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Esta é a história do dia da Rádio Observador: Passos Coelho não quer Belém e São Bento.

Eu limitei-me a assistir a uma sessão na qual o antigo primeiro-ministro e antigo líder do PSD falou no seu futuro político. Qual será o futuro político dele? Isso eu não sei. É o próprio que decide a oportunidade, se, quando, como. Eu limito-me a verificar que ele falou no seu futuro político. Agora, em que cargo e de que maneira...

A 1 de março deste ano, Marcelo Rebelo de Sousa fazia esta declaração na inauguração da Bolsa de Turismo de Lisboa, a BTL, na FIL. No dia anterior, a 28 de fevereiro, o Expresso atribuía uma frase a Marcelo, que era esta: "Se as coisas correrem como é suposto, vale a pena fixar o dia de hoje". Ora, na noite anterior, 27 de fevereiro, Marcelo Rebelo de Sousa e Pedro Passos Coelho tinham participado ambos numa iniciativa à porta fechada em Lisboa. O ex-primeiro-ministro terá falado em horizontes políticos e pessoais, o que na leitura do presidente foi um claro sinal de que não estava excluído um regresso. Daí Marcelo Rebelo de Sousa ter aconselhado fazer uma marca no calendário: 27 de fevereiro. Agora, no final de agosto, uma série de possíveis candidatos à Presidência da República tiveram de marcar terreno perante a declaração de Marques Mendes. O centro-direita suspira pelo regresso de Pedro Passos Coelho, mas será que o ex-primeiro-ministro quer mesmo regressar? E se sim, quer tentar Belém ou São Bento, a presidência ou o governo do país? Vou conversar com Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto de política do Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vindo, Miguel.

Olá, Ricardo.

Miguel, a declaração de Marques Mendes no espaço de comentário na SIC.

Se eu um dia achar que com uma candidatura à Presidência da República posso ser útil ao país, que é isso que conta, que é o país, ter alguma utilidade para o país, tomarei essa decisão.

Estas palavras obrigaram quantos e quais eventuais candidatos a Belém a apresentar-se?

Quase toda a gente que no espaço de centro-direita tem alguma ambição ou é lhe apontada alguma ambição nesse sentido, foi obrigada a mostrar parte do seu jogo. Tivemos Durão Barroso a dizer taxativamente: "Não contem comigo". Tivemos Rui Rio reagindo a uma notícia do Público, que dava eco de rumores que já circulam há bastante tempo no interior do partido, a dizer que não tem vontade de regressar à vida política ativa. Tivemos Pedro Santana Lopes, que aqui mesmo no Observador tinha dado um tiro de partida nesse sentido, fazendo alguns reparos a Luís Marques Mendes e dizendo que está em jogo, ainda não confirmando, naturalmente, uma candidatura à Presidência da República. Enfim, tivemos muita gente destas figuras, das principais figuras que surgem geralmente nos estudos de opinião a dizer alguma coisa sobre o assunto.

E Paulo Portas?

Paulo Portas, que não sendo do PSD, é frequentemente apontado como um dos candidatos em melhores condições de representar o centro-direita nessa corrida à sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa.

E tem comentário ao domingo.

E tem comentário ao domingo, tal como Luís Marques Mendes, aproveitou a Universidade de Verão do PSD, para a qual tinha sido convidado, para aconselhar algum bom senso ao espaço centro-direita, dizendo que este não era o tempo. Ora, quando alguém diz que este não é o tempo para se pronunciar, não fecha em definitivo a porta. E parece-me que o antigo líder do CDS quis fazer isso, manter todas as cartas em cima da mesa, sem se comprometer com uma eventual candidatura à Presidência da República e dando um sinal importante ao espaço centro-direita, que as próximas eleições europeias vão definir muita coisa. Vão definir, sobretudo, se Luís Montenegro continua ou não na liderança do PSD e como é que se vai reorganizar essa mesma direita.

A mim parece-me que para o espaço não socialista, a prioridade é construir uma alternativa que suceda ao doutor António Costa. Não é encontrar um sucessor para o professor Rebelo de Sousa.

Mas a pairar sobre todos estes nomes, todos esses potenciais candidatos, há um outro nome que é o de Passos Coelho. Pedro Passos Coelho é ou não um potencial candidato à Presidência da República?

O nome de Pedro Passos Coelho paira sempre que se fala do futuro do centro-direita, precisamente porque há o reconhecimento de que esse centro-direita ou essa direita está fragmentada. Vimos, a título de exemplo, André Ventura, outro que já foi candidato à Presidência da República e é outra figura que não afasta por completo essa hipótese, a dizer na SIC que se Pedro Passos Coelho decidisse eventualmente entrar nessa corrida, ele, de facto, Pedro Passos Coelho, era um candidato agregador à direita e que poderia fazer repensar uma candidatura de André Ventura.

Não vou fazer comentários sobre isso. Eu não tenho que preferir. É evidente que eu acho que Pedro Passos Coelho seria, eventualmente, um candidato que à direita seria mais agregador.

Portanto, é neste contexto Pedro Passos Coelho surge frequentemente apontado para várias coisas, uma delas para a sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa. Ora, quem o conhece bem, vem dizendo há muito tempo e com muita insistência que o antigo primeiro-ministro não alimenta ambições presidenciais, que não se revê no tipo de cargo, que não se quer meter nem ser envolvido nesta corrida prematura às presidenciais de 2026 e que, portanto, sempre que o apontam como eventual candidato, quem o conhece bem vai dizendo que isso não passa pelos planos de Pedro Passos Coelho, a menos, claro, e temos que fazer sempre essa salvaguarda, que aconteça algo de muito extraordinário, que não parece ser o caso, visto que já há muita gente em boas condições à direita de tentar suceder a Marcelo Rebelo de Sousa.

Então Miguel, a ver se percebi aquilo que acabaste de dizer. A Passos Coelho, num eventual regresso, que ainda não sabemos se acontecerá ou não, interessa-lhe mais São Bento do que Belém. É isso?

Não me querendo substituir a Pedro Passos Coelho, que é dono e senhor do seu destino político e percurso, são esses, pelo menos, os sinais que vai dando a quem lhe pergunta. E, portanto, o antigo primeiro-ministro sempre assumiu publicamente, até quando se recandidatou à liderança do PSD em 2016, já pós geringonça, já na oposição, Pedro Passos Coelho tem uma declaração que é reveladora do seu estado de espírito na altura e, arrisco-me a dizer, de agora, que é o seu projeto para o país, cito: "Estava inacabado." Ia a meio. Pedro Passos Coelho sempre entendeu, até porque chegou a primeiro-ministro em circunstâncias, como sabemos, muito especiais, sempre entendeu que o seu projeto obrigaria ou necessitaria de dois mandatos para estar completo. E sempre que vai comentando com os seus mais próximos as suas eventuais ambições políticas, que não passam necessariamente por voltar à vida política ativa, pode passar por um espaço que tem alimentado alguma intervenção política e cívica, sem necessariamente um cargo, mas sempre que lhe falam em presidenciais, Pedro Passos Coelho vai lembrando que tem um perfil mais executivo e que há muito ainda por fazer nesse campo. E se tivesse que apostar com base em todos os dados que temos, Pedro Passos Coelho fechou, aparentemente, a porta a essa corrida a Belém.

Ora, se Passos Coelho prefere São Bento a Belém, em que medida isso poderá ser ou não um problema para o atual líder do PSD, Luís Montenegro? É uma pergunta que fica para quando voltarmos à conversa com o jornalista Miguel Santos Carrapatoso. Regressamos à conversa com Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto de política do Observador. Miguel, a acontecer o tal regresso, Passos Coelho não estará então tão interessado na presidência, mas sim na chefia do governo. Isto é ou não um problema para Luís Montenegro, que é o atual presidente do PSD?

Por partes. É já um problema para Luís Montenegro sem que Pedro Passos Coelho tenha feito qualquer coisa nesse sentido. E é um problema porque criou-se em torno de Pedro Passos Coelho o mito sebastiânico.

Exato, é quase um D. Sebastião.

De que quando ou se regressar, a direita voltará a ser coesa e voltará ao governo, ao poder. E é muito difícil, tal como foi para Rui Rio, é muito difícil para Luís Montenegro, que é no fundo uma criatura política de Pedro Passos Coelho, ultrapassar o mito. É impossível ultrapassar o mito, porque sabemos, o mito não responde a perguntas, não é escrutinado. Para qualquer líder do PSD, o mito de Pedro Passos Coelho seria sempre muito difícil de ultrapassar. Isso está a ser difícil de ultrapassar para Luís Montenegro, que tem tido um arranque de liderança do PSD que tem dividido o partido. É natural, o PSD nunca ficaria em paz porque não é essa a natureza do partido, mas há muita gente que olha para Luís Montenegro e não necessariamente gente ligada a Rui Rio ou outros setores do partido, que não vê um líder convincente. E quando existe o mito Pedro Passos Coelho e quando há gente no partido a achar que Luís Montenegro não tem feito o suficiente, tudo isto somado prejudica em muito a afirmação de Luís Montenegro.

Mas vai ter agora uma grande prova, que são as eleições europeias.

Sim, e é isso que se agarra a direção do PSD e os homens mais próximos de Luís Montenegro, homens e mulheres, naturalmente, que é quando Luís Montenegro provar o que vale nas urnas, a questão da liderança ou da sua sucessão desaparece. Será a legitimação completa de Luís Montenegro, que teve uma vitória acima de qualquer dúvida nas eleições internas do partido e se provar aquilo que vale nas próximas eleições europeias, devolvendo o PSD ao caminho das vitórias, é preciso recordar Que o partido está há muito tempo afastado dessas mesmas vitórias. Se Luís Montenegro fizer um brilharete nas próximas europeias, nem o mito de Pedro Passos Coelho ou de qualquer outro candidato, como Carlos Moedas, que é recorrentemente mencionado nestas questões, nem esses, nem mais ninguém, impedirão Luís Montenegro de ser o candidato do partido nas eleições legislativas de 2026.

E se a vitória for por pouco, ou se for mesmo derrotado?

Aí é que as coisas se complicam. É preciso perceber que o PSD, que era conhecido por ser uma máquina de triturar líderes, tem sido mais tolerante do que era. É preciso recordar que Rui Rio, não tendo vencido qualquer eleição nacional, e aqui incluo legislativas e eleições europeias, viu ser-lhe renovada a confiança por duas vezes. E duas vezes contra candidatos fortes, Luís Montenegro e Paulo Rangel, que toda a gente dizia que ganharia com grande facilidade. E, portanto, é preciso saber se no caso de uma vitória sem brilho ou de uma derrota por pouco, se o PSD terá ou não a mesma tolerância. É importante também para termos como chave de leitura, duas declarações de Luís Montenegro sobre esse assunto. Primeiro, numa entrevista ao Observador, em maio de 2022, ainda antes de ser líder do partido, portanto, nas eleições internas, em que Luís Montenegro disse que não era necessariamente obrigatório que um líder que perdesse as europeias saísse. E agora, mais recentemente, em entrevista à RTP, dizendo que uma derrota por pouco não seria um mau resultado, atendendo àquilo que tem sido o histórico do PSD.

O PSD perdeu as últimas eleições europeias por 12 pontos percentuais. Se o PSD ficar a dois ou três pontos, acham que é um mau resultado?

Pergunte-lhe.

Não, mas acha? Eu não acho.

Essa declaração, sobretudo esta última, provocou uma grande estupefação no partido e um grande desconforto. Tanto que Luís Montenegro, nesta universidade de verão, veio tentar corrigir o tiro e dizer claramente que o objetivo do PSD é vencer as próximas eleições europeias.

Sim, nós estamos aqui para ganhar as próximas eleições europeias.

Posto isto, se o PSD não vencer as próximas eleições europeias, há muita gente no partido que vai fazer a seguinte leitura: se o líder do PSD, nestas circunstâncias tão difíceis para o PS, não consegue ganhar umas europeias, que são tradicionalmente usadas para castigar o governo em funções, não será capaz de vencer as eleições legislativas de 2026. Não existirá o balanço, não existirá o momento. E, portanto, será muito difícil para Luís Montenegro, que tem um controle muito confortável do aparelho social-democrata, ficar à frente do partido, sobretudo se Pedro Passos Coelho for convencido, de facto, a avançar.

Porque o fantasma continua lá, não é?

Sim, continua e a direção do PSD e as pessoas que são próximas de Luís Montenegro resolvem a coisa muito facilmente, que é, primeiro, aquilo que dizia há instantes. Se o PSD vencer as eleições europeias, dificilmente alguém pedirá a cabeça de Luís Montenegro, portanto, terá tudo para ser candidato nas próximas legislativas, candidato a primeiro-ministro. Isso, portanto, depende apenas do trabalho do próprio e do partido. E, num segundo momento, a certeza ou conforto de que Pedro Passos Coelho nunca enfrentará Luís Montenegro, nunca entrará em confronto direto, nunca empurrará Luís Montenegro pela borda fora. Isso é confirmado também por gente que é próxima de Pedro Passos Coelho. Agora, tudo isto é verdade, mas Pedro Passos Coelho não precisará de abrir a boca para que muita gente que continua a suspirar por ele, apareça para pedir a cabeça a Luís Montenegro em caso de derrota nas próximas europeias.

Mas aqui chegados, Miguel, já alguém conseguiu perceber se o próprio Pedro Passos Coelho já deu sinais concretos ou não de que quer mesmo voltar à política?

Não. A resposta mais simples, não, até porque Pedro Passos Coelho tem reservado para muito pouca gente respostas fechadas nesse sentido. O que vai dizendo é que tudo está em aberto, que não exclui essa hipótese, não exclui um dia voltar à vida política ativa, até porque é bastante jovem e porque tem ainda na sua cabeça a ideia de que pode acrescentar alguma coisa ao país.

Não há nenhuma razão pra eu dizer que nunca mais na vida faço coisa nenhuma, porque seria uma tolice dizer coisas dessas, seria um absurdo. Mas não estou a pensar em coisa nenhuma, estou muito fora de tudo e assim pretendo continuar, está bem?

A presença nestes eventos não pode gerar essa confusão?

Estes eventos são eventos acadêmicos, está bem? Obrigado.

Portanto, não há ninguém que possa jurar a pés juntos que Pedro Passos Coelho tenha dito que sim ou que não. Mas há um dado que encaixa naquilo que dizia há instantes. Pedro Passos Coelho, em primeiro lugar, nunca empurrará Luís Montenegro borda fora e, em segundo lugar, e talvez mais importante, só aceitará ponderar um eventual regresso à liderança do PSD se achar que tem condições reais de ser um bom candidato a primeiro-ministro e se o partido concluir que está tão mal, que é quase preciso ir às reservas buscar aquele que é, neste momento, considerado à direita a figura com maior capacidade de agregar todo esse espaço. Portanto, se estas duas condições se verificarem, ou seja, se ele achar que tem alguma possibilidade de ser um candidato sério a primeiro-ministro e se achar e sentir que o partido precisa, de facto, dele, então o que nos dizem, quem conhece bem Pedro Passos Coelho, é que aceitará ponderar essa questão. Mas reparemos que estamos aqui a falar de vários cenários em cima de cenários.

Cenários, exato.

Primeiro, que o PSD perca as eleições europeias, o que não é um dado adquirido. Segundo, que o partido se volte, de facto, para Pedro Passos Coelho. E em terceiro, que o próprio sinta que tem condições para ser um bom candidato. Portanto, é muito prematuro e além de arriscado, dizer que Pedro Passos Coelho está desejoso para voltar. Não é essa de toda a leitura que deve ser feita, mas sim estar atento aos sinais que são dados pelo partido e mais importante que isso, o resultado das eleições europeias de junho de 2024.

Obrigado, Miguel.

Obrigado, Ricardo.

Miguel Santos Carrapatoso é o editor adjunto de política do Observador. Esta foi a História do Dia e neste episódio ouvimos sons recolhidos pela Rádio Observador e ainda declarações registadas pela SIC, RTP e CNN. A sonoplastia é do Dioca Zinha, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até segunda.