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Esta é a história do dia da Rádio Observador: os ucranianos vão aguentar mais um ano de guerra? Dmitri Medvedev já foi presidente, já foi primeiro-ministro e agora é o vice-presidente do Conselho de Segurança da Federação Russa. Nestas declarações a uma televisão russa, Medvedev diz que a tomada de Kiev é uma questão de tempo. A capital ucraniana é, segundo diz, uma cidade russa dominada por uma organização internacional anti-Moscovo, liderada pelos Estados Unidos. Dmitri Medvedev é um homem muito próximo de Vladimir Putin. Neste episódio, assinalamos os dois anos de guerra na Ucrânia. Em que ponto estamos? E o que esperar deste ano? Vou conversar com o major-general Arnaud Moreira, especialista em geopolítica e autor do podcast da Rádio Observador, o "Domínio da Guerra". Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia, sexta-feira, 23 de fevereiro. Bem-vindo, senhor general Arnaud Moreira.
Olá, obrigado pelo convite.
Já aqui fizemos vários balanços sobre a Guerra da Ucrânia. Há um ano, aqui na história do dia, o senhor explicava que a vontade dos povos é determinante para travar os números, por mais avassaladores que eles sejam. Em dois anos de guerra, o que já aprendemos mais? O que esta guerra já nos ensinou?
Continua válida aquela minha expressão de que o poder é a multiplicação da vontade pelas capacidades. Isto é, quando não há vontade, não adianta ter capacidades. Por outro lado, ter capacidades e não ter vontade também não resulta poder nenhum. Portanto, isto mantém-se. Isto é uma expressão que não depende das circunstâncias. O que vai variando ao longo do tempo, e é isso que talvez seja importante verificar, é como é que evoluiu a vontade e as capacidades, como é que elas evoluíram ao longo deste último ano.
E se podemos chegar a um ponto de situação. Como é que estamos agora? Qual é o ponto de situação que podemos fazer?
Eu julgo que nós, neste momento, o que estamos a assistir, mais do que a questão das capacidades, a Federação Russa, nomeadamente Putin e os seus interlocutores, têm se esforçado em ativar a questão da vontade ocidental. A grande guerra não é aquela guerra dos 29 km² de Avdiivka. É todo o simbolismo que isso pode trazer e o auxílio que traz à narrativa de Putin, que é necessária para destruir a nossa vontade. Ora, Putin age através de três grandes linhas de ação: através dos bloqueadores, através dos agitadores e através dos narradores. Vamos lá ver cada uma delas. Os bloqueadores são as pessoas que têm responsabilidades políticas ou na NATO, ou responsabilidades políticas na União Europeia, e que podem bloquear todos os processos que permitam à Ucrânia olhar com segurança para o seu futuro.
Órbán, por exemplo.
Víctor Órbán, Erdogan, Mike Johnson, nos Estados Unidos, são os bloqueadores, porque são pessoas que estão dentro do sistema e podem bloquear todos os avanços que possam permitir um auxílio à Ucrânia. Esses são os bloqueadores. Depois, existem aquilo que eu chamei os agitadores. Os agitadores nem sempre sabem o que fazem, porque agem por motivos que não têm a ver com a guerra. Os agricultores polacos que estão nas autoestradas bloqueando aquilo que é o trânsito dos cereais ucranianos para a Europa e para outros lados, entram neste campo dos agitadores. São pessoas que têm coisas a defender, em que essas coisas a defender acabam por contribuir para que a Federação Russa tenha um acréscimo, uma balança superior em relação à Ucrânia. E, portanto, eles agem por conta própria.
Uma ação quase inconsciente.
O que a Federação Russa faz? A Federação Russa atua nas redes sociais, amplificando todas as vozes de descontentamento, que no final se podem traduzir em manifestações que possam mostrar que, afinal, não existe unanimidade no Ocidente naquilo que é o apoio à Ucrânia. Portanto, já vimos dois intérpretes: os bloqueadores e os agitadores. E agora também há os narradores. Os narradores são pessoas que muitas vezes, sob um perfil de independência, e isso é importante pra poder chegar ao público, não fazem mais do que transmitir a narrativa de Moscou.
Dá-lhes credibilidade.
Dá-lhes credibilidade, de serem essas pessoas a fazer. Há duas extraordinárias. Tucker Carlson é exatamente um destes narradores.
O homem que entrevistou Putin.
O homem que entrevistou Putin é o homem que sem ter uma posição crítica sobre tudo o que ouve, vai basicamente engolindo tudo o que ouve e depois ainda se presta ao serviço de ir glorificando tudo aquilo que vê aqui e ali Procurando mostrar como a Federação Russa é que está no caminho certo. Mas há outros também importantes. Elon Musk foi o homem que providenciou e disponibilizou a rede Twitter, agora X, para a difusão da entrevista de Tucker Carlson. E, portanto, também ele, e basta ver os seus comentários nas redes sociais, está muito mais próximo de Putin do que está da administração norte-americana. E, portanto, como é que se joga sobre a nossa vontade através destes três instrumentos? Os bloqueadores, os agitadores e os narradores. E é isso que tem permitido a Vladimir Putin somar algumas vitórias naquilo que diz respeito à coerência da atuação do mundo ocidental.
E há um ano também falávamos aqui na História do Dia sobre um grau de impreparação da Europa no que toca à defesa para um conflito militar, um conflito desta natureza. Entretanto, soaram os sinos a rebate por parte da NATO, uma exigência pra aumentar para 2% do PIB o orçamento da defesa. Até tivemos nove membros a entrar para a Aliança Atlântica. O que lhe pergunto, senhor General Arno Moreira, é se neste último ano foi feito o suficiente ou se a liberdade que continuamos a gozar aqui deste lado do mundo, esta tranquilidade que felizmente vivemos, ainda nos colocam estes perigos lá bem pra longe, lá uns milhares de quilômetros.
Eu vou ser muito claro sobre isto. A Europa está hoje pior do que estava no início da guerra. Está muito pior do que aquilo que estava no início da guerra. Na verdade, nós desperdiçamos dois anos de preparação para uma guerra, estão absolutamente desperdiçados. Não é que nós não tenhamos auxiliado a Ucrânia, mas auxiliamos a Ucrânia através da entrega das nossas reservas estratégicas. Nada foi feito no sentido de repor as reservas estratégicas. Nada foi feito no sentido de repor a nossa capacidade ao nível do número de efetivos militares.
Portanto, estamos literalmente a gastar munições, é isso?
Estamos verdadeiramente a estar tão depauperados, que a certa altura não temos nem munições pra dar à Ucrânia, nem equipamentos pra dar à Ucrânia, nem equipamentos pra nos defendermos. Porque não basta entregar. Entregar foi o gesto mais útil que nós podemos fazer, mas era o gesto imediato. Mas entretanto, em dois anos produzimos o quê? O que nós produzimos nestes dois anos que nos permitissem encarar, ao fim de passado este tempo todo, que nos permitissem encarar com segurança a nossa própria defesa? Porque quem esteve atento à Conferência de Segurança de Munique, ficou com esta ideia de que nós temos hoje em dia uma perspectiva praticamente unânime de que isto vai sobrar pra Europa, vai sobrar do ponto de vista físico, da confrontação, que vai sobrar pra Europa e que a Europa continua a pensar que não, que isto vai ficar na Ucrânia e muito longe.
E enquanto isso, do outro lado, tendo a Rússia o poderio militar avassalador que tem, também está a gastar munições a uma velocidade estonteante, mas continua com reservas, é isso?
Esse aspecto é muito interessante. Ele tem sido, talvez, excessivamente amplificado em termos daquilo que são as enormes capacidades da Federação Russa, porque isso corresponde à narrativa de Vladimir Putin. Isto não é exatamente assim. E é preciso ler, o Instituto de Estudos Estratégicos produziu uma opinião recentemente sobre isso. O número de carros de combate disponíveis para combate pela Federação Russa hoje é idêntico ao número que tinha no início. Perdeu muitos, terá perdido provavelmente cerca de 3 mil carros de combate, mas foi capaz de recuperar outros 3 mil carros de combate que tinha em depósito. O que a Federação Russa fez foi: conseguiu, com um enorme esforço de guerra da sua indústria, recuperar material que tinha em depósito. Isto é, não é material novo que tem aparecido no campo de batalha.
É recauchutado.
Exatamente. Os números são semelhantes, mas já não têm a mesma qualidade, porque a estes 3 mil, agora há muitos carros de combate T55, como diz o nome, é dos anos 50, T62, como diz o nome, é dos anos 60, etc. Isto é, aquilo que são os carros de combate que a Federação Russa hoje tem no campo de batalha, são em número semelhantes àquilo que tinha no início da guerra, mas já não são da mesma qualidade. Portanto, isto faz-se sentir. O que isto significa? Significa que nós temos uma enorme visibilidade sobre aquilo que são as reservas estratégicas da Federação Russa. Por quê? Porque elas estão ao ar livre.
Estão à vista.
Estão à vista, estão ao ar livre. Portanto, todos os dias passam os satélites pra contarmos o número de viaturas que ainda existem, e continuam a existir muitas. O problema é este que eu digo, é que o que a Federação Russa está a fazer é: para manter a quantidade, teve que abdicar da qualidade.
E do lado ucraniano, o esforço de guerra continua a ser alimentado com munições e armamento E onde raio andam os aviões, os F-16?
Os F-16 não vão aparecer tão cedo, porque os F-16 que foram disponibilizados não eram F-16 que estavam no ativo. Muitos países disponibilizaram F-16 porque entretanto já tinham adquirido outras aeronaves, nomeadamente o F-35 norte-americano, que era de uma outra geração. E, portanto, em vez de deitarem para o lixo estes F-16, eles que estavam também, como eu digo, em depósito, foram fornecidos à Ucrânia. Mas para poderem ficar outra vez operacionais, acontece a mesma coisa que aconteceu aos carros de combate, aos Leopard. Nós oferecemos todos os Leopard, simplesmente os Leopard que oferecemos estavam em depósito, não estavam em condições de entrar imediatamente em operações. Portanto, há dois processos que estão a decorrer. Um dos processos é o processo da formação dos pilotos, que é absolutamente essencial, e o outro é o de fazer os upgrades, as melhorias suficientes nos F-16 que estavam em depósito para lhes dar outra vez uma segunda vida operacional, porque eles já tiveram uma vida operacional anterior. Podem fazer a diferença? Podem fazer a diferença, mas atenção, é que os F-16 vão precisar também de munições e essas munições vão ser os Estados Unidos que vão ter, provavelmente, que fornecer. Portanto, nós arriscamos, no meio desta equação, a termos, a certa altura, pilotos formados, termos aviões disponibilizados e não termos munições para tornar os F-16 operáveis em ambiente de guerra. Isso é um assunto que poderemos falar mais tarde.
Já regressamos à conversa com o major-general Arnaut Moreira, especialista em geopolítica e também em estratégia. Os ucranianos vão aguentar mais um ano de guerra? Estamos de regresso à conversa com o major-general Arnaut Moreira, que podemos ouvir todas as semanas na Rádio Observador, no podcast "O Domínio da Guerra". Senhor general, e a tal contraofensiva ucraniana que se falou durante o ano que agora termina, este ano de guerra, isto não chegou a acontecer ou aconteceu?
Não, ela chegou a acontecer, simplesmente não obteve nenhum dos resultados para a qual estava prevista. Não aconteceu por duas razões relativamente simples. A primeira razão tem a ver com o facto de nós termos demorado muito tempo a entregar o equipamento. Isto é, a Ucrânia tinha montado uma operação. Essa operação era para coincidir de alguma maneira com aquilo que era um momento de maior fragilidade da Federação Russa na enorme frente de batalha. Simplesmente, os carros de combate, os sistemas de artilharia, os veículos blindados, os veículos de combate de infantaria, etc., que foram disponibilizados pelo Ocidente, não chegaram em tempo. Isto é, a Federação Russa teve cerca de seis meses de aviso. Ela não foi surpreendida porque os carros: "Vai acontecer uma ofensiva da Ucrânia."
O que em combate é muito tempo.
Dar seis meses de avanço com uma notícia destas é, no mínimo, um enorme desperdício.
E não são propriamente extraídos.
Exatamente. E, portanto, a Federação Russa passou seis meses a escavar terras, tem milhões de minas para instalar e construiu uma rede defensiva fantástica, apoiada depois com aquilo que foram as reservas de recrutamento, aquilo que eu chamo de criptorecrutamento, que é o recrutamento às escondidas. Isto é, a Federação Russa tem se especializado nesta forma de recrutamento. Por quê? Porque é preciso ir buscar os nepaleses, os sírios, os chechenos, tudo menos os russos. Isto é, se pudermos poupar nos russos, melhor. Se tiverem que ir os russos, que vão os presidiários, enfim, aqueles que estão em condições muito vulneráveis ou abandonados pela sociedade. E, portanto, este criptorecrutamento, que tem resultado, permitiu também à Federação Russa guarnecer pelo menos a primeira linha. E logo que se chegou à primeira linha, se verificou que estava ali um obstáculo praticamente inultrapassável do ponto de vista daquilo que era as fortificações no terreno, daquilo que era o conjunto de campos minados que tinha extensivamente sido montado, etc. E, portanto, foi perdendo fulgor ao fim de poucas semanas e parou.
Estamos num impasse?
Parou. Ficou num impasse. A Federação Russa, entretanto, que tinha posto a sua máquina industrial de guerra toda a funcionar e que tinha mantido aquilo que era todos estes esquemas de criptorecrutamento, de repente ficou com uma capacidade de passar ela própria à contraofensiva. Portanto, a primeira fase é sempre deter a ofensiva e depois aproveitar esse momento de fraqueza para passar à contraofensiva. Era isso que a Ucrânia pretendia fazer. Simplesmente, como demorou muito tempo entre parar a ofensiva russa e passar à contraofensiva, perdeu o momento adequado pra poder fazer.
E no plano político, está ou não a instalar-se aquilo que algumas pessoas chamam a fadiga da guerra entre os aliados ocidentais? A torneira da ajuda pode começar a fechar?
A fadiga é igual para todos os lados. Ela não tem os mesmos reflexos políticos.
Exatamente. Nem as mesmas consequências.
Agora, de um lado e de outro há soldados que estão a morrer. Esses soldados têm famílias, têm primos, têm conhecidos, etc. E toda essa gente está a sofrer. Portanto, os impactos diretos sobre as famílias são iguais, quer do lado ucraniano, quer do lado da Federação Russa. Se calhar até são mais do lado da Federação Russa, porque ela tem perdido muito mais efetivos que os ucranianos. Simplesmente, enquanto que os efeitos sobre a resiliência dos povos ocidentais é tremenda, a Federação Russa tem todos os instrumentos montados para mostrar que são heróis em defesa da sua pátria e a lutar contra o nazismo. E esta narrativa tem permitido fazer com que não haja uma transferência da insatisfação, que resulta destas famílias pela perda dos seus entes queridos, a transformação disso num movimento de natureza política que possa, de alguma maneira, afetar a estabilidade do regime. Portanto, o que nós temos aqui são efeitos políticos diferentes, que resultam de um lado e do outro, quando as perdas do lado da Federação Russa são certamente superiores às do lado ucraniano. Isto levanta-nos um problema, que é o problema da resiliência dos regimes. Nós, Ocidente, temos um problema. Nós podemos montar uma operação militar. Se no primeiro dia morrerem cinco soldados, acabou a operação militar. Nós não temos resiliência para a condução da operação militar.
Achamos que tudo tem que ser limpinho.
Que tudo tem que ser limpinho, que não vai morrer ninguém e que isto vai correr bem, essas coisas todas. Nós não estamos preparados para aquilo que são as surpresas da guerra. Ora, a Federação Russa, que é a herdeira da União Soviética, perdeu milhões e milhões de soldados durante a Segunda Guerra Mundial e ganhou resiliência relativamente àquilo que são as mortes. Portanto, 20 mil mortes na conquista de Avdiivka, por exemplo, não têm efeito político nenhum na Rússia. No Ocidente não era 20 mil, se houvesse algum general que montasse uma operação em que morressem 10 soldados, não estava no seu posto no dia seguinte.
E isso pode fazer diminuir o apoio da opinião pública, por exemplo?
Isto faz com que a opinião pública, a certa altura, deixe de acreditar que seja possível. E esse é o grande instrumento de Putin neste momento, como eu disse, é escrever uma narrativa que mostra como o Ocidente está desunido disto e o Ocidente nunca conseguirá impor uma derrota estratégica à Federação.
É que no arranque da guerra, Putin conseguiu exatamente o contrário, que foi unir o Ocidente.
Exatamente.
E agora temos aqui um outro dado, que vamos enfrentar este ano, em novembro, é que Trump pode ganhar. E o que irá acontecer?
Trump já está a ganhar.
Já está.
Esse é que é o problema. Digamos, se o problema ocorresse só em janeiro, na altura em que-
Ganhar as presidenciais nos Estados Unidos
...ganhar as presidenciais nos Estados Unidos e em janeiro assumia funções e tal. Isso dava-nos todo ainda um ano de preparação, de recuperação, de pôr as máquinas de produção militares a funcionar.
No ano que agora acaba, não funcionou, não é?
Só que nós já não temos esse ano. Esse ano já começou este último ano. Trump parece que está na presidência desde meados de dezembro do ano passado, porque Joe Biden tem sido absolutamente incapaz de obter também os consensos, porque os consensos têm que ser obtidos entre as duas partes, de obter os consensos necessários para que o apoio americano à Ucrânia seja efetivo. Bom, há um aspecto fundamental nisto tudo, que é pelo menos a minha visão sobre isto. Há uma enorme coincidência na visão estratégica entre Donald Trump e Vladimir Putin. E esse ponto comum é que nenhum deles acredita nas instituições multilaterais. As instituições multilaterais foram criadas para evitar a guerra ou diminuir a consequência dos conflitos. Foram feitas para proteger os mais pequenos. Proteger os mais pequenos no sistema internacional é conseguir um conjunto de garantias através das instituições multinacionais, que impeça que os pequeninos acabem por desaparecer no confronto com os grandes. Ora, Putin e Donald Trump têm exatamente a mesma visão do sistema internacional, é que não interessa para nada esta coisa multilaterais.
É uma perda de tempo, não é?
Isso é uma perda de tempo. Isto é, vamos olhar para Donald Trump. Por que Donald Trump há de negociar com a União Europeia? A União Europeia são muitos milhões, são mais de 400 milhões de pessoas. Têm um PIB enormíssimo.
E são uns chatos.
E são uns chatos. Mas por quê? Não gosta nada de negociar com a União Europeia, porque a União Europeia tem peso, é uma instituição multilateral. Se a União Europeia não existisse, Trump iria negociar com cada um dos países. Foi isso que aconteceu na América Central e do Norte, em que ele foi destruir os acordos comerciais que tinha com o México e com o Canadá e foi fazer individualmente um acordo com o México, individualmente um acordo com o Canadá. Isto é, Trump acha que, em face daquilo que é a grandeza e o potencial dos Estados Unidos, os Estados Unidos têm muito mais a ganhar naquilo que é uma negociação de natureza bilateral, em que podem exercer todo o seu poder negocial, do que estarem a negociar com instituições onde muitas vezes o seu voto é absolutamente minoritário em relação àquilo que são os votos de toda aquela gente que está naquelas instituições. Ora, Putin tem também esta mesma visão, a de que as instituições multilaterais só atrapalham naquilo que é aquilo que ele gosta de fazer, que é a aplicação direta do poder violento.
E na prática, se Trump ganhar, o apoio norte-americano, que tem sido fundamental Pode ficar em casa.
Há uma expressão que é talvez, para mim, a expressão mais definidora de Donald Trump, feita em ambiente de campanha eleitoral, certamente, mas eu também não acredito que ele não esteja a pensar assim, que é esta sua noção de que se ele for presidente, a guerra na Ucrânia acaba num dia. Agora, isto só é possível de uma maneira, que é entregar a Ucrânia à Federação Russa. É a única maneira de acabar a guerra num dia, não há outra. E portanto, vejo aqui avolumarem-se um conjunto de problemas que a Europa não vai conseguir resolver em tempo. Não vai conseguir resolver em tempo, porque a Europa não foi capaz, por sua culpa própria, de alimentar a própria NATO. Isto é, os Estados Unidos têm muitas recriminações em relação à forma como nós tratamos a NATO. Em 1977, houve uma reunião da NATO em que foi apontado como gastos de defesa o patamar dos três vírgula qualquer coisa por cento. Três vírgula qualquer coisa. A guerra era fria na altura, não havia uma guerra quente como esta. Mas nós considerávamos adequados, todos considerávamos adequados que três vírgula qualquer coisa por cento seria o patamar adequado. Depois voltamos para os 2%. Mas eu tenho alguma experiência nisto, porque falei com muita gente nestes processos de negociação e das equipas da NATO que vão a cada um dos países para ver esta questão dos 2%. A ideia com que ficamos é: os 2% é a manutenção das capacidades existentes.
Ou seja, é só manter tudo a funcionar.
É certo, só manter tudo a funcionar. Mas isto pressupõe que essas capacidades existem e que estão operacionais. Se, como nós durante anos, nunca investimos os 2% na defesa, as capacidades perderam-se. Portanto, eu agora quando invisto 2%, o que estou a fazer é a manter as atuais capacidades que não estão operacionais.
É pagar a água, a luz e o gás.
Exatamente, pagar a água, a luz, o gás e os ordenados. Isto é, não sobra nada para aquilo que é preciso, que é repor outra vez a capacidade operacional e os 2% são insuficientes para isso. Mas não é só esse o problema, é que nós não temos só que recuperar as nossas capacidades operacionais, nós temos que sustentar a guerra na Ucrânia e para isso é preciso um esforço suplementar do ponto de vista dos gastos com a defesa. Não é só para manter a nossa pouca capacidade operacional, é preciso alimentar a guerra na Ucrânia. Portanto, esta questão dos 2% é uma questão que eu diria que é ridícula, de quem não faz contas sobre esta coisa e que não vê que os 2% não é para esta situação. Os 2% foi um limite, um patamar adequado. E só para terminar, para isto há um problema aqui também, foi que a Alemanha também nunca esteve nos 2%.
Só agora é que está.
Exatamente. E nós todos ficamos com esse conforto. Nós europeus, sobretudo na Europa do Sul, a Alemanha não gasta 2%, portanto eu o que vou dizer é, se me vierem dizer alguma coisa, eu atiro logo para a Alemanha, mas a Alemanha também não gasta 2%. Pois, mas agora a Alemanha já gasta 2%.
E nesta altura, se tudo ficasse como está, falámos dessa hipótese há instantes, se nesta altura, se tudo ficasse como está, ou seja, se Kiev cedesse o controle das zonas ocupadas a Moscovo, a guerra parava ou pelo menos ficava congelada. Que custo é que esta solução poderia ter para todos nós?
Sim. Bom, há três frases que são importantes aqui para perceber esse objetivo, um objetivo político final. A de Lavrov é exatamente a dos territórios ocupados, a dizer: "Podemos chegar a um consenso aqui para pôr o final à guerra, se nos reconhecerem que estes territórios que agora foram ocupados pela Federação Russa pertencem e integram a Federação Russa e, portanto, essa é a base negocial para tudo isto." Esta é a visão de Lavrov, é uma versão soft. Depois há a versão de Putin. Atenção que os territórios conquistados são nossos, efetivamente, mas ainda não procedemos à desnazificação do regime, o que significa que a ambição não é apenas de natureza territorial, é também de natureza política. É preciso substituir o regime que está em Kiev. Não apenas substituir por outro idêntico, mas substituir por um que seja favorável a Moscovo, tal e qual como uma espécie de Bielorrússia 2.0. E depois há aquele que é o de Medvedev, e esse é perfeitamente claro. O Medvedev disse isto sem os rodeios que utilizou Lavrov.
Aliás, ele tem tido poucos rodeios. Já foi presidente, já foi primeiro-ministro.
Ele disse isso com uma frase com poucas palavras: "A Ucrânia nunca existiu, a Ucrânia não existe e a Ucrânia não vai existir." Portanto, mais claro do que isto, não poderíamos encontrar nada que fosse tão claro como isto. O propósito final da Federação Russa não é ficar com os territórios do Donbass e a Crimeia. É moldar um regime em Kiev que seja favorável à Federação Russa. E isso É cada vez mais difícil do ponto de vista político e eu vou explicar por quê. Porque, entretanto, todas aquelas regiões que no passado costumavam votar a favor dos regimes russófonos, já não podem votar no regime em Kiev, porque já foram incorporadas na Federação Russa. Isto é, cada vez mais o horizonte eleitoral disponível na Ucrânia, excluindo os territórios ocupados, não é pró-russo, é claramente antirrusso. Isto é, pela via eleitoral, muito dificilmente a Federação Russa poderia atingir os seus objetivos. Portanto, o que ela precisa para isto? Precisa de uma pressão militar sobre Kiev. A Federação Russa não desistiu de chegar a Kiev. Todos os que acham que vamos tornar a Rússia dócil se lhes fornecermos a Ucrânia e o Donbass, estão a fazer a mesma coisa que fizemos quando achamos que a Federação Russa ia ficar satisfeita em 2008 com os territórios na Geórgia ou com as sublevações do Donbass em 2014 e a anexação da Crimeia em 2014. De território em território, porque a Europa não está preparada para a guerra, vamos cedendo progressivamente à Federação Russa. Esse é o preço que se paga quando não estamos preparados para assumir uma coisa que temos que assumir: é que a guerra pode não ser da nossa escolha, pode nos ser imposta. Nós poderemos não querer a guerra, mas poderemos ter que fazer a guerra. E para ter que fazer a guerra, temos que estar preparados para fazer a guerra. E é isso que ainda não se ouviu no Ocidente.
Senhor General, e os ucranianos vão aguentar mais um ano?
Os ucranianos não têm outra hipótese senão seja aguentar. Aliás, como eu disse, um dos fatores do poder é a vontade. E parece-me que a vontade dos ucranianos não decresceu durante este período. Isto é, nenhum deles hoje em dia quer ser russo outra vez. Não quer ser russo e cada vez quer ser menos russo em face daquilo que têm sido as violências perpetradas pelo regime do Kremlin sobre a população ucraniana. Portanto, do ponto de vista da vontade, a Ucrânia não deixará de ser um obstáculo. A população não deixará ter vontade de combater a Federação Russa. A questão está a ver com o outro lado da equação do poder, isto é, com as capacidades. Com que capacidades poderá contar a Ucrânia para continuar este seu esforço de guerra? É que as manobras que se podem desenhar para isto dependem das capacidades que tivermos montadas. Isto é, eu até posso conduzir apenas uma guerra de guerrilhas quando eu não tenho um exército de natureza convencional, nem armas. Eu posso constituir uma coisa que se prolonga no tempo. Isto consiste basicamente em quê? Em ir eliminando todas aquelas estruturas institucionais que a Federação Russa vai montando nos territórios ocupados. Isto obriga a quê? Obriga a que a Federação Russa tenha um instrumento repressivo enorme na Ucrânia. E o instrumento repressivo enorme é uma coisa que custa muito dinheiro. E há uma coisa que a Federação Russa não tem. Primeiro, não tem muito dinheiro, contrariamente àquilo que nós pensamos. Dizem: "Mas a Federação Russa investe 7% do seu PIB." Mas o PIB da Federação Russa é baixíssimo.
Já viu melhores dias.
Traduzam o que quer dizer 3% dos Estados Unidos em biliões de dólares e o que querem dizer 7% da Rússia. É muito menos dinheiro. Não é só isso, é que os aparelhos repressivos consomem imensa gente. E montar um aparelho repressivo sobre uma sociedade que não quer ser dominada, também tem custos políticos enormes no interior da Federação Russa. Deixe-me só terminar, porque nós podemos ficar com a ideia que a Federação Russa ganhou com isto tudo. Não, a Federação Russa perdeu muita coisa e vai continuar a perder. Ela tem agora uma aliança alargada que vai ter a Suécia, muito brevemente, e já tem a Finlândia. O Mar Báltico transformou-se, entretanto, num mar da OTAN. Há uma nova e longa fronteira de mais de 1400 km com a Finlândia e a OTAN. A Polónia, entretanto, ganhou confiança e está rearmada. 30% da frota do Mar Negro está no fundo do Mar Negro. O risco de operação naval no Mar Negro Ocidental é hoje em dia imenso e a Federação Russa já não arrisca ir para lá. Ganhou uma dependência estratégica da China, que não tinha anteriormente, e tem 300 mil milhões de dólares em bens congelados no Ocidente. Este é o resultado da guerra também, não é apenas a conquista da Avdiyiivka.
Muito obrigado, senhor General.
Foi um prazer. Muito obrigado.
O major General Arnaut Moreira é especialista em geopolítica e o autor do "Domínio da Guerra", um podcast que passa na Rádio Observador às sextas-feiras, às 9h30 da manhã. E recentemente editou o livro "O Domínio do Poder", um verdadeiro manual de geopolítica. Esta foi a História do Dia. Estamos disponíveis no YouTube, no Spotify, na Apple Podcast, entre outras dezenas de aplicações e é para nós uma ajuda muito importante se clicar em seguir, se seguir a História do Dia e, claro, se partilhar este ou outro episódio com um amigo ou um familiar. Muito obrigado pela ajuda. A sonoplastia é do Artur Costa, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até segunda.