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Olá e sejam muito bem-vindos. Esta é a História das Histórias. O meu nome é João Paulo Sacadura. Em Viseu está Alberto Correia, que vai desfiar mais algumas histórias e memórias. Desta vez, durante alguns dias, vamos homenagear grandes vultos, grandes mulheres que ficaram ligadas à região Centro. E vamos começar com Maria do Céu da Silva Mendes. Agora o palco é seu, Alberto. Bem-vindo.
Maria do Céu da Silva Mendes, fidalga e compassiva, cumpriu sua vida fazendo o bem, exemplar no conselho, na virtude e na ternura. Esmoléria dadivosa, faz legado de seus copiosos bens em testamento à Santa Casa da Misericórdia de Viseu e ao Asilo de Santo António, hoje Lar Escola ao mesmo santo dedicado, instituições prestimosas a quem ainda hoje essa fortuna grandiosa está servindo. Sua prima, dona Eugénia Cândida da Silva Mendes Viseu, que viveu entre 1847 e 1888, titulada de Viscondessa de São Caetano, fora antes apelidada de Anjo da Caridade, mercê da sua ação em favor dos desfavorecidos. Dona Maria do Céu da Silva Mendes, que viveu entre 1847 e 1933, Anjo da Caridade também chamada, segue-lhe na pegada. Nascida em São João das Areias em 1847, vem ocupar em Viseu a Casa da Regueira, solarenga residência que foi da opulenta, infeliz e generosa família do Silva Mendes, com portão aberto para a Rua da Regueira, que também foi Rua das Bocas, mais tarde titulada de João da Silva Mendes, seu pai, que haveria de edificar, a deslado do Rossio de Mansurim, a acolhedora residência onde hoje se instala a sede social da Santa Casa da Misericórdia de Viseu, que daquela benemérita recebeu por legação testamentária. Mulher emancipada, como ainda era raro em seu tempo, alma de artista, sendo hoje considerada por todos os que a têm ouvido como a primeira pianista de Portugal, que assim a descrevia a Ilustração Portuguesa no seu número 20, de setembro de 1884, granjeou a fama com sua presença em São João do Estoril e nos saraus das nobres residências habitadas por gente da família: a Casa dos Patudos, em Alpiarça, que foi de José Relvas, e o Palacete de Condeixa, que foi dos condes de Podentes, onde nasceu sua prima, mãe de José Relvas. Anjo da Caridade lhe chamaram os pobres, por quem ela distribuíra largas esmolas em sua vida, que outras receberam após seu passamento, em 1933, 86 anos feitos. Marca maior desta alongada passagem pela vida, essa desprendida prática de uma filantropia, que paradigma da sua vida se tornou, como a arte que cultivou e o amor pela família. A testemunhá-lo, essa poderosa herança de que, em testamento, faz beneficiários o agora chamado Lar Escola de Santo António e a Santa Casa da Misericórdia de Viseu. Uma impressionante extensão de propriedades rústicas que conformavam as quintas de Cabanões e a Lagoa, alongando-se na margem da cidade, a sudoeste, desde a quinta do Galo, em Jogueiros, onde foi construído o internato Dr. Vítor Fontes, indo além do importante bairro residencial e de recreio construído pela Misericórdia de Viseu, que margina a Estrada Nacional 231, que segue para sul. Na cercadura da Casa da Regueira, ergueu-se em 1962, o bairro residencial da Misericórdia, onde pousa o busto da patrona, em cujo entorno ainda é possível ver renques de japoneiras e loureiros e a poética bica de uma fonte que lacrimeja água para a bacia de um tanco ateivado. Talvez lembrando quem, ao fim da tarde, lá iria beber.
Muito bonita esta memória e homenagem à Maria do Céu da Silva Mendes, que apesar de ter nascido lá, ser de meados de 800, já foi emancipada e foi a primeira pianista. Que bonita esta mulher que juntava o amor pelas artes, pelo amor pelos pobres e pelo amor pela família. Um grande exemplo que nos traz aqui, Alberto. Bem-haja. Até amanhã.
Até amanhã.