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Olá, sejam bem-vindos. Esta é a história das histórias. Eu chamo-me João Paulo Secadura. Em Viseu, Alberto Correia, investigador e historiador da história e das tradições da região centro, vai nos trazer mais uma história, mais uma lenda, mais uma pérola de conhecimento, que ele nos vai falar hoje sobre a cabeleira de Berenice. Estou muito curioso. Vamos a isso. Bem-vindo, Alberto.

A história que hoje conto traz o jeito das histórias que, contadas, sempre nos embalam. Era uma vez, podia começar assim esta velha história construída de realidade e fantasia. Era o século III antes de Cristo. Reinava sobre as terras do Egito, Ptolemeu Evergeto, um jovem rei de uma nobre dinastia. Sua mulher, Berenice, era a mais bela das rainhas que houvera. Um dia, o rei partiu para uma campanha contra a Síria, ainda longe, mais ao norte. Eram aos mil os marinheiros, que eram ferozes os guerreiros do norte, se contava. Berenice, jovem rainha, teme pelo seu rei e senhor. Ela bem acredita na valentia dos soldados vindos das margens do Nilo, braços de cavadores que aprenderam a manejar a espada, marinheiros afeitos aos remos que agora empunham lanças compridas. Berenice, tão bela e tão desprotegida no palácio, confia aos deuses, mais do que aos soldados, a vida do seu rei. E é ela que se dirige com as cortesãs mais leais e os soldados da guarda ao templo de Afrodite, a deusa que dourava o mar e o amor. Prometera à deusa a oferenda de seus cabelos para que voltasse são e salvo o rei que partira para a guerra e a deixara. O sacerdote maior estremece quando os cabelos de Berenice caem soltos sobre uma lâmina de ouro. Mas a rainha ergue o vulto, toma a lâmina com os cabelos cortados e depõe-na sobre o altar da deusa. O rei voltou vitorioso da campanha. Trazia joias aos mil para ofertar à rainha. Estranhou o rei o penteado da rainha e a rainha contou o voto que fizera. Foram ao templo, mas a cabeleira de Berenice já se não encontrava sobre a lâmina sagrada. E o sacerdote e astrônomo contou que a cabeleira da rainha se transformara em astro, nas sete estrelas de uma constelação nova que ele vira no céu. Às vezes, entro nas capelinhas que nós vemos perdidas pela serra ou em santuários maiores no cimo dos montes. Senhora da Saúde, Senhora do Castelo, Senhora da Guia, das Necessidades, Senhora de todas as dores dos homens. Há por lá tranças de donzelas que não voaram para o céu. Tranças de cabelos loiros, negros, castanhos, fitas de seda de prender as tranças, uma história sempre por detrás dos cabelos das donzelas. Eram quase sempre donzelas quem as oferecia e era quase sempre uma história de amor que gerava aquela oferta, esse dom simbólico que aprendemos a chamar ex-voto. Amor pela vida, sempre subjacendo. A vida do irmão em perigo na guerra ou no mar, a vida do amado, a vida do amor. A vida do esposo, quando já não é donzela, ou a do filho prestes a nascer primeiro e ela, mulher, ainda jovem, farta trança caindo como uma esperança no chão sagrado da capela. E eu lembro-me de Berenice lá longe, no tempo. Lembro-me dos homens de sempre que têm de comum a precariedade da vida.

Muito curiosa esta lenda e esta história mítica antiga, a trazer outro tipo de ex-voto que nós não estamos habituados. Nós normalmente falamos mais daqueles que são pintados, aqueles mais populares, de cariz mais popular. E de fato, vemos muitas imagens nas igrejas por esse país fora, com imagens de Nossa Senhora com os cabelos oferecidos. Nunca tínhamos pensado concretamente nas origens desses cabelos. Foi uma belíssima história que nos trouxe, Alberto, que lança muita luz sobre as origens desses. No fundo, também é um voto.

Percorri muitas capelas e em muitas delas eu encontrei tranças de cabelos também, com a mesma intenção, portanto, ex-voto, tal igual como os quadrinhos que representavam esse milagre, que eles deviam contar.

Sim, e que tinham que agradecer às graças dos santos ou da Virgem. E é muito engraçado, porque era uma tradição muito antiga, Alberto. Eu lembro também da minha mãe, por exemplo, e dos meus avós, que guardavam caracóis dos filhos quando eram pequenos. A minha mãe ainda tem isso, um caracolinho castanho claro do cabelo dela, quando tinha cinco ou seis anos, que se cortava e que se guardava com um lacinho de seda. Era uma tradição antiga. Muito engraçado recordar isso. Muito bem.

Eu próprio tive um irmãozinho que já não conheci, mas lá em casa havia uns cabelitos dele guardados pela minha mãe.

E pela memória desses. Que engraçado, muito curioso. Muito bem, Alberto. Estamos conversados por hoje. Um grande abraço. Marcamos encontro amanhã. Bem-haja.

Até amanhã.