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Olá e sejam muito bem-vindos. Esta é a História das Histórias, eu sou o João Paulo Secadura e hoje, mais uma vez, com memórias e histórias da região Centro, temos aqui Alberto Correia. Ele, em Viseu, hoje começa por nos falar do outono. São memórias de infância e agora, neste alerta que fica, depois de ter havido este brutal incêndio pela região Centro, fala das vinhas, dos pomares, dos castanheiros perdidos. Vamos a isso. Vamos continuar a desfiar as memórias de Alberto Correia. Bem-vindo, Alberto.
O texto que hoje leio foi escrito muito antes dos últimos dias do verão que acabou de passar, esses terríveis e assustadores dias que bem pareciam de um findar do mundo, quando as gigantescas chamas de um brutal incêndio ultrapassaram os sagrados limites da aldeia e desaguaram à beira das moradas, assustando os moradores. Traziam já, por despojos, as cinzas de campos cultivados, de vinhas cujos cachos maduros já não puderam ser vindimados, de pomares de macieiras abrasados, de soutos, a principal riqueza destas terras, dizimados, soutos de castanheiros, alguns dos quais tinham mais de 500 anos e que pareciam ter ainda todo o vigor de uma longa idade em começo. O texto a seguir apresentado fica apenas como dolorosa memória de uma paisagem antiga e humanizada de uma aldeia habitada, a minha aldeia, a Sarzeda, no Conselho de Sernancelhe, fica apenas como cinza de um corpo que o fogo sacrificou. Memória. Sempre que o outono vem, os deuses antigos estendem sobre a terra uma paspa matriarcal, carregam de orvalhadas as manhãs para que os frutos apeteçam, na extrema doçura com que o sol de verão os escaldeou, para que a terra receba, festiva, as sementes do pão que breve irá nascer. Sempre que o outono vem, Proserpina desce magoada aos escuros corredores do Hades, onde tem fatal morada, a mão desprendida da mão de Deméter, sua mãe, uma e outra magoadas. Sempre que o outono vem, eu desço à minha infância, ao grato chão da minha aldeia, tomo a sacola dos livros e ponho-me a caminho da escola. "Bom dia, senhora professora". Contas de somar, fáceis de fazer, nomes de rios aprendidos e onde nunca fui nadar, histórias de reis que tão mal nos souberam governar, caminhos de ferro onde não cheguei a ter bilhete para andar. Sempre que o outono vem, desço à tarde à quinta de meu pai, com o bonito nome de Quinta do Valbom. Mulheres andam cantando com cestas de vindima. Na eira, alqueires de milho espalhados a secar. Os ouriços começam no souto a dorjan. As maçãs perfumam dentro de casa todo o ar. Barba de milho, flor de tile, sabugueiro, alfazema, que minha mãe guardava em saquinhos de riscado. E os macios feixos de linho assedado, prontos para a roca e para fiar. Sempre que o outono vem, eu lembro os meus amigos dos tempos de criança, os que partiram para o Brasil ou para França, as vívidas memórias dos jogos do adro, bilhar ou pião, escorregas de siesta nos outeiros, boinas espanholas cheias de cerejas ou de amoras, que essas colhíamos verão fora. Sempre que o outono vem, apetece-me acender outra vez fogueiras de bela luz e rosmaninho aos deuses antigos. Sempre que o outono vem, vêm à memória estas lembranças. Mais agora, quando há pouco nos parecia ter chegado o fim do mundo.
Bonitas memórias, como sempre. Agradeço-lhe muito, Alberto. Tenho uma pergunta para lhe fazer: o que era a bilharda? O pião eu sei, joguei muito. Agora, a bilharda, não sei o que é.
A bilharda também se chamava o pateiro, que se jogava com um pau na mão, comprido, que depois atirava um pauzinho pequeno com um certo recorte, com uma pancada, atirava-o para longe. O que tinha as suas regras também.
Sim, claro. Curioso, porque é aprender mais isso que também não sei.
Mas é muito conhecido.
Muito bem. Não conhecia. Muito bem. Alberto, bem-haja. Marcamos então o encontro amanhã. Amanhã vamos começar uma série de homenagem a mulheres extraordinárias e famosas da Beira. Estou muito curioso também com estas conversas, essas histórias que vão começar amanhã. Bem-haja. Até amanhã.
Até amanhã.