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Olá, sejam muito bem-vindos à História das Histórias. Eu sou o João Paulo Sacadura e aqui acolho Alberto Correia, que é em Viseu, historiador e investigador já tão nosso conhecido. Vai nos falar hoje sobre os ciganos. Vamos saber um pouco mais sobre estes ciganos que também o cativaram desde a sua infância. Alberto, bem-vindo.
Sempre me cativou o jeito andarilho dos ciganos. Desde a infância. Passavam no adro à nossa porta, montavam tenda por uma noite, tal igual como os caldeireiros e os compradores de farrapos e os compradores de cornelho também, e os pobres de pedir e os alvitanos, herdeiros em seu negócio. Os ciganos arranjavam cestos de vime ou de corra a troco de pão ou de um naco de toucinho, de umas pobres moedas, talvez, de lavrador mais abonado. Habituei-me a vê-los passar sem indagar que caminho tomavam. E ficava a pensar que todos os caminhos lhes pertenciam quando os via partir, sentados nos bancos esconsos de uma velha carroça, molhos de vime já descascados em suspensão no taipal, uma criança e um cão. Lembro-me de histórias tristes que sobre eles se contavam, algumas de fazer medo. Aquilino Ribeiro também as ouviu nas terras do Demo, essas histórias de fazer medo e de algumas contou. Encontrei-os mais tarde na cidade. Parecia terem agora casa certa, mas a casa não é senão tenda para maior demora. Os ciganos ainda não são inteiros cidadãos da cidade que habito, mesmo que habitem a rua, quase sempre uma rua a nosso lado, mesmo que se abasteçam nas mesmas bancas do mercado, onde tanta vez mantêm a banca. Vem de um longo arco do tempo a sua cultura, de áreas geográficas distantes, ainda que distensão haja entre essas grandes famílias que prezam o sangue e as tradições do seu povo. As palavras de seu antigo linguajar, o traje quotidiano e de festa, o canto, as danças, a música, os cerimoniais das suas festas anuais. E essa sina de ler a sina de cada um de nós. Em Portugal, há mais de 500 anos são parceiros da história, de onde tanta vez os tentaram arredar, até que um dia os deixaram cá ficar e ser parceiros que, de todo, ainda não são.
Muito bem, está aqui este alerta, este constatar, de facto, deste povo nómada, que mesmo fixando-se nas cidades, como diz o Alberto, acabam por nunca ser bem cidadãos que cá estão. E é engraçado o Alberto reparar nisso e falar disso.
Continua a correr ao nosso lado.
É verdade. Muito bem, então por hoje temos a história da história, a história que foi preciso contar e que foi possível contar. Amanhã contamos com mais histórias suas. Bem-haja, até amanhã, Alberto.
Até amanhã.