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Esta é a história do dia da Rádio Observador: por que caiu o governo em Espanha?
Acabo de manter um despacho com Sua Majestade o Rei, em que comuniquei ao chefe do Estado a decisão de convocar um Conselho de Ministros esta mesma tarde para dissolver as Cortes e proceder à convocatória das eleições gerais, no uso da prerrogativa que a Constituição atribui ao presidente do governo.
Na primeira declaração depois das eleições autonómicas e municipais deste domingo, em Espanha, o presidente do governo anuncia legislativas antecipadas para 23 de julho. Pedro Sánchez está no poder há cinco anos, lidera o Partido Socialista em Espanha e um governo de esquerda que integra radicais e independentistas. O que falhou para justificar a queda do governo e a derrota da esquerda? E se a direita vencer, o Vox vai pro governo em Espanha? São algumas das perguntas para a conversa com Diogo Noivo, investigador e autor do livro "Uma História da ETA". Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vindo, Diogo.
Olá, Ricardo.
Diogo, que eleições foram estas?
Foram eleições autonómicas e eleições municipais. Foram a votos 12 das 17 comunidades autónomas espanholas e foram a votos mais ou menos 8 mil municípios. São eleições com cunho marcadamente local, muito embora o presidente de governo em funções, o primeiro-ministro Pedro Sánchez, entendeu fazer deste ato eleitoral um plebiscito ao governo.
E para percebermos melhor essa decisão, temos que olhar para os resultados. Quais foram os resultados gerais destas eleições regionais? E podes nos dar aqui um ou dois exemplos para percebermos a dimensão do que aconteceu?
A dimensão é uma derrota estrondosa pro Partido Socialista Espanhol. Há várias formas de nós podermos demonstrar esta derrota. Uma delas é olhando para as comunidades autónomas. Das 12 comunidades autónomas que foram a votos, 10 pertenciam ao Partido Socialista. O Partido Socialista ficou com três, portanto, saiu das eleições de domingo, dia 28, com três comunidades autónomas. O PP passou de duas para cerca de sete. Em termos de municípios, 8 mil municípios há muito para onde pegarmos. Dou-te o exemplo da Andaluzia. A Andaluzia é uma região majoritariamente à esquerda, já há mais de um século que é uma região muito à esquerda. Pois bem, todas as capitais de província são agora do Partido Popular.
Incluindo Sevilha.
Incluindo Sevilha, que é uma das grandes novidades das eleições de domingo, em que a capital mais importante da Andaluzia fica nas mãos do centro-direita, o que era algo impensável há não muito tempo. O PSOE não só perde em termos estritamente numéricos, como perde também importantes bastiões tradicionais do socialismo espanhol.
E quais são as razões para esta derrota? Consegues elencar algumas?
São eleições locais e a dinâmica local tem sempre alguma relevância. Mas como te disse há pouco, o fato de ser um plebiscito ao governo é com certeza uma avaliação daquilo que tem sido o poder executivo em Espanha. Espanha tem um governo composto pelo Partido Socialista e pelo partido de esquerda radical Unidas Podemos. É um governo que tem sido relativamente instável, com muitas guerras dentro do próprio governo. Além do mais, o Partido Socialista tem acordos parlamentares com partidos separatistas radicais catalães e bascos, partidos alguns deles de matriz abertamente xenófoba. No caso basco, temos o partido Bildu, que é um herdeiro orgulhoso da organização terrorista ETA. Tanto assim é que nas listas pras eleições municipais apresentou 44 membros da ETA, sete dos quais condenados por homicídio. O Partido Socialista construiu ou alicerçou o seu poder num conjunto de alianças, num conjunto de acordos que, para uma fatia muito significativa do eleitorado, sempre foram acordos pouco simpáticos e eu creio que as eleições locais são também um reflexo disso.
E já falaste nisso, e até por cá, em Portugal, há quem defenda que as eleições locais não devem ter leituras nacionais, mas Pedro Sánchez tem um entendimento contrário.
O sentido do voto transmite uma mensagem que vai além. E por isso, como presidente do governo e também como secretário-geral do Partido Socialista, assumo em primeira pessoa os resultados e creio ser necessário dar uma resposta e submeter nosso mandato democrático à vontade popular.
E ele, no fundo, aproveita este momento para deitar o governo abaixo. Por quê?
Ele antecipa eleições por várias razões. Em primeiro lugar, para evitar que o centro-direita tenha muito tempo pra festejar a vitória.
Porque as eleições deveriam acontecer em dezembro.
Sim, não havia data definida ainda, mas estavam previstas algures pro final do ano, muito provavelmente para dezembro. Pedro Sánchez, ao antecipar as eleições, está a assumir, evidentemente, a derrota, que as coisas não correram bem ao Partido Socialista, e antecipa as eleições para Não permitir que o centro-direita possa festejar durante muito tempo e tenha que se preparar para as legislativas. Antecipa também para retirar espaço e tempo ao seu próprio partido. Pedro Sánchez tem, há muito tempo, críticos internos, nomeadamente importantes barões do Partido Socialista, alguns dos quais perderam agora o poder porque eram líderes de comunidades autônomas. Uma parte importante do Partido Socialista tradicional, de matriz social-democrata, que vem na linha de Felipe González, que foi uma importante figura do Partido Socialista. Esse Partido Socialista entende que Pedro Sánchez atravessou todas as linhas vermelhas ao constituir o atual governo e já há muito tempo que há gente muito importante no PSOE a distanciar-se de Pedro Sánchez. Ao antecipar eleições, Sánchez não dá tempo ao próprio partido pra que se abra um debate sobre o legado e que talvez se arranje até um sucessor para Pedro Sánchez.
Porque ele fica, não é? É ele que vai à eleições.
Ele fica, tudo indica que irá a eleições. Sim. E portanto, a antecipação deve-se a fechar espaço à direita para não festejar e ao seu próprio partido para não lhe arranjar um substituto. Há uma outra dimensão importante, que é a da esquerda à esquerda do Partido Socialista. Pedro Sánchez sabe que sozinho não ganha eleições e precisa do apoio dos partidos de esquerda radical e até de alguns partidos de extrema-esquerda. Ora, esse campo da esquerda radical é um campo desavindo. São muitas as guerras entre os vários partidos de esquerda radical. O Podemos, que é, ou era até domingo, o partido mais importante, teve uma derrota fortíssima e é hoje um partido irrelevante, quer no domínio municipal, quer no domínio regional. E Pedro Sánchez precisa da esquerda, a sua esquerda organizada. Ao antecipar eleições, dá 10 dias pra que estes partidos de esquerda se organizem e consigam criar uma frente conjunta. Há uma nova plataforma política chamada Sumar. É uma plataforma criada pela atual ministra do Trabalho, Yolanda Díaz, uma militante de longa data do Partido Comunista Espanhol. Ela está a tentar federar estes partidos da esquerda radical há algum tempo, mas tem encontrado resistências, nomeadamente por parte do Podemos. E Pedro Sánchez ao querer acelerar o calendário e dar 10 dias, o que está a dizer é: meus senhores e minhas senhoras, entendam-se, porque temos que ir a eleições e se não se organizarem, necessariamente a esquerda perderá pra direita.
Já voltamos à conversa com o Diogo Noivo, investigador e especialista em política espanhola. Voltamos à conversa com o Diogo Noivo, investigador, autor do livro "Uma História da ETA". Diogo, Espanha entrou num novo ciclo político?
"España dio ayer el primer paso para abrir un nuevo ciclo político y convoco, desde este mismo instante, a todos a culminar ese ciclo político que finaliza el 23 de julio."
O líder do centro-direita, Alberto Núñez Feijóo, o vencedor da noite eleitoral de domingo, considera que sim, considera que mudou a maré.
Muito provavelmente terá mudado a maré. A dimensão da derrota é muito grande, visto que o próprio primeiro-ministro quis encarar estas eleições de forma plebiscitária. Há um cartão vermelho evidente ao governo. E parece-me que há, de facto, uma mudança de maré. Agora, era importante que Núñez Feijóo tivesse o discernimento de perceber que não podemos fazer uma transposição direta dos resultados de eleições locais pra eleições nacionais. Tanto mais que, como falamos há pouco, Espanha tem 17 comunidades autônomas, foram a votos 12. Há outras importantes comunidades autônomas, Catalunha, País Basco, onde a esquerda tem um peso significativo, e isso tem que entrar nas contas também.
E o PP também está organizado depois daquelas confusões todas a que assistimos?
O PP parece finalmente estar organizado. De facto, a história recente do PP não tem sido fácil. Tem havido uma enorme instabilidade. Há não muito tempo, um líder promissor, que era Pablo Casado, acabou por ter de abandonar o partido. Alberto Núñez Feijóo é um homem já muito experimentado na política espanhola, foi presidente da Comunidade Autônoma da Galiza durante muito tempo e com manifesto êxito. Agora, no domingo, foi a eleições pela primeira vez enquanto líder do PP e o resultado é manifestamente positivo. E acreditando que política também se faz de tendências e de ondas, a onda é claramente favorável ao PP. Agora, daí, perdoe-me a expressão, achar que isso são favas contadas, não me parece que se possa dar já esse grito de vitória.
E continuando aqui nos mares da direita, o Vox também ganhou ou não?
Vou ser salomônico: sim e não. Ganhou face às últimas eleições locais, há um aumento muito significativo da votação no Vox e, mais importante, o Vox passa a ser determinante para a governabilidade à direita, quer em câmaras municipais, quer em algumas regiões autônomas. E nesse sentido, há uma vitória do Vox. Agora, importa não esquecer que nas últimas legislativas, o Vox teve 3.640.000 votos. Nestas teve 1.5 milhão. Ou seja, eleições locais são diferentes de eleições legislativas, mas o Vox, face às últimas legislativas e, insisto-
Em termos nacionais
...em termos nacionais, e pensando que estas eleições foram entendidas em termos nacionais também, apesar de serem locais, o Vox perdeu 2 milhões de votos. E tem poder, torna-se essencial pra governabilidade, mas face às últimas legislativas, recuou. E isso faz com que eu esteja convencido, e já estou há algum tempo, que o Vox terá atingido o seu patamar de crescimento. Agora Evidentemente, passa a ter um peso local que até agora não tinha.
Mas olhando aqui já para as eleições nacionais, que já faltam menos de dois meses, se o PP vencer estas eleições de 23 de julho, vai precisar do Vox para formar governo? Vamos ter o Vox no governo de Espanha?
Essa é uma das grandes perguntas. Não sabemos a resposta. É provável que sim, que necessite. Alberto Núñez Feijóo disse já várias vezes que não quer alianças com o Vox. A sua estratégia parece ser a de conquistar o centro. De maneira muito simples, o que Núñez Feijóo nos está a dizer é que o Partido Socialista, centro-esquerda, faz acordos e alianças com todos os radicais e com todos os extremistas, mas o PP, centro-direita, não. E, portanto, o PP estará a tentar reivindicar para si o centro além da direita que mantém.
Mas desculpa, Diogo, estabeleceu algum cordão sanitário ou não? Que é uma expressão que temos usado muito por cá.
Não, não estabeleceu um cordão sanitário, até porque o PP tem acordos com o Vox.
A nível local.
A nível local, acordos ou de governo ou de incidência parlamentar nos parlamentos regionais. Temos e tivemos exemplos disso em Madrid, na Andaluzia, Castela e Leão, menor medida em Múrcia. E, portanto, está aberto o precedente. O PP já se entendeu com o Vox no plano local, mas já se entendeu com o Vox. E o resultado desses entendimentos pode ser surpreendente para algumas pessoas, porque das alianças entre o centro-direita e a direita radical, a direita radical saiu sempre a perder. Sempre. E, portanto, é o PP que beneficia das alianças com o Vox. Parece que quando o Vox é chamado a ter responsabilidades governativas ou de apoio à atividade governativa, o Vox fracassa. Mostra-se um partido bastante infantil, bastante radical, incapaz de apresentar soluções tangíveis para os problemas reais das pessoas e, portanto, o PP acaba sempre por sair por cima como o sócio e o parceiro responsável, com sentido de Estado, institucional, capaz de resolver os problemas quotidianos das pessoas. E, portanto, a inexistência de cordões sanitários no plano local não tem beneficiado a direita radical, pelo contrário, tem beneficiado o centro-direita.
Se vuelve a visibilizar con toda claridad que es Vox quien confirma la posibilidad de la alternativa en España. Y puedo decirles que esa alternativa existirá.
Abascal diz que para haver governo tem de existir Vox no governo. Isso também, de alguma forma, poderá ser usado pelo PSOE como argumento de campanha?
Esse é claramente, ou parece-me que será esse o principal argumento de campanha, que é agitar o regresso do fascismo. É claro que isto dava para longas horas de conversa. O Vox não é um partido fascista, nem pouco mais ou menos, é um partido radical, claramente populista, mas não é um partido fascista. Seja como for, em Espanha temos este contexto muito particular, em que temos o centro-esquerda socialista que celebrou acordos e coligações com a esquerda radical, com a extrema-esquerda, com separatistas, com partidos que são contrários à Constituição Espanhola, com partidos que são contrários àquele que de mais elementar existe no Estado de direito democrático. Aos olhos de uma parte importante do eleitorado, os socialistas não têm legitimidade nem autoridade para agitar o papão do extremismo quando abriram todos estes precedentes. Eu creio que o PP se aproveitará naturalmente desses precedentes.
E ainda temos de falar daquela que era a colchonete do centro-direita, que era o Ciudadanos, que teve aqui o seu canto do cisne.
Parece-me que definitivamente o Ciudadanos é um partido que está em clara decadência há muito tempo. A decadência do Ciudadanos começa precisamente com a formação do atual governo espanhol. O Partido Socialista tinha duas hipóteses: ou se aliava ao Ciudadanos ou se aliava à esquerda radical. O Ciudadanos decidiu fazer um cordão sanitário à volta de Pedro Sánchez, dizendo: "Com Pedro Sánchez, nunca." E eu creio, e os números que conhecemos mostram isso, uma parte importante do eleitorado do Ciudadanos não perdoou isso ao partido. O Ciudadanos importa lembrar que nasce no centro-esquerda, é um partido liberal, abertamente liberal, mas nasce no centro-esquerda. Uma parte do seu eleitorado vinha do centro-esquerda, em particular do Partido Socialista, e esse eleitorado não viu com bons olhos que o Ciudadanos tivesse entregue o Partido Socialista nas mãos dos radicais. E portanto, para o eleitorado tipo do Ciudadanos, era preferível manter Pedro Sánchez ao centro do que o empurrar para a esquerda radical. E portanto, o Ciudadanos pagou e está a pagar a fatura disso. Está a pagar a fatura também de algum cesarismo do seu antigo líder, bastante famoso, Albert Rivera, que era um homem apaixonado por si próprio. E tudo isso passou fatura ao partido e o partido não foi capaz de se refazer nem de se reinventar depois de Albert Rivera.
E Diogo Noivo, depois de duas eleições legislativas no mesmo ano, em 2019 para antes A incerteza do atual cenário político. Podemos assistir em 2023 àquilo a que assistimos em 2019 e ter duas eleições no mesmo ano ou não?
Podemos assistir a tudo, porque já tivemos repetição eleitoral também em 2015 e 2016. Tivemos uma moção de censura de Pedro Sánchez. Em Espanha, as moções de censura são construtivas, o que significa que o partido que a apresenta tem que criar uma alternativa de governo. Depois Pedro Sánchez vai a eleições. Aliás, a imprensa espanhola, quase todos os sites da imprensa espanhola já têm uma coisa chamada pactômetros, em que nós podemos de maneira interativa fazer contas e ver que entendimentos partidários é que são possíveis. Portanto, nós podemos, de facto, ver tudo. Isto é um sinal de várias coisas. É um sinal do fim do bipartidarismo espanhol, que era tradicional.
Mas não sai reforçado com este resultado.
Não creio. Eu acho que o bipartidarismo espanhol acabou, foi morto pelo Ciudadanos e pelo Podemos, curiosamente, partidos que morrem agora.
Que morreram agora.
Exatamente. A chamada nova política espanhola acabou com o bipartidarismo, mas não foi capaz de edificar nada de positivo e não durou. E portanto, o fim do bipartidarismo e a pulverização partidária leva certamente a estas dificuldades em fazer acordos. Depois, por outro lado, Espanha não tem tradição de coligações. O atual governo espanhol é o primeiro governo de coligação desde os anos 30, desde a Segunda República e, portanto, em democracia nunca tinha acontecido um governo de coligação. Nem os partidos, nem os eleitores, nem as instituições estão habituados a ter governos de coligação. Tudo isto faz com que a instabilidade seja a norma, mas parece-me que Espanha, desde elites económicas, políticas, a própria comunicação social, enfim, já é o novo normal e toda a gente vive relativamente bem com isso.
Obrigado, Diogo.
Obrigado eu, Ricardo.
Diogo Noivo é investigador e autor do livro "Uma História da ETA". Os sons que ouvimos neste episódio foram retirados do Twitter, das contas dos protagonistas desta história do dia. E para quem nos ouve na app do Spotify, e atenção, só funciona na aplicação do Spotify, deixamos hoje uma pergunta: podemos comparar as realidades políticas portuguesa e espanhola? E já que está no Spotify, por que não clicar em seguir para não perder um episódio da História do Dia? Este episódio contou com a colaboração da jornalista Nadine Soares, sonoplastia do Diogo Casinha e a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.