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Olá e sejam muito bem-vindos. Esta é a "História das Histórias". Eu sou o João Paulo Secador e em Viseu Alberto Correia alerta-nos e conta-nos mais tradições, mais memórias, mais coisas interessantes sobre toda esta região Centro. Hoje vamos falar de alguns traços dos homens, nomeadamente que tenham a ver com a serra do Montemuro. Vamos a isso então. Alberto, bem-vindo.

Ali, a meio curso do rio Douro, entre o interior e o mar, a serra do Montemuro jurou fincar-se, gigante fronteiro aos picos mais altos do Marão, jurou não deixar caminho fácil às umidades do oceano que penetravam pelo vale imenso do rio para ajudar a vestir de verde vinhas ou cerejais, pinheiros ou milharais que trepavam as encostas e até bem longe avançavam em ondeantes paisagens. Ficaram descarnados os cimos da serra, penedais rolando-se por valeiros cavados pelas águas de inverno que descem tumultuosas, o Bestança, a ribeira de Paus ou de Moura Morta. E o homem que ali decidiu fincar-se um dia, desde há séculos sem conto, teve que dominar a aridez da montanha, o inóspito dos cerros. O perigo e o esforço fizeram-no temerato e resistente. A solidão tornou-o desconfiado dos outros homens que não habitassem como ele a montanha. Que tarde se começaram a fazer caminhos para que uns e outros pudessem encontrar-se. Noites com tempestades ou sinistros luares mostraram-lhes paisagens aterradoras petrificadas na distância e ficaram supersticiosos. No secreto das moradas, queimavam ervas santas procuradas em campos sagrados para os seus misteriosos rituais. Mas estavam mais perto do céu e tornaram-se os mais crentes dos homens. Os caminhos da serra pontearam-se de cruzeiros, de nichos de almas, onde tilintavam em cofrezinhos as esmolas de pobres ou de romeiros. Semearam o pão dividindo a serra, sabiamente repartindo entre vizinhos as tiras aráveis dos plainos abrigados. E a cor das searas em maio ganhava tonalidades tão belas que nenhum pintor as conseguiu pintar jamais, nem melhor. Criaram gados, vacas com chocalhos manchando campos de feno nas veigas, puxando carros com sebes em caminhos talhados entre muros de pedra solta. Ovelhas de labranta e castanha garantem as vestimentas do dono, das crianças que brincam com elas e os queijos que levam à feira ou servem em merendas de trabalho. E ao anoitecer, calados os chocalhos, estes homens bebiam o leite morno, quando não o caldo de castanhas. Comiam pão. Havia rezas e contos antigos antes do sono, antes do sino dar os toques de rezar. Mil anos de montanha irmanaram a serra e os homens. Até hoje.

Fantástico estes traços dos homens de Montemuro. De facto, que, como diz, ficaram supersticiosos, ficaram temeratos, estes criadores de gado, estes homens, o que eles bebem, como eles vivem, como a paisagem os moldou. Muito bonito este retrato traçado pelo Alberto. Muito bem. Estamos hoje então conversados, Alberto. Amanhã há mais. Contamos consigo. Bem-haja, até amanhã.

Até amanhã.