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Olá e sejam muito bem-vindos. Esta é a "História das Histórias". Eu sou o João Paulo Secador e estou aqui apenas para apresentar o Alberto Correia, em Viseu. Este historiador e investigador vai nos trazer, como sempre, mais informações, mais histórias, mais memórias. Hoje temos um conto tradicional que tem a ver com a codorniz. Vamos a isso, Alberto. Bem-vindo.

"No tempo em que os animais falavam". Era assim que começava este conto que muitas vezes me contou minha mãe. Era assim que começavam os contos nos livros antigos. E os velhos, que sempre repetiam esses contos, acreditavam que eles tinham mesmo acontecido muito longe, há muito tempo, quase no princípio do mundo. Mas os velhos, com esses contos, apenas queriam ensinar os homens a ser bons. Um dia, no tempo em que os animais falavam, as codornizes não eram como hoje são: pequenos pássaros que voam inofensivos pelos campos, uma plumagem escura com penas esbranquiçadas, um laçozito na cabeça feito também de penas e olhos espertos. Nesse tempo, diziam os velhos, as codornizes eram aves gigantes, grandes asas que faziam sombra no chão quando voavam, um bico enorme que assustava os outros animais e umas garras compridas e afiadas de meter medo. E eram uns pássaros maus. As outras aves bem escondiam os ninhos nos ramos farfalhudos das árvores, nas tocas de velhos castanheiros, nos buracos altos dos muros. Mas as codornizes descobriam os ninhos e então comiam os pequenos ovos das avezitas, uns brancos, outros verdes, outros azuis, outros às pintinhas, e não se importavam do choro dos passaritos que ficavam piando. Quando as avezitas com mais sorte conseguiam fazer nascer os passaritos, ficavam muito tempo ao pé dos filhos, não fossem eles piar e vir a codorniz. Mas a codorniz, astuciosa e má, espreitava o momento em que a mãe avezita ia apanhar bichinhos e sementes, e então descia veloz sobre o ninho. E quando a mãe avezita chegava, já não via os passarinhos. Ficava muito triste e piava, piava, saltando de ramo em ramo durante muitos dias. Um dia, as avezitas todas juntaram-se contando as maldades da codorniz e resolveram ir ter com Nosso Senhor. Foram todas. Os melros, as rolas, os cucos, os cavalinhos, os estorninhos, os pardais, as andorinhas, as cotovias. Nosso Senhor ouviu-as, mas os pássaros nem se queixaram de que assim não podiam multiplicar-se e encher os céus. Queixaram-se apenas dos ovos roubados, dos ninhos, que eram o berço dos filhos, ou dos filhinhos mortos pela traição da codorniz. Nosso Senhor mandou vir à sua presença as codornizes e ralhou-lhes e disse-lhes que, para castigo, daí em diante, iriam ficar pequenas como as outras aves. E desde então, as codornizes ficaram pequenas e nunca mais roubaram os ninhos das aves irmãs.

É uma fábula maravilhosa, uma história muito curiosa, Alberto. E agora ficamos à espera de uma similar, onde as avestruzes eram pequeninas e depois ficaram gigantes, o contrário. Muito obrigado por mais este seu conto. E pronto, por hoje estamos conversados. Falamos amanhã. Volto com mais histórias. Alberto Correia, bem-haja. Até amanhã.

Até amanhã.