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Esta é a história do dia da Rádio Observador: que governo vamos ter e a ameaça do Chega ao PSD.
O povo quer que este governo e este primeiro-ministro respeitem e dialoguem com as oposições. Mas o povo também quer que as oposições respeitem e dialoguem com este governo e com este primeiro-ministro.
Na noite eleitoral de domingo, no discurso e nas respostas que se seguiram, Luís Montenegro furtou-se a repetir taxativamente o "não é não" e, por mais do que uma vez, afirmou que tem o programa de governo que os portugueses escolheram e é ele o chefe de governo legitimado nas urnas. O novo governo vai mudar muito em relação ao atual? E como estará o PSD a olhar para o Chega e para a força que André Ventura recebeu nestas eleições? É sobre isto que vou conversar com Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto de política do Observador. Eu sou Ricardo Conceição e esta é a história do dia, de 20 de maio, terça-feira. Bem-vindo, Miguel.
Olá, Ricardo.
Já recuperaste da campanha eleitoral?
Ainda não. Estou aqui com uma voz fresca e fofa.
Depois de 15 dias de norte a sul, a comer bem.
Sim, por acaso comemos bastante bem, fomos muito bem tratados.
Falgo aí saber.
Agora, claro, foi uma campanha dura, intensa, como serão os próximos tempos.
Exatamente. Peço desculpa aos nossos ouvintes, mas tivemos aqui só a aquecer pra conversa, porque, Miguel, esta é a maioria que Luís Montenegro e o PSD sonhavam?
Não, não é. Respondendo diretamente à pergunta, e acho que ninguém na AD pode dizer o contrário, havia a expectativa de ter um resultado maior durante algum tempo, pouco, para ser honesto. Ainda se acreditou que o PSD talvez, ou a AD talvez sozinha, ainda conseguisse chegar lá. Depois, o plano B assumidíssimo era uma aliança com a Iniciativa Liberal, nem isso foi possível alcançar. Agora, ainda assim, é inequívoco que houve um reforço da AD nestas eleições legislativas, houve um reforço da figura de Luís Montenegro e há um dado indesmentível: a AD, neste momento, tem mais deputados do que toda a esquerda junta, o que muda completamente a dinâmica parlamentar.
E é expectável que o presidente da República chame o PSD a formar governo, é isso que se espera. O novo executivo será quase igual ao atual?
Há algumas dúvidas sobre isso. Mais uma vez, ainda é uma fase muito prematura, acabamos de sair de umas eleições e de uma noite eleitoral. Estas decisões, e quem conhece bem Luís Montenegro sabe disso, são tomadas pelo líder e pelo primeiro-ministro. Portanto, quando se fala muito em novos ministros ou remodelações governamentais, é preciso dizer que a decisão está muito na cabeça de Luís Montenegro. Agora, avanço fazendo algumas apostas. Há quem na AD esteja a olhar para este resultado, para o crescimento do Chega, e perceba que também foi um sinal para o PSD, sinal de que as coisas não estavam a correr tão brilhantemente como talvez Luís Montenegro gostasse. E é preciso dar sinais. Esses sinais podem surgir já no próximo redesenho do governo, por exemplo, e essa é uma aposta que se vai fazendo, até se vai fazendo antes ainda destas eleições, em relação à Ministra da Administração Interna.
Será uma das potenciais saídas?
É o que se dizia antes dessas eleições e é uma aposta que se veio a reforçar depois destas eleições. Ou seja, em parte, o crescimento do Chega também se deve a dois temas: imigração por um lado, segurança por outro. E há quem entenda, no núcleo de conselheiros de Luís Montenegro, que talvez fosse importante dar um sinal logo nesse capítulo, impondo ou trazendo alguém com outro tipo de características para o lugar, por exemplo, de ministra da Administração Interna ou ministro da Administração Interna.
Já te vou perguntar sobre mais possíveis entradas. E há outros candidatos à saída?
Pela mesma lógica, poder-se-ia dizer que a ministra da Saúde talvez fosse uma candidata à saída, mas aqui a questão é ligeiramente diferente. Luís Montenegro confia muito na sua ministra da Saúde, elogia várias vezes publicamente e, portanto, está num campeonato diferente. É verdade que foi somando alguns problemas, bastantes problemas, na área que herdou. Ainda assim, há uma relação de confiança e de cumplicidade política que não existe, por exemplo, com a Margarida Blasco.
E quem é que poderá entrar? Quem poderão ser as novidades?
Ainda é muito cedo.
Porque Luís Montenegro tem essa característica, há pouco falavas disso, tirando ele, quase mais ninguém sabe, não é?
E não querendo trazer um tom demasiado sério pra nossa conversa, e nós dizíamos isto há instantes antes de entrarmos para o estúdio, é preciso tempo. Vivemos um tempo novo, com muitos desafios, e ainda é preciso perceber Quando é que Luís Montenegro toma posse? Em que condições é que toma posse? Que tipo de entendimentos podem existir no Parlamento? Qual será a nova fase da vida interna do Partido Socialista? Que postura, que comportamento terá o Chega? E portanto, o elenco governativo estará a ser pensado, não tenho dúvidas nenhumas, mas é preciso ainda ter um quadro geral mais concreto para se poder fazer grandes apostas em relação a quem sai e a quem entra. Estou a falar de sinais que fomos recolhendo ao longo das últimas horas. Há uma reação imediata de que é preciso fazer alguma coisa. É preciso fazer alguma coisa para dar uma resposta também, não só, mas também aos eleitores que decidiram depositar a confiança no Chega. Há áreas que estão mais do que identificadas: a imigração, em que o Governo tem um plano em curso que demorará tempo para ter resultados, e a área da segurança, que no caso da ministra em particular, foi somando alguns problemas e em que já há muito que existe a sensação de que é preciso dar um novo estímulo e um novo rumo à pasta ministerial. E portanto, isto são apostas que vão sendo feitas agora. Não quer dizer que ao longo dos próximos dias não venham a ganhar um novo corpo.
Já voltamos à conversa com Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto de política do Observador. Como vai o PSD lidar com o Chega daqui pra frente? Estamos de regresso à conversa com Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto de política do Observador, que acompanha a vida do PSD há vários anos. Miguel, e os resultados deste domingo permitem pensar que vamos ter governo para quatro anos?
Depende da leitura que todos os intervenientes tiverem sobre os resultados desta noite eleitoral. Há alguns indícios. O Partido Socialista sofreu uma hecatombe nesta noite eleitoral. Vai mudar de liderança. Sabemos que qualquer líder de qualquer grande partido precisa de tempo para se afirmar, de tempo para se rodear das suas pessoas de confiança, de tempo para encontrar um programa. Sabemos que já há um candidato a esse lugar, José Luís Carneiro, que fez toda uma campanha interna contra Pedro Nuno Santos, dizendo exatamente o oposto daquilo que Pedro Nuno Santos fez até na noite eleitoral, ou seja, José Luís Carneiro sempre defendeu um entendimento com o Partido Social-Democrata e, portanto, admitindo que o Partido Socialista segue esse caminho, é possível assumir que Luís Montenegro terá, pelo menos, um ciclo de poder até o fim para ser avaliado por ele no final desse caminho. Mas lá está, tudo isto, como dizíamos há instantes, é muito prematuro. É preciso perceber como é que o próprio Partido Socialista se rearranja, se quisermos.
E depois, desde logo, há um prazo, agora pelo menos de um ano, em que nada poderá acontecer, não é?
É verdade, até junho de 2026. Quer dizer, admitindo que nada acontece nos próximos meses, e assim que Marcelo Rebelo de Sousa ficar impedido de dissolver a Assembleia da República, temos pelo menos até junho de 2026, a certeza de que não haverá uma crise política. O que não quer dizer que o caminho até lá não seja turbulento.
Claro. O Chega conseguiu, neste domingo, um poder que não tinha até aqui. Isso é inegável. O não é não de Montenegro e deste PSD pode ir parar à gaveta?
Não. Mas isso não quer dizer que não haja, no futuro, eventuais entendimentos de dossiês que sejam negociados com André Ventura e com o Chega. O que não vai haver é um acordo de incidência parlamentar ou um governo entre a AD e o Chega. São essas as garantias que são dadas. Esse assunto está arrumado, não vale a pena insistirmos nele. Agora, é verdade que o Chega se tornou ainda mais incontornável e, portanto, Luís Montenegro olhará pra André Ventura e tentará tirar uma de duas conclusões: que André Ventura teremos daqui em diante? O mesmo André Ventura que se afirmou como líder de um partido de protesto até ao momento, ou um André Ventura que entrou definitivamente numa nova fase de liderança e que tentará fazer do Chega um partido-
Confiável?
De soluções. De soluções, pelo menos. Naturalmente, com uma retórica mais agressiva, com um estilo de fazer política mais agressivo, mas que não se põe à margem de soluções. Ao longo desses últimos 11 meses vimos isso, não vimos isso acontecer, e na AD espera-se que, ou há uma enorme expectativa para perceber que André Ventura existirá pela frente.
E para o PSD, Miguel, uma solução tipo bloco central com o PS que sair das eleições internas também não é alternativa. Ou é? Ou não sabemos?
É a alternativa que existe e que é aquela que é mais razoável.
Uma coisa quase à alemã, não é?
É aquela que parece a todos que ao dia 19 de maio vão falando sobre esta matéria e é aquela solução que parece mais praticável por tudo aquilo que eu estava a dizer há instantes. Ninguém espera que o Partido Socialista vá agora enamorar-se pelo programa de governo da AD.
Claro.
Nem que vá assinar de cruz tudo que o Luís Montenegro decidir. Agora, depois dos resultados que o Partido Socialista teve nestas eleições, depois do crescimento surpreendente do Chega nestas eleições Não há ninguém na AD que acredite que o Partido Socialista vá entrar numa fase de bloqueio total ao governo de Luís Montenegro. Precisará de tempo e esse tempo também será útil para que Luís Montenegro se possa afirmar e que daqui a quatro anos possa responder pelos resultados da sua governação. Mas aquele conceito clássico do bloco central ou o fim do não é não ao Chega, nada disso está, neste momento, em cima da mesa. Será um governo minoritário, que dependerá das oposições, mas que depende ou que espera que as oposições também saibam ler os resultados da noite eleitoral.
Nós estamos, nesta altura, a navegar, não sei se esta imagem será a mais correta, noite escura com nevoeiro e sem instrumentos, e é aqui que estamos a navegar neste mar, mas podemos antecipar que o PSD, para garantir que não lhe acontece o mesmo que aconteceu ao Partido Socialista, terá de algures no tempo dizer sim ao Chega? Isto é matéria de análise no PSD?
Não é. Não neste momento. Há quem defenda esta solução há muito tempo. Pedro Passos Coelho há muito tempo que entende que o cordão sanitário traçado em torno do Chega é um erro, pelo menos a médio prazo para o PSD. O que existe é a convicção de que é preciso encontrar respostas para alguns eleitores do Chega, não são todos. Há uma base sólida de eleitorado do Chega que estará na ordem dos 3 a 15%, que essa dificilmente regressa. Mas há pessoas que esperam soluções. E há um tema que é sempre trazido às conversas quando se fala de soluções para esses eleitores, que é a questão da imigração. Estas eleições demonstraram a quem estava no terreno, a quem fazia campanha em nome da AD, que a imigração é um tema decisivo para o eleitorado. E portanto, é preciso encontrar respostas a esse nível. O governo, como sabemos, tem feito um esforço nesse sentido, mas há a sensação, a perceção, de que esse esforço ainda não foi bem acomodado.
Não sedimentou ainda.
Ainda não sedimentou, precisamente. Esse é um plano a curto prazo em quem pensa a estratégia da AD. Mas depois há uma outra questão, e essa obriga a outro tipo de reflexões, que é o caráter estrutural do aparecimento do Chega e do reforço do Chega. E basta olhar para tudo o que aconteceu na Europa, e não só, estes partidos vieram para chegar e vieram para, em muitos casos, chegar ao poder. Não há garantia nenhuma de que o Chega não vá chegar ao poder nos próximos tempos. Essa responsabilidade sente-se por quem pensa a estratégia da AD. Há quem olhe para aquilo que aconteceu ao Partido Socialista e pense que isto pode acontecer ao Partido Social-Democrata.
Como aviso.
É um aviso, mas também há alguma, eu não queria usar a palavra resignação, mas algum realismo. Isto não é um fenômeno exclusivamente português, muito pelo contrário, até chegou tarde a Portugal.
Exato.
E é preciso pensar de forma diferente para um novo tempo. É possível que, de facto, as próximas eleições e as seguintes sejam discutidas entre o centro-direita e a direita radical. E isso vai pesando na forma como o nucleador de Luís Montenegro vai olhando para o resultado destas eleições.
Obrigado, Miguel.
Obrigado, Ricardo.
Miguel Santos Carrapatoso é editor adjunto de política do Observador e acompanha o PSD há vários anos. É o autor do livro "Na Cabeça de Montenegro". Ficam ainda três notas para esta terça-feira. O Presidente da República recebe no Palácio de Belém PSD, PS e Chega. Arranca assim a ronda de audições aos partidos com assento parlamentar. No final, Marcelo Rebelo de Sousa deverá convidar Luís Montenegro a formar governo. E esta terça-feira damos mais um passo importante no mundo dos podcasts aqui no Observador, neste caso, nos podcasts de ficção. Já está disponível o primeiro episódio de "O Zé faz 25", a história ficcional do desaparecimento de José Valbom, que é visto pela última vez na festa de aniversário dos 25 anos. Um elenco de luxo para contar uma história em áudio numa coprodução Observador e Coyote Vadio. E hoje, terça-feira, 20 de maio, assinala-se o Dia Mundial da Abelha.
Sou uma abelha Sempre em busca do mel Pousa aqui, pousa aí Nesta tua doce fé
O trabalho de polinização é essencial para as plantas e para as nossas vidas. As abelhas dão-nos muito mais do que o mel. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.