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Esta é a história do dia da Rádio Observador: quanto vai custar a reconstrução da Ucrânia?

"The scale of destruction is staggering. The World Bank puts the cost of the damage at €350 billion. This is for sure more than one country or one union can provide alone. We need all hands on deck".

Em Berlim, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, socorre-se de uma frase feita em inglês: precisamos de todas as mãos no convés. Ou seja, precisamos de todos na hora de financiar e ajudar na reconstrução da Ucrânia. Estas palavras foram ditas há um mês, a 25 de outubro, na capital alemã, numa conferência internacional sobre a reconstrução e modernização da Ucrânia. O chanceler alemão, Olaf Scholz, diz que o momento de criar um Plano Marshall para o século XXI é agora.

"This conference is about developing the structures and the mechanisms that will help to facilitate and finance what John Maynard Keynes in 1944 called permanent reconstruction. So that's what is at stake here, nothing less than creating a new Marshall Plan for the 21st century, a generational task that must begin now".

Depois de nove meses de guerra, de morte, de destruição, ninguém tem uma estimativa exata do valor que será necessário para reconstruir e reabilitar a Ucrânia. Há previsões, mas as contas estão ainda a ser feitas e vários países estão na linha da frente na tentativa de começar o trabalho o mais depressa possível. Em 1947, o secretário de Estado norte-americano, o general George C. Marshall, lançava a ideia de um plano que acabou por receber o seu nome. Qual será o valor desta fatura? Qual será o preço de não fazer nada? E no fim, quem vai pagar? São perguntas para a conversa com a jornalista de internacional, Cátia Bruno, a minha convidada desta edição. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, Cátia.

Olá, Ricardo.

Vamos recuar até 1947, dois anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o pior conflito que a humanidade já viu. O que foi o Plano Marshall?

O Plano Marshall foi um projeto de ajuda econômica à reconstrução da Europa, que foi basicamente patrocinado por inteiro pelo governo norte-americano e que acabou por apoiar 17 países, incluindo a Alemanha Ocidental, apesar de na altura isso ter levantado alguns receios por parte de alguns dos envolvidos, mas acabou por avançar e assim foi essa recuperação.

"For our government to undertake to draw up unilaterally a program designed to place Europe on its feet economically. This is the business of the Europeans. The initiative, I think, must come from Europe. The role of this country should consist of friendly aid in the drafting of a European program and of later support of such a program, so far as it may be practical for us to do so".

E quanto é que custou o Plano Marshall?

Na altura, o valor era de quase 15 mil milhões de dólares no total, mas se tivermos em conta a inflação, isso hoje em dia corresponderia a cerca de 150 mil milhões de euros. Não é coisa pouca.

Vamos olhar pra situação da Ucrânia. O país está em guerra há nove meses, a tentar defender-se de uma invasão russa. Em termos econômicos, Cátia, qual é a dimensão do desastre?

É difícil ter noção de um valor concreto, porque a guerra ainda está a decorrer. Mas a Kyiv School of Economics fez um estudo, que foi publicado em setembro, que estimava que só em danos de infraestruturas, a Ucrânia já tivesse tido perdas no valor de 127 mil milhões de euros. A isto temos que somar os impactos econômicos de quebra do PIB, por exemplo. O PIB do país decresceu basicamente 30% ao longo deste ano. Temos um aumento do desemprego, que já está acima dos 30% também, e uma inflação que continua a aumentar. Só pra termos noção, os vegetais, por exemplo, os preços aumentaram em quase 80% durante a ocupação de Kherson, porque Kherson é uma das regiões que mais produz produtos agrícolas e isso teve um efeito imediato nos preços.

E claro, empresas paradas ou altamente condicionadas na operação, ataques a instalações de produção de energia, que, Cátia, depois têm um duplo efeito. Tem o efeito econômico e o frio, porque estes ataques são ataques a meios para aquecer a casa, ou a empresa, ou a escola, os hospitais em pleno inverno.

Sim, e acabam por ter também um efeito de desmoralizar as pessoas e de tornar mais difícil a resistência à invasão. A Kyiv School of Economics diz que desde o início da guerra de grande escala, pelo menos quatro centrais termelétricas ficaram totalmente destruídas, oito ficaram danificadas, e isto tudo são dados de setembro. Nós nas últimas semanas assistimos a muitos ataques direcionados a centrais elétricas e o efeito neste momento nessa área é provavelmente muito maior. E para além do efeito na área energética, estamos a falar também de destruição de todo tipo de instalações, quase mil instalações de saúde, mais de mil escolas, quase 800 jardins de infância. Todas estas infraestruturas foram destruídas e continuam, porque o conflito não está a dar sinais de abrandar.

E são essenciais Para a normalidade da vida, ter escola, ter um centro de saúde, uma estação de comboios e tudo isso está a ser afetado. E já sabemos quanto é que a Ucrânia precisa para a reconstrução? Isto são contas ao dia de hoje, obviamente.

Sim, todos os especialistas notam que qualquer número que avancemos agora vai provavelmente aumentar, porque a guerra não vai acabar amanhã. Olhando para a situação atual, há uma previsão que foi feita em conjunto pelo Banco Mundial e pela Comissão Europeia, que fala na necessidade de 350 mil milhões para fazer uma reconstrução que coloca a Ucrânia ao nível em que estava ou talvez até melhor. O próprio governo ucraniano tem sido mais ambicioso e fala num valor de 750 mil milhões, que parece um pouco astronômico, mas também não é claro quando a Ucrânia fala neste valor para uma reconstrução, de que é que está a falar. Está a falar só das zonas que foram ocupadas e que já estão libertadas? Está a falar de uma Ucrânia já completamente desocupada da Rússia? Está a falar da Crimeia também?

São valores muito diferentes, não é?

Exatamente. E por isso ainda não é certo qual é o valor que será necessário, porque não é certo de que Ucrânia que estaremos a falar quando a guerra terminar.

Já voltamos à conversa com a jornalista Cátia Bruno. Vamos tentar perceber como vai esta ajuda à Ucrânia ser organizada e também quem vai pagar.

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Estamos de regresso à conversa com a jornalista internacional d'O Observador, Cátia Bruno. Cátia, vamos regressar ao Plano Marshall para falar de uma diferença substancial. É que em 1947 tínhamos um doador, os Estados Unidos, como explicaste, que saiu em auxílio de vários países, de um continente, 17 países, como disseste na primeira parte da nossa conversa. Agora são vários países e organizações que têm de ajudar um só país. Ora, isto até poderia tornar a tarefa mais fácil, mas não é assim. Por quê? O que é que se passa?

Não é, porque quando falamos de vários doadores, falamos de um plano que tem que ser aceito por todos, uma forma de organização e de distribuição da ajuda que é partilhada por todos, de forma igualitária, e um valor que agrade a todos e que todos se comprometam em cumprir. Neste momento, falamos, sobretudo quando falamos nos principais doadores de um hipotético Plano Marshall à Ucrânia, falamos de União Europeia e Estados Unidos, que são aqueles que até agora mais contribuíram para isso e que, portanto, devem estar envolvidos muito provavelmente neste programa. Mas até aí não é fácil, porque dentro da União Europeia temos muitos governos com diferentes visões do que é que deve ser feito.

A Hungria, por exemplo?

A Hungria tem levantado problemas até ao auxílio imediato. Não estamos sequer a falar da reconstrução, estamos a falar de empréstimos, neste momento, daquilo que já está a ser distribuído, a Hungria tem levantado alguns problemas e, portanto, isso pode acontecer quando falamos de 750 mil milhões de euros, se esse valor avançar. E depois, até do lado americano, os Estados Unidos têm sido muito firmes e muito claros nesta ideia de ajudar a Ucrânia com o que for preciso. Se olharmos para o resultado das últimas eleições intercalares, o Partido Republicano conquistou a Câmara dos Representantes e muitas figuras do partido têm dito: "Se calhar, estamos a ajudar demasiado a Ucrânia. Se calhar, estamos a gastar muito dinheiro com outro país que podia ser gasto no nosso país". E, portanto, também não é certo que esta disponibilidade total de Washington se mantenha. Por isso, é tudo muito incerto, como é que se podem coser todos estes interesses e garantir que há esse plano e que todos estão no mesmo barco.

E depois há outro ponto, que é se esse Plano Marshall 2 avança já ou se é preciso esperar pelo fim da guerra, pela paz.

Eu falava no outro dia com um especialista do German Marshall Fund, que é o think tank que surgiu quase na sequência do Plano Marshall e que tem feito uma série de propostas sobre como é que poderia funcionar um Plano Marshall 2.0 para a Ucrânia. E ele dizia que quando os especialistas falam com os políticos e lhes dizem: "Devíamos avançar já", a reação é: "Não me digam isso, isso não faz sentido nenhum". Mas a resposta dos especialistas é a de que faz todo sentido, porque a cada dia que passa, a conta sobe daquilo que é preciso para ajudar a Ucrânia. A cada dia que passa, a situação política torna-se mais instável no país e, portanto, é como se estivéssemos a empurrar com a barriga um problema e a deixar agudizarem-se os problemas. E ele usava uma expressão muito interessante, que lhe foi dita por um colega do Banco Mundial, em que ele dizia: "Se não fizermos nada, quando a guerra acabar, a Europa tem à porta uma Somália, um Estado falido, um Estado falhado, e que, portanto, podemos começar já a minimizar isso, se começarmos já a auxiliar economicamente a Ucrânia".

Mas, por outro lado, a Ucrânia, e a guerra fez esquecer um pouco essa vertente, mas é um país que é dominado por oligarcas e por uma corrupção gigante chamada economia informal. São precisas mudanças na Ucrânia antes de entregar um cheque ou para os doadores isso para já não é um problema?

É um problema e por isso é que também ainda não temos um modelo fechado e um plano já completamente decidido. Há uma consciência da maior parte dos governos europeus e também do governo norte-americano de que ao dar montantes deste valor à Ucrânia, é preciso garantir que esse dinheiro é bem gasto e que não há dinheiro que desapareça misteriosamente e que depois não haja uma reconstrução efetiva. Uma das formas que tem sido apontada por vários economistas para contornar isso e para garantir é não só haver uma grande fiscalização, tanto dentro do próprio plano e dos países que irão dar o dinheiro, como até envolvendo, por exemplo, a sociedade civil ucraniana, para que as autoridades ucranianas estejam a ser vigiadas e monitorizadas, e também através de uma forma que acaba por trazer uma dimensão muito política ao plano, que é a de que talvez pudesse fazer sentido juntar este plano à futura adesão da Ucrânia à União Europeia. E como para aderir à União Europeia, a Ucrânia precisa de cumprir uma série de requisitos ligados ao Estado de Direito, isso inclui, obviamente, o combate à corrupção e, portanto, talvez aproveitando aí.

Aproveitar esse movimento.

Se pudesse associar isso de alguma forma ao plano económico, fazendo com que Kiev cumpra essas transformações.

E há aqui outro ponto muito interessante no teu texto, e esta é a história do dia, é como aqueles investimentos, não dispensa a leitura do prospeto, neste caso, do texto da Cátia Bruno sobre a reconstrução da Ucrânia, que vale muito a pena ler. E há aqui um ponto também muito interessante, que é: se a política tem horror ao vazio, também podemos dizer que o capital ou a economia também têm horror ao vazio, porque a China está à espreita de uma oportunidade. E se estas pessoas todas não se entendem, pode aparecer para ser ela, a China, a ajudar a Ucrânia?

Pode, a China tem capacidade económica para isso e tem claramente uma noção, uma ideia de política internacional e de geoestratégia muito aguda, muito ligada aos seus próprios interesses. E ter um país na fronteira da Europa que de repente precisa de um grande investimento, em troca sabe-se lá do quê, é uma ideia que possivelmente a China pode não desprezar.

E nesta altura, além das ajudas militares, já há também uma ajuda financeira. Há pouco falavas disso.

Sim, há uma ajuda para lidar com os problemas de curto prazo, que na verdade têm a ver com a gestão do orçamento do Estado ucraniano, porque as pensões precisam de continuar a ser pagas, todo o funcionamento do dia a dia do país continua a ter de ser garantido. E para lidar com esse problema, ainda esta semana, o FMI aprovou um empréstimo muito significativo para a Ucrânia. Também o Parlamento Europeu, esta quinta-feira, aprovou uma nova ajuda no valor de 18 mil milhões de euros. Mas todas estas necessidades têm a ver com o curto prazo e com a situação financeira da Ucrânia neste momento, e não com a reconstrução, que era aquilo que o Plano Marshall original se preocupava e que neste momento não está ainda a ser feito em relação à Ucrânia.

E Cátia, quando for então alcançado um acordo para um eventual novo Plano Marshall, falta aqui uma pergunta: quem é que vai pagar?

Há muitas soluções a serem equacionadas. Há quem fale na possibilidade de se recorrer, por exemplo, a privados, que possam estar interessados em contribuir para esta ajuda, retirando possivelmente daí lucros com toda a construção que vai estar ali a precisar de ser feita e, portanto, há muitos negócios, mas isso pode não chegar. É preciso tratar de coisas tão simples como, por exemplo, desminar aquele país por inteiro, e isso não dá lucros a nenhuma empresa. Portanto, os Estados vão ter sempre de ter aqui um papel relevante. E quando falamos de Estados, estamos a falar essencialmente da União Europeia e Estados Unidos, que são as grandes potências ocidentais que estão preocupadas com o lugar da Ucrânia no mundo e que têm também elas interesse em ter uma palavra a dizer neste processo.

Obrigado, Cátia.

Obrigada eu, Ricardo.

Cátia Bruno é jornalista de internacional d'O Observador. Os sons que ouvimos neste episódio foram retirados dos canais de YouTube da Comissão Europeia e também da George C. Marshall Foundation. O som que ouvimos do antigo secretário de Estado norte-americano é de um discurso na Universidade de Harvard em 1947. A sonoplastia é do Bernardo Almeida e a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Bom fim de semana.