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Olá, sejam bem-vindos. Esta é a História das Histórias, eu sou o João Paulo Sacadura. Em Viseu, Alberto Correia, como sempre, este investigador da história e das tradições da região Centro, vai nos trazer mais uma pérola de conhecimento extraordinário. Hoje sobre uma terra de fim do mundo, como ele chama, Alvitte. Vamos então saber mais sobre Alvitte. Bem-vindo, Alberto.

"Peneiras e crivos, loiças e guardações, quem merca?" Um pregão corria a feira, corria as ruas da aldeia nos largos dias da primavera e do verão. Lembro-me de quando era pequeno. Ia espreitar os homens que batiam à porteira requerendo minha mãe. Vinham de longe, eram romeiros, sabiam histórias que me contavam num degrau da escada enquanto comiam felizes uma tigela de sopa quente. Num cesto gigante por eles comprado aos ciganos, ciganos também, traziam gigangas como farinheiros medievos parados à entrada de uma cidade murada. Agulhas e dedais, fitas de nastro, ganchos de cabelo de mulher. No alforje roto dependurado ao ombro, varas de velhos sombreiros, um rolo de arame e alicates pequenos, toda a mágica ferramenta de uma arte que fazia novos velhos trastes, terrinas rachadas, pratos e molgas com ganchos de arame e uma paciência de milagre. Também vendiam loiças, tigelas grandes e pequenas com decoração de flores, de cores vivas como as que a gente via e gostava nas mãos da gente da casa, nas mãos dos trabalhadores. Peneiras e crivos. Isso era obra nova que eles sabiam fazer na sua terra. E as donas de casa as compravam. Duravam toda a vida. Vinham de Alvitte. Eu não sabia de onde, do fim do mundo, vinham estes homens bons de terra em terra, na liberdade suprema. Mas eu não sabia decifrar bem o mistério da vida, das andanças destes homens. Só muitos anos mais tarde eu fui à sua terra, Alvitte. Era ainda um pouco no fim do mundo. Em pleno centro da serra da Nave, a aldeia estava construída entre o pedregulho alrijo, onde se descortinavam antas tão facilmente quanto as hortas e videiras raras. A têmpera dos homens aqui nascidos é a do granito de difícil erosão. Hábeis, empreendedores, sempre, hoje também. Ainda há gente que faz panos em teares, cestos de verga de palha e silva, as bresas, que têm mil anos de história, obras de latoaria. Já não andam como antes de terra em terra. Ainda os conheci transportando a carga no machito. Hoje utilizam os meios de comunicação dos tempos novos. Mas permanece idêntica a alma do alvitano, moldada há mil anos na serra que Aquilino Ribeiro celebrou, essa imensidão que chamam Nave. Peneiras e crivos, loiças e guardações. Retenho na memória difusa da infância o pregão destes homens que me faziam correr à porta com olhos de espanto.

Muito bonito. Fiquei muito curioso de ir conhecer, Alberto, Alvitte e concretamente a serra da Nave, que nos fala aqui. É uma serra com certeza muito bonita.

É hoje um pouco transfigurada, não é? Quer as construções, quer os caminhos, quer a vida. Todavia, eles mantêm essa personalidade antiga de negociantes, habituados a dominar a serra, que continua a ser dura. De qualquer modo, estamos num outro tempo.

Exatamente, as coisas também evoluíram muito. Muito bem, Alberto, estamos conversados por hoje. Um grande bem-haja e até à próxima. Muito obrigado.

Até à próxima.