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Esta é a história do dia: será a Rússia assim tão forte do ponto de vista militar? A voz é de Igor Konashenkov, o militar e porta-voz das Forças Armadas Russas. Todos os dias faz um briefing sobre a situação na Ucrânia. Aqui reconhece que alguns militares que não deviam estar naquele país foram capturados. Trata-se de soldados do recrutamento obrigatório que não devem ser colocados na frente da batalha. Entretanto, o Ministério da Defesa do Reino Unido disse que Moscovo confirma a utilização de armas termobáricas na Ucrânia, uma arma que provoca explosões devastadoras com temperaturas muito elevadas. Segundo Londres, o uso destas armas contra civis é ilegal e pode constituir um crime de guerra. Qual será a verdadeira capacidade militar russa? Estará Moscovo a fazer bluff? Hoje vou conversar com o professor de Relações Internacionais, Paulo Batista Ramos, da Universidade do Minho, sobre o real poderio militar russo. Bem-vindo, Paulo Batista Ramos.

Eu é que agradeço o convite à Rádio Observador.

Que tipo de tropas e armamento colocou a Rússia na Ucrânia?

A Rússia colocou as suas tropas de elite, colocou o seu melhor armamento que dispunha, deslocalizou para a fronteira com a Ucrânia, deslocalizou de outras regiões para a Bielorrússia e inclusive foi buscar mercenários, ou seja, tropas de países aliados para também estarem na frente de batalha, algumas especializadas mais em combate urbano ou com mais experiência de combate, por exemplo, da Chechénia ou na Síria, com a ideia de ter uma maior eficiência de combate, mas também de intimidar a população ucraniana e as forças de defesa ucranianas.

Mas podemos dizer que são tropas de topo?

Depende. Estamos a comparar com os Estados Unidos?, estamos a comprar com as Forças Armadas europeias?, ou estamos a comparar com as Forças Armadas ucranianas? São as melhores tropas que a Rússia tem. Agora, se nós estávamos à espera de algo diferente, a opinião pública, de uma forma geral, o que está a ver não é o que se habituou a ver no Iraque e no Afeganistão com a intervenção norte-americana. Estamos a ver aqui material um pouco bizarro, pra não dizer obsoleto ou inadequado. Estamos a ver militares que parecem impreparados ou soldados que parecem impreparados pra missão. Estamos a ver falta de liderança e estamos a ver uma falta de adaptação da estratégia ou da intervenção militar russa àquilo que são as condições do terreno, quer sejam as condições climatéricas. Nós estamos quase a assistir a uma guerra na lama, a mesma guerra que foi experimentada por Napoleão e pela Alemanha Nazi durante a Segunda Guerra Mundial no espaço russo soviético. É isso que estamos a acontecer a ver agora na Ucrânia, o que parece tudo um pouco bizarro.

Putin não mediu bem aquilo que iria fazer?

Não sei se foi o Putin, mas pelo menos dos generais russos ou estrategistas militares russos, o planeamento não seria o mais adequado. Há aquela máxima militar que todo o planeamento cai aos primeiros combates e passa a estar automaticamente desatualizado. E neste caso, a resistência ucraniana constituiu, sem dúvida, uma surpresa penso que pra todos os beligerantes e observadores. Mas penso não só o timing da iniciativa, etc., parece que efectivamente eles não mediram muito bem todas as consequências, não projetaram da melhor maneira todos os cenários. Isso parece-me que é uma evidência.

Não temos medidores de ânimo das tropas, mas em sua opinião, qual será nesta altura a moral das tropas russas?

Sim, é um facto, não conseguimos medir a sensibilidade. Mas há uma coisa que nós podemos observar, ou melhor, não observar, que é: temos muita dificuldade em encontrar imagens positivas da propaganda do lado russo Apesar de haver órgãos de comunicação social pró-russos no terreno, a verdade é que nem nos órgãos de comunicação social, rádios e televisões, nem nas redes sociais estamos a ver imagens ou descrição de acontecimentos que transmitam o mínimo de eficiência e de capacidade das tropas russas. Mas parece que esse espírito de corpo e essa moral está ausente devido precisamente a essa impossibilidade ou a essa cortina que existe para tentar perceber o que se passa do lado russo. Temos visto dezenas de soldados russos capturados. Esses soldados estão a prestar alguns depoimentos que podem ser observados nas redes sociais. E o que eles demonstram é um grande espanto, um grande desconhecimento para onde foram enviados. Estavam à espera de ser recebidos como libertadores nas várias localidades ucranianas e estão a ser recebidos como invasores. Demonstra aqui realmente uma dissonância quase cognitiva entre aquilo que os militares estavam preparados e a guerra na prática que eles estão a fazer. Para além disso, há os inúmeros problemas logísticos. Obviamente sabemos que isso é contrainformação e propaganda, mas temos visto soldados russos depois de capturados serem alimentados pelas populações ucranianas, portanto, significa que há também um problema na cadeia logística de abastecimento àqueles que estão na linha da frente.

Há problemas também de logística para fazer chegar mantimentos e combustível às tropas russas?

A mim também me parece que sim, que a resposta é afirmativa. Basta mais uma vez atentarmos que eles estariam muito provavelmente preparados para um blitz, uma guerra rápida, ultrarrápida. Estamos em pleno século XXI, por exemplo, a capital Kyiv está a mais ou menos 100 km da fronteira com a Bielorrússia. Estamos a falar de estradas que não são propriamente picadas africanas, são estradas bastante circuláveis, e o que nós vemos é que já vão quase duas semanas para os militares percorrerem esses 100 quilómetros. Vimos uma aproximação muito rápida ao que era Chernobyl. Parece que a central de Chernobyl que está no ativo está efetivamente nas mãos das forças militares russas. A partir daí houve um bloqueio, um parar, pois não estavam à espera da resistência e houve um quebrar ou uma disrupção das cadeias de abastecimento e de logísticas russas. Outro exemplo também muito claro, basta ver nas imagens que têm circulado um pouco por toda a parte: os veículos de combate e de transporte militares precisam de blindagem ou muitos deles são blindados. O que nós temos assistido é aos militares russos usarem troncos de madeira à frente, nas zonas mais vulneráveis, na parte frontal ou traseira, para fazerem a blindagem desses veículos militares.

Sim, já vimos alguns troncos de árvores em cima dos carros de combate, a que vulgarmente chamamos tanques. Serve para isso?

Exatamente. Isto são blindagens que os militares improvisam, faz parte da guerra também. Vemos camiões com troncos también à frente nas grelhas para proteger as mesmas. Enfim, é um pouco surreal. Aliás, os próprios veículos também é facilmente observado que nem sequer têm camuflagem. São todos verdes, é como se tivessem preparado para a guerra na selva ou nas florestas. Nem sequer há uma adaptação em termos de camuflagem, nem dos veículos, nem dos camuflados dos militares ao tipo de ambiente, digamos assim, de teatro de operações que eles estão a encontrar.

Paulo Batista Ramos, e em relação à resistência ucraniana, esta resistência a que temos assistido é algo que verdadeiramente está a conseguir travar as tropas russas, nalguns casos literalmente encostando as mãos aos carros de combate?

Há duas resistências ucranianas. Há efectivamente a resistência do povo ucraniano, essa que o Ricardo estava a descrever. Parece-me evidente que mesmo aquelas cidades que os russos dizem que foram ocupadas ou tomadas, há imagens de manifestações contra as forças russas e obviamente em nome da Ucrânia, dando um bastante espírito nacionalista, mesmo nas tais zonas alegadamente russófonas naquele leste da Ucrânia.

Na região de Donbass.

Exatamente.

E a propaganda também dá uma ajuda.

Honestamente não sei qual é a capacidade neste momento que o governo ucraniano tem para efectuar propaganda e para agitar tanto assim as populações. Obviamente que muitas dessas manifestações podem ser montadas para as câmaras e telemóveis, enfim, mas a verdade é que elas existem e nós não estamos a ver o contrário Ou seja, russos a entrar nas cidades e a ser recebidos como libertadores heróis.

Paulo Baptista Ramos, tendo em conta tudo o que já descreveu até aqui, podemos dizer que afinal a Rússia está a fazer bluff, que o poderio militar russo não é assim tão poderoso?

Penso que há duas questões. A Rússia está a fazer bluff há mais de 10 anos, principalmente através da intimidação e dos ciberataques, ataques daquilo que eles chamam operações políticas às democracias ocidentais, principalmente na Europa e nos Estados Unidos. Estou a pensar no referendo do Brexit, estou a pensar nas eleições norte-americanas de 2016 Toda uma série de datas eleitorais por toda a Europa, Escandinávia, França, Alemanha, onde houve deliberada e comprovadamente interferência russa na tentativa de provocar a instabilidade e o caos. Portanto, há uma imagem da Rússia que tem sido construída nos últimos 15 anos de uma potência externa com imensa capacidade de projetar o seu poder, que na realidade não corresponde às verdadeiras ferramentas do poder, ao poder convencional, nomeadamente ao poder militar. portanto nós pela primeira vez estamos a ver o poder militar russo a operar e este parece estar a não corresponder. Eu acho que há uma autoimagem russa de superioridade, de excesso de confiança, de vitória sobre o Ocidente, e a imagem não é nova. Não há nenhum bluff, há realmente uma arrogância. Essa arrogância agora está a mostrar as fraquezas do poder russo. Há só mais uma questão que é muito importante sublinhar. Estamos a falar sobre resistência ucraniana. Para além da resistência popular, há também a resistência militar.

E qual é a capacidade militar da Ucrânia?

Esse é que é o grande fator surpresa. Ninguém estava à espera. Já passaram duas semanas e ninguém estava à espera que houvesse esse tipo de resistência, nem o próprio Putin, nem os próprios analistas militares ocidentais. A guerra começou numa quinta-feira e todo a gente pensava que o domingo fosse passado já com as tropas russas a ocupar Kiev. Aqueles 100 km fossem percorridos em 48 horas, 72 horas sem grande resistência. Aqui о fator surpresa, о joker ou wild card está a ser precisamente a resistência militar das Forças Armadas Ucranianas, que está a ser espantosa, revelando elevada moral, elevado treino, elevada capacidade estratégica, tática, de reação no terreno, boa coordenação, excelente liderança. Temos um presidente que não fugiu. O presidente não foge, fica e faz questão de mostrar que está lá, que está em Kiev. Isto faz toda a diferença.

E Paulo Batista Ramos, a noção dessa fragilidade por parte das Forças Armadas Russas poderá levar a outro tipo de resposta por países ocidentais, por parte da NATO, aproveitando esse momento de fraqueza?

O Biden já disse que não iria intervir na Ucrânia. A Ucrânia não é um Estado membro da NATO. E portanto não irá haver uma intervenção militar direta da NATO no terreno embora seja apetecível. Parece até que está a correr tão bem que basta aqui um golpe.

Basta um encosto.

Exato, um golpe de mão, como dizem os militares para resolvermos o assunto. Mas julgo que isso não irá acontecer. A NATO está a ser muito cautelosa precisamente para não melindrar o muito sensível Putin, que cada vez que tem oportunidade volta a ameaçar a NATO. Já ameaçou militarmente, já ameaçou com nuclear inclusive.Já disse quem prestar assistência técnico-militar à Ucrânia é considerado um beligerante também do conflito e eu julgo que a NATO não irá participar nesse jogo perigoso e vão continuar com essa postura cautelosa e acho que não irá haver intervenção da NATO.

Paulo Baptista Ramos, muito obrigado.

Obrigado eu.

Nesta quinta-feira vale a pena ler no Observador porque razão os aliados querem também sanções nas criptomoedas. É um texto da editora de Economia Alexandra Machado. Temos ainda um especial que lança a pergunta: "A Rússia pode sair da internet?" A redação do Observador continua mobilizada a acompanhar ao minuto as notícias que fazem estes dias da guerra tanto no jornal comme na Rádio Observador. Esta foi a História do Dia. A música e a sonoplastia são do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.