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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o maestro suspeito de assediar menores no coro. Um professor e maestro é suspeito de usar um coro para assediar jovens. Há vários relatos que envolvem este homem que deu aulas em Torres Vedras. Pelo menos dois rapazes denunciam práticas pouco recomendáveis. É sobre este caso que vou conversar com a jornalista da seção de sociedade, Mariana Marques Tiago. Este episódio não deve ser ouvido por crianças. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia de 27 de maio. Bem-vinda, Mariana.
Olá.
Temos duas histórias que nos levam, no fundo, a esta história. Vamos talvez começar pelo caso do João, que é um nome fictício que vamos usar aqui só para simplificar um pouco este caso.
Sim. O caso do João aconteceu uns anos antes de 2024, quando ele estava no 11º ano, portanto, tinha cerca de 15 anos. Ele estudava no Conservatório da Física de Torres Vedras e eventualmente decidiu juntar-se ao coro que existia no conservatório, que se chamava Vetra Vox, e, a pouco e pouco, a relação entre ele e o maestro foi começando a tornar-se mais forte. No fundo, eles começaram a aproximar-se bastante. O maestro, na altura, tinha cerca de 33 anos. E segundo o que o João nos conta, a certa altura, houve uma quebra, é assim que ele descreve, na relação entre os dois, porque começou a surgir alguma informalidade, portanto, começaram a tratar-se por tu, a trocar algumas mensagens com regularidade através das redes sociais. E aquilo que parecia um pouquinho inocente aos olhos do João na altura, sendo que ele era novo, acabou por mudar um pouquinho de figura e o João começou a notar alguns comportamentos que ele próprio considera desadequados.
Que comportamentos eram esses?
Uma das coisas que ele assinala, por exemplo, era o facto de o maestro, o professor dele, terminar as mensagens a dizer que gostava muito dele e com emojis com coração vermelho. O João percebeu que era um pouquinho estranho e era uma coisa que o deixava um pouquinho desconfortável. Mas a relação entre os dois continuou, até porque eles tinham uma coisa que os ligava. Além das aulas, tinham depois o coro. E depois esta relação ainda se tornou mais forte a partir do momento em que o João começou a ser convidado para cantar com o coro, nomeadamente em Évora. O coro fazia muitas colaborações com a Sé de Évora, a propósito da Semana Santa ou das celebrações de São Pedro e São João, o coro era muitas vezes convidado.
E tinham de dormir em Évora.
Exatamente. Dormiam no Seminário de Évora e o maestro e o João chegaram, inclusivamente, a partilhar quarto no seminário. Isto mostra muito a relação que eles os dois tinham, que aos olhos do João era muito uma relação de amizade, mas que depois começou a ganhar uma dimensão que deixou de ser de amizade.
Isso durou muito tempo?
Sensivelmente um ano.
Qual é o gatilho? Qual é o momento em que se dissipam as dúvidas?
Exato, que o João descreve como o momento que mais o impactou. Aí é que ele percebeu que aquilo estava a mudar de figura. Foi quando estava a conversar com o maestro por mensagens, como era normal, e começou a surgir o tema do tamanho das camas do seminário, que aparentemente são pequenas e que o maestro tem de juntar para ficar um pouquinho maiores, porque ele aparentemente é alto. E a certa altura, a conversa resvala para um convite do maestro para passarem a noite juntos. Ele convidou mesmo, disse que gostava da sua companhia na cama e disse que estava à sua espera. O João percebeu que aquilo não era adequado, que já tinha passado o limite e deixou de responder ao professor nesse dia. Sendo que isto aconteceu mais ou menos em junho, julho, ainda tinha todo um ano letivo pela frente, em que, obviamente, o seu caminho se ia continuar a cruzar com o do maestro.
Mas tu disseste que eles, a certa altura, dormiram no mesmo quarto, no seminário em Évora.
Sim.
Isso é normal? Fizemos alguma pergunta sobre o fato de ter um adulto e um adolescente, no fundo, a dormirem juntos, ou pelo menos no mesmo quarto.
Sim, é importante fazer essa ressalva, porque o próprio João nos diz que há um episódio, há um momento em que ele dorme no mesmo quarto com o maestro, mas que foi uma noite normal, digamos assim, em que eles até tiveram a conversar e a trabalhar nalgumas coisas de música juntos. O João também não estranhou nenhum comportamento do próprio maestro. Mas efetivamente, nós fizemos algumas perguntas ao seminário de Évora para perceber se eles têm alguma espécie de protocolo para os casos em que recebem grupos com crianças e adultos. Como é que se procede.
Como é que se arrumam, ou não se arrumam.
Exatamente, sim. Até o momento, pelo menos, o seminário não nos deu qualquer resposta.
E a história do Rafael é parecida com esta?
É muito parecida.
Que também é um nome fictício.
Exatamente, sim. Mas é muito semelhante, até porque o Rafael e o João perceberam que tinham passado precisamente pela mesma coisa, porque a certa altura, quando o João recebe este tipo de mensagens, fala com o Rafael, que também era um membro do coro, e o Rafael também partilhou que lhe tinha acontecido precisamente a mesma coisa quando era mais novo. Nessa altura, o Rafael já tinha os seus 20 e poucos, mas ele contava que lhe tinha acontecido o mesmo por volta dos 15 anos. A diferença é que o Rafael nunca fez uma queixa propriamente dita e nunca se tentou afastar muito do professor, porque era uma fase em que ele próprio diz que estava a descobrir-se e a descobrir a sua sexualidade, e sentia que o maestro era uma pessoa segura, uma pessoa a quem ele podia recorrer para falar, porque efetivamente o maestro fazia muita questão de transmitir a ideia de que eram amigos, de que havia à vontade, de que podiam falar sobre tudo. O Rafael tentava gerir a coisa para não se afastar totalmente.
Já voltamos à conversa com a Mariana Marques Tiago, jornalista da secção de sociedade do Observador. Afinal, quem é este homem e em que fase está este caso? Estamos de regresso à conversa com Mariana Marques Tiago, jornalista da secção de sociedade do Observador. Mariana, houve denúncias ou não?
Sim, houve pelo menos uma do João. Foram enviadas as mensagens e este tipo de relação que o João percebeu que não era adequada, aconteceu quando ele estava no seu 11º ano e no ano seguinte, quando terminou o conservatório, no final do 12º ano, decidiu falar e dirigiu-se à diretora pedagógica do conservatório, que, de acordo com o que o João nos diz, terá lido as mensagens que foram enviadas pelo maestro. O João não sabe ao certo o que é que aconteceu depois. O certo é que o maestro acabou por sair do conservatório no final desse ano letivo. E esta informação foi-nos confirmada pelo conservatório, sendo que a direção pedagógica não confirmou se tinha recebido uma ou mais denúncias. Além disto, sabemos também que houve uma queixa às autoridades, porque o João já foi ouvido pela PJ, portanto, a investigação está a decorrer.
E afinal, quem é este homem, quem é este maestro, este professor?
Este maestro tem trilhado todo um grande percurso na área da música, essencialmente na área do canto, e também já compôs algumas obras para formação. Ele formou-se na área da música em Torres Vedras, onde também acabou por ficar a lecionar até 2023, quando foi afastado do Conservatório de Torres, e depois quando saiu do conservatório, continuou a ensinar menores. Continuou o seu trabalho na Academia de Música de Óbidos, onde esteve até setembro de 2024, que foi quando apresentou a sua rescisão contratual.
Mas sabemos onde está agora?
Neste momento, não sabemos onde é que ele está, até porque pessoas próximas, que foram ouvidas pelo Observador, dizem que estranharam a sua ausência, principalmente na Semana Santa e no Carnaval de Torres Vedras, porque ele tinha muita proximidade, gostava muito de viver esta tradição em Torres. O coro ainda fez alguns concertos no final de 2024, depois de o professor se afastar do conservatório, mas desde janeiro deste ano o mestre não foi visto publicamente, inclusivamente nas redes sociais, onde era bastante ativo, deixou de fazer publicações.
E conseguimos falar com ele?
Não, não conseguimos falar com ele, mas conseguimos falar com o seu advogado. Ele remeteu-nos para o seu advogado, que disse apenas que a investigação está a decorrer e não nos deu qualquer informação acerca do processo.
Há uma investigação em curso.
Sim.
Sabemos em que fase, sabemos mais alguma coisa?
Sim, sabemos que foi aberto um inquérito, a investigação está a decorrer. Sabemos também que o mestre foi constituído arguido, que terão sido alegadamente assediados três menores, entre os 14 e os 15 anos, através da internet, e o mestre é suspeito de importunação sexual.
Mas Mariana, nessa altura, apesar de ter sido constituído arguido, ainda não sabemos se haverá acusação e posteriormente julgamento, é isso?
Sim. Depende também muito das provas que o Ministério Público conseguir reunir, das pessoas que ouvir. Este caso também só por si, o facto de ser um caso de assédio, depois um caso também que envolve menores e que também remonta já há alguns anos, pode levar o caso a demorar mais algum tempo. Mas para já não sabemos o que é que vai acontecer.
Obrigado, Mariana.
Obrigada.
Mariana Marques Tiago é jornalista da secção de sociedade do Observador. Ficam ainda três notas para esta terça-feira. Termina o prazo para os utilizadores europeus dos produtos da Meta, por exemplo, Instagram e Facebook, se oporem à utilização dos seus dados públicos para treinar os modelos de inteligência artificial generativa. O WhatsApp fica de fora. Os utilizadores têm de preencher um formulário de autoexclusão. Quem não preencher está, no fundo, a aceitar fornecer dados para treinar a inteligência artificial. Mas calma, pode-se preencher mais tarde, o formulário pode ser preenchido a qualquer altura. Está disponível nas definições, centro de privacidade, tanto no Instagram como no Facebook. Também temos tudo explicado no especial da jornalista Cátia Rocha, que foi originalmente publicado a 19 de abril. A Meta também enviou notificações e e-mails, mas daqueles que muitos de nós apagam sem ler. E António Costa visita esta terça-feira Brasília e São Paulo para reforçar a parceria entre Brasil e a União Europeia e promover o acordo comercial entre europeus e o Mercosul. Em tempo de guerra de tarifas, Europa e Brasil sentam-se a conversar para estreitar laços. E não é só por cá, nem no Brasil, que política, religião e futebol se misturam. Esta terça-feira, o Papa Leão XIV recebe o campeão italiano no Vaticano. A equipa do Nápoles vai estar com o Papa. Esta foi a história do dia. A sonoplastia da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.