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Esta é a história do dia da Rádio Observador: Netflix e Paramount, dois gigantes em confronto. Por que há tantos milhões em jogo na guerra do streaming?
A Netflix lidera o mercado do streaming, é a plataforma com mais subscritores. Com a compra da HBO Max, a terceira com mais assinantes e da Warner, fica perto do monopólio a nível global.
Já é a maior plataforma mundial de streaming de séries e filmes, mas a Netflix quer mais. A empresa fez uma oferta de mais de 70.000 milhões de euros para comprar a Warner Bros. Discovery, que tem, entre outras, a HBO Max. Mas quando se pensou que a corrida já estava ganha, eis que um estúdio histórico de Hollywood, a Paramount, fez uma proposta ainda mais elevada. A guerra do streaming põe também em evidência o confronto entre as novas plataformas e os tradicionais estúdios de cinema. Quem pode ganhar esta guerra? Por que é que estão tantos milhões em jogo? E que impacto é que tudo isto pode ter para os consumidores? Vou falar com Cátia Rocha, jornalista da seção de economia do Observador, que acompanha a área da tecnologia. Eu sou o João Santos Duarte e esta é a história do dia de quarta-feira, 10 de dezembro. Olá, Cátia, bem-vinda.
Obrigada, João.
Vamos começar por contextualizar um pouco a Warner Bros. É, por um lado, um dos estúdios mais antigos de Hollywood, não é? Mas hoje em dia é também muito mais do que isso.
Sim, estamos a falar de um estúdio de cinema centenário e responsável por vários clássicos do cinema, como Casablanca ou mesmo Citizen Kane, mas tem muito mais hoje em dia. Como dizias, tem estúdios de televisão, de onde saíram séries que foram sucessos mundiais, como Friends, por exemplo, ou a Teoria do Big Bang. Também tem canais de televisão como a CNN e a HBO e um serviço de streaming que é utilizado por muita gente, que é o HBO Max.
E como é que surgiu esta oportunidade de negócio?
Vamos voltar até junho deste ano, quando a Warner Bros. anunciou que queria separar os negócios, queria tornar os estúdios e a parte do entretenimento, onde está o streaming, numa empresa, e a divisão de canais globais noutra empresa, empresas completamente independentes. E por que que isto acontece? Porque está a ser sentida uma tendência no mercado dos canais por cabo de haver uma alteração da forma como vemos televisão. Hoje em dia, as pessoas estão muito mais viradas para o streaming e, portanto, está a ressentir-se um bocadinho este mercado dos canais por cabo. E em outubro a empresa foi mais longe e disse: "Já não queremos só separar as empresas, os nossos ativos", e disse também que estava aberta e disponível a vender algumas áreas de negócio depois de ter recebido ofertas. Há algumas semanas, tornou-se claro quem é que tinha partido estas ofertas, quem eram os interessados, a Netflix, a Paramount Skydance e a Comcast, que é a dona da Universal e também da NBC.
E precisamente a Netflix tinha então, aparentemente, ganhado a corrida à compra da Warner Bros. Discovery. E já vamos falar das reviravoltas deste negócio, porque entretanto a Paramount veio intrometer-se. Primeiro, só falar um pouco sobre a Netflix. Curiosamente, surgiu como uma empresa de aluguer de DVDs por correio, algo que para nós já parece um pouco distante. Hoje em dia domina o mercado de streaming.
E também mudou muito a forma como vemos televisão, graças à Netflix, que nos habituou à ideia de lançar uma temporada inteira de uma só vez, que era uma coisa a que não estávamos habituados. Mas sim, de acordo com vários estudos de mercado, a Netflix é a empresa com o maior número de subscritores no streaming, que tem 300 milhões de subscritores em 190 países. É uma pegada mundial muito relevante. E curiosamente, este ano assinalam-se os 10 anos da entrada da Netflix em Portugal.
E tendo já essa dimensão, por que a Netflix está disposta a gastar tanto dinheiro para comprar a Warner Bros.?
Tanto dinheiro ao ponto de esta ser a maior aquisição já feita pela Netflix. A resposta é simples: quer conteúdo. A propriedade intelectual da Warner Bros., já falámos aqui dos clássicos, é muito relevante no mercado, principalmente se olharmos para a HBO, de onde já saíram sucessos como a Guerra dos Tronos ou Os Sopranos. São apostas consideradas irreverentes neste mercado da televisão e apostas que compensaram. E mesmo no cinema, a propriedade intelectual da Warner Bros. também vai muito além dos clássicos. Tem franquias de muito relevo, como Harry Potter, por exemplo, ou o Super-Homem e muitas outras personagens relevantes através da DC Studios também. Tudo isto é propriedade que faz parte da Warner Bros. e que a Netflix considera que pode reforçar o catálogo.
Falemos então dos contornos desta proposta, deste negócio. Quanto é que oferece a Netflix e para ter precisamente o quê?
Vamos à parte que as pessoas não costumam gostar muito, que são os números. A Netflix dá $27,75 por cada ação da Warner, numa combinação de dinheiro. Ou seja, uma parte em dinheiro, a parte mais alta em dinheiro, e ainda $4,5 em ações da Netflix, o que dá um número redondo de $72.000.000.000. Mas a ideia não é a Netflix ficar com a totalidade da Warner Bros. Ficaria com o negócio de streaming, com a HBO e a HBO Max, também com os estúdios de televisão e ainda Warner Bros. Games, mas não ficaria com os canais de televisão.
Neste momento, a HBO Max é uma concorrente da Netflix. O que aconteceria se esse serviço de streaming passasse mesmo para a Netflix, ou seja, se a Warner Bros. fosse mesmo comprada pela Netflix?
Temos de relembrar que isto são movimentos no mercado muito recentes.
Sim.
Até aqui a Netflix explicou que este serviço de streaming continuaria a funcionar de forma independente, mas aqui o Ted Sarandos, o co-CEO da empresa, admitiu a possibilidade de haver um pacote combinado de serviços de streaming, de ter a HBO Max e a Netflix juntas por um preço mais atrativo. Não foi divulgado quanto. Ainda está tudo numa fase muito inicial, mas, por agora, a empresa vê funcionar como duas coisas independentes.
Como já referiste, houve aqui uma guerra de licitações para tentar ficar com a Warner Bros Discovery. Já depois desta proposta da Netflix ter sido aceite, surgiu então uma nova proposta da Paramount. Estamos a falar também de um dos históricos estúdios de Hollywood, aliás, é mesmo o único dos grandes que ainda mantém os estúdios históricos no centro de Los Angeles. Quais são as diferenças desta proposta da Paramount em relação à proposta da Netflix?
Algumas. A primeira grande diferença é que esta é uma oferta hostil, ou seja, é uma oferta que não é solicitada e que chega justamente depois de haver este acordo comunicado ao mercado de um negócio entre a Warner e a Netflix. Qual é a outra das diferenças? Esta proposta é feita diretamente aos acionistas da Warner Bros. A oferta da Netflix foi analisada pelo conselho de administração, em representação dos interesses dos acionistas. Mas depois há também a questão financeira. A Paramount está disposta a dar 30 dólares por ação, mais do que a Netflix, mas também quer muito mais. Na verdade, quer toda a empresa, incluindo os canais por cabo. É uma lista de mais de 20 canais, incluindo o Discovery, a CNN, a Eurosport, o TLC, entre tantos outros canais. E no total, a empresa ficaria avaliada em 108 mil milhões de dólares, incluindo aqui o valor da dívida.
E quem é que está por trás, quem é que está a financiar esta proposta da Paramount?
Bem, a família Ellison. Fazendo aqui o contexto, o CEO da Paramount, David Ellison, é filho de Larry Ellison, que é o fundador da tecnológica Oracle e o segundo homem mais rico do mundo. A única pessoa que tem mais dinheiro e mais patrimônio no mundo, de acordo com o ranking da Bloomberg, é Elon Musk. Além da família Ellison, também há aqui financiamento de outras partes para conseguir avançar com este negócio, incluindo os fundos soberanos do Qatar e da Arábia Saudita, e também da Affinity Partners, que é a empresa de investimentos de Jared Kushner, que se o nome não está a soar familiar, é o genro de Donald Trump.
Exato. Qualquer negócio, um ou outro, terá sempre de ser aprovado pela entidade reguladora do setor, não é? Qual destas propostas é que poderia ter mais potencial de suscitar dúvidas ao nível da regulação?
Esta aqui é a questão complicada.
Sim.
Eric Fruits, um dos especialistas em questões de regulação e economista com quem falei para este trabalho para o Observador, explica que estes negócios são diferentes e que, portanto, levantam dúvidas diferentes. Por exemplo, na opção da Netflix, a maior dúvida está ligada à dimensão que a empresa poderá ter no mercado de streaming se as duas empresas forem combinadas. Ou seja, temos os 300 milhões de subscritores da Netflix por um lado, o que a coloca no primeiro lugar deste mercado, e depois a HBO Max, que tem 130 milhões de utilizadores e dependendo do ranking, está entre o terceiro e o quarto lugar do mercado. E aí, juntando as duas empresas, ficaria uma vantagem ou uma presença demasiado grande no mercado para concorrer com as outras empresas que sobram, como a Amazon e como a Disney. Já com a Paramount, a questão não se prende tanto com o streaming, mas sim com a parte dos estúdios e a distribuição de cinema. Em teoria, isto seria visto como uma fusão mais entre estúdios tradicionais e, além disso, há também a parte dos canais por cabo. Mas até à escolha da Netflix, havia aqui muitos comentários de que a proximidade da família Ellison à administração Trump poderia dar alguma vantagem regulatória na forma como este negócio ia ser analisado. É esperar para ver o que é que vai pesar mais aos olhos dos reguladores. E também temos de ver o que é que os próprios acionistas da Warner Bros. vão dizer em resposta a esta oferta hostil.
Esta segunda-feira, a Netflix enviou um e-mail a todos os assinantes com o título "Bem-vinda à Netflix, Warner Bros." Sabendo o que sabemos agora e tendo em conta estes desenvolvimentos, esse e-mail foi precipitado, não? O que dizia?
Curiosamente, foi enviado no mesmo dia em que a Paramount apresenta a oferta hostil que agitou tudo isto. O e-mail tentava explicar aos clientes que, por agora, vai tudo manter-se na mesma, que a Netflix e a HBO Max são serviços de streaming separados, mas não assumia em nenhum ponto do e-mail que o negócio estava concluído. Tentava explicar e redirecionava até as pessoas pra página de ajuda com algumas perguntas e respostas sobre o negócio. Até porque é importante relembrar isto: a estimativa da Netflix é que, a haver uma fusão e este negócio avançar, seria preciso entre um ano e um ano e meio até estar tudo concluído. Portanto, não está já a dizer aos clientes que vai tudo avançar e vai tudo ser concluído, até porque menciona a parte da questão regulatória.
Mas a Warner Bros. já está, de alguma forma, agarrada a este negócio da Netflix, ou não?
Há um acordo, e há um acordo que foi comunicado ao mercado. Portanto Além disso, em negócios deste tipo, que têm muitos cifrões, há cláusulas que fazem o negócio falhar. E também neste caso isso existe. Se o negócio não for aprovado ou não avançar, a Netflix teria de pagar 5,8 mil milhões de dólares à Warner Bros, e já a Warner Bros teria de pagar 2,8 mil milhões à Netflix. Mas só para percebermos, isso também existe nesta oferta que foi feita pela Paramount, que se propõe a pagar 5 mil milhões de dólares, um valor mais baixo, se o negócio não avançar.
E que reações é que já existiram a este negócio, seja do mundo da política ou do cinema?
Neste momento, as críticas e o que já vimos de comentários estão mais ligadas à parte da Netflix do que propriamente a parte desta oferta da Paramount. Em relação à Netflix, houve críticas tanto por parte de senadores republicanos como senadores democratas, justamente pela dimensão que ficaria esta empresa combinada no mercado do streaming. Mas também há críticas, por outra parte, das instituições ligadas à indústria de televisão e cinema, por exemplo, com avisos de que isto poderia mexer na forma como Hollywood funciona e afetar também o negócio das salas de cinema e a própria indústria de Hollywood. Para contextualizarmos, a Netflix produz filmes, já foi nomeada e até venceu alguns Óscares também, mas a Netflix não é fã do modelo de ter um filme em sala, as pessoas irem ao cinema, prefere colocar os conteúdos de uma forma muito mais direta no streaming, para que toda a gente possa ver em casa. Isto é um modelo que não agrada, obviamente, a quem tem negócios na área das salas de cinema e, portanto, foram feitos alertas sobre isto, e também pela forma como isto pode mudar a indústria.
Obrigado, Cátia.
Obrigada.
Cátia Rocha é jornalista da secção de economia do Observador e especialista na área da tecnologia. A terminar, três coisas a ter em conta esta quarta-feira. Entra em vigor a lei que proíbe adolescentes na Austrália de acederem às redes sociais. O país vai obrigar as plataformas de redes sociais, incluindo Facebook, Instagram e TikTok, a remover os utilizadores com menos de 16 anos, caso contrário, estarão sujeitas a pesadas multas. Está marcada para esta quarta-feira a entrega do Prêmio Nobel da Paz a Maria Corina Machado. A líder da oposição venezuelana foi distinguida com o prêmio pelo trabalho incansável na promoção dos direitos democráticos do povo venezuelano e pela luta para alcançar uma transição justa e pacífica para a democracia naquele país. E o Benfica recebe o Napoli no encontro para a Liga dos Campeões. Os encarnados precisam de pontos se querem sonhar ainda com a possibilidade de apuramento para os oitavos de final da prova. O outro grande jogo da noite põe frente a frente Real Madrid e Manchester City. Esta foi a história do dia. No início deste episódio, ouvimos um som da Sic Notícias. A sonoplastia é de Artur Costa. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o João Santos Duarte. Até amanhã.