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A luzinha, essas várias luzinhas ao fim do túnel.

Uma luz concreta, exata, ao fundo do túnel.

A luz ao fundo do túnel.

I put this together when the Covid virus hit. Restricted our movements. It's called "The Wolf". Well, it's you and me sitting here alone while the wolf is just outside. He knows we're here, can smell our fear and we're running out of time.

Bob Stomp é um compositor norte-americano que, em março, quando começou a pandemia, fez uma canção sobre este perigoso vírus. A canção chama-se "Wolf". Esta semana, Bob decidiu mostrar esta canção ao mundo. Na descrição, diz que espera que algum artista com mais exposição possa fazer uma versão deste tema. Para já, o vídeo tem apenas umas dezenas de visualizações, mas podemos dizer que já chegou a Portugal. O que também está para chegar a Portugal são milhões, muitos milhares de milhões de euros. Esta semana fica marcada pelo acordo histórico que os líderes europeus conseguiram alcançar. Depois de mais de 90 horas de Conselho Europeu, os 27 países aprovaram o novo quadro financeiro plurianual, superior a €1 bilhão, e ficou também aprovado o fundo de recuperação no valor de €750 mil milhões. Para Portugal, vem qualquer coisa como €45 mil milhões para serem usados ao longo dos próximos 10 anos. É um gigantesco pacote de ajuda para fazer face a uma crise sem precedentes. Entretanto, ao contrário do que vinha acontecendo desde o mês de março, em junho o desemprego não aumentou. Podemos dizer que estabilizou face ao mês de maio. Há menos cerca de duas mil pessoas inscritas no Centro de Emprego. Ao todo, são agora 406 mil pessoas em situação de desemprego, mais 36% do que em igual período no ano passado. São dados do IEFP. A região do Algarve continua a ser a mais afetada pelo desemprego, principalmente devido à falta de turistas internacionais. Esta semana, a Irlanda decidiu manter Portugal fora da lista de rotas turísticas. Londres vai reavaliar a situação no próximo dia 27. Em Portugal, a situação epidémica parece estar a melhorar. Olhando para os últimos cinco dias, o número médio de novos casos por dia é de 215. Enquanto o mundo combate a pandemia, nos laboratórios, os cientistas continuam a estudar possíveis tratamentos e, acima de tudo, procuram uma vacina que possa ser eficaz contra o novo coronavírus. Hoje falamos sobre ciência e investigação.

Eu trabalho, como sabem, vacinas há muitos anos e sei quão difícil é fazer uma vacina, porque uma vacina tem que ser segura, tem que fazer efeito, ser efetiva, senão não vale a pena. E têm que ter qualidade os seus componentes. E depois, mesmo de passar estas fases todas e estes testes, nós não nos podemos esquecer que as empresas vão ter que entrar em modo de produção e que essa produção também tem que ter elevadíssimos padrões de qualidade. Quem me dera a mim chegar ao inverno e ter já uma vacina produzida, descoberta, testada, segura, eficaz, de qualidade e com uma capacidade de produção para os milhões e milhões e milhões de seres humanos que nós somos. Mas não creio, não acredito que vá ser assim.

As palavras são de Graça Freitas, diretora-geral de Saúde. Os cientistas estão numa corrida contra o tempo para encontrar uma vacina que seja eficaz contra a Covid-19. As investigações avançam em tempo record e os otimistas apontam para que fique disponível uma vacina entre o final deste ano e o próximo verão, mas ainda nada é certo. Neste momento, há mais de 160 vacinas contra o novo coronavírus que estão em estudo. Cento e quarenta e duas estão em desenvolvimento no laboratório, 24 estão a ser testadas em humanos. A vacina que segue numa fase mais avançada é a que foi desenvolvida pela Universidade de Oxford, no Reino Unido. Apesar de ainda ser cedo para se conhecer a real eficácia desta vacina, os primeiros resultados indicam que parece segura, que desencadeia uma resposta imune e que produz anticorpos que podem combater o vírus. São resultados referentes aos testes que foram feitos no Reino Unido, mas neste momento a vacina da Universidade de Oxford está também a ser testada no Brasil, numa parceria com a Universidade Federal de São Paulo. Hoje conversamos com Lili Wex, é professora, epidemiologista e também coordenadora do estudo desta vacina britânica no Brasil. Bom dia.

Miguel?

Sim.

Tudo bem?

Tudo bem. Bom dia, professora.

Então você está em São Paulo?

Não, estou em Lisboa.

Ah, você está em Lisboa?

Sim. Professora, e acredito que nestes dias esteja cheia de trabalho.

Meu Deus!

Professora, vamos olhar um bocadinho para esta investigação. No mês de maio, recebeu o convite da Universidade de Oxford para coordenar uma nova fase de estudos sobre a vacina contra o novo coronavírus. Sabe por que razão foi escolhido o Brasil para desenvolver este estudo?

Todo mundo pergunta: por que o Brasil? O Brasil foi escolhido porque a fase três, os estudos de fase três, têm como objetivo primário avaliar a eficácia da vacina, isto é, se a vacina vai funcionar ou não Então, para fazer um estudo de eficácia, esse estudo tem que ocorrer num país onde esteja circulando muito o SARS-CoV-2.

Que é o caso do Brasil.

Que é o caso do Brasil. Estamos numa curva ascendente desde maio, nós estamos com uma infecção muito importante aqui no Brasil. Então se o Brasil tem sua circulação de vírus bem estabelecida, além do fato do Brasil ser um país que tem uma tradição na vacinação reconhecida, produtores de vacinas, centros de pesquisa, então aliado o que o Brasil já tem em matéria de imunização, com a circulação, isto fez escolher então o Brasil para condução de estudos de fase três.

Compreendo. E quem é que pode participar desse estudo no Brasil, como é que foram selecionadas as pessoas? Sei que são em três cidades, São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia, mas como é que escolheram as pessoas para participar desse estudo?

São Paulo foi escolhido porque é a cidade onde a circulação é mais intensa. Então como critérios de inclusão, como é que a gente vai avaliar? Aqui no Brasil, o estudo braço brasileiro, nós estamos incluindo adultos entre 18 a 55 anos de idade. Que adultos? Os profissionais de saúde e os adultos com alto risco de infecção por coronavírus, com alta exposição. Eu explico melhor. Então você tem todos os profissionais de saúde, enfermeiros, médicos, fisioterapeutas, todos que atendem o paciente. E além disso, o pessoal de apoio, pessoal da limpeza, higienização, segurança, a portaria, etc. E principalmente motorista, motorista de ambulância, por exemplo, eles têm um risco aumentado de exposição. Então estes também podem ser incluídos no estudo.

Mas só estas pessoas é que estão a receber a vacina? Outras pessoas que trabalhem em outras áreas não estão a receber?

Não, são só essas pessoas.

Mas, por exemplo, uma pessoa que viva numa zona de perigo de contágio ou com maior probabilidade de contágio, por exemplo, uma favela, essas pessoas não vão estar a receber a vacina, apenas essas pessoas que têm grande exposição, mas perto dos hospitais e por ligação com os hospitais?

É isto mesmo. As pessoas que não sejam da área de saúde ou risco aumentado, elas não entram. Porque a gente precisa delimitar que população você quer avaliar. Como é um estudo clínico com número limitado de participantes, nós temos que focar numa população específica. No caso, são os profissionais da área de saúde. E nesta faixa etária, não estamos incluindo nem crianças, nem pessoas mais idosas.

E como é que os voluntários, as pessoas que vão tomar esta vacina vão ser vigiadas?

Primeiro eles têm que se inscrever, e o que nos chamou muita atenção, são pessoas que querem realmente participar de um estudo clínico, eles querem auxiliar, ajudar no desenvolvimento de uma vacina. Isso é uma coisa que me chamou muita atenção. A outra coisa é, como é um estudo de eficácia para ver se a vacina funciona ou não, então todos aqueles que entrarem no estudo vão ser randomizados, isto é, eles vão entrar num grupo, metade vai tomar vacina Covid, e a outra metade vai tomar uma outra vacina controle, que não é para proteção contra Covid, e a pessoa que entra não sabe para que grupo ela vai ser alocada e qual vacina ela vai receber. Assim, nós temos dois grupos, um com vacina Covid, outro sem vacina Covid, e nós vamos acompanhar todos esses participantes durante um ano para ver se vão desenvolver a doença ou não, qual grupo vai ter doença ou não.

E é apenas uma vacina por pessoa?

É, por enquanto é apenas uma vacina por pessoa. Por enquanto, aqui é dose única. Depois, com os resultados que saírem, se a gente mantém a dose única ou não.

E quando é que esperam ter esses primeiros resultados que permitam avaliar isso?

O interessante é, há dois dias atrás, saíram publicados os primeiros resultados de estudo de fase um e dois, feito em Oxford. E esses estudos de fase um e dois, é por isso que todo mundo está muito animado, mostrou que a vacina é segura. Foram vacinadas cerca de mil pessoas e a vacina se mostrou muito segura. E além disso, ela mostrou ser muito imunogênica, isto é, ela produz uma boa resposta imunológica, tanto formação de anticorpos como imunidade do tipo celular. Isso deixou muito animado. O que chamou a atenção nesses primeiros dados, é que em um subgrupo pequeno de participantes, se deu uma segunda dose. E a segunda dose mostrou uma resposta ainda melhor. Poderá indicar estudos para avaliar se há realmente benefício com duas doses.

Mas estes não são os resultados no Brasil, são os resultados já feitos no Reino Unido. Quanto ao Brasil, quando é que esperam ter alguma espécie de resultado deste estudo que estão a fazer?

No Brasil, nós começamos os estudos há um mês. Então a gente ainda está vacinando as pessoas. Nós não temos nenhum resultado ainda.

Quantas pessoas é que já foram vacinadas?

Aqui no Brasil, cerca de mil pessoas. A nossa meta é vacinar cinco mil pessoas, distribuídas entre São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador.

Já me explicou as pessoas que vão ser vacinadas ou que vão entrar neste estudo, mas depois como é que vão avaliar se as pessoas ficaram imunes ao vírus ou não? Vão infectar essas pessoas ou esperar que sejam infectadas naturalmente?

Naturalmente. Quando a gente faz estudo de fase três, ele é um estudo que você vai vacinar as pessoas no ambiente deles. A gente não vai forçar nada. A gente só vai dar a vacina e ver se protege este indivíduo durante a pandemia.

Com os dados que já temos da vacina de Oxford, desses primeiros dados que já referia, é possível dizer se a vacina é protetora ou até mesmo se consegue impedir a transmissão do vírus?

Não, com esses dados não dá para dizer isto, porque o que os dados mostram? Mostram que a vacina provoca uma resposta imunológica muito boa. Ela produz anticorpos. O único dado que eu tenho é este: esses anticorpos vão ser capazes de proteger contra a doença? Esta é outra fase do estudo que eu vou ver. O fato dela produzir anticorpo é um dado muito positivo, porque toda vacina começa assim, ela tem uma resposta imune. Então é a base para você continuar. Ter uma resposta imune boa, muito provavelmente ela vai proteger.

E durante quanto tempo é que consegue a vacina produzir esses anticorpos?

O que o estudo mostrou? Que a produção de anticorpos se dá ao final de um mês, mais ou menos. De um mês, você tem títulos de anticorpos já bastante elevados. Quanto tempo isto vai durar? Nós ainda não sabemos, porque são coisas novas.

Ainda há muito dado sem resposta, claro, mas olhando para tudo que já se passou, estamos a falar de investigações praticamente todas em tempo record sobre esta vacina. As vacinas anteriores para outros vírus demorariam muito mais tempo e esta parece estar a ultrapassar barreiras. Olhando para aquilo que já foi feito e aquilo que já sabemos e aquilo que está planeado para os próximos meses, quanto tempo diria que vamos precisar para conseguir ter uma vacina disponível? Acha que o prazo final deste ano, próximo verão, é um prazo possível?

Esta é a pergunta que todo mundo faz. Se eu for caminhar normalmente, eu lhe digo que o estudo vai durar um ano. Na verdade, se eu for obedecer tudo, só ano que vem. Meados do ano que vem, talvez o segundo semestre. Mas nós estamos numa pandemia. Nós temos urgência com esta vacina. Então o que é feito numa pandemia? Nós temos os casos, cinco mil pessoas vacinadas, sendo acompanhadas, mas terão outros centros no mundo, totalizando 50 mil pessoas nesta fase de estudo. Entre Reino Unido, Brasil, África, Estados Unidos. Nós teremos 50 mil pessoas sendo vacinadas para avaliação da eficácia, se a vacina protege ou não. Com isto, se com o tempo a gente conseguir juntar dados, fazer uma análise, se os dados forem positivos, pode-se ter uma licença para uso emergencial. Talvez no final do ano, etc.

Mas os dados que já temos tido já têm levado a corridas pela encomenda de vacinas, aconteceu o mesmo com os medicamentos, com o Remdesivir. Como é que vê esta corrida, principalmente dos países do Ocidente, já à procura de garantir que assim que ficar disponível, vão ter a vacina?

É uma corrida, realmente. Milhões de doses já foram reservadas, compradas. Com a vacina do jeito que está, não tem dados ainda de uma eficácia certos que a vacina vai funcionar, mas as pessoas já estão reservando isto. Porque eles acreditam que a vacina vá funcionar. E se não der certo, o laboratório que já está produzindo vai perder tudo, mas é um risco que ele está correndo.

E o acordo que fizeram aí no Brasil com a Universidade de Oxford prevê que o Brasil tenha um acesso facilitado à vacina?

O acordo que foi feito prevê a aquisição de 100 milhões de doses da vacina, começando já em dezembro deste ano. São 15 milhões em dezembro, 15 milhões em janeiro e depois mais 70 milhões. E além disso, um acordo de transferência de tecnologia. Para que o Brasil possa começar a fabricar ele mesmo a produção da vacina a ser realizada aqui no Brasil.

Professora, quem é que está a financiar tudo isto no Brasil?

O nosso patrocinador principal é Oxford, mas o que ocorre aqui no Brasil, a gente conseguiu muitos doadores individuais aqui, de doação, de apoio financeiro aqui do próprio país.

Professora, gostaria de olhar um pouco para o cenário no Brasil, a realidade brasileira. Como é que têm visto a situação no país e a gestão da pandemia?

A gestão da pandemia é uma coisa assim É muito discutível aqui no Brasil, porque os casos aumentam e a gestão central perdeu um pouco a direção, não está atuando tão firmemente. Então o que ficou no país, que o Estado, a cidade, seria responsável pelo controle da situação. Então hoje nós temos cada Estado fazendo a sua política de contenção de casos. Alguns locais fecharam mais a circulação de pessoas, com distanciamento social, alguns locais fazem obrigatório o uso de máscaras e assim por diante. Então um país continental, você tem locais onde a doença já estabilizou e locais onde a doença começa agora a se intensificar. Então nós temos aqui muitas políticas regionais de controle da doença.

E como é que vê a gestão a nível nacional, principalmente a nível de comunicação?

A nível nacional não tem muita recomendação sobre isto. Existe uma controvérsia nesse sentido. Alguns achando que a gente não deveria manter a restrição de circulação de pessoas ou fechar instituições, escolas, etc. E outros defendendo a reabertura dos locais, do comércio, etc. Então, a nível nacional, o tema é polêmico. Discute-se muito sobre isto. Então os Estados têm tomado seus próprios procedimentos em relação a isto. O Brasil já tem hoje mais de 80 mil óbitos pelo Covid. Então é realmente muito impressionante.

Professora, neste momento o presidente brasileiro continua a testar positivo para a Covid-19 e tem recomendado a utilização de hidroxicloroquina, mesmo sem estudo que comprove a eficácia destes medicamentos. Como é que vê esta situação?

Então, esse é outro ponto polêmico. Eu acho que o tratamento é uma indicação médica, não é uma recomendação por alguma pessoa. Então essa também, tem gente que aceita, a maioria não aceita. Mas eu, como não faço tratamento, eu nem queria entrar nesta área. Não tem estudos científicos, realmente. Então eu acho que o Ministério da Saúde poderia atuar de uma outra forma em relação a isto. Mas são condutas tomadas pelo nosso presidente.

Professora, uma última questão. Estamos num ano de pandemia em que todos os olhos estão na ciência. Sente que é uma profissional mais reconhecida nestas alturas ou é simplesmente o trabalho do dia a dia?

Acho que todos que trabalham nesta área, nós estamos num momento muito especial. Não é um dia a dia comum, não. Eu acho que o que nós pudermos dedicar nesse momento é muito importante. Esse é um momento que não é um estudo que vai correr como os outros. A gente tem que conduzir esse estudo no passo que a doença exige. Covid está muito rápido e nós temos que ser rápidos, entrar nesse mesmo passo. Realmente, quando você fala que tem tantas vacinas em desenvolvimento, que tudo está sendo feito em tempo recorde, não é pra outra coisa senão conseguir, em tempo hábil ainda, você controlar a doença, combater a doença, de certa forma, controlar o SARS-CoV-2. Então por isso que a gente está fazendo todos os esforços possíveis pra chegar numa conclusão o mais rapidamente possível.

Vili Weck vai continuar a coordenar esta investigação. A vacina de Oxford vai também ser testada em mais países. Além do Reino Unido e Brasil, avançam estudos na África do Sul e nos Estados Unidos da América. Esta pode ser a arma mais eficaz contra a pandemia, a luz definitiva para colocar um ponto final nesta viagem por este longo túnel.

Portugal terá disponíveis 45.085 milhões de euros. O fundo de recuperação não deve ser apenas um estímulo econômico imediato. Deve investir nas fundações do país que queremos ser no final da década. É uma oportunidade única, mas é também uma responsabilidade saber utilizar bem este dinheiro. Desta vez, a resposta tem e deve ser diferente.

A incidência diminui em todos os conselhos, mantendo-se Sintra como a situação que ainda está distante daquilo que gostaríamos de atingir.