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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Putin pode ganhar um novo aliado no Reino Unido?
"How many years has he been in power? He's gone from Prime Minister to President. He's a clever political operator. He kills journalists. I don't like him as a human being in any way at all."
Começou por dizer que não gosta de Putin como pessoa, mas admira o político pela forma como se manteve no poder. Noutra entrevista, dias depois, repetiu que Putin só invadiu a Ucrânia porque foi provocado pela União Europeia e pela NATO.
"Hang on a second. We provoked this war?"
Nigel Farage foi um dos rostos do Brexit, nunca conseguiu ser eleito para a Câmara dos Comuns e pareceu desaparecer da política, mas agora aí está a liderar o Reform UK em campanha para as eleições de 4 de julho e em terceiro lugar nas sondagens.
Thank you very much indeed. Thank you.
Que papel tem Nigel Farage no Reino Unido? E o que dizem a ascensão do Reform e a queda dos conservadores sobre o momento político no país? Vou conversar com Bernardo Ivo Cruz, professor convidado da Universidade Católica e ex-secretário de Estado da Internacionalização. Foi presidente da Câmara de Comércio Português no Reino Unido e autor do The London Brexit Monthly Digest, uma newsletter que acompanhou o processo de saída do Reino Unido da União Europeia. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira e esta é a história do dia de quinta-feira, 27 de junho. Bem-vindo, professor Bernardo Ivo Cruz.
Muito obrigado pelo convite.
O que explica estas declarações de Nigel Farage sobre a Rússia e sobre o Vladimir Putin?
Não é surpreendente que o senhor Farage tenha admiração por um líder forte e populista como é o presidente da Rússia. Ele é, ele próprio, um populista que gosta de Putin, que tem uma grande admiração pelo antigo presidente Trump. A única coisa que espantará eventualmente é ele ter cometido este erro em plena campanha, abrindo flanco para muitas críticas ao elogiar o presidente Putin na questão da Ucrânia e apontar o dedo aos países que apoiam a independência da Ucrânia como sendo os culpados da situação. Mas o Farage entender que pessoas como o presidente Putin são líderes respeitáveis e de admirar, não é muito surpreendente.
Mas isso significa que acha que foi um erro não forçado, como se diz no ténis, e não uma estratégia assumida? É porque depois das críticas, Farage optou por dobrar a aposta e insistir nas declarações.
Eu acho que foi um erro não forçado, mas apanhado em falso, antes avançar e correr pra frente do que dar o braço a torcer. O Brexit deve-se muito a este voluntarismo do senhor Farage, e ele não mudou nestes anos. Todos nós anunciávamos ou antecipávamos um futuro político interessante logo a seguir ao Brexit, que não aconteceu. Depois anunciávamos e antecipávamos o desaparecimento de Nigel Farage da política britânica, e também não aconteceu. Mas a capacidade de se reinventar, que ele tem demonstrado ao longo destes anos todos, ficou mais uma vez patente aqui. Cometeu um erro, foi criticado, não reconhece o erro, avança e reforça o argumento. Tenho algumas dúvidas, no entanto, sobre se o eleitorado britânico terá a mesma complacência em relação a este erro do que a outros que o senhor Farage cometeu no passado.
É por isso um erro ou um exagero chamar-lhe aliado de Putin, como Farage se queixa de lhe terem chamado, ou tirando os olhos dele, há de fato um interesse de Putin em ter alguém que replique a narrativa do Kremlin na Câmara dos Comuns?
Isso certamente. O presidente Putin ficaria muito contente de encontrar na Câmara dos Comuns vozes que o defendessem. Neste momento, na Câmara dos Comuns e em grande parte dos parlamentos ocidentais, há algumas vozes que defendem a situação, mas que são minoritárias. O Farage poderá não ser um aliado do Putin, ele será mais um admirador do Putin. Ele gostaria de ter sido, isso sim, uma figura próxima do anterior presidente Trump. Ele trabalhou muito para que o governo britânico o nomeasse como embaixador do Reino Unido junto da Casa Branca, junto da administração Trump, dizendo que em todo o Reino Unido a pessoa que o presidente Trump mais apreciava era ele próprio e que portanto deveria ser nomeado embaixador nos Estados Unidos. Mas com as devidas distâncias e com as devidas cautelas, um líder como o presidente Trump ou um líder como o presidente Putin têm muitas semelhanças. São revanchistas, são populistas, são autoritários E isso é um modelo que o senhor Farage admira.
O professor já aqui disse que depois do Brexit, a morte política de Farage foi decretada várias vezes até, eclipsada um bocadinho com a figura de Boris Johnson, mas o Reform UK, liderado por Farage, está agora em terceiro lugar nas sondagens e é provável até que fique à frente dos conservadores em alguns círculos. Mais do que isso, que o próprio Farage, pela primeira vez, consiga ser eleito para a Câmara dos Comuns. Isto diz mais sobre o Reform ou sobre os outros partidos?
Diz muito sobre o Partido Conservador. O Partido Conservador que está no poder desde 2010, primeiro numa aliança com o Partido Liberal Democrata Britânico, que é um partido centrista muito moderado e muito pró-europeísta. Depois numa vitória eleitoral que seguiu com o Cameron, que hoje em dia é ministro dos Negócios Estrangeiros, como líder do partido até 2016, quando se deu o referendo do Brexit e o Cameron demitiu-se, o então primeiro-ministro Cameron. Seguiu-se a primeira-ministra Theresa May, que foi uma mulher séria e sólida na sua tentativa de encontrar o melhor Brexit possível, a melhor relação possível entre o Reino Unido e a União Europeia, e que foi mais traída pelos conservadores entusiastas do Brexit do que propriamente pelas negociações com Bruxelas.
E que teve uma grande capacidade de resistência política.
Sim, e depois ainda seguiram-se mais três primeiros-ministros. A seguir à senhora May veio o primeiro-ministro Johnson, que ganhou as eleições em cima do Brexit, "Let's get Brexit done" era o slogan da campanha dele, e que depois teve que se demitir na sequência das festas no número 10 Downing Street durante a pandemia. Depois tivemos uma figura que passou como um cometa pela política britânica deixando muitos estragos, que foi a primeira-ministra Truss, que esteve menos de dois meses, mas conseguiu dar um abanão muito sério na economia britânica. E finalmente substituído pelo atual primeiro-ministro Sunak. Portanto, seria natural e expectável que houvesse um cansaço do eleitorado britânico em relação aos conservadores. Mas há outra coisa. Este percurso de primeiros-ministros que nós fomos acompanhando, com exceção do Sunak, tem sido um percurso dos conservadores em direção à direita mais afirmativa. Do primeiro governo Cameron em coligação com os liberais democratas ao governo da Liz Truss, os conservadores chegaram-se completamente à direita com políticas muito afirmativas de uma agenda de direita mais radical contra a imigração, tendo feito um acordo com um país africano para receber os imigrantes que eles considerassem ilegais. E, portanto, aquele centro político que dá as maiorias, principalmente no modelo eleitoral britânico, que reforça ou premeia os votos ao centro. O Partido Conservador foi se afastando desse centro político ao longo destes anos todos e foi deixando esse centro político aberto aos trabalhistas. Trabalhistas que só começaram a aproveitar essa abertura agora com a liderança do atual líder da oposição, do Sir Keir Starmer, porque o anterior líder trabalhista era ele próprio muito à esquerda e, portanto, o centro político foi ficando esvaziado. Agora, tudo indica que os trabalhistas irão ganhar estas eleições com uma vantagem substantiva. O partido do Farage, que está à frente em intenções de votos quando olhamos para os liberais democratas. Provavelmente não terá assim tantos deputados eleitos, mas dividirá os votos dos conservadores mais à direita.
E que vai atingir mais. Isso significa que Rishi Sunak, que convocou inesperadamente pela data estas eleições antecipadas, antecipando ele próprio provavelmente um resultado positivo, já se arrependeu dessa decisão?
Possivelmente. O primeiro-ministro Sunak apostou na melhoria da economia e havia números que demonstravam que a economia britânica estava a melhorar. A economia britânica tem passado por situações muito difíceis, porque o Brexit não foi fácil e não está a correr bem. E em cima do Brexit tivemos a pandemia. E, portanto, tudo tem conspirado, se me permitir a expressão, para que a economia britânica não arranque. As economias continentais da União Europeia, que passaram pelo mesmo processo da pandemia que os britânicos, arrancaram muito melhor a seguir à pandemia porque não tinham Brexit. É a grande diferença entre as duas economias, sendo que a economia britânica é uma economia respeitável e muito pujante. E, portanto, o Rishi Sunak viu ali sinais de melhoria da economia e achou que era a altura de cavalgar esses sinais. Mas todas as sondagens são unânimes em dizer que ele antecipou uma resposta do eleitorado a alguma melhoria da economia que não está a acontecer
Já voltamos à conversa com Bernardo Ivo Cruz, professor convidado da Universidade Católica. Na segunda parte vamos tentar perceber se acabou o bipartidarismo no Reino Unido. Estamos de regresso à conversa com o professor Bernardo Ivo Cruz. Professor, em tese, como falávamos na primeira parte, a queda dos conservadores pode não ser muito surpreendente, até pela duração que estiveram no poder. Mas como devemos olhar para a subida do Labour, sobretudo depois dos resultados das últimas eleições, que foram duros?
O Labour mudou muito desde as últimas eleições. Mudou de líder, mudou de políticas, voltou a ocupar o centro político, moderou-se muito e está a ocupar um espaço que ficou vazio. Ficou vazio quando os conservadores se aproximaram da direita e estava vazio porque os trabalhistas estavam encostados à esquerda. Portanto, haver aqui um espaço político interessante que eles estão a ocupar. O Labour atual está mais próximo do que eram os trabalhistas do Tony Blair do que eram os trabalhistas com o líder que se lhe sucedeu e que puxou, de facto, o partido muito para a esquerda. O sistema eleitoral britânico, chamado "first past the post", faz com que a concentração de votos num partido, num determinado círculo eleitoral, permita a eleição desse deputado. E é só um deputado por círculo eleitoral. Nós aqui em Portugal, quando votamos em Lisboa, elegemos 47 deputados. No Reino Unido, quando se vota num determinado círculo eleitoral, só se elege um. O que é importante para se eleger um deputado no Reino Unido é concentrar os votos nesse deputado ou nessa deputada, nesse círculo eleitoral. O facto de nas sondagens, por exemplo, o valor em percentagem do partido do Nigel Farage estar bastante acima dos liberais-democratas, poderá não se traduzir em votos, porque eles têm mais votos, mas estão espalhados, enquanto que os liberais-democratas têm potencialmente menos votos, mas mais concentrados. E as sondagens mostram isso, mostram que o partido do Farage poderá eleger seis ou sete deputados, entre os quais o próprio, que se a memória não falha, já tentou cinco vezes ser eleito e nunca tinha conseguido. Vamos ver, mas tudo indica que desta vez será eleito. Enquanto que os liberais-democratas, com menos votos em percentagem, terão muito mais deputados, porque têm uma concentração de votos no sudoeste, na zona de Londres e no sudeste do Reino Unido.
O que, aliás, é um problema para o Labour. Os trabalhistas já apareceram muito perto de uma vitória esmagadora, com uma maioria esmagadora nas eleições de 4 de julho, mas o crescimento dos liberais-democratas parece ter posto um travão a isso.
Poderá diminuir, mas os números continuam a ser muito confortáveis para o líder dos trabalhistas, Keir Starmer, que parece estar a aproximar-se de cerca de 400 deputados, mais coisa menos coisa, porque ele também vai buscar votos que tinham perdido na Escócia. O partido Nacionalistas Escoceses tinha roubado muitos votos aos trabalhistas nas últimas eleições e a alteração de liderança no partido de trabalhistas escoceses tem diminuído o interesse dos escoceses em apoiar a independência, pelo menos nesta fase. O que faz com que seja possível que os trabalhistas vão buscar muitos deputados que tinham perdido na Escócia, o que poderá compensar eventualmente perdas ou menos sucesso noutro sítio. Os conservadores estão numa situação bastante complicada porque para além de se terem encostado à direita e portanto, terem perdido o que os conservadores eles próprios chamam de "the one nation Tory", que são os conservadores moderados, centristas, que estão se a afastar. Aliás, a maior parte dos atuais deputados moderados do Partido Conservador pura e simplesmente não se voltaram a apresentar a eleições, estão a sair do Parlamento, irão agora tratar das respectivas vidas, mas desistiram de concorrer. Para além disso, o voto mais radical de direita está a ser disputado também pelo partido do Farage, portanto, divide o eleitorado mais à direita, permitindo que conservadores e liberais-democratas, mesmo com menos votos, consigam concentrar os votos. Há uma questão interessante, que é saber se em alguns círculos eleitorais, que são chave para a vitória moderada, se os liberais-democratas apresentarão ou não candidatos em todo o sítio, podendo não apresentar candidatos para garantir a eleição de trabalhistas moderados, e o contrário também poderá acontecer.
Professor, sempre houve uma verdade tida como certa no sistema político britânico, a de que o próprio sistema não permitia fugir ao bipartidarismo. Isso acabou?
Já acabou há um tempo. Quando olhamos para a composição do Parlamento britânico hoje em dia encontramos uma série de partidos. Encontramos os conservadores, encontramos os trabalhistas, encontramos os liberais-democratas, encontramos os independentistas escoceses e em muito menor número, os independentistas do País de Gales. Encontramos também os nacionalistas da Irlanda do Norte. E embora não tendo tomado posse, poderíamos ter encontrado também os independentistas da Irlanda do Norte, que como não reconhecem a Coroa britânica, são eleitos, mas depois não assumem os seus mandatos no Parlamento de Westminster. Portanto, o Parlamento já está um bocadinho dividido, mas de facto, a grande maioria dos votos continua a dividir-se entre conservadores e trabalhistas. Se quiser, há um bipartidarismo mitigado. É possível que nestas eleições, dependendo de como caírem os votos do eleitorado moderado, que nós tenhamos outra vez um bipartidarismo, mas com a presença muito forte dos trabalhistas. Não seria de espantar, as últimas sondagens que eu vi davam-lhes mais de 400 deputados num Parlamento em 650. Seria uma maioria muito reforçada e muito poderosa.
Obrigada, professor.
Eu é que agradeço. Muito obrigado.
Bernardo Ivo Cruz é professor convidado da Universidade Católica e ex-secretário de Estado da Internacionalização. Foi presidente da Câmara de Comércio Português no Reino Unido e autor do "The London Brexit Monthly Digest", uma newsletter que acompanhou o processo de saída do Reino Unido da União Europeia. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira. Até amanhã.