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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Há portugueses entre os milhões de pessoas presas em casa, em Xangai devido à política zero Covid-19. Hu Qianyue é uma das responsáveis pela Comissão de Saúde Municipal de Xangai. Num briefing diário explica que os habitantes da cidade nas áreas de maior risco de Covid-19 devem cumprir o dever de confinamento à risca. Se alguém precisar de ajuda médica, deve solicitá-la junto dos responsáveis pela comunidade e veículos especiais poderão depois transportá-las a unidades de saúde. Não podem ir por sua iniciativa ao hospital. Cerca de 12 milhões num universo de quase 26 milhões de pessoas têm agora autorização para alguma liberdade de movimentos em Xangai. 666 empresas podem voltar a funcionar. Decisões anunciadas pouco tempo depois de gravarmos a conversa com Paula, uma portuguesa que vive na maior cidade chinesa há cerca de quatro anos. "Paula" não é o nome verdadeiro, é fictício. É uma proteção por razões de segurança num país onde tudo é controlado. Para tentar conter um surto de Covid-19, as autoridades chinesas trancaram em casa os habitantes de Xangai. Tudo fechou no início de abril. As pessoas perderam rendimentos, o acesso à comida, água e medicamentos foi muito complicado, pelo menos nas duas primeiras semanas deste mês. Os dados mais recentes apontam para cerca de 20 mil casos diários de Covid-19 na China, 95% são em Xangai, onde foram registados sete mortos esta semana. A China decidiu apostar na política Covid-19 Zero e diz que está a resultar. Bem-vinda, Paula.

Olá, Ricardo.

Onde é que está agora?

Eu agora estou em Xangai. Já estou aqui na China há quatro anos.

E como é que foi o seu dia hoje?

Como estou em quarentena em casa, estou a trabalhar offline com o meu computador. Trabalho full time, sou estudante aqui.

Está em casa. Paula, o que se passa aí em Xangai?

Sim, estou em casa porque em março começaram a surgir novos casos de Covid aqui na cidade. Houve um aumento exponencial de casos. Então, no primeiro dia de abril, eles decidiram fazer um lockdown completo da cidade. Os casos estavam a aumentar, chegar aos milhares por dia, 5 mil, 6 mil, todos os dias começava a aumentar. Eles decidiram fechar a cidade por completo. O que isto quer dizer? Que toda a gente tinha que permanecer em casa obrigatoriamente. Tudo fechou: restaurantes, supermercados, escolas, parques. Fechou completamente 100% da cidade. As pessoas não podem sair de casa, não podem sair da porta pra fora. Somos controlados, não é opcional, é mandatório. A cidade completa, é uma cidade de 26 milhões de pessoas e estamos em casa sem poder sair.

Ou seja, devido essa política de Covid zero, a cidade foi trancada em casa?

Sim, inicialmente eles informaram-nos de que seria apenas cinco dias, ou seja, de 01 a 05 de Abril. No entanto, como o número de casos continuava a aumentar a cada dia, estão a estender este prazo indefinitivamente. Ninguém sabe, eu não sei quando é que eu poderei voltar à minha vida normal. É indefinitivamente. Não sabemos se vai ser daqui a uma semana, daqui a um mês.

Mas como é que fazem, por exemplo, para comprar comida ou medicamentos? Como é que é a vida nessas circunstâncias?

Esse tem sido o fator número um para o desagrado e para o estresse que as pessoas tão a experienciar. Tem sido extremamente difícil comprar água, comprar qualquer tipo de comida, principalmente na primeira e segunda semana. No entanto, o Estado percebeu que era um problema e que as pessoas estavam a ficar revoltadas por não ter comida suficiente em casa. Então eles libertaram alguns armazéns na parte mais fora da cidade. A única forma possível de obter comida agora é comprar em massa, por exemplo, comprar grandes quantidades de comida. Estamos a falar de aproximadamente 50 kg de arroz e después distribuí-los pelos condomínios. Essa é a única forma. Se eu quiser comprar um pacote de chocolate ou um pacote de pão, hoje não consigo, não é possível. É bastante limitada a oferta. Até mesmo pra eu conseguir água foi uma luta, mas temos tido o apoio do Estado. É a terceira semana, então é a terceira vez que eles nos dão uma saca com bens essenciais. Por exemplo, nesta semana foram batatas, arroz, óleo e alguns legumes. Eles distribuíram essa saca por todos os habitantes aqui da cidade. Uma semana, uma saca.

A Paula está a alimentar-se a partir desse cabaz que o Estado está a fornecer, com esses bens essenciais, como explicava, o arroz, as batatas, o óleo e legumes

Sim, é essencial. É uma grande ajuda ter esse cabaz, porque de outra forma é complicado obter qualquer tipo de alimentos. Então esse cabaz é essencial.

Paula, nós vimos aqui vídeos um pouco perturbadores que nos chegaram através das redes sociais. Vimos, por exemplo, uma mulher à janela que gritava a pedir ajuda aos vizinhos, que precisava de um antipirético para o filho, para a criança estaria com febre. Como é o acesso aos medicamentos, por exemplo?

O acesso aos medicamentos também tem sido bastante limitado. Há poucas farmácias abertas e o problema não é só adquirir, mas como é que esse medicamento é entregue nas nossas casas. Isso é que é a grande questão, porque não existem táxis, não existem homens das entregas, não existem os Correios. Para entregar as encomendas é muito complicado. No entanto, existem algumas pessoas que estão a entregar, mas o preço que eles pedem pela entrega é incrivelmente alto, é abusivo. O preço para entregar um simples medicamento, podemos pagar €50, €100 para entregar uma mercadoria.

Paula, ia lhe pedir a sua ajuda para nos explicar se isto é verdade ou se é mentira: cães robô com megafone às costas que espalham mensagens pela cidade.

Existem, de facto, autofalantes e alertas para nos mantermos em casa. No entanto, nunca vi nenhum robô e aparentemente isso é fake news. Se calhar é um vídeo que já existia do ano passado há alguns meses que eles quiseram ressurgir agora na internet, mas não parece ser um vídeo atual. Mas sim, existe uma imposição forte em nos mantermos em casa.

Esse confinamento obrigatório é generalizado a toda a cidade ou há alguns bairros onde já é permitido sair para, por exemplo, ir ao supermercado fazer compras?

É generalizado. Cem porcento da cidade está lockdown. Somos no total 26 milhões de habitantes aqui na cidade e é lockdown geral. Não há discriminação de estatuto social, de profissões, cem porcento da população está em quarentena em casa obrigatória.

E quanto aos contactos de risco, o que aconteceu a estas pessoas?

A grande diferença entre a onda de Covid de 2022 comparando com a 2020, é que há uma grande população daqui da China que está vacinada. Eles indicam que cerca de 86% da população chinesa está vacinada. Quando há infectados, a grande maioria dos casos são assintomáticos, o que depois torna mais difícil detectar que de fato alguém foi vacinado, a não ser que as pessoas façam um teste quase diário. O que está acontecendo agora é que se um prédio ou um condomínio não tiver nenhum caso positivo num espaço de 14 dias, os residentes desse condomínio estão permitidos a sair à rua, mas só podem andar naquela rua. Por exemplo, o que aconteceu é que agora esta semana, alguns condomínios foram libertados. Algumas pessoas que moram num condomínio que não tenha tido nenhum caso positivo em pelo menos 14 dias pode sair à rua e pode andar num espaço de 200 ou 300 metros. Mas dizem que também impõem um período de tempo, ou seja, podem ir à rua, podem andar um bocadinho durante uma ou duas horas. Não é o dia todo. É um cheiro da liberdade que alguns sortudos têm experienciado essa semana. Que não é o meu caso.

Não é o seu caso?

Não, isso são meios de condomínios que tiveram essa sorte de não terem nenhum caso positivo, porque estamos a falar em condomínios, ou seja, são vários prédios. No meu caso, o meu condomínio tem três prédios, mas existem condomínios com seis e com sete. E cada prédio, por exemplo, o meu prédio tem 25 andares. Ou seja, ter um prédio, ter um condomínio sem um caso positivo é difícil. Eu tive um caso há cerca de dois dias aqui no condomínio, o que quer dizer que o meu período de quarentena ficou extendido durante mais 14 dias. Só porque o meu vizinho do outro prédio deu positivo eu vou ter que ficar mais 14 dias.

E esses testes são feitos como?

Dia sim, dia não. Ainda hoje fiz. Sim, vêm aqui à porta mesmo pra porta aqui do apartamento pessoal médico fazer o teste. É dia sim, dia não que eles vêm aqui.

Mas também vemos imagens de uns centros onde estão doentes de COVID que depois saem em autocarros. Que centros são esses, Paula?

Se caso alguém tenha sido testado como positivo para COVID, o que acontece é que não só essa pessoa como também os que são considerados close contact, as pessoas que estão diretamente relacionadas com eles, são direcionadas para um centro de quarentena, vamos chamar assim. E vão ficar nesse centro de quarentena durante 14 dias. Que locais são esses Pode ser qualquer local que eles acham que é apropriado para acomodar pessoas durante 14 dias. Pode ser um hotel, pode ser uma expo. Eu vi umas notícias recentemente em que converteram uma piscina pública num centro de quarentena. Como aquilo tem chuveiros, eles só improvisaram umas camas e agora estão lá pessoas que têm que ficar durante 14 dias fazendo testes para ver se ainda têm Covid todos os dias e se derem dois testes negativos, são libertados. Ou seja, qualquer edifício, qualquer compound que eles acham que dá pra acomodar um grande volume de pessoas. Claro que as condições vão variar e ninguém sabe para onde é que vai ser direcionado. É uma questão de sorte.

Em relação à atividade econômica, nós temos aqui notícia que algumas fábricas já retomaram a atividade. Como é que está a atividade econômica em Xangai, sendo que Xangai é o porto mais importante do mundo?

A cidade fechou e o problema das pessoas não é só ter fechado, mas sim ter fechado indefinitivamente. Não existe uma data para retomar a vida normal. Então quem tem negócios, principalmente quem tem funcionários e tem que lhes pagar as contas, tem que lhe pagar os ordenados como normalmente deviam ser, ter um negócio fechado indefinitivamente é complicado. Pelo que eu ouvi dizer, aqui não existe qualquer tipo de apoio financeiro por parte do Estado para pequenas ou médias empresas, o que faz com que haja muita gente mais revoltada, ansiosa e tem causado muita angústia na população chinesa por esta situação que está a passar. Muitos negócios, milhares de empresas fecharam desde 2019 e acredito que agora por este novo onda, por este novo pico de casos e esta quarentena, muitas mais empresas irão fechar.

Paula, segundo os dados oficiais, o número de mortos é residual, tendo em conta que há 26 milhões de pessoas aí na área metropolitana de Xangai. Paula também nos contava que, segundo os dados oficiais, 86% da população está vacinada. Qual é a justificação para esta política de Covid zero, esta política radical, e é isto que está a motivar o desagrado da população?

Sim, Ricardo. O que está a acontecer agora, e a grande diferença entre 2022 e 2019, é que na altura era tudo muito desconhecido, era tudo muito incerto. Não se sabia os sintomas que poderiam causar às pessoas que estavam infectadas pelo vírus, o número de mortes era muito maior, o número de casos, claro, muito maior. Havia quase uma justificação por estas limitações e restrições. No entanto, agora estamos em 2022. Muito mudou. 86% da população estava vacinada. O número de casos até à data reportados no último mês foram só sete casos. Sete pessoas faleceram, infelizmente, e segundo os dados oficiais, essas sete pessoas tinham idade superior a 60 anos e nenhuma delas tinha sido vacinada. Ou seja, qual é a justificação por estas restrições tão agressivas que estamos a experienciar? Porque dos casos que existem, cerca de 20 mil casos por dia, a maioria desses casos são assintomáticos. E estamos numa população, numa cidade de 26 milhões. Vinte seis milhões, 20 mil casos é uma porcentagem muito baixa. Será que há necessidade para esse tipo de atitudes? Tem criado uma angústia muito grande, não só na comunidade estrangeira, como também na população chinesa. Eles não estão contentes, de fato, com a atitude do governo, o que me tem surpreendido, porque eles têm sido bastante verbais también nos meios de comunicação. As pessoas têm mostrado o seu desagrado e a sua preocupação sobre essa situação, porque não parece haver ninguém a tirar proveito. Não só é a população que está limitada de trabalhar e de continuar os seus negócios, como também o próprio país ou a cidade tem sido afetada com o fecho, com o término de várias empresas.

E durante este período, Paula pediu ajuda à Embaixada Portuguesa ou recebeu algum contato por parte das autoridades portuguesas?

Nós temos visto que existem várias embaixadas, como a Embaixada Americana e a Embaixada da Itália, que têm providenciado bens essenciais e água para a sua população. Então vários membros da comunidade portuguesa requisitaram ou perguntaram ao consulado, à embaixada portuguesa aqui em Xangai, se eles iam nos ajudar de alguma forma, mas até à data não recebemos qualquer tipo de apoio.

Obrigado, Paula.

De nada. Obrigada, Ricardo.

Paula é uma portuguesa que vive em Xangai há cerca de quatro anos. É um nome fictício para protegermos a verdadeira identidade desta jovem mulher num país em que tudo é controlado, incluindo acesso à informação. Contactámos o Ministério dos Negócios Estrangeiros para um esclarecimento sobre o auxílio ou a falta dele aos cidadãos portugueses residentes em Xangai. A resposta oficial é esta, e citamos: "O Consulado-Geral em Xangai tem acompanhado de perto a situação dos cidadãos portugueses residentes, tentando mitigar as dificuldades de acesso a bens essenciais, por via de aconselhamento sobre os melhores procedimentos a seguir e através de contactos com os comitês de bairro em que residem, sempre que se revele necessário". Fim de citação. Esta foi a história do dia. Este episódio contou com a colaboração da jornalista da Rádio Observador, Inês Batista. A sonoplastia é da Beatriz Martello Garcia e do Bernardo Almeida. A música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.