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Pedro Sánchez aproveitou a oportunidade, convocou eleições, ditou a habitação como tema e iniciou a pré-campanha eleitoral. Entre sorrisos, abraços e beijos, o PSOE entrou a todo o gás na sua “campanha do amor“. A um mês e um dia da ida às urnas, a estratégia de fazer política “pela positiva” enfrenta agora o seu maior obstáculo. A colisão entre dois comboios na província de Toledo esta quarta-feira de manhã, que resultou em pelo menos 69 mortos e dezenas de feridos, atirou Espanha para três dias de luto nacional e suspendeu (quase) todas as caravanas que já seguiam em pré-campanha. “Agora não estamos para aí virados”, admitiram fontes do Governo ouvidas pelo ABC, referindo-se ao ambiente de otimismo que vinha a ser cultivado internamente.
Desviando os olhos das eleições do próximo dia 29 de novembro, Executivo e PSOE ditaram como prioridade dispensar atenção às vítimas e às suas famílias e apurar os motivos do acidente. Num raro alinhamento, a posição do PP foi a mesma. “A serenidade não significa silêncio, mas esta é a altura de respeitar os mortos“, argumentou Alberto Núñez Feijóo numa declaração da sede dos conservadores. Fontes do partido ouvidas pelo El Mundo explicam que a prioridade está no “respeito pela dor nacional”. Passado o luto, haverá tempo e espaço para pressionar o Governo a assumir responsabilidades.
Mas a abordagem institucional que a direita escolheu para lidar com a situação não se repetiu nos extremos. Tal como já fez noutras ocasiões, o Vox escolheu continuar com a agenda de pré-campanha, tendo sido o único partido a manter as atividades partidárias no período de luto. Mais: o partido de Santiago Abascal instrumentalizou o acidente como mais uma arma política contra o Executivo de Pedro Sánchez, responsabilizando-o pelo acidente. “O Vox vai continuar a denunciar o descaramento da ‘campanha do amor’ do PSOE, que continua a causar mortos em Espanha”, declarou um porta-voz do partido.
▲ O acidente em Urda, Toledo, fez pelo menos 69 mortos e dezenas de feridos
JAVIER SORIANO
O impacto que o acidente pode ter nas eleições é difícil de prever. PSOE e PP recusam analisar abertamente essa possibilidade, recentrando repetidamente a discussão na dimensão humana da tragédia. Mas isso não silencia os apelos, em todos os espectros políticos, ao apuramento de responsabilidades políticas.
Uma avaria informática seguida de dupla falha humana: as causas do choque entre comboios em Toledo
O foco vira-se, portanto, para o ministro dos Transportes. Óscar Puente frisou, ao longo do último dia, que o acidente teve origem num erro humano e não numa má gestão das infraestruturas ferroviárias, afirmações confirmadas por áudios das chamadas entre os maquinistas e a estação de controlo em Madrid. Mas este é já o segundo acidente de comboios a vitimar dezenas de pessoas em Espanha este ano, depois de um acidente em janeiro, em Adamuz, Córdova, ter matado 46 pessoas. E a questão impõe-se: conseguirão os partidos — e em último caso, os eleitores — cobrar ao Governo um preço político pela tragédia?
▲ Óscar Puente, ministro dos Transportes, está debaixo de fogo
Borja Sanchez-Trillo/EPA
Um segundo acidente “inaceitável” e o apoio político ao ministro. Os dilemas do PSOE
As publicações chegaram com menos de uma hora de diferença. Às 8h11 desta quarta-feira, Pedro Sánchez publicou nas suas redes sociais um excerto de uma entrevista ao podcast “Keep it cutre”. “Há muitos motivos para ser otimista neste país”, escreveu o primeiro-ministro na legenda. Passados 50 minutos, o líder socialista voltava às redes sociais para expressar a sua “consternação” com o acidente e o seu “carinho, solidariedade e apoio a todas as vítimas e às suas famílias”. O otimismo que conseguira imprimir nas primeiras semanas da pré-campanha morreu com a declaração de luto nacional.
Horas mais tarde, no local do acidente, Sánchez insistiu: “A nossa principal prioridade são as vítimas”. Mas, nessas mesmas declarações à imprensa, o primeiro-ministro desenhou uma linha vermelha quando disse “não ser aceitável” que Espanha tenha sido palco de dois grandes acidentes de comboio num só ano — nos dois acidentes somados, morreram 115 pessoas. “Vamos até ao fim. Se houve negligências, saber-se-á. Se houve falhas no sistema de segurança, responder-se-á com toda a firmeza”, prometeu o chefe do Governo.
A declaração de Sánchez sobre os dois acidentes levou alguns comentadores e meios de comunicação a especular sobre a possibilidade de o Governo responder à crise com a demissão do ministro dos Transportes, possibilidade alimentada pelo facto de Sánchez e Puente terem falado de forma separada depois da reunião do centro de coordenação de resposta a emergências (CECOPI). Porém, essa possibilidade rapidamente foi desmentida pelo Governo, que afirmou não estar em causa o lugar de Puente.
O apoio político da Moncloa ao ministro apoia-se no facto de as informações preliminares indicarem que um erro humano, por parte do operador do centro de controlo em Madrid, esteve na origem do acidente, facto que foi frisado por Puente nas suas intervenções na quarta-feira. “Ele não considera demitir-se porque diz que não tem nenhuma razão para o fazer”, afirmou o jornalista Joan Guirado, em entrevista à emissora Antena 3, citando fontes próximas do ministro.
Todavia, Pedro Sánchez poderá ter outras motivações para manter Puente dentro do seu círculo próximo. Fontes dentro do Governo, ouvidas pelo El País, destacaram que o ministro é “um apoio político de Sánchez e uma peça fundamental da campanha“. O preço político a pagar para manter Óscar Puente poderá, portanto, sobrepor-se ao preço de o perder. As contas não são feitas da mesma maneira pelo partido, onde, segundo o ABC, já se começam a levantar vozes que exigem que sejam assumidas responsabilidades políticas antes de a campanha entrar na reta final.
A pressão, contudo, não deverá tornar-se pública enquanto o luto nacional continuar. “Agora não é a altura“, disseram as fontes do PSOE ouvidas pelo jornal.
O luto interno do PP que adiou o choque político com o Governo
Quando no dia 18 de janeiro de 2026, 46 pessoas morreram num acidente de comboio em Adamuz, Córdova, Alberto Núñez Feijóo afirmou que “não há nada mais urgente que dar atenção às vítimas e às suas famílias”. Mais de nove meses depois, o novo acidente motivou exatamente a mesma reação: “A prioridade é dar atenção às vítimas e acompanhar as suas famílias”, escreveu nas redes sociais esta quarta-feira, momentos depois do acidente.
A manhã dos conservadores viria a revelar-se particularmente sombria depois de a imprensa ter noticiado que, entre as dezenas de passageiros que estavam desaparecidos — e, viria a confirmar-se mais tarde, mortos —, se contava Fátima Báñez, antiga ministra do Trabalho dos governos de Mariano Rajoy. A notícia deixou as cúpulas do PP “muito afetadas”, escreve o El País, que retrata a antiga ministra como “uma dirigente muito acarinhada no PP, [cuja perda] deixa desolados muitos membros da direção com quem tinha uma relação pessoal”.
▲ A morte de Fátima Báñez, antiga ministra de Rajoy, deixou os dirigentes do PP "muito afetados"
BALLESTEROS/EPA
Apesar do choque, Feijóo não se escusou, ainda assim, de atirar ao Governo. “A dor não nos obriga a estar calados“, afirmou ainda durante a tarde de quarta-feira, em declarações na sede do PP. “É imprescindível uma investigação governamental imediata e outra judicial nos próximos tempos, com todos os recursos e sem interferências”, apelou, acrescentando que “Espanha tem o direito de saber em que estado se encontram as vias e os sistemas de segurança e que avisos foram feitos desde Adamuz e que medidas foram adotadas”.
Esta quinta-feira, de visita ao posto de comando na zona do acidente, o líder dos conservadores foi ainda mais incisivo e exigiu “responsabilidades políticas”. “Não são opcionais, são imprescindíveis do ponto de vista ético e moral”, declarou. “O que o ministro dos Transportes fez foi atirar a culpa para um operador da Adif. Não podemos tirar conclusões com essa frivolidade, que, na minha opinião, é imprópria de um ministro e de um Governo perante uma catástrofe”, acrescentou. Ainda assim, Feijóo não chegou a exigir inequivocamente a demissão do ministro — um paralelo com o que já tinha acontecido em janeiro, quando esse apelo surgiu apenas uns dias depois.
O guião do líder da oposição procura manter o seu discurso “institucional e exemplar” e a “cabeça fria”, disseram fontes do partido ao La Vanguardia. O mesmo pedido de “institucionalidade” foi feito expressamente pelo secretário-geral do PP, Miguel Tellado, aos dirigentes que falem publicamente sobre o acidente, relataram fontes internas ao El Mundo. O objetivo por detrás da estratégia tem um fundo político: o PP quer mostrar que é um partido sério e, portanto, capaz de governar, por contraponto ao PSOE ou ao Vox. “Não somos o PSOE, não somos o PSOE de outras épocas. Nem mesmo em pré-campanha“, elaborou uma fonte conservadora ao jornal.
▲ Feijóo procura manter "a cabeça fria" e o discurso "institucional"
J.J. Guillen/EPA
Ou seja, apesar de o foco estar a 100% nas vítimas do acidente, a postura mantida por Feijóo acaba por funcionar, em si mesma, como um piscar de olho aos eleitores. Ainda assim, esta não é uma estratégia que esteja fechada. Se, por agora, o PP prima pelo respeito e a institucionalidade, fontes do partido relataram ao El País, que será feita uma reavaliação da estratégia “passo a passo”.
As críticas dos parceiros de coligação e os ataques de exceção do Vox
Pela manhã, a solidariedade às vítimas. Pela tarde, as farpas políticas. Este não foi apenas o guião do principal opositor do Governo, mas do parceiro de coligação do PSOE. Ainda durante a tarde de quarta-feira, o Frente Amplio — movimento de esquerda criado para as eleições do dia 29 de novembro e que inclui o Sumar, mas também o Izquierda Unida, Comuns e Más Madrid — emitiu um comunicado a exigir “responsabilidades a todos os níveis”.
“A gravidade desta ocorrência terrível obriga a uma maior claridade e transparência sobre o sucedido: é inadmissível a repetição de um acidente tão grave na rede de alta velocidade no mesmo”, pode ler-se no texto, palavras que refletem uma preocupação relativa ao acidente que vai além do erro humano sublinhado pelo Executivo. “Além de responsabilidades técnicas, exigimos que sejam assumidas responsabilidades políticas“, acrescenta a coligação de esquerda. O distanciamento do Governo neste tema pode ajudar a autonomizar o Sumar, que corre o risco de ser absorvido politicamente pelo PSOE nas eleições.
▲ Santiago Abascal deixou as críticas mais diretas ao que disse ser o "gangue criminoso" de Sánchez
Juan Carlos Hidalgo/EPA
No extremo oposto do espectro político, o Vox assumiu a posição mais distinta dos restantes partidos. O partido da extrema-direita foi o único que não cancelou os eventos de campanha. “Ainda que alguns queiram utilizar o luto para nos amordaçarem, nós acreditamos que temos de estar aqui para manifestar publicamente os nossos pêsames”, afirmou Santiago Abascal em dois eventos de campanha esta quarta-feira em Santander e Valladolid.
O Vox não só exigiu responsabilidades políticas ao Executivo, como foi bem claro a apontar o dedo. “Um gangue criminoso destruiu as instituições, um gangue decidiu que o dinheiro dos contribuintes espanhóis devia ser gasto em acompanhantes em vez de reparar linhas de comboios, como em Adamuz”, elaborou o líder do partido, que acrescentou que, além do luto, o partido também quer expressar a sua “raiva e desânimo”.
Tal como no caso do PP, a postura de Abascal face a este acidente é comparável à que assumiu em janeiro, depois do acidente em Adamuz. À data, também foram canceladas as campanhas para as eleições regionais em Aragão, que deveriam ter começado no dia seguinte. Tal como aconteceu agora, o Vox foi o único partido que recusou suspender a agenda. Passadas três semanas, a ida às urnas resultou numa subida a pique do Vox, que duplicou a sua representação no parlamento regional.
Não sendo possível indicar uma relação de causalidade entre os dois factos, a abordagem é, ainda assim, digna de nota. Afinal, o PP e o Vox estão em competição direta nas eleições legislativas e escolheram abordagens completamente diferentes para endereçar um tema que promete pesar na política espanhola a partir do momento em que terminar o período de luto.