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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Como conseguiram os Estados Unidos da América resgatar um piloto nas montanhas do Irão?
"We're here today to celebrate the success of one of the largest, most complex, most-- We had great talent. We got a little luck, too, I would say. And we were helped by a lot of people, a lot of great people. And it was an honor to be involved with it. It's very historic. This is a rescue that's very historic. It'll go down in the books. Late Thursday night, an American F-15 fighter jet went down deep inside enemy territory in Iran while participating in Operation Epic Fury, where we're doing unbelievably well, well at a level that nobody's ever seen before."
Um sucesso, uma das operações de resgate mais impressionantes e complexas. É um resgate histórico que vai ficar nos livros. Todas estas frases e expressões foram ditas por Donald Trump numa conferência de imprensa na Casa Branca esta segunda-feira. O presidente norte-americano apresentou mais detalhes sobre esta complexa operação de resgate de um militar norte-americano que estava retido no Irão. Este militar estava a bordo do caça F-15, que foi abatido na sexta-feira. Depois de conseguir escapar com vida, mas com graves ferimentos, conseguiu fugir. Fugiu para uma montanha e daí comunicou com as Forças Armadas dos Estados Unidos da América. Partilhou a localização e escondeu-se, à espera do resgate. Nas horas seguintes, arrancou essa missão complexa das Forças Especiais e da Força Aérea Norte-Americana para resgatar com vida este militar. Foi uma operação que envolveu aviões, helicópteros, dezenas de operacionais, bombardeamentos e até uma campanha de desinformação da CIA. Nos próximos minutos, vou conversar com o Major-General João Vieira Borges e vamos tentar explicar, passo a passo, como se desenrolou este resgate. Eu sou o Miguel Cordeiro e esta é a história do dia de terça-feira, 7 de abril. Bem-vindo, Major-General João Vieira Borges.
Muito obrigado pelo convite.
Vamos tentar seguir uma ordem cronológica de toda esta operação. Na sexta-feira, um caça F-15 norte-americano foi abatido no sudoeste do Irão e, na verdade, estamos a falar de um incidente que já não acontecia há muitos anos, mas dois militares norte-americanos que estavam a bordo deste F-15 conseguiram escapar, ejetaram-se. Um piloto foi logo resgatado no próprio dia, o outro, um operador de armamento, ficou isolado numa região montanhosa e pouco povoada no Irão. A Força Aérea Norte-Americana ainda tentou encontrar este piloto, mas sem sucesso. Numa situação destas, o que é que faz este tripulante? Quais são as preocupações que deve ter numa situação destas?
Os cursos de fuga e evasão dizem que ele tem que estar focado na sobrevivência, tem que estar focado na ocultação e tem que estar focado depois em proteger-se, fundamentalmente, independentemente da situação física em que se encontra. A questão mental aqui é muito importante e certamente que foi, porque ele estava ferido, segundo os dados que nós já recebemos, e portanto ele deslocou-se, certamente, para um local menos habitado. A montanha nisso protege e dentro da montanha certamente que havia locais mais favoráveis a proteger-se. Portanto, foi isso que ele fez, certamente. Acionou aquilo que é o sinal de rádio de emergência, que tem transmissão criptografada, e isso é importante para a sua localização pelas forças amigas, e depois, numa fase seguinte, para guiar helicópteros ou as aeronaves que fazem o resgate.
Mas o Irão não tem acesso a essa comunicação de emergência, ou tem e pode com isso também identificar o local onde está esse tripulante?
Não, não pode. Isto é criptografado, há uma série de sistemas que fazem com que não seja detetado. Pode ser detetado de outra maneira, obviamente, agora vamos nos pôr do lado do Irão, que seria com aeronaves com sensores e com os sensores poderia eventualmente detetar o corpo através de fonte de calor, muito especialmente à noite. Isso pode acontecer.
Claro. O Irão, de facto, ofereceu aqui uma recompensa. Para a realidade do Irão era muito dinheiro, mas fazendo aqui a tradução, seriam cerca de 65 mil dólares na conversão para o dólar. Era uma recompensa para quem encontrasse este militar vivo. Esta informação de que havia uma recompensa, de facto, confirma de imediato que o militar está vivo e que está a ser procurado, e também confirma que os Estados Unidos da América passavam a ter muito pouco tempo para conseguir resgatar, uma vez que, de repente, havia uma caça ao homem também dentro do Irão.
Sim, isso é importante. Foi uma luta entre duas partes para chegar a este segundo piloto, porque na prática o primeiro foi logo evacuado por dois helicópteros, que apesar de terem sido batidos pelo fogo, não houve problemas, conseguiram fazer a evacuação ou resgate. Neste caso, como ficou na montanha, ainda por cima o piloto, pelos vistos, apesar de ferido, deslocou-se muitos quilómetros. Já ouvimos aqui vários dados de 10 quilómetros. Uma coisa são 10 quilómetros em linha reta, outra coisa em montanha. Em montanha fica em caverna, se não fica, durante a noite. Portanto, há aqui vários dados que ainda não temos. Será certamente alvo de um filme mais tarde, como disse Trump. Diz que é a maior operação de sempre e, portanto, é sempre tudo maior, desde que seja com ele. Mas neste caso concreto, certamente que isto é uma operação, no seu conjunto Que merece estudo, cuidado e, portanto, todas aquelas escolas que preparam cursos de fuga e evasão certamente vão ter isto como uma grande referência. Sem dúvida.
Este militar viajou, fugiu, podemos dizer assim, para a zona montanhosa. Sabemos que estava muito ferido, dizem os Estados Unidos da América, que estava armado, que ainda tinha uma arma com ele. Os Estados Unidos da América conseguiram localizar este militar e a partir do momento em que tinha a localização identificada, arranca esta missão de resgate. Donald Trump diz que é uma gigantesca operação. Falam em aviões, helicópteros, bombas que foram lançadas para limpar o terreno. Houve tiroteio. A CIA, que também esteve envolvida, aplicou uma campanha de desinformação dentro do Irão para confundir o inimigo. É uma missão muito complexa. Vamos por essas partes. Foi de facto detalhado que antes de as tropas avançarem, a CIA avançou com essa campanha de desinformação, ou seja, espalhou falsamente a informação que as forças americanas já tinham encontrado o militar, quando na verdade ainda não o tinham encontrado. Qual a importância desta espécie de jogo de bastidores, desta preparação de terreno, desta desinformação, quando se vai avançar com uma missão destas?
É que nós estamos em território inimigo. Neste caso, em território inimigo, que está alerta exatamente para a mesma missão: resgatar este homem. Portanto, há que desenvolver todo o tipo de ações. As operações de informação eram importantes para desmotivar quem estava da parte do Irão a cumprir essa missão, mas certamente que não foi suficiente. Por outro lado, depois é preciso desenvolver outras ações, designadamente ações de bombardeamento por parte de aeronaves, certamente que houve, relativamente a esses mesmos perseguidores, sejam tropas isoladas, sejam tropas mecanizadas, sejam sobretudo drones. E certamente que houve ataques a diferentes dimensões e portanto poderia ser uma operação de grande dimensão. Agora, o resgate em si é feito normalmente pelo SEAL e certamente foi feito pelos comandos da Marinha americana. São transportados de helicóptero. Agora, aquilo que nós soubemos de informação é que as primeiras aeronaves, os C-130, os tais dois C-130 que nós vemos nas imagens transmitidas pelas televisões iranianas, e dá para ver perfeitamente que eram C-130, aterraram numa determinada zona de planalto em que o terreno permitia o aterrar, mas depois perceberam que o terreno nunca permitiria a operação de retração. E por isso isto teve várias fases. Há a fase de transportar as aeronaves C-130, que depois têm outras aeronaves no seu interior de menor dimensão para ir resgatar o tal coronel, mas depois quando chegaram ao local perceberam que não tinham qualquer possibilidade sem risco. O risco era enorme de fazer com uma aeronave tão pesada e tiveram que fazer apelo a novos helicópteros, presumo, para numa nova fase irem buscar não só as tripulações dos C-130, não só as forças dos SEAL, mas também o coronel em causa, que era importante, e depois ser transportado para o Kuwait. Portanto, isto é no fundo uma operação que teve problemas enormes também, mas que foram resolvidos, segundo diz o presidente Trump, que não teria havido baixas, ao contrário, depois também do Irão, pois desenvolve as suas operações de informação a dizer que morreram cinco, eles é que destruíram as aeronaves todas. A última versão já é que afinal aquilo era uma operação, mas era para desviar atenções exatamente daquilo que era a tentativa de recolha dos 434 quilos de urânio enriquecido. Agora começa a haver imensas histórias sobre o mesmo assunto, mas efetivamente aquilo que da parte dos Estados Unidos, e com alguma credibilidade, há de informação é que aqueles dois C-130 depois tiveram que ser destruídos para não ficar na posse do inimigo, que é o normal deste tipo de operações em território inimigo.
Estávamos a conversar sobre os aviões C-130 que ficaram presos num terreno mais enlameado. Todos os operacionais tiveram de ser resgatados com outras aeronaves, portanto, o militar que estava a fugir das forças iranianas e que estava a ser alvo deste resgate e todos os operacionais que foram nesta missão para resgatar esse militar. Isto acaba por mostrar que nem tudo correu bem nesta operação, ou seja, teve que se recorrer aqui a um plano B. Qual é o período de tempo que todos estes militares têm para tomar este tipo de decisões? Isto tem de ser tudo muito rápido, acredito.
Tem que ser muito rápido. A noção do tempo para nós é uma, para eles é outra, estando em combate e sobretudo se estiverem a ser alvo de ataque da parte do inimigo ou se estiver o inimigo a aproximar-se e, portanto, desenvolve-se no mínimo tempo possível. Quando eu falo em 30 minutos é demasiado, mas poderá ter sido os 30 minutos, porque as tais aeronaves do plano C, julgo que foram três aeronaves, depois vieram recolher de outro tipo, e não C-130, essas não disseram quais eram ainda. Mas simultaneamente a essas aeronaves que foram resolver o problema, havia certamente ataques a todos os tipos de forças iranianas que se aproximavam do local, seja com drones, que estiveram muito envolvidos e foram destruídos, e isso também foi assumido, mas também com outro tipo de armamento, não só a partir de aeronaves, mas certamente também a partir de mísseis. E portanto, há aqui um conjunto de ações Que só saberemos mais tarde. Mas a questão do problema da descolagem e do problema depois de abandonar e a decisão de destruir as duas aeronaves que ficaram no terreno, isso, pelos vistos, está confirmado e só mostra que a operação, como disse e bem, teve grandes dificuldades, mas que foram resolvidas positivamente, sem perda de vidas humanas. Isso é que era importante para os Estados Unidos.
Claro, mas isto é normal, este procedimento de destruir o equipamento que fica para trás, que não é possível retirar do local. Isto é normal.
É tão normal, eu sou da artilharia, e nós temos formação própria, inclusivamente, para situações como a situação que se viveu em La Lys, isso é mais conhecido dos portugueses na Primeira Guerra Mundial, as peças de artilharia que eram abandonadas eram destruídas ou eram retirados os percutores ou eram retiradas as culatras. É mais difícil que são pesadas. Há determinado tipo de procedimentos. No caso das aeronaves, é a destruição total das aeronaves, porque segundo dados, não era só a aeronave, havia também equipamento que demorava cerca de quatro horas a ser retirado e isso quatro horas já não dava, como falámos do tempo há pouco. Portanto, a solução foi exatamente essa. O equipamento, não sabemos qual era, mas era o equipamento que dispunham os SEALs para vários cenários que estivessem em causa, até inclusivamente armamento de determinado tipo pesado a fazer face à aproximação de tropas do inimigo de grande dimensão.
Estas SEAL, esta equipe, estas forças especiais, servem precisamente para missões deste tipo. É óbvio que aqui a Força Aérea está envolvida, porque estamos a falar de aeronaves também para ajudar nesta situação, mas quem acaba por ir precisamente ao terreno são forças especiais que têm treino específico para este tipo de situações, correto?
Correto, e têm uma experiência longa ao longo da história dos Estados Unidos, os SEALs ainda há pouco tempo também desenvolveram uma grande operação no Paquistão e, portanto, a morte do Bin Laden. Há aqui várias operações que também nós nem sabemos, não temos conhecimento, nem todas podemos ter conhecimento, mas aquelas que são desenvolvidas dentro da legalidade, normalmente são transmitidas. Há livros escritos sobre isso e, portanto, basta um cidadão comum ter noção do que é em termos gerais e como foi transmitido agora, como se passa uma missão destas para perceber a preparação que devem ter esse tipo de forças, arriscando permanentemente a vida, mas sobretudo estando preparados para todos os cenários como foi o caso. Portanto, isto é mesmo um estudo de caso, certamente, independentemente de ser a maior ou a menor, não vou entrar em classificações desse tipo. Independentemente das classificações, é certamente, por causa das questões que nós falámos há pouco, uma operação que vai ser um estudo de caso para este tipo de forças, quer nos Estados Unidos, quer noutros países.
É uma operação complexa, podemos dizer assim. Isso certamente foi. O tripulante ficou gravemente ferido, foi transportado para o Kuweit, está a receber tratamento. Para terminarmos aqui esta nossa conversa, já dissemos que é um resgate digno de filme e que tem que ser estudado, mas no fim de tudo isto, depois da situação, desde o caça que foi abatido, dos aviões que tiveram de ficar para trás e também ser destruídos, e de toda esta operação de resgate que teve algumas complicações, no final, passado este período, podemos falar de uma missão bem-sucedida ou de uma imagem que fica da força norte-americana positiva depois de tudo isto?
Claramente. Nesse aspecto, não havendo perda de vidas humanas, é claramente uma missão de sucesso. Para os Estados Unidos, não há problemas em serem destruídos dois C-130 e mais um F-15. O problema é a vida humana e, portanto, isto é também mostrar grande capacidade militar, grande preparação, mas também mostrar que ninguém fica para trás, que qualquer militar americano em qualquer lado tem sempre a esperança de ser salvo. É uma situação muito positiva para dentro, para a tropa e também para o exterior, numa demonstração de poder único da parte dos Estados Unidos. Poucos países eram capazes de desenvolver uma operação deste tipo, sobretudo quando tivermos toda a informação relativa a esta operação.
Major-General João Vieira Borges, muito obrigado.
Obrigado pelo convite.
Os Estados Unidos da América conseguiram resgatar com vida este militar retido no Irão. E agora Donald Trump promete continuar a ofensiva no Médio Oriente. Já sabe que pode acompanhar tudo o que se passa neste conflito num live blog atualizado ao minuto em observador.pt. Esta história do dia chega ao fim. A sonoplastia é da Mariana Sousa Aguiar, música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Miguel Cordeiro. Até amanhã.