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Esta é a história do dia da Rádio Observador: os minidrones espiões ao serviço da Ucrânia. Mal se ouvem, mal se veem. São uns minidrones que custam muitos milhares de euros e estão a ajudar as tropas ucranianas no combate contra as forças russas. Este som que escutámos é de um vídeo publicado no YouTube pelo fabricante dos Black Hornet, a vespa negra em português. Há já quem chame à guerra na Ucrânia, Game of Drones, numa adaptação livre do título original da Guerra dos Tronos. A tecnologia de ponta tem sido fundamental neste conflito. E se de um lado poupa vidas, do outro intensifica a capacidade de destruição e perturbação da ação inimiga. Que tecnologia é esta? Vou conversar com a jornalista do Observador, Vera Novais, que acompanha temas de ciência. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, Vera.
Olá, Ricardo.
Vera, vamos falar de um objecto que cabe na palma da mão, um Black Hornet ou uma vespa negra, em português. Que raio de drone é este?
Olha, Ricardo, para te dar uma imagem do que é este drone, pensa num helicóptero telecomandado de criança. Podes pô-lo na palma da mão, como tu estavas a dizer. O comprimento é mais ou menos esse, cerca de 17 centímetros, e é superleve, 33 gramas. Pesa muito menos do que o smartphone mais leve que existe, tem 125 gramas, portanto, imagina. E pode descolar da palma da mão do operador. Demora 30 segundos a descolar e parte assim, e regressa à mão, coisa que nós não conseguiríamos fazer com um drone normal, comercial.
Pelo menos nos meus helicópteros de brincar que eu tenho em casa, isso realmente não acontece. Mas sendo tão pequeno, para que serve em termos militares?
Não vai servir para levar armas, como é evidente, pelo menos não por enquanto.
Não levam uma microbala, não.
Não levam uma microbala, nem armas laser, nem nada do gênero. A maior arma, no fundo, é a câmera que tem, porque estes drones pequenos servem, sobretudo, para fazer reconhecimento. Também servem de vigilância. Eles não são só usados em contexto de guerra, como no caso da Ucrânia. Também podem ser usados por forças de socorro ou de segurança. No contexto de um incêndio, eles são capazes de captar imagens mesmo através da cortina de fumo e são importantes por isso. Têm imagem com luz visível, imagem com infravermelhos, captam imagens térmicas e têm imagens de alta resolução, tanto em vídeo como em fotografia, e transmitidas em tempo real.
Mas tendo essa capacidade de visão térmica, é isso, pode operar quase em qualquer circunstância.
Quase em qualquer circunstância, pelo menos é o que eles dizem.
Mas da minha experiência com os meus helicópteros de brincar, qualquer pequeno sopro de vento, lá vai o brinquedo. Como é que ele voa com 33 gramas?
Isso faz parte da tecnologia que tem este drone, que eu não te consigo explicar em pormenor, mas que tem a capacidade de, mesmo com ventos, mesmo debaixo de chuva, se manter no sítio onde tem de estar sem ser arrastado, manter-se estável.
E, obviamente, pode ser usado fora e dentro de casa, mas já lá vamos. E como outros drones, este Black Hornet é pilotado de um centro de comando ou estavas a explicar que podia descolar da mão?
Exato. Ao contrário de outros drones que têm uma dimensão maior e que precisam de um centro de comando, provavelmente computadores para controlarem tudo, este pode ser operado em qualquer ponto, em qualquer trincheira, por assim dizer. O equipamento total pesa cerca de 1,3 kg. Imagina, é uma caixa com dois hangares para dois helicópteros, mais o comando, que tem um ecrã que o piloto ou o operador pode ver a imagem do drone, e um comando que parece quase um comando de televisão, um joystick, que eles podem usar para comandar estes drones.
Isso no terreno, para um soldado apeado, é isso?
Para um soldado apeado. Também vi algumas imagens que mostravam um pequeno veículo terrestre, um rover, como aqueles que vemos de exploração espacial, que transportava uma caixa com, vou-lhe chamar, quatro heliportos, quatro hangares de onde podem sair esses drones. Poderia levar os drones até outra localização e eles partirem daí. Os drones depois têm um tempo de voo de 25 minutos e podem chegar até 2 km.
Ainda é uma distância considerável.
Sim, têm aqui uma abrangência interessante.
Vera, já percebemos que eles são muito pequenos, podem ser usados na rua e também dentro de casa, mas eles emitem um zumbido. É muito suave e ouvimos no arranque deste episódio. Eles não são detetáveis, não são facilmente abatidos, é com o quê? Com o mata-moscas? Não.
Podíamos pensar que sim. Praticamente silenciosos. É assim que é considerado. Basta estarmos na rua, num evento, e ouvimos os drones que estão só a fazer a recolha de imagens do evento, mesmo que eles estejam muito altos, e ouvimos aquele zumbido. Neste caso, a três metros, pode ser quase indistinguível esse zumbido.
A três metros?
A três metros. E imagino eu que num contexto de guerra, com bombas a toda hora, não se detecte este ruído tão facilmente. E depois é muito pequeno. Claro que nós conseguimos ver uma libelinha, que é muito mais pequena, se passar à nossa frente e conseguimos segui-la com o olhar, mas também não será assim tão fácil de detectar. Abater, não sei, mas acho que aqui o que pode ser mais interessante para as forças opositoras é capturar, porque capturando se tem acesso à tecnologia e isso é o que tem mais valor nesses equipamentos.
Já voltamos à conversa com a jornalista Vera Novais. Vamos tentar perceber quanto custam estes pequenos drones e perceber porque são tão importantes na guerra na Ucrânia. Estamos de regresso à conversa com a jornalista Vera Novais, especialista em ciência do Observador. Vera, ainda falta aqui um pormenor muito importante sobre estes mini drones ou micro drones, é melhor chamar-lhes mini, porque se calhar os micro ainda vão ser mais pequenos. Quanto custam, afinal, estes aparelhos?
Olha, eu acho que provavelmente o preço está sob consulta, imagino eu que quem os queira comprar faça um pedido de orçamento diretamente no site, mas os preços que nós conseguimos encontrar para esta terceira geração de Black Hornet, estes drones, foi acima dos €176 mil.
€176 mil. Bem longe dos €50, €60 ou €70 que custam uma espécie de réplicas que também voam e que estão disponíveis na Amazon. E eles têm inteligência artificial?
Eles têm inteligência artificial e esta é a parte da tecnologia que tem tanto valor e que não se quer que caia noutras mãos.
Nas mãos erradas, como se diz nos filmes.
E a empresa de certeza quer guardar estes segredos. Eu não te sei dizer exatamente como é que funciona esta inteligência artificial, mas posso te dizer qual é a utilidade dela. E esta inteligência artificial pode ser usada em missões pré-programadas, para seguir rotas específicas que já tenham sido marcadas, portanto, o drone segue aquela rota, para reagir a mudanças do ambiente. Imagina aquilo que estávamos a falar de ventos, chuva ou fumos, e pode até regressar ao operador ou ao ponto de partida. E tudo isto que eu te tive a dizer, sem ter um controle permanente de uma mão humana, do operador.
De forma automática.
De forma automática e autónoma. Daí a importância da inteligência artificial para identificar estas situações e reagir de acordo.
E quem criou estas máquinas? Quem fornece estes drones?
Estes drones, estes em particular, não sei se existem outros da mesma gama, mas estes em particular são fornecidos por uma empresa norueguesa, a Teledyne FLIR. E quem é que financiou a entrega destes drones à Ucrânia? Existe um fundo internacional pra Ucrânia, que é gerido, vamos dizer, pelo Ministério da Defesa do Reino Unido. E o Reino Unido, a Noruega, a Suécia e outros países têm contribuído para este fundo. No ano passado, já foram entregues 300 drones Black Hornet à Ucrânia. Foram 1000 encomendados agora durante o mês de julho para serem entregues também. E os Estados Unidos anunciaram também esta quarta-feira um novo pacote de ajuda militar à Ucrânia, que vai incluir este tipo de drones. Não te sei dizer quantos, porque não vi informação sobre isso.
E eles são usados, por tudo isso que explicaste, sobretudo como meio de vigilância e funcionam também como os olhos dos soldados a um ou dois quilômetros de distância. Podem ser importantíssimos, por exemplo, para operações especiais e coisas desse tipo.
É exatamente esse o objetivo destes drones, é fazer um reconhecimento do terreno sem ter pessoas a arriscar as vidas para o fazer. Os drones permitem ver à distância, permitem ir aos locais onde estão, neste caso, na Ucrânia, onde estarão as forças russas, e fornecer informação depois realmente às tropas para um ataque ou para aquilo que eles entenderem fazer com a informação que dispõem.
E nesta guerra na Ucrânia, já são usados vários tipos de drones. Estes são pequenos, mas há outros bem maiores. São vários os tipos que estão a ser usados.
Há até quem já refira que esta é a guerra dos drones, é a guerra onde se usam mais drones, onde os drones estão mais presentes.
Game of drones.
Game of drones, exatamente. Um dos drones usados é um drone turco Bayraktar, se eu estiver a dizer isto correto.
Pronúncia irrepreensível.
Impecável. Comparado com este mini helicóptero, é gigantesco, tem 6,5 m de comprimento e a envergadura das asas, ou seja, de uma ponta à outra das asas, são 12 m. É um pequeno avião, que serve também para reconhecimento, mas que também pode ter armas e ser usado para o ataque. Mas como imaginas, é grande o suficiente para ser detectável ou ainda consiga escapar-se. Tem os seus limites. Existem outros drones que cabem numa mochila e esses podem ser drones suicidas, no sentido de serem drones como pequenos mísseis. No fundo, o objectivo deles é identificar um alvo e cair sobre o alvo. São mísseis telecomandados. Mas realmente estes de reconhecimento têm aqui uma importância muito grande para preservar vidas de soldados.
E também há drones, vou chamar-lhes domésticos ou transformados, até porque o próprio exército ucraniano, no arranque desta guerra, foi adaptado, foram muitos civis que foram chamados para esta guerra. Também há aqui uma espécie de transformação do drone doméstico para uma máquina de guerra?
Eu vou usar uma expressão que nós usamos em Portugal, que diz: "A tropa manda desenrascar." E no fundo, isto acontece também, e sobretudo em contexto de guerra, quando os recursos são tão escassos. Uma das soluções que eles encontraram foi realmente pegar em drones comerciais, aqueles que nós vemos por aí a captar imagens de eventos, e adaptá-los para estas missões de vigilância. Claro que têm uma autonomia curta, não voam muito longe, mas pode ser o suficiente para identificar alguns alvos. E além disso, ainda os adaptaram para ser armas de guerra. Põem-lhes um gancho, uma granada artesanal e quando identificam um alvo russo, neste caso, deixam cair essa granada artesanal e podem destruir algum ponto ou matar algumas tropas.
Mas Vera, para operar um drone militar e não esses, isto acarreta alguma dose de complexidade. Mesmo quando estamos a falar de drones ligeiros como os Black Hornet. Isto tem de ser alguém que sabe muito bem aquilo que está a fazer. Isso quer dizer que, também neste aspecto, esta guerra trouxe algo de novo, ou seja, nos pelotões, naquele grupo de 20 ou 30 homens, passou a haver um especialista em drones, que usa drones nas ações normais de combate?
Se não passou a existir, devia existir. É isto que defendem também os especialistas nesta área, porque eu não sei se tu já experimentaste pilotar um drone comercial. Eu já experimentei e não é uma coisa fácil. Aliás, entreguei imediatamente os comandos na mão do operador, que sabia o que estava a fazer, antes que eu destruísse o drone. E os relatos são que, no início da guerra, 95% das quedas de drones eram devido a mau uso, por não saberem utilizar. Portanto, imagina o desperdício de recursos, quando eles são poucos, que estavam a tentar usar sem ter os conhecimentos. Há escolas de treino para a utilização de drones, mas claro que depois cada um terá a sua tecnologia. No caso dos Black Hornet, eles fornecem também treino para os operadores e para os instrutores, ou seja, para pessoas depois poderem ensinar outras. E isto é fundamental, porque se não souberes operar um equipamento, não vais conseguir tirar dele o proveito que poderias tirar. E sempre são umas centenas de milhares de euros nas mãos.
Obrigado, Vera.
Obrigada, Ricardo. É sempre um prazer.
Vera Novais é jornalista do Observador e acompanha habitualmente temas de ciência. Esta foi a História do Dia. E aqui fica aquele pedido para clicar em "Seguir" na aplicação que usa habitualmente para ouvir podcasts, nomeadamente a História do Dia. Para nós é mesmo importante que clique onde diz "Seguir". A sonoplastia deste episódio foi da Beatriz Martel Garcia, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.