Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Esta é a história do dia da Rádio Observador: olá, Mastodon. Adeus, Twitter.

What is Mastodon? Mastodon is an open source social network. Similar to Twitter or Tumblr, users can make profiles, post messages, images or videos, and of course, follow other users.

Depois da entrada de Elon Musk na sede do Twitter, milhares, entre os mais de 230 milhões de utilizadores ativos daquela rede social, anunciaram o fim da relação. Entre os receios, estão, por exemplo, o fim da moderação, que abra a porta a discurso de ódio e regresso de figuras como Donald Trump. Milhares de utilizadores, alguns deles portugueses, mudaram-se em poucos dias para o Mastodon, uma rede social de código aberto que, segundo os fundadores, não vai à falência, não pode ser comprada nem controlada por governos.

Unlike traditional social media, Mastodon can't go bankrupt, it can't be sold, and it can't be completely blocked by governments. Users are free to join whichever community they want and communicate with whomever they want. With over a million registered users across multiple different languages, Mastodon is growing fast. Not sure which instance to join? Click the link below to find one that's right for you.

Elon Musk comprou o Twitter por US$44 bilhões. O Estado português, só para termos aqui um termo de comparação, neste ano de 2022, conta arrecadar em impostos, na totalidade dos impostos, €52 bilhões. Neste nível de grandeza, como percebemos, a diferença não é muita. Com a entrada do multimilionário no Twitter, há mudanças anunciadas naquela rede social que estão a causar preocupação. Vou conversar com Vania Baldi, é professor universitário no ISCTE e investigador no Obercom, o Observatório da Comunicação. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vindo, professor Vania Baldi.

Olá, Ricardo, obrigado pelo convite.

Que negócio foi este em que Elon Musk decidiu avançar para a compra do Twitter?

É um negócio que vai ter um grande impacto no ecossistema midiático digital, não só nos Estados Unidos, naturalmente, mas em toda parte do mundo onde o Twitter é utilizado. É uma compra que iremos perceber com o tempo quais as repercussões no mercado, quais os planos que podem estar por trás desta compra. O Elon Musk é um empreendedor que tem negócios em várias frentes e, portanto, o Twitter pode integrar também, pode funcionar como até dinamizador de outros negócios do Elon Musk. Vamos ver se eventualmente se poderá até criar conflitos de interesses entre os vários negócios do Elon Musk. Com certeza é algo interessante para nós começarmos a compreender se haverá alguma mudança na política editorial do Twitter.

De que forma é que esta mudança na administração da empresa se pode refletir ou não nos conteúdos que vão sendo partilhados na rede social?

Essa é uma pergunta também difícil de responder. Precisamos de tempo. O que sabemos é que logo a seguir à notícia, em maio, abril, que Musk teria comprado o Twitter, já tinha havido uma mudança na linguagem dos utilizadores do Twitter e também logo a seguir à compra efetiva do Elon Musk, houve uma subida exponencial de alguma linguagem tipicamente ofensiva do Twitter, racista, que caracteriza bastante algumas discussões, se é discussões se podem chamar, dentro do Twitter. Portanto, não sabemos em todas as dimensões, por exemplo, como é que afetará o jornalismo, a relação com as outras mídias informativas, com a política.

Mas já se notam essas diferenças, é isso que está a dizer?

Eu li, que eu saiba, a palavra negro utilizada de uma forma muito ofensiva, conotada de uma maneira muito racista, a partir do momento da compra, foi utilizado muitas mais vezes. Agora não me lembro se aumentou de 500 vezes.

Ou seja, porque os utilizadores se sentiram mais à vontade para o fazer, é isso?

É provável. Ou seja, se nós pensarmos qual a razão, ou pelo menos no discurso do Elon Musk, a razão por ter decidido comprar o Twitter, foi aparentemente aquela de recusar a ideia que pudesse haver alguma regulamentação, alguma limitação A liberdade de expressão, que também é um conceito muito vago, confuso, que eventualmente depois retomamos. Mas a ideia, no fundo, o Elon Musk apresenta-se como aquele que quer representar a liberdade radical.

"The reason I acquired Twitter is because it is important to the future of civilization to have a common digital town square where a wide range of beliefs can be debated in a healthy manner without resorting to violence."

E, portanto, não é que já no Twitter não existissem estes discursos. Com o Elon Musk, talvez, pode haver mais uma sensação de legitimação para este tipo de linguagem.

Entretanto, há outras novidades como a necessidade de pagar para ter perfis certificados, por exemplo?

Sim, talvez haja mais serviços dentro do Twitter que serão pagos. Neste momento, há uma grande incerteza sobre os preços, sobre o tipo de subscrição. Fala-se também da possibilidade de pagar para ter a possibilidade de publicar vídeo, áudio mais longos ou para reduzir os anúncios publicitários, ou para ter acesso a artigos de jornais, uma leitura integral de alguns artigos, para ter acesso a mensagens diretas. Neste momento, está-se a avaliar várias soluções. O que para mim, na realidade, é interessante é que este permite ganharmos consciência que não é um serviço gratuito. Ou seja, entra logo no mercado onde começa a competir, a concorrer com outros serviços digitais que também são por subscrições. Esse tem, acho eu, um efeito clarificador, esclarece, faz transparência sobre o fato, sobre uma das fontes lucrativas do Twitter. Naturalmente, como o Elon Musk declarou, a publicidade direcionada aumentará, cada vez mais personalizada. Esta é mais uma fonte de lucro, porque a venda dos dados dos utilizadores para terceiros continuará a ser uma grande fonte de rendimento. Mas acrescenta-se também um conjunto de serviços que são comparáveis aos serviços que podem oferecer jornais. E, portanto, este pode, paradoxalmente até, permitir aos utilizadores de escolher se pagar para um serviço como o Twitter ou pagar um outro que talvez tenha uma característica mais, não diria tradicional, mas mais fidedigna, mais tranquila, serena na maneira de gerir, distribuir, produzir conteúdos noticiosos, pelo menos.

E há também, professor, regressos mais ou menos anunciados ou a possibilidade de regressos ao Twitter, como Donald Trump. Acredita que isso poderá acontecer?

Acredito que poderá acontecer, apesar de o Donald Trump ter tentado, até agora, parece com pouco sucesso, desbravar um caminho na área do digital, com uma plataforma dele e dos seus apoiantes, mas é provável que ele regresse. O Elon Musk é considerado, por várias razões, ter simpatias para os republicanos, para uma direita bastante radicalizada e, portanto, é expectável que estes protagonistas, estes utilizadores, possam voltar a protagonizar a esfera do Twitter.

Já voltamos à conversa com o professor Vânia Baldi. Vamos conhecer uma nova rede, uma rede que, segundo os criadores, não pode ser vendida nem dominada por governos, o Mastodon.

PopUp.

O programa de cultura pop da Rádio Observador, que olha para o presente, tem dias em que aposta no futuro, mas também aprecia bastante olhar para o passado.

Com Maria Ramos Silva.

Aquelas séries curtinhas de 20 e tal minutos, 30. Aquilo era tudo muito ao osso e tu numa noite sem crer podias ver dois a três episódios.

Bruno Vieira Amaral.

É para dar já a minha opinião?

Pedro Buchinho Mendes.

É mais uma série em que eles estão no fundo de robe, têm umas espadas, há uns venenos, há uns feiticeiros.

E Tiago Pereira.

Se calhar muita gente agora de repente quer mudar de estação. Não façam isso, por favor.

PopUp, às quintas-feiras, depois do meio-dia, na Rádio Observador e sempre em podcast.

Estamos de regresso à conversa com o professor universitário Vânia Baldi. Professor, já tem conta no Mastodon?

Não, não tenho, confesso. Confesso não ter conta. Tinha no Twitter, depois deixei de seguir.

Mas é uma rede muito semelhante ao Twitter, não é? Pelo menos no aspeto.

Sim, é uma rede, aliás, está inspirada no Twitter, tem algumas diferenças.

Vamos a elas. Quais são as diferenças?

Em primeiro lugar, é uma rede descentralizada, open source, que não tem marketing digital, portanto protege a privacy, os dados dos seus utilizadores, e que proporciona nas suas instâncias, assim são chamadas, onde é possível entrar, inscrever-se e Partilhar informações, conteúdos e conversar sobre estes conteúdos é possível, à diferença do que se passa nas plataformas digitais mainstream mais dominantes como o Facebook ou Twitter, onde é possível encontrar pessoas que não conheces ou pessoas que têm perspetivas não necessariamente homólogas às tuas. Enquanto nas outras plataformas, apesar de podermos ter não sei quantos seguidores e não sei quantos amigos, afinal acabamos por conversar sempre com o mesmo núcleo duro. Portanto, é como se estivéssemos numa turma muito fechada. Numa plataforma como aquela do Mastodon, mas não só o Mastodon, temos a possibilidade de encontrar o imprevisto. Ou seja, é como se a serendipidade fosse mais proporcionada, o encontro com o desconhecido.

Ou seja, as pessoas reúnem-se mais em grupos de interesses ou assuntos pelo qual têm um interesse, por exemplo, política. É isso?

Por exemplo, política, ambiente, gaming, cinema.

Mas há moderação nas conversas

Não, até agora, que eu saiba, não está prevista moderação. Queria também acrescentar que com o Mastodon temos tido e temos ainda plataformas que tentaram ser alternativas, funcionarem como alternativas às plataformas hegemônicas. Por exemplo, a Diaspora ou a Friendica ou o Ello.

E falharam por quê? Ou não falharam?

Algumas falharam no sentido que tinham poucos utilizadores. É este o risco. Se não houver um movimento, até um marketing, algo que torne estas plataformas uma referência importante para os utilizadores utilizá-la quotidianamente ou frequentemente, essas plataformas, se não houver este movimento, deixam de ter sex appeal, deixam de ter vitalidade.

O facto de ser open source, ou seja, de código aberto, quer dizer que ninguém é verdadeiramente dono do Mastodon?

Em princípio, significa isto, que os utilizadores têm um acesso direto, um conhecimento direto a uma maior transparência na administração das várias instâncias. É possível criar uma instância, é possível pôr em conexão instâncias diferentes, é possível uma interoperabilidade entre utilizadores com contas diferentes, que não têm a obrigação de abrir uma conta Gmail ou Hotmail. Portanto, reflete mais o espírito originário da internet. Reflete mais aquela verdadeira, podemos dizer, experiência de liberdade, onde não há uma monopolização e uma extorsão dos dados e do tempo dos utilizadores.

Professor, em relação à liberdade de expressão e da sua experiência, nós só queremos moderação no espaço público em relação àquilo com que não concordamos?

Eu enquadraria este argumento a partir de um pressuposto um pouco diferente. Num contexto democrático, o direito de expressão reconhece os seus limites na medida em que se parte do pressuposto de que ele deve harmonizar-se com outros direitos. Portanto, só em democracia os limites à liberdade de expressão não são censura, mas são o respeito da comunicação cívica e civilizada. Portanto, a liberdade de expressão não é a liberdade de insultar, atacar, ameaçar, chantagear. E portanto, este é um pressuposto fundamental. Eu acho que é muito grave, nós assistimos a isso quando foi banido o Trump do Twitter, que é muito grave a ausência da política na regulamentação destas plataformas, a ausência de um código deontológico.

E quem é que faria esse código?

Este código deveria ser negociado entre instituições políticas, porque aqui estamos a falar de lugares públicos, apesar de serem privados. Se eu entro num supermercado, é privado, mas é um espaço aberto ao público. Não posso começar a baralhar todo aquele que está no supermercado, a disparatar, a ofender. Portanto, é preciso que um código deontológico comprometa as plataformas a respeitar alguns princípios, porque não pode ser uma entidade privada num âmbito tão importante, não pode ser um comitê de engenheiros a decidirem quais as políticas computacionais de uma plataforma que tem sede nos Estados Unidos, mas tem impacto no mundo inteiro.

E voltando aqui ao Mastodon, uma rede sem dono será viável, como explicava há pouco, ou será um epifenómeno, como foi, por exemplo, o Clubhouse?

Sim, pode ser. Eu, de facto, estava a pensar também no Clubhouse. Ali não funcionou também porque não havia muitos utilizadores, porque o áudio também remete para outro tipo de experiência comunicacional. Não sei se será mesmo uma ausência de donos. É uma rede que, por ser descentralizada, também é federada e tem gestores das várias instâncias. Mas estaremos a ver. Até agora estão a aumentar os inscritos. Sabemos que há várias plataformas que tentam contornar o descontentamento com as grandes plataformas, onde afinal acabamos por ficar no nosso dia a dia, porque ali encontramos a maioria dos contatos que temos. Mas devagarinho, quem sabe.

Obrigado, professor.

Obrigado eu.

Vania Baldi é professor universitário no ISCTE e é também investigador do Obercom, o Observatório da Comunicação. Neste episódio, ouvimos um som retirado da emissão da Fox News, televisão norte-americana, e também de um vídeo de apresentação do Mastodon, retirado do YouTube. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é da Beatriz Martelo Garcia, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.