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Esta é a história do dia da Rádio Observador. A subida da taxa de juro na zona euro vai travar a inflação?
"In July, we intend to raise our policy rates for the first time in 11 years. And we have provided some guidance for our September policy meeting and the rate path that we envisage thereafter".
Em Sintra, a 29 de junho, a presidente do Banco Central Europeu reafirmava que o tempo das taxas de juro negativas acabou. A taxa de referência sobe esta quinta-feira e volta a subir em setembro. Christine Lagarde lembrava que o BCE atua de forma gradual. São pequenos passos de cada vez, mas numa mudança muito subtil no discurso, Lagarde avisa que, se for preciso, haverá passos determinados e menos suaves.
"This means moving gradually if there is uncertainty about the outlook, but with the option to act decisively to any deterioration in medium-term inflation, especially if there are signs of a de-anchoring of inflation expectations".
Em junho, a zona euro registou uma inflação média de 8,6%, uma situação que pode ser mais um entrave à recuperação econômica depois da pandemia e num contexto de guerra. A subida da taxa de referência é uma arma eficaz contra a inflação? Que peso vai ter esta decisão do Banco Central Europeu no dinheiro que temos disponível ao fim do mês? Hoje vou conversar com o jornalista de Economia do Observador, Edgar Caetano. Bem-vindo, Edgar.
Obrigado eu pelo convite.
Vamos começar pelo início. É sempre bom começar pelo princípio. O Banco Central Europeu quer controlar a inflação.
"We will continue along this normalization path, and we will go as far as necessary to ensure that inflation stabilizes at our 2% target over the medium term".
Christine Lagarde anuncia que a meta aceitável é de 2%. Por que 2%, Edgar?
Esse é o objetivo do BCE, que está nos estatutos. Durante muito tempo, a inflação tinha que ser mantida perto de 2%, mas abaixo desse nível. E mais recentemente, houve uma revisão estratégica do BCE que definiu que o Banco Central Europeu, tal como outros bancos centrais, olham para 2% como uma meta quase mítica, e isso é suportado em muitas toneladas de pesquisa acadêmica e econômica que diz que, no fundo, para as pessoas perceberem por que deve haver alguma inflação. Isto é um bocadinho polêmico, porque há quem discorde disto. Há quem ache que não deve haver inflação nenhuma ou que ache que deve ser 3%, ou 2%, ou 1%, e que dizer 2% é um bocadinho arbitrário. Por que deve haver alguma inflação? Em termos muito simples, e correndo o risco de ser aqui bombardeado por economistas amanhã no meu e-mail, basicamente, há duas razões principais. A primeira é que quando tens uma inflação num número baixo como 2%, isso significa que existe alguma destruição do dinheiro ao longo do tempo. Isso significa que há um incentivo natural da poupança que existe na economia procurar investimentos mais arriscados, que é desses que vem a inovação. Uma sociedade sem inflação é aquela sociedade aristocrática de França.
Que não cresce.
Que não cresce. Deve haver alguma inflação, porque basicamente, se não houver inflação, a poupança fica refugiada em propriedades e palácios no sul de França. Além disso, há outra questão: uma inflação descontrolada é um risco muito grande, mas uma deflação também é vista como um risco tão grande ou até mais difícil de controlar, pelo menos. Tão grave, mas ainda mais difícil de controlar. E, portanto, deve haver alguma margenzinha, porque se andarmos sempre em zero, muito facilmente podemos cair para a deflação. É essa a razão.
Mas é possível uma meta de 2% quando estamos com mais de 8,5%, digamos assim?
É importante referir que a meta de 2% é a médio prazo, o que significa que o que está em causa nunca é a inflação que nós temos hoje ou que tivemos no mês passado, que é aquilo que nós normalmente noticiamos, ou há dois meses. É importante dizer isto porque a meta de 2% é a médio prazo, o que significa que o BCE não tem que trabalhar para aquilo que aconteceu no mês passado, tem que trabalhar para aquilo que acha que vai acontecer daqui a médio prazo, seja lá o que for que isso significa. Mas obviamente que há indicadores muito desenvolvidos e de alguma forma o BCE tenta prever qual é que vai ser a taxa de inflação ou a trajetória da taxa de inflação daqui a uns meses. Agora, isso é sempre subjetivo.
Claro. E já sabemos que a inflação retira poder de compra, os preços sobem, os salários não acompanham. Agora aumentam as taxas de juro de referência. Como é que este aumento das taxas de juro de referência pode ajudar a combater esta subida dos preços, esta inflação?
Em teoria, no geral, a subida da taxa de juro é uma ferramenta básica e é a primeira ferramenta que o Banco Central tem pra tentar controlar a massa monetária e as pressões sobre os preços. A tua dúvida é se a subida da taxa de juro pode ajudar a combater a inflação ou a combater esta inflação.
Quero saber essas duas coisas, mas primeiro queria que nos explicasses a ferramenta, qual é o objetivo teórico disto.
Quando um banco central aumenta o custo que é preciso pagar para obter liquidez, isso tendencialmente é a forma indireta que o BCE tem de guiar o carro ao volante do qual está. Quando tu aumentas o custo do crédito, estás automaticamente a tentar forçar os agentes económicos a pedirem mais ou menos dívida, a exercerem mais ou menos procura económica. Agora, a dúvida é: será que é eficaz para combater esta inflação?
E era isso que te ia perguntar, porque, por exemplo, nos Estados Unidos, a Reserva Federal, que no fundo é o banco central norte-americano, já tomou essa decisão há alguns meses. Isso resultou de alguma forma? Essa subida da taxa de juro nos Estados Unidos ajudou a controlar a inflação?
Lá está, nos termos atuais, não ajudou, porque ainda no outro dia saiu a inflação dos Estados Unidos e foi acima de 9%, também record. Mas lá está, temos que voltar a dizer que o que está em causa é sempre olhar para o futuro. Olhar para a inflação a médio prazo e não para aquilo que aconteceu. E há outra questão aqui, é que de facto é complicado comparar sempre os Estados Unidos com a Europa, não só porque as economias são muito diferentes, mas porque a forma como nos dois blocos se reagiu à pandemia foi muito diferente. E, portanto, é muito difícil dizer que o BCE poderá ter resultados diferentes do que teve os Estados Unidos. É verdade que nos Estados Unidos já está a subir a taxa de juro há muito tempo e é por isso que se diz que o BCE está um bocadinho atrasado nesta trajetória de normalização da política monetária, que já devia ter começado há mais tempo.
So, it's not a question of catching up. It's a question of using all the tools that we have in order to deliver on our mandate of price stability and in order to bring inflation down to target over the medium term.
Agora, a dúvida é se o BCE sempre disse, ou disse até certo ponto, que a inflação era causada pelo preço de energia, por choques externos. Normalmente, isso não é aquilo que uma subida da taxa de juro faz controlar. Ou seja, há bocadinho dizíamos que subimos o preço do dinheiro, para simplificar, para induzir menos procura na economia. Isso não está em questão, porque não foi isso, pelo menos originalmente, que causou a inflação. A questão é que, entretanto, a subida dos preços da energia já se está a alastrar. Ou seja, há bocadinho quando dizias que os salários não sobem, eu não te interrompi porque não acho elegante, mas na verdade, às vezes podem subir. E estão a começar a gerar-se essas pressões, porque as pessoas compreendem isto. Chegas a um ponto em que quem tem poder para exigir aumentos salariais, seja por sindicatos ou seja num estrato da sociedade que tem um bocadinho mais de força negocial, digamos assim, para exigir aumentos, já se estão a verificar algumas pressões.
Resta é saber se sobem o suficiente e depressa o suficiente para cobrir essa subida.
Uma das coisas que os bancos centrais querem é que eles não subam de forma tão rápida, suficientemente rápida para responder. Portanto, até certo ponto, quer-se aqui, de facto, não se alimentar ainda mais a inflação. O que está subjacente a isto é que o próprio banco central reconhece que algumas pessoas vão ter que perder algum poder de compra durante algum tempo.
E há aqui um outro ponto que eu gostava que nos explicasses, que é o euro face ao dólar. O euro esteve a valer menos do que o dólar, agora está praticamente igual. Isto é relevante por quê, Edgar Caetano?
Nós fizemos no outro dia uma história do dia com esta informação e, de facto, o euro, que valia há poucos anos cerca de 1,6 dólares, agora está à volta de um. Isto parece uma coisa mais ou menos insignificante e decimal, mas não é. Isto tem muitas implicações. E já se sabe que o dólar não está só a subir em relação a ele, está a subir em relação a todas as principais moedas. Mas isto é relevante em relação à tua pergunta por quê? Porque se se dizia que, pelo menos no início, a inflação era causada pelos preços da energia, sabemos que os preços da energia são denominados em dólares, o que significa que quando nós estamos a ver às vezes o barril do futuro do Brent, do petróleo, estão a cair, estão sempre a cair em dólares. O que significa que nem sempre poderão estar a cair em euros. Se a inflação, de facto, começou pela energia e continua a ser liderada pelos preços da energia, não sabemos até que ponto está generalizado ao resto da economia, mas se a energia continua a ser o grande motor que está a criar a inflação, isto não ajuda, porque a Europa continua a ter que importar energia. E se essa energia é denominada em dólares, isso significa que não é um bom augúrio para quando se tenta perceber onde é que está o pico da inflação. Que é isso que toda a gente agora quer perceber, onde é que está o pico? Quando é que isso vai começar a virar? Será que vai começar a virar em breve? Será que é possível que a inflação vire no sentido de atingir o seu ponto mais alto e começar a descer, pelo menos devagarinho? Será que é possível que isso vá acontecer em breve? Será que é possível que isso aconteça antes de acabar a guerra? Ninguém sabe isto. São as grandes questões que se estão a perguntar agora. E, portanto, para a nossa situação particular na Europa, um euro muito fraco é algo que nos agrava ainda mais o problema original e que não nos torna a vida particularmente mais fácil. Mas de facto, é muito difícil o BCE conseguir fazer muito em relação a isto, porque quem manda aqui é a Reserva Federal, não é a hipótese.
E sob pena de mantermos esta conversa num nível de pessimismo elevado, temos que olhar também para os juros. É esse o mote da nossa conversa hoje, Edgar. E, obviamente, também vamos pagar mais pelos empréstimos da casa, por exemplo, no crédito à habitação.
Sim, esse é um risco que nós temos vindo a sinalizar já há bastante tempo aqui no Observador, há vários meses, desde o início do ano de 2022, quando já dizíamos que em junho podia já as Euribors passarem para terreno positivo. Na altura, até tive receio de estar a parecer demasiado alarmista e curiosamente a realidade revelou-se ainda mais. Não foi preciso chegar a junho para que as taxas de juro Euribor começassem a subir acima de zero. Neste momento, já estão todas acima de zero. Desde a Euribor a três meses, a seis meses, a 12 meses, em todos os prazos. E isto pode ser um choque para as famílias.
E isso é porque os bancos anteciparam esta medida, hoje anunciada pelo Banco Central Europeu, e em setembro está prometido novo aumento da taxa de referência. Os bancos anteciparam tudo isto, é isso?
Os bancos e todos os investidores, todos os mercados monetários, todo o sistema financeiro já antecipou, até porque o BCE já sinalizou que as taxas de juro iriam subir, nomeadamente iam sair do terreno negativo neste terceiro trimestre. Não se sabia se ia sair já de forma abrupta, como se costuma dizer, agora em julho, ou se iria ser só em setembro, mas já se sabia. Portanto, quando os bancos centrais comunicam e dão as chamadas orientações futuras, os bancos e todos os participantes do mercado monetário, do mercado de obrigações, antecipam logo isto aqui. Portanto, isto não é propriamente novidade. Além disso, também é o impacto que falávamos há pouco. Os bancos também anteciparam um bocadinho este movimento, porque também são um bocadinho arrastados por aquilo que acontece nos Estados Unidos. E como nos Estados Unidos o mercado monetário já há muito tempo começou a antecipar que a era dos juros baixíssimos ou negativos já tinha acabado, naturalmente, isso já foi começando a ser refletido nas taxas de mercado diárias.
E isso também torna mais difícil o acesso ao crédito, quer a particulares, quer a empresas, não é?
Torna mais difícil porque mexe com as taxas de esforço. Recorda-te que os bancos por todo o mundo, e em particular o BCE e o Banco de Portugal, em Portugal, tomaram medidas como, por exemplo, a limitação aos 90% do financiamento às casas, por exemplo. Tu para comprares uma casa precisas de ter 10% de entrada, o banco só financia no máximo 90%. Isto são medidas que os bancos centrais tomam para limitar o superaquecimento dos preços. Agora, nesta fase, já não seria tanta a necessidade de limitar o superaquecimento dos preços, porque a própria taxa de juro está a começar a subir. Só que o Banco Central não abandonou essa recomendação. Portanto, neste momento as pessoas, põe-te no lugar de alguém, por exemplo, não sei se é o teu caso, que está a tentar comprar uma casa, já sabe que além de suportar prestações mais elevadas, e isso é logo refletido na taxa de esforço, que é calculada no momento que se contrata o crédito, não deixaste, por isso, de ter também os 10% de entrada. Isso veremos o que acontece no futuro. Mas sim, afeta muito o acesso ao crédito, a famílias e empresas aplica-se o mesmo também.
Resumindo aqui a nossa conversa, Edgar Caetano, não sabemos se esta subida na taxa de juro vai ou não ter efeitos concretos no ataque à inflação ou se esses efeitos serão suficientemente fortes. Sabemos que no final deste ano todos nós vamos ter menos dinheiro na carteira.
Errado. E eu recuso-me a deixar acabar esta história do dia com uma mensagem pessimista. Não serão todos, até porque se subir a taxa de juro, isso também significa que quem tem poupanças e quem tem investimentos poderá beneficiar alguma coisa também.
Há sempre alguém que ganha.
Há sempre alguém que ganha. E além disso, acho que temos que evitar também pensar de forma pessimista e até às vezes um bocadinho passiva.
Derrotista.
É como quando se fala do crescimento. Quando se fala do crescimento, falamos sobre se a Europa entra em recessão ou o país entra em recessão. Mesmo em recessão, há muita coisa que se valoriza. Não é por haver uma recessão, que Portugal poderá deixar de ser o maior exportador de bicicletas na Europa ou no mundo, na Europa, certamente. E portanto, acho que existe sempre algum espaço para não pensarmos que, apesar da tendência não ser propriamente expansionista, para usar aquela palavra que os bancos centrais adoram, mas dentro do contracionismo também pode haver muito expansionismo, e é isso que também queremos dizer.
Então não devemos entrar em pânico.
Não, não vale a pena.
Obrigado, Edgar.
Obrigado eu.
Edgar Caetano é jornalista da secção de Economia do Observador e dá particular atenção aos temas como banca e política monetária. Esta foi a história do dia. Os sons que ouvimos são de Christine Lagarde, a presidente do Banco Central Europeu, e estão disponíveis no canal do YouTube daquela instituição. A sonoplastia é da Beatriz Martel Garcia, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.