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Esta é a história do dia da Rádio Observador: Trump na frente, com quase certeza de vitória.

"I feel very confident. We went in with a very big lead today, and it looks like Republicans have shown up in force."

Ao final da tarde desta terça-feira, hora portuguesa, Donald Trump mostrava-se sereno ao lado da mulher, Melania, e muito confiante na vitória. Enfrentou dois processos de destituição e perdeu a recondução frente a Biden, mas agora poderá vencer. A contagem dos votos difere de estado para estado e pode ainda demorar, prolongando um pouco mais a dúvida sobre quem vai vencer esta corrida. Vou conversar com Cátia Bruno, editora de Internacional do Observador e enviada especial aos Estados Unidos. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia de quarta-feira, 06 de novembro, e pela primeira vez feita em direto na rádio. Bem-vinda, Cátia. Bom dia aqui em Portugal. Boa noite aí, já é madrugada em Washington, onde tu estás.

Olá, Ricardo. Sim, boa noite aqui, mas bom dia aí para vocês. Aqui é 1:36 neste momento.

E com os candidatos a acompanhar o escrutínio nas sedes, pelo menos Trump na Flórida, Harris já terá ido para casa em Washington, pelo menos não vai falar para já. Como é vivida uma noite eleitoral nos Estados Unidos, Cátia?

Eu tenho estado na cidade de Washington, D.C, que pertence ao District of Columbia, e isso é um pouco uma bolha. Estamos a falar aqui de uma zona que é composta por muita gente ligada à política e, portanto, há muita atenção sobre a eleição. Eu e o Diogo Ventura passamos a noite em dois bares que estavam a acompanhar a eleição muito de perto, com muitas televisões ligadas, com muito barulho, muita agitação. Mas uma das festas era claramente composta por mais clientes pró-Harris, noutra por mais clientes pró-Trump. Mas mesmo em ambas, apesar da animação e do entusiasmo, havia sobretudo muitos nervos e muito pouca gente a querer dar como certa uma vitória.

Cátia, ainda se contam votos. Estamos a esta hora com os olhos postos nos estados que podem desatar este nó, como a Pensilvânia. Eu nunca pensei, confesso, fazer esta pergunta, mas a pergunta impõe-se. Cátia Bruno, és a pessoa indicada para responder a esta pergunta: como é que se contam votos na Pensilvânia? É com as mãos, é com computadores? Como é que isso funciona?

Não sei se sou a pessoa indicada, porque também não sabia até há pouco tempo como é que se contam votos na Pensilvânia, mas posso dizer que contam-se como se contam nos outros estados, no dia a dia, na minudência da coisa. Eu hoje estive numa assembleia de voto aqui em D.C, em que me mostraram como funciona todo o processo, e temos votos em boletim de voto, em papel. Esses são contados à mão. E temos votos que são introduzidos através de um sistema eletrónico, mas do qual é impresso um papel e que acaba por ser também contado à mão. Esses votos são depois colocados numa espécie de urna maior, onde isso é tudo bem organizado e de uma forma que facilita a contagem. Nalguns estados até há a possibilidade de ser escaneado, o que acelera a contagem. Aqui na votação da Pensilvânia, o que há de muito diferente é que a Pensilvânia é um dos poucos estados onde não é permitido começar a contar os votos antecipados, que foram enviados por correio, antes das urnas fecharem. E isso atrasa muito o processo. E é isso, provavelmente, que faz com que ainda demoremos um pouco a conseguir ter os resultados desse estado, como aconteceu já no passado.

Bom, são 18h40 esta hora em Portugal e a contagem segue com alguma velocidade na Pensilvânia. Em 2020, como é que foi no estado da Pensilvânia?

Em 2020, a situação foi mais agravada, em parte pela Covid, o que atrasou todo esse envio de boletins por correio e, portanto, atrasou depois toda a contagem por causa das regras de saúde que estavam em vigor. E foi preciso esperar vários dias, eu creio que até sábado do dia a seguir à votação, até terça-feira, para se ter um resultado final. Até porque é preciso ter em conta que, na Pensilvânia, se a diferença entre os candidatos não for superior a 0,5 pontos percentuais, há uma recontagem automática. E portanto, quando está tudo taco a taco, se não houver essa margem de distância, tem que se começar de novo.

É preciso contar outra vez.

É preciso contar outra vez e portanto tudo demora. Só para termos uma noção, nas últimas eleições, Biden ganhou a Pensilvânia com 1,2 pontos percentuais de vantagem face a Trump, portanto, uma margem muito curta.

É mesmo um bocadinho assim. E por exemplo, noutro estado determinante, na Geórgia, que já temos resultados, foi tudo muito mais rápido. É interessante como esta questão da forma como se contam os votos tem tanta influência numa noite como esta.

Sim, e também o comportamento dos eleitores em diferentes estados. A Geórgia, por ser um estado que É um estado do sul, tradicionalmente mais republicano ao longo da história, há muito pouca tradição do voto antecipado por e-mail. Como a maior parte das pessoas vota pessoalmente, isso acelera a contagem, porque não é preciso ir buscar todos aqueles grandes pedaços de papel, abrir, confirmar, ver se são da pessoa certa, isso acelera. Para além disso, desta vez, mais uma vez, não há pandemia. Se em 2020 foi muito mais demorado, desta vez é tudo mais acelerado, até porque muitas pessoas que votaram por correio em 2020, por receio de ir às assembleias de voto por causa do Covid-19, muito provavelmente desta vez já não tiveram esse receio e foram votar presencialmente.

Cátia Bruno, temos alguma ideia, a esta hora, se a afluência às urnas foi maior nestas eleições do que há quatro anos?

Não temos ainda dados, mas temos percepções. É importante lembrarmos que há quatro anos a afluência às urnas foi histórica. Estamos a falar de uma participação de 66%, era uma coisa que não acontecia desde o século 19 nos Estados Unidos, mesmo em plena Covid. Podemos talvez não quebrar esse recorde, no sentido em que isso é um número muito impressionante. Mas a sensação que dá, pelo menos a partir daqui, é que a participação nestas eleições foi muito forte. Tendo em conta que as sondagens ao longo dos últimos dias estavam tão renhidas, tínhamos empates técnicos todos os dias nas televisões em quase todos os swing states, surpresas de última hora, como a sondagem a dar a Harris à frente no Iowa. Todos esses dados têm tendência a potenciar a votação daqueles que, se calhar, iam decidir abster-se, por exemplo, ou daqueles que estavam indecisos e não sabíamos como contar com eles ou não, se contávamos com eles ou não no dia da eleição. Eu acho que é expectável que seja uma participação muito elevada, não sei se vai quebrar o recorde de 2020.

A esta hora e nesta primeira história do dia feita em direto na rádio, quando são 06h43 da manhã em Portugal, apesar de as coisas estarem bem encaminhadas, podemos dizer que ainda vamos demorar algumas longas horas ou até dias à espera de ter 100% de certeza sobre quem ganhou?

Para termos resultados oficiais, sim, mas há aqui pequenos resultados que podem ir saindo e que tornam logo evidente que Kamala Harris possa não conseguir vencer a presidência. Basta pensarmos que se Harris perder no Michigan, no Wisconsin, no Arizona e no Nevada, mesmo que estejamos à espera da Pensilvânia, é praticamente impossível, matematicamente impossível a Harris ganhar. Se, por outro lado, os resultados da Pensilvânia saírem antes e Harris tenha perdido esse estado, também não lhe chega conquistar todos os outros para compensar a vantagem que Trump leva na Geórgia e na Carolina do Norte. E por isso, talvez não seja uma contagem tão demorada como esperávamos ou como especulávamos ao longo das últimas semanas e ao longo deste dia. Agora, para ter absoluta certeza, é claro que vamos ter que esperar pelo menos algumas horas. E é precisamente por isso que Harris decidiu não discursar hoje e esperar para ver se ainda tem alguma mínima hipótese no Wisconsin, no Michigan, possivelmente na Pensilvânia, ou se terá perdido por completo essa possibilidade.

E nestas eleições presidenciais havia, e há, um risco de interferência russa, interferência iraniana, fraudes. De resto, o Trump falou nessa hipótese na rede social que detém nesta terça-feira. Há a esta hora, Cátia Bruno, notícia de eventual interferência russa, iraniana, fraudes nestas presidenciais?

Que estejam provadas a 100%, não. No entanto, as notícias de interferência russa têm um pouco mais de peso do que os outros cenários que falaste. Por quê? Porque houve as notícias de ameaças de bomba falsas nalgumas assembleias de voto e o FBI não demorou muito a dizer que tinha praticamente a certeza que esses avisos tinham sido feitos a partir de computadores que estão na Rússia. Isso tem bastante peso. É claro que isso foi remetido para uma investigação oficial, cujos resultados ainda vão demorar a ser conhecidos, mas foi colocado logo esse dado, que mostra que há alguma solidez nessa informação para ter sido tornado público pelo FBI. Quanto à questão das fraudes, é interessante que ao longo do dia, Donald Trump, como fez ao longo das últimas semanas, falou repetidamente na possibilidade de haver fraude. Aliás, mais do que a possibilidade, garantiu que estaria a ocorrer fraude.

Até usou a expressão massiva.

Exatamente. E falou do caso da Pensilvânia, que foi rapidamente desmentido pelas autoridades locais, dizendo: "Não temos nenhum indício disso." Essa continua a ser a posição oficial de todos os estados. Não houve nenhum estado, nenhumas autoridades locais a dizerem que haja suspeitas sequer de uma situação dessas. É curioso que desde que os resultados têm vindo a ser conhecidos e em que parece estar encaminhada uma vitória para Donald Trump, o candidato não tem voltado a falar dessa possibilidade de fraude. Vamos esperar para ver ao longo, mais uma vez, das próximas horas, dos próximos dias, o que é que temos a acrescentar sobre isto.

Porque havia o risco desta indefinição poder acicatar os ânimos num país que está claramente dividido praticamente ao meio e muito polarizado. Agora, a vitória de Trump poderá acalmar os seus apoiantes. É mais do que provável a vitória de Trump e podemos ter agora calma nos Estados Unidos ou, por outro lado, os democratas podem contestar?

Parece-me que há sempre a possibilidade de contestarem resultados num ou noutro estado específico em que a vitória tenha sido por uma margem muito curta. Não podemos esquecer que isso não é um exclusivo da era Trump. No ano 2000, a campanha entre Bush Filho e Al Gore foi marcada por uma recontagem de votos na Flórida caótica, que só foi resolvida com uma decisão do Supremo Tribunal, e portanto, essa não é uma realidade nova. Agora, não me parece que, a confirmar-se este cenário de vitória de Trump e derrota de Harris, que os democratas levantem as mesmas dúvidas sobre quem é o vencedor da eleição. Ou pelo menos não me parece que incentivarão a sua base eleitoral a contestar tão violentamente os resultados como o Trump fez em 2020. Pelo menos tem sido essa a garantia que deixaram. O candidato a vice Tim Walz disse hoje, por exemplo, de manhã, que se Harris perdesse, ele iria com todo o gosto apertar a mão a Donald Trump e reconhecer a vitória. Portanto, não há nenhum sinal enviado para o eleitorado democrata de que, havendo uma vitória óbvia, essa deva ser contestada. Agora, é claro que pode sempre haver bolsas de eleitorado, e que pode haver protestos e alguma agitação em alguns lugares, porque haja ou não vitória de Trump, o país dividido e polarizado vai continuar a estar. Não estamos a falar nunca de uma vitória por uma margem arrasadora.

Esta é a primeira vez que estamos a fazer uma História do Dia em direto na rádio. São quase 7h00 em Portugal. Já disse isto várias vezes e perdoem-me os ouvintes, mas realmente é interessante, até porque, e fica aqui também mais uma nota, a Cátia Bruno foi a primeira convidada do primeiro episódio da História do Dia, isto nas vésperas do início da guerra na Ucrânia, em fevereiro de 2022. Para fecharmos aqui a nossa conversa, Cátia, a esta hora, com os dados que temos, e reforçando que se trata de uma tendência, vou pôr aqui esta expressão, avassaladora, Trump deverá ser o vencedor destas eleições presidenciais.

Com os dados que temos neste momento, sem dúvida. Por quê? Porque não necessariamente pelos estados que já conquistou, porque a maior parte deles eram esperados que fossem vencidos por ele. Outros swing states, aqueles que já foram declarados como vencedores, a Geórgia e a Carolina do Norte, são estados que historicamente votam mais no Partido Republicano. Foram poucos os candidatos democratas que conseguiram quebrar essa barreira. Jimmy Carter, Barack Obama, Joe Biden, Bill Clinton, mas muito poucas vezes. O que sustenta mais esta percepção, e isso é muito importante, é que quando olhamos para os resultados já contados que vão saindo, Donald Trump segue à frente em todos os swing states. As margens são curtas, mas ele está à frente. E quando olhamos ainda mais em concreto, minuciosamente para os dados, vemos que na larga maioria dos condados, e não apenas nos swing states, até em sítios como Manhattan ou Nova Jérsia, nesses locais, Donald Trump está a ter resultados muito acima dos resultados que teve em 2020. E portanto, mesmo em sítios onde é improvável que vença, como Nova Iorque, isto mostra uma tendência do eleitorado de se aproximar de Trump, e um eleitorado talvez que não estava próximo dele antes, o que indica que podemos estar a falar, por exemplo, de novos eleitores, de eleitores de minorias, de mulheres dos subúrbios, etc.

E com esses dados que temos em cima da mesa, no fundo, isso demonstra que Trump consegue derrotar o destino que lhe era traçado, um pouco por todo o mundo e por comentadores e até pelas sondagens, e consegue, depois de dois processos de destituição, depois de ser incumbente e a derrota frente a Biden, consegue voltar a vencer nesta situação, diria quase contra tudo e contra todos, consegue vencer, o que não deixa de ser curioso. E para quem olha deste lado para aí, para os Estados Unidos, parece sempre um pouco estranho como é que isto acontece.

Eu diria que sim, tens toda a razão no sentido de que parece surpreendente. Quando Trump anunciou que se ia recandidatar a presidente foi em 2022, os republicanos tinham acabado de perder as eleições intercalares. Trump estava a ser alvo de investigações por causa da invasão ao Capitólio, estava sob muitos outros processos judiciais. Não parecia de todo que fosse garantida uma vitória, nem sequer que ele conseguisse necessariamente ser o nomeado do partido. Aqui chegado, não só foi o nomeado, depois de um processo de primárias que correu sem qualquer problema, sem qualquer entrave, como agora consegue muito provavelmente vencer contra todo este cenário que aqui traçavas. Eu acho que por um lado, olhando aqui dos Estados Unidos e pelas conversas que fomos tendo ao longo destas duas semanas com muitos eleitores, parece-me que a economia foi uma questão muito decisiva. A inflação foi algo que ficou muito associada à presidência de Biden, e os americanos não sentiam níveis de inflação tão elevados já há muito tempo. Estamos a falar de há três décadas, quatro décadas que não havia níveis de inflação elevados no país e, portanto, é uma experiência que os americanos já não sentiam, e portanto, isso marcou-os muito. E depois também a imigração foi um tema que Trump interligou muito bem com a questão da economia, conseguindo tentar dizer aos eleitores: "Esta onda massiva de imigração só vai piorar a nossa situação econômica e os democratas não estão a fazer nada em relação a isso." Acho que essas duas mensagens foram muito apreendidas por grande parte do eleitorado, às vezes eles próprios imigrantes há muitos anos nos Estados Unidos. E depois temos sempre que ter em conta uma coisa: as tendências que conhecemos da política americana há muitos anos não são necessariamente as mesmas com Donald Trump, porque ele já provou que tem todo o talento a deitar abaixo essas tendências do passado. Por que não fazê-lo nesta eleição de 2024?

Obrigado, Cátia.

Obrigada eu, Ricardo.

Cátia Bruno é editora de internacional d'O Observador, está nos Estados Unidos com o outro enviado especial, Diogo Ventura. Esta foi a História do Dia, a primeira em quase 700 episódios feita em direto na rádio, com a ajuda preciosa da Maria João Simões, que foi controlando os botões na mesa de mistura. Peço desculpa aos ouvintes por estar tão entusiasmado com isto, mas é mesmo entusiasmante fazer isto em direto. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.