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Olá e sejam bem-vindos. Esta é a "História das Histórias", eu sou o João Paulo Sacadura. Em Viseu está Alberto Correia, este especialista de História, de Museologia, de Arqueologia, Etnografia, que continua a desfiar estas memórias e estas homenagens a grandes mulheres da zona centro. Hoje falamos de Judite dos Reis Ramos Teixeira, uma mulher que foi, numa certa altura da sua vida, injustamente criticada pelos seus poemas arrojados e modernos. Vamos saber mais sobre esta mulher extraordinária que morreu no ano em que eu nasci, em 1959. Vamos a isso, Alberto. Bem-vindo.
Judite dos Reis Ramos Teixeira, Judite Teixeira, nome que quis no literário retrato, andou mais de 30 anos arredada da História. A estranha modernidade dos seus poemas, causticados em seu tempo como impuros, ao desvelarem seu seio de mulher fora do recato consentido pelos padrões de uma sociedade imersa em regras há mil anos tabeladas, atirou-a para um limbo de onde se solta agora, ao bafejar do vento de uma nova aurora que tardou. Chegou a tempo. Judite dos Reis Ramos Teixeira, que viveu entre 1880 a 1959, Judite Teixeira, de seu nome literário, Lena de Valois, pseudónimo usado por algum tempo, nasceu em Viseu, foi batizada na Sé, nomeada como de paternidade incógnita no registo. De seu pai colherá tardios herdos ao ser reconhecido o parentesco que, somados estes à abonada casa de seu segundo marido, lhe terão permitido obter a formação de que se solta a sua obra literária, cujas primícias são contos e poemas publicados em Lisboa entre 1918 e 1922, no Jornal da Tarde, em 1918, e no Diário de Lisboa, em 1921, onde assina com o pseudónimo Lena de Valois, textos que, ao tempo, se louvam com sinceridade em vivos textos dos seus pares. Surge depois a obra pioneira, cujo primeiro título remete para esse tempo da decadência oitocentista e que, todavia, inaugura um efusivo modernismo: o arrojado livro de poemas "Decadência", publicado em 1923. Aquilino Ribeiro soube nele achar merecimento, mas vem logo a crítica em alcateia, a fúria inquisitorial da ação dos estudantes de Lisboa. Queima-se o livro, onde perpassa o teor de uma literatura de Sodoma e essa erótica assunção do corpo feminino, impensável numa pena de mulher. Fernando Pessoa não a celebra na "Orpheu". Publica "Castelo de Sombras" em abril de 1923 e, arrojada, reedita "Decadência" em dezembro desse ano. Em 1925, saem os três números da revista "Europa", por si dirigida. "Nua: Poemas de Bizâncio", de 1926, anunciado no número 11 da Revista Contemporânea, é logo causticado pelo jornal A Revolução Nacional, órgão da ditadura, que classifica os poemas de versalhadas ignóbeis. Judite defender-se-á do enxovalho na conferência "De Mim", em 1926, onde proclama o valor supremo da verdade da arte e da liberdade do artista. E não se verga. Satânia, com as novelas, as cartas e insaciada, sai do prelo em 1927. Em 1928, publica "Poemeto das Sombras" na revista Terras de Portugal. José Régio declara o seu diminuto mérito. É quase um epitáfio. E um inaudito silêncio desaba sobre esta trágica heroína que irá morrer fora do palco em 1959. Soltar-se-á do limbo 30 anos mais tarde, ganhando merecido e honroso lugar no quadro do cânone literário português. Couto Viana di-la a nossa única poetisa modernista em 1974. A editora Etc. publicará parte da sua obra em 1996. Martin Gouveia e Sousa vem com a sua dissertação de mestrado em 2001: "Judite Teixeira: Originalidade Poética e Descaso Literário na Década de 20", publicada em 2001. Em 2015, tem lugar na Universidade Clássica de Lisboa um colóquio de homenagem. "Judite Teixeira: Obras Completas. Lírica", edição de Martin de Gouveia e Sousa, sai em 2019. A Câmara Municipal de Viseu e as Edições Esgotadas criam o prémio de poesia com o seu nome em 2016. Judite Teixeira está vingada. Quase.
É verdade, não sei se esta reabilitação, ao fim de 30 anos de esquecimento, Alberto, vai conseguir apagar essa cilindrada e como ela foi cilindrada por José Régio, esse silêncio a que ela foi remetida durante essas três décadas até morrer. Mas é bom que a sua obra esteja já publicada e já seja falada, mesmo que, infelizmente, mais a nível póstumo do que propriamente em vida. Vamos a isso, Alberto.
É um outro tempo em que estamos.
É, é verdade. Estamos agora a marcar encontro já para amanhã, Alberto. Bem-haja por mais esta sua homenagem. Amanhã temos uma outra mulher para conversar e para deslindar um pouco da sua vida tão importante. Bem-haja, até amanhã.
Até amanhã.