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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Quem é Sergey Lavrov e como se tornou o novo Mr. Nyet ou o senhor Não?

"O Ocidente declarou uma guerra híbrida total contra nós."

"O Ocidente declarou uma guerra híbrida total contra nós." As palavras são do ministro dos Negócios Estrangeiros russo e foram proferidas a 14 de maio, numa conferência de imprensa a partir de Moscovo.

Os políticos ocidentais têm de entender que os seus esforços para isolar o nosso país estão condenados.

Sergey Lavrov advogava que a Rússia tinha feito tudo para evitar o confronto direto, mas que, uma vez lançado, aceitava o desafio e que as consequências seriam sentidas por todos, sem exceção.

confirmed understanding that the world is becoming more and more diverse, and there is no place to hide from this.

Sergey Lavrov tem 72 anos e é o rosto que há muito o mundo associa à política externa russa. Está há 18 anos à frente dos negócios estrangeiros. Nunca ninguém deteve a pasta por tanto tempo. Foi ainda ao serviço da União Soviética que chegou às Nações Unidas. Passou por vários cargos até ser nomeado embaixador russo na ONU em 1994. E foi naquele edifício, em Nova Iorque, que o mundo ficou a conhecer o diplomata sofisticado, o negociador intransigente, detentor de um humor instável e o bon vivant, que aprecia fatos italianos caros, bom vinho, esqui no inverno e rafting no verão. Como é que Sergey Lavrov se tornou uma peça-chave na estratégia de Vladimir Putin? Vou conversar com a jornalista do Observador, Tânia Pereirinha. Olá, Tânia.

Olá, Catarina.

Andrei Kozyrev, que foi o primeiro ministro dos Negócios Estrangeiros da Federação Russa depois da queda da União Soviética, descreveu um dia este cargo como o de um motorista profissional muito bom, que de vez em quando tem de fazer inversão de marcha, a pedido do seu passageiro do momento, mas que isso não é motivo para deixar de guiar. Esta é uma imagem que cola bem ao perfil de Sergey Lavrov?

Sim, eu acho que sim, apesar de ele ter tido mais ou menos sempre o mesmo passageiro. Na verdade, houve uma fase em que o presidente da Rússia foi o Medvedev, mas Putin estava sempre lá por trás. Mas até no início desta intervenção na Ucrânia, Sergey Lavrov era a pessoa que dizia que ainda não estavam esgotadas todas as vias diplomáticas, que era possível fazer mais nesse sentido e com a invasão, rapidamente se tornou na pessoa que mais tem legitimado e defendido a intervenção. Portanto, sim, ele está a fazer aquilo que o passageiro manda.

Vamos recuar um pouco, mais precisamente 72 anos. Quem é e de onde vem Sergey Lavrov?

Um pouco, não é?

Só um pouquinho.

Ele nasceu há 72 anos, em 1950, faltavam cerca de três anos para a morte de Stalin, e é filho de um arménio nascido na Geórgia e de uma russa. Apesar de ser muito bom a Física no liceu, acabou os estudos secundários e seguiu para o Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscovo, que é a escola de onde saem todos os diplomatas russos de topo. Na escola, deu nas vistas. Ele chegou a ser o secretário do Komsomol, que é a organização juvenil do Partido Comunista da União Soviética, na altura, e deu nas vistas, sobretudo, por ser um aluno sociável, que se dava bem com todos, que foi, aliás, um dos traços que o tornou célebre mais tarde na sua vida de diplomata.

E é também ainda nessa fase que ele casa.

Exato. Ele casa antes de acabar o curso com Maria Lavrova, que é ainda hoje sua mulher, apesar de não serem vistos juntos há anos, não sei se décadas.

Falaremos mais um pouquinho disso mais à frente.

Falaremos, sim.

Lavrov domina quatro línguas, uma das quais o singalês. Há uma história curiosa também por trás disto, não é?

Sim, ele contou essa história há uns anos, para celebrar um aniversário da escola. Ele, na verdade, queria aprender árabe e francês e inscreveu-se para isso quando começou. Quando saíram nas pautas as colocações dos alunos, ele chegou lá e viu que estava um S.V. Lavrov em primeiro lugar no curso de inglês e francês, que era o mais prestigiado. Foi para casa e quando as aulas começaram, lá voltou e apresentou-se nessa sala. E foi nesse dia que, quando fizeram a chamada, se levantaram dois Sergeys Lavrov. E ele percebeu que não era assim tão bom, não tinha ficado no primeiro lugar do curso, afinal estava no último grupo, onde estariam os alunos não tão brilhantes, presumo eu, e teve de aprender singalês e francês. Inglês, aliás.

Que acabou por lhe dar jeito, porque também uma das primeiras missões que teve foi precisamente no Sri Lanka.

Foi a primeira missão, sim.

We heard that we were given like 100 pages of reports last Friday late anyway, just before the weekend, and we send them to capitals.

Em 1981, com apenas 31 anos, chega às Nações Unidas como representante da então União Soviética e é aqui que o mundo começa a familiarizar-se, a partir de dada altura, com o seu rosto e com o seu estilo muito particular. Como é que Lavrov reabilitou a alcunha de Mr. Nyet ou Senhor Não, que tinha sido de outra figura russa histórica?

O Mr. Nyet original foi o Andrei Gromyko, que foi durante 28 anos representante da União Soviética nas Nações Unidas e foi Ministro dos Negócios Estrangeiros durante muitos anos também. Chamavam-lhe assim porque dizia muitas vezes não e usava muitas vezes o poder de veto que tem a Rússia e as outras quatro potências nucleares. Basicamente, Lavrov, quando chega às Nações Unidas, não imediatamente, até porque nessa altura não tinha direito de veto, mas mais tarde, volta a usar muito o não e volta a afrontar muito os Estados Unidos e aquela ideia do pulo da hegemonia dos Estados Unidos e a vetar sempre que pode.

And I'll give the floor to the representative of the Russian Federation.

Aliás, o John Negroponte, que foi embaixador dos Estados Unidos na ONU ao mesmo tempo que Sergey Lavrov, disse uma vez que os seus dois objetivos eram sempre os mesmos: vetar coisas pela glória da Rússia e derrubar os americanos sempre que possível.

You know, Sergey, in anticipation of this important meeting and our time here together, I wanted to present you with a little gift.

Ouvimos aqui Hillary Clinton, em março de 2009, pouco depois de tomar posse como secretária de Estado, está a oferecer a Sergey Lavrov um presente. Lá dentro há um botão vermelho.

We want to reset our relationship.

Let's do it together.

So we will do it together, okay?

Está escrita a palavra reset em inglês e julgava Clinton em russo também.

We worked hard to get the right Russian word. Do you think we got it?

You got it wrong.

I got it wrong.

Mas Lavrov explica-lhe que está mal escrito. O que ali se lê, na verdade, é sobrecarga.

And this says перегрузка, which means "overcharged".

No dia seguinte, a manchete do jornal russo Kommersant era: "Sergey Lavrov e Hillary Clinton carregam no botão errado". E foi, de facto, o início de uma relação atribulada, tal como já tinha sido antes com a anterior secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice.

Sim, a relação dele com as homólogas mulheres, salvo raras exceções, foi sempre complicada. Ele é acusado de machismo por muita gente. Há outras pessoas que preferem dizer que não é machismo, é cavalheirismo à moda antiga, mas ele terá alguma dificuldade em lidar com mulheres de igual para igual, na mesma posição. E por isso Hillary Clinton e a Condoleezza Rice foram as pessoas que mais se travaram de razões com ele durante estes tempos.

Há, aliás, um episódio que Condoleezza Rice conta na sua autobiografia e que mostra bem como Lavrov sabia provocar com muita eficácia.

Sim, aliás, há quem diga que ele sabia provocá-la, a ela, especificamente, como mais ninguém. Ela contou um episódio que se passou em 2008, salvo erro, durante a curta guerra entre a Rússia e a Geórgia. Lavrov ligou-lhe um dia, os Estados Unidos estavam a tentar mediar o conflito e a tentar acabar com ele, e ele ligou-lhe um dia a dizer que a Rússia estava disponível, só tinha três condições a apresentar. E ela descreve as três condições: a Geórgia tinha que assinar um documento a cessar-fogo, tinha que mandar regressar aos quartéis todos os seus soldados e o terceiro era o presidente da Geórgia tinha que cair. E ela conta que na altura nem sequer pensou e que basicamente explodiu com ele e disse-lhe que isso não era uma conversa que uma representante dos Estados Unidos, uma secretária de Estado dos Estados Unidos, pudesse ter com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, e resolveu contar a todos que pôde que ele tinha feito esse pedido. A guerra acabou em 12 dias, o presidente não caiu, ficou durante mais cinco anos e Lavrov, pelo menos nessa ocasião, perdeu.

Professor Lavrov. Yes. There is a briefing.

É sabido que Lavrov gosta de fatos italianos caros, de bom vinho, de muitos cigarros, é controverso, é carismático. Quem privou com ele nas Nações Unidas descreve-o como tendo a imagem de um diplomata do século XIX, ou seja, não é o típico diplomata cinzento, certo?

Sim, não será, até porque é um diplomata que escreve poesia, que gosta de desporto, no inverno esquia e no verão faz rafting. Diz que também joga futebol aos domingos, sempre que pode. Não é cinzento. Aliás, há um episódio, falaste no cigarro, há um episódio em 2003, nas Nações Unidas, quando o Kofi Annan, que era então secretário-geral, decide banir o fumo do edifício. Lavrov decidiu que ele não mandava no prédio, portanto, podia continuar a fumar e acho que chegava a apagar cigarros nas alcatifas ou nas carpetes. Por outro lado, bebia bem antes do meio-dia, diz quem o acompanhou também nessa altura, e haveria até nas agências de notícias russas uma garrafinha de vodka sempre pronta para o servir a ele e a outros diplomatas russos à hora que fosse.

Há mais um pormenor que o faz Encaixar na imagem da personagem principal da série "Mad Men". Esta referência é feita muitas vezes por quem privou com ele. É casado há 51 anos com a mesma mulher, como falávamos há pouco, e também não falta a essa história alguma intriga e alguma traição.

Sim, traição. Ele nunca assumiu nada, nunca se referiu a isso, mas em 2021, jornalistas russos revelaram que Sergey Lavrov teria uma amante já pelo menos desde 2014. E agora quando houve sanções, uma das pessoas sancionadas no Reino Unido foi exatamente a filha dessa amante, que terá um patrimônio vastíssimo. Aliás, ela tem 26 anos agora, na altura em que tinha 21, comprou um apartamento em Kensington, em Londres, que é onde mora a Princesa Kate e o William, por cerca de €3 milhões. "Svetlana Alexandrovna, сотрудник Министерства иностранных дел Российской Федерации". Esta pretensa amante, Svetlana Polyakova, tem menos 20 anos do que ele, trabalha no Ministério dos Negócios Estrangeiros russos também, e deu nas vistas a primeira vez quando apareceu ao lado de Putin, de Lavrov e do patriarca Kirill, numa cerimônia de inauguração de uma grande igreja ortodoxa que tinha sido destruída nos tempos da União Soviética. Ela foi inclusivamente galardoada nessa ocasião, e foi aí que os jornalistas começaram a puxar para perceber quem era esta mulher e chegar à conclusão de que era amante de Lavrov, e que teria no seu patrimônio também milhões de euros e de carros caríssimos.

Nos últimos meses, Sergey Lavrov tem sido o principal rosto da defesa da ofensiva russa na Ucrânia, a seguir a Vladimir Putin, claro. Leva o papel tão a peito que ainda recentemente se excedeu e acabou por obrigar o próprio presidente russo a pedir desculpas em seu nome.

Sim, foi um episódio que o premiê israelita classificou como imperdoável, escandaloso e horrível erro histórico.

"גם התבטות בלתי נסלחת, גם שערורייתית כמו שאמרת, גם כמובן שגיאה היסטורית איומה".

O que é que aconteceu? Questionado sobre se faria sentido continuar a defender a intervenção russa na Ucrânia com a desnazificação do país, até porque Volodymyr Zelenskyy tem raízes judaicas, Sergey Lavrov respondeu que sim e usou Adolf Hitler para se justificar.

"По-моему, у Гитлера тоже была".

O que é que ele disse? Foi: "Na minha opinião, Hitler também tinha origens judaicas, pelo que não significa absolutamente nada. Há já algum tempo que ouvimos do povo judeu que os maiores antissemitas eram judeus".

Provocou uma imediata reação violenta do próprio Volodymyr Zelenskyy e como dizias, até de os ecos desta.

Sim, aliás, Vladimir Putin teve que ligar ao primeiro-ministro israelita a pedir desculpa e a retratar-se em nome do seu ministro dos Negócios Estrangeiros.

Regressemos à imagem inicial do motorista profissional. Independentemente das voltas que teve de dar ao longo de toda a sua carreira, conseguimos ler para onde esteve sempre apontado o GPS de Sergey Lavrov?

Eu acho que aponta sempre para o mesmo lado. Porque nós temos Lavrov com os bens congelados desde o segundo dia de guerra, tal como Vladimir Putin, e o plano não mudou. Basicamente, tudo isto se encaminha na defesa da glória da Rússia e na defesa de um império que supostamente Putin quer voltar a construir.

Obrigada, Tânia.

Obrigada eu, Catarina.

A Tânia Pereirinha é jornalista da seção de sociedade e escreveu o especial "De Mister Nyet a saco de pancada do mundo, a vida e as polêmicas de Sergey Lavrov", que pode ler no site do Observador. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Beatriz Martel Garcia. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Catarina Santos. Até amanhã.