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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Vamos ter de desligar as luzes da árvore de Natal?

O incentivo à poupança tem sido o brutal aumento de toda a energia. Perante isso, nós não esperámos por ajudas do Estado e implementámos nós próprios algumas medidas para reduzir o consumo de energia.

Cesário Peixoto tem vários restaurantes na Baixa de Lisboa. À semelhança de outros empresários, fez alterações no dia a dia para poupar nos custos da energia. Não esperou pelas medidas recomendadas pelo governo com o objetivo de ajudar a armazenar energia para fazer face à ameaça russa.

Uma das medidas foi acabarmos com os aquecedores nas esplanadas, fazendo disso uma grande poupança de energia. Começámos a utilizar as mantas para os clientes se sentirem confortáveis à noite. Substituímos tudo que era lâmpadas tradicionais por lâmpadas LED. Reduzimos as horas em que temos as luzes ligadas e só ligamos mesmo quando é necessário.

Portugal avança com um conjunto de medidas para poupar energia. Isto para auxiliar o esforço europeu de armazenamento. Vladimir Putin tem o poder de fechar a torneira do gás e a Europa quer estar preparada para o inverno que se aproxima. Que medidas Portugal vai adotar e quem está obrigado a cumpri-las? Vou conversar com a editora adjunta de Economia do Observador, Ana Semlês, sobre esta poupança energética. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, Ana.

Olá, Ricardo.

Na tua árvore de Natal tens luzes brancas, amarelas, azuis, aquelas às cores?

Às cores não. A minha árvore de Natal tem luzes amarelas, Ricardo, daquele branco amarelado, e tendem a piscar.

Isso parece-me de grande bom gosto. Bom, mas o Natal ainda pode esperar um bocadinho. Está quase aí, mas ainda pode esperar um bocadinho. Estamos a falar de energia e temos o anúncio de medidas para poupar energia. Não se trata aqui de uma opção ecológica, é antes uma decisão de Bruxelas, é isso?

Sim, não é para salvar o ambiente, é para salvar a Europa. É uma resposta a um pedido de Bruxelas. Podemos dizer assim: a Comissão Europeia lançou um repto aos Estados-membros, no verão, para que reduzissem de forma voluntária o consumo de energia em 15%. Caso a situação se agrave, esta crise energética, esse corte, que agora é voluntário, pode passar a ser obrigatório. E os países, já em julho, quando Bruxelas lançou esse repto, ficaram de apresentar um plano de poupança de energia. Já vários o fizeram e o nosso até é dos últimos.

E o que se consegue com essa poupança a nível europeu?

Conseguimos segurança, no fundo, segurança energética, que é o grande objetivo da União Europeia, cortar no consumo agora até onde é possível, sem grandes sacrifícios, para que, caso a Rússia corte mesmo a torneira do gás e esta crise energética se agrave, tenhamos uma reserva maior e suficiente que garanta que não passamos frio no inverno.

Armazenar agora para o inverno, é essa a ideia.

Exatamente, como a formiga.

Exatamente. Mas esta decisão europeia não é bem igual para todos. Portugal e Espanha são um caso à parte.

Há vários casos à parte, porque isto foi tudo muito bem negociado. Os países não são todos iguais, têm as suas especificidades e no caso de Portugal e Espanha, nós somos a chamada ilha energética, ou seja, nós não temos interconexões com outros países. Mesmo que armazenássemos muito gás, não tínhamos como libertá-lo para os outros países que precisem. Por isso, não seríamos assim grande ajuda. É por isso que, mesmo que os outros Estados-membros sejam obrigados a cortar os 15%, nós seremos sempre obrigados a cortar no máximo 7%.

É uma questão de solidariedade, quase.

Sim, no fundo, acaba por ser.

Ainda de resto, as medidas já avançaram nalguns países europeus. No verão, por exemplo, a Alemanha já avançou com algumas medidas de poupança.

Sim, algumas medidas foram bastante midiáticas. Já há planos de poupança de energia a serem postos em prática em vários países desde o verão, não só na Alemanha, como disseste, em França, até aqui ao lado, em Espanha. E assim as medidas mais conhecidas foram o controlo da temperatura do ar-condicionado em edifícios públicos, em alguns casos também foi alargado ao privado. A iluminação dos monumentos também foi reduzida na Alemanha, precisamente porque alguns monumentos passaram a estar desligados à noite, considerou-se que era um gasto desnecessário nesta altura. E houve outras medidas, as piscinas, diminuiu-se a temperatura da água também para gastar menos energia. E lembra-me que em França as lojas que tenham ar-condicionado ligado têm de manter a porta fechada e aqueles que não obedecerem levam multa.

E por cá, como é que vai ser? Agora que já é conhecido este plano, como é que vai funcionar? Queres, Ana Semlês, começar pelo público ou pelo privado?

Começamos pelo público, porque são aquelas medidas obrigatórias. O público vai mesmo ter que cumprir. E quando falamos em público, falamos na administração central

Na administração central.

Central, exatamente. Tudo aquilo que está na dependência do Estado. E aqui quais são algumas das medidas? A iluminação interior considerada decorativa vai ter que ser desligada às 10 p.m. no inverno e às 11 p.m. no verão. A Comissão Europeia pediu medidas até março, mas este plano tem medidas que vão vigorar até o final de 2023.

Até o final do próximo ano.

Exatamente, até o final do próximo ano, isso também é importante reter. Outras medidas são: sempre que os espaços não estejam a ser utilizados, as luzes têm que estar apagadas. E no período natalício, como estávamos a falar, vai mesmo haver limites a datas definidas, 6 de dezembro a 6 de janeiro, só podem estar ligadas as iluminações natalícias entre as 18h e a meia-noite. E depois há outra medida que é a recomendação, que não vai ser obrigatório, do teletrabalho.

Mas isso é para todo o setor público ou, por exemplo, o setor local?

Era como mencionei há pouco, as medidas só são obrigatórias para a administração central, tudo aquilo que está na dependência do Estado, organismos públicos, ministérios. Agora, não serão obrigatórias para a administração local, isto é, tudo aquilo que depende dos municípios, tudo aquilo que são organismos municipais nas autarquias.

Ou seja, e pegando na nossa conversa inicial sobre o Natal, nas ruas, são as autarquias quem manda e podem decidir manter as iluminações de Natal a cintilar, mas é só até a meia-noite?

Não, no caso das autarquias, tendo em conta que para a administração local só temos recomendações e não obrigações, eu diria que é uma questão de consciência. Se o município quiser manter a iluminação ligada toda a noite, poderá fazê-lo.

Já voltamos à conversa com a editora adjunta de Economia do Observador, Ana Sem Lês. Vamos saber quais são as recomendações para o setor privado.

O Brasil está dividido. Não tem mais espaço pra ladrão em nosso país! Que esse fascista que está governando esse país. Às segundas, ao meio-dia na Rádio Observador, Sara Antunes de Oliveira, Kátia Bruno e João Gabriel de Lima sentam-se à mesa do Café Brasil.

Acho que podia dizer sambando na cara das inimigas.

Fala sério! Todas as semanas, um convidado diferente para analisar a campanha e os candidatos. O seu governo foi o governo mais corrupto da história do Brasil. O país que eu deixei é um país que o povo tem saudade. Café Brasil, na Rádio Observador e em podcast.

Estamos de volta com a Ana Sem Lês, editora adjunta de Economia do Observador. Ana, e no setor privado, só há então recomendações.

Exatamente. Para o setor privado, só há recomendações. As empresas não são obrigadas a fazer nada, a cortar no consumo, mas têm uma série de sugestões, um guião, digamos assim, que podem seguir. Passa muito por desligar a iluminação de faixas e cartazes na via pública, no inverno a partir das 10 p.m. e no verão a partir das 11 p.m. Desligar a iluminação das montras depois dos estabelecimentos encerrarem. E depois, no inverno, aquelas esplanadas aquecidas que tenham sistemas a gás, também há recomendação.

Aqueles aquecedores a gás.

Exatamente. Há a recomendação para que sejam desligados neste inverno.

Ou seja, esplanadas no inverno só mesmo com manta e em dias mais amenos.

Só mesmo com manta. Ou então aquelas que sejam mesmo interiores.

Interiores guardadas por vidros. Falaste aí de montras, isso implica desligar as luzes das montras nas ruas, e agora vem o Natal, lá está.

Pois, exatamente. Eu diria que se os comerciantes acatarem estas recomendações, vamos ter um Natal diferente. Isto já está a acontecer noutros países, as lojas desligarem as montras. Eu nem iria tão longe, já está a acontecer cá. Há um banco que já começou a desligar os seus letreiros à noite, precisamente para poupar energia.

E nos centros comerciais, como é que vai ser?

Há recomendações específicas para os centros comerciais. O decreto do governo prevê isso. Aliás, houve uma negociação com a Associação dos Centros Comerciais, que criou as suas próprias medidas, enviou-as para o governo e disse que iria pô-las em prática, mesmo que elas não sejam obrigatórias. E neste caso, não são. Passam também por redução da iluminação das lojas e não só, mesmo dos espaços comuns para níveis mínimos de segurança após o horário normal do funcionamento e até redução da iluminação em áreas, por exemplo, dos parques, de estacionamentos, em horas fora do funcionamento normal e mesmo no interior das lojas é recomendado que haja um ajuste das luzes quando o centro estiver fechado.

Já percebemos que há medidas obrigatórias para a administração pública, há recomendações para as autarquias, para os privados e para as nossas casas, há alguma medida ou proposta?

Não há. Eu diria que será uma questão da consciência de cada um, Ricardo, e se quisermos nós próprios poupar na fatura da luz, que como sabemos, vai aumentar em outubro, até no mercado regulado. Portanto, vamos ser obrigados a desligar as luzes? Não. Mas se quisermos seguir este plano, o sucesso do plano acaba por depender de todos e dos nossos comportamentos.

Exatamente, Ana. Afinal de contas, qual é a previsão de poupança que este plano traz?

O objetivo é reduzir o consumo de gás em 5% face ao período de referência, que é a média dos últimos cinco anos.

5%?

5%. Mas Portugal já reduziu nos últimos meses o consumo em 20%, sendo que isto exclui o gás que é usado para produzir eletricidade, e essa é a grande fatia.

Já explicaste que se trata de uma decisão da União Europeia, uma medida de prevenção por causa da guerra. Também poderia ser uma medida ecológica, mas não é essa a grande motivação. As centrais a carvão por essa Europa afora vão continuar a produzir energia para que não falte energia, não vá Putin fechar a torneira. E por cá, essas centrais a carvão vão voltar a trabalhar ou não?

O governo garante que não. Nós já não temos centrais a carvão. A última era a do Pego, que fechou em novembro do ano passado, vai fazer agora um ano, mas uma das medidas que têm sido sugeridas por outros países tem sido precisamente a reativação dessas centrais. Mas para cá, eu diria que isso é um assunto encerrado, o governo está mesmo decidido a não reativá-las. Foi tomada outra medida, também está incluída neste plano, que é impedir a produção de energia hidroelétrica em 15 barragens, até que elas atinjam um nível d'água superior àquele que têm hoje. Isto serve para quê? Se tivermos problemas no gás para produzir eletricidade, vamos poder ir buscar água. Para já, a partir de 1 de outubro, vamos armazenar água nessas barragens e depois, se faltar gás, vamos ter um nível confortável de água para poder produzir energia, eletricidade, neste caso, a partir dessa água.

Lá está, porque também somos mais autossuficientes nessa matéria, se me é permitida aqui a imagem. Mas essa decisão em relação às barragens parece que está mais relacionada com a terrível seca que atravessamos do que com a necessidade de armazenar energia.

Está bastante relacionada com a necessidade de armazenar energia, mas claro que também no plano há uma componente forte de eficiência hídrica e de necessidade de poupar água e de não desperdiçá-la, no fundo. Portanto, sim, o plano também tem uma forte componente ligada a tentar resolver, de alguma maneira, a seca que atravessamos.

Com ou sem medidas, e Ana Seles, já falaste nisso aqui nesta conversa, é expectável que o preço da energia continue a subir nos próximos meses.

Basta olhar para o que está a acontecer no gasoduto Nord Stream. Houve outro incidente, os preços do gás dispararam 20%, sem querer alarmar os nossos ouvintes, eu diria que é bastante provável que o preço da energia continue a subir nos próximos meses.

Por isso, vamos poupar energia desligando as luzes em casa, tentando poupar desligando também os eletrodomésticos e não mantendo em standby, por exemplo. Mas há aqui uma pergunta que se impõe, Ana Seles, relativa às luzes de Natal. Aquelas que tu ainda usas na árvore de Natal ainda são daquelas incandescentes que já vêm dos anos 90 ou já trocaste por umas LED?

Não, Ricardo, eu sou uma pessoa moderna, já troquei por umas LED.

E tens musiquinha, que é daquelas que tocam umas musiquinhas, não?

Confesso que dispenso as musiquinhas.

Acho bem, acho que tens boa gosto. Obrigado, Ana Seles.

Obrigada, Ricardo.

Ana Seles é editora adjunta de economia do Observador. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.