país, isso realmente coloca também problemas à legitimidade eleitoral.

Sim, de facto é mais fácil fazer eleições, entre aspas, durante uma guerra do que eleições a sério. Bruno, o nosso tempo esta sexta-feira é um pouco mais curto do que o habitual. Obrigado por ter estado mais uma vez no Gabinete de Guerra.

Obrigado, bom fim de semana.