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Este país também devia ser para novos e é por isso que temos em estúdio uma psicóloga clínica, psicoterapeuta de 27 anos, que ossos do ofício, está mais habituada a estar deste lado, do lado de quem ouve, de quem pergunta e de quem descobre ou vai descobrindo a história do outro. Tem uma semana bastante preenchida com consultas, por isso agradecemos a disponibilidade para esta conversa. Dá formação, faz investigação, foi escuteira durante 13 anos, fez balé durante 11, gosta de dançar e de escrever. Já contribuiu para publicações como a revista Saber Mais ou a GQ. Também podem encontrar artigos da sua autoria na SAP ou no blog da Psinov, onde trabalha. Publicou o primeiro artigo científico este mês. A psicologia apareceu a meio do sonho de ser médica, a meio daquele ano de pausa para melhorar a média. Defende que a saúde mental e o bem-estar emocional precisam de ser conversados. E é sobre isso que vamos conversar na próxima hora. Maria Inês Galvão, obrigada por teres vindo.
Obrigada, Diana.
Como é que te sentes hoje?
Sinto-me bem.
É esta a primeira pergunta que fazes aos teus pacientes?
Às vezes: "Como está?" Acho que é uma boa pergunta pra começar. Ou se está confortável.
E consegues chegar à pessoa através dessa pergunta, logo?
Esta pergunta não farei logo numa primeira interação. Acho que numa primeira sessão não recebo as pessoas com perguntas. Acho que isso poderia ser um bocado assustador. Recebo as pessoas mais com um convite a que estejam à vontade num espaço que é novo pra elas e que, portanto, estarão, à partida, desconfortáveis, até porque, como deves imaginar, quando as pessoas vão à minha procura, não estão muito confortáveis.
Eu faço esta pergunta porque há uma coisa que me ficou há uns anos. Ouvi uma mãe dizer que todos os dias perguntava ao filho, desde muito pequenino, como é que ele se sentia e partilhava como é que ela estava também. Diziam um ao outro: "Olha, hoje estou cansada, estou irritada, estou contente", pra que pudessem logo desde manhã gerir o estado de espírito um do outro e lidar o melhor possível um com o outro nesse dia. Achas que é importante este exercício de percebermos como é que estamos todos os dias?
Acho que é fundamental. Se todos os dias, se isto não significar também um excesso de auscultação ou um excesso de pensar sobre como é que estás, o que é que estás a fazer e o que é que se calhar o outro espera de ti. Enfim, mas se for de uma forma natural, de uma forma de regulação, de uma forma de conheceres as tuas emoções, que às vezes pode estar contente e outras vezes pode estar triste. Se for numa forma de naturalizar todas as emoções que existem, eu acho que sim.
Uma das coisas que mais influencia o nosso relacionamento com os outros são as emoções. O que é uma emoção? Consegues descomplicar o conceito? Menos complicado do que algumas emoções.
Sim. Eu diria desequilíbrio, mas não no sentido pejorativo da palavra, mas é qualquer coisa que tu sentes num curto espaço de tempo. Portanto, uma emoção surge perante uma situação ou um estímulo. Existe um pico de alegria, de tristeza, de raiva, de medo, o que for, e depois desaparece essa emoção.
E é inconsciente?
Às vezes. Outras vezes, não. No caso do medo, pode ser, por exemplo, estou a lembrar-me. Às vezes nós começamos a sentir medo sem sabermos por que é que estamos a sentir. Há qualquer coisa que os nossos olhos viram ou que os nossos ouvidos ouviram ou que cheirámos, qualquer coisa que nos assustou, porque qualquer coisa no passado já nos terá assustado. E inconscientemente, o nosso corpo começa a responder como se isso fosse uma situação perigosa.
E há uma coisa que aprendi contigo numa outra conversa, é que não há emoções boas nem más. As emoções são negativas e positivas, não é?
Não, também não.
Não? Então, aprendi mal.
As emoções são agradáveis ou desagradáveis.
É, não é negativas e positivas.
Não, elas são todas positivas.
As emoções são todas positivas, então era isso. Acho isso muito interessante.
Sim, as emoções são todas positivas no sentido em que nós precisamos de todas elas. Elas todas cumprem uma função. Imagina o que é que seria tu não sentires medo, o perigo em que isso te colocaria constantemente na tua vida. Ou não seres capaz de te zangar, não és capaz de colocar limites aos outros e isso faz com que constantemente as pessoas estejam a passar aquilo que tu consideras que são os teus limites, os limites do respeito, do que for. Portanto, elas são positivas na medida em que cumprem essa função, em que nos protegem.
Então a fúria e a raiva são emoções positivas?
Sim, a fúria, se considerares a fúria um descontrole já de raiva, se calhar aí já deveríamos evitar ou chegar aí, mas há momentos em que podemos estar furiosos, eu acho que sim. Mas sim, que a zanga é uma emoção, é positivo. É positivo sentirmos zanga.
Há um filme que eu acho maravilhoso da Disney, que ensina as crianças e os pais e quem queira aprender, que todas as emoções são importantes. É o Inside Out, de 2015, que recomendo. E pergunto-te isto, se todas as emoções são necessárias, são úteis, a tristeza é útil? Há utilidade na tristeza?
Claro que sim. Se nós nunca sentíssemos tristeza, como é que saberíamos que estávamos contentes, não é? A tristeza é muito importante. A tristeza e alegria eu acho que são dois polos de um mesmo contínuo, se quiseres olhar assim. A tristeza é uma emoção que nos faz estar muito mais próximos e querer estar mais próximos das outras pessoas, partilhar, estarmos mais extrovertidos. E a tristeza permite-nos estar mais recolhidos, mais virados pra nós, sabermos como é que nos podemos regular novamente pra voltarmos a ficar equilibrados e alegres.
Sobre este assunto, emoções, aconselhas algum outro filme, alguma leitura que as pessoas possam fazer para melhorar a sua literacia emocional?
Eu recomendo muitas vezes esse filme que tu falaste, porque acho que é um filme que também explica de uma forma muito clara e muito bonita qual é o papel da tristeza. Assim de repente não me estou a lembrar de nenhum relacionado com as emoções, mas se eu me lembrar entretanto já te ouço.
Mas não concordas que há uma espécie de iliteracia emocional, não digo desde sempre, mas desde que vivemos em grandes cidades civilizadas, em que temos de conviver civilizadamente uns com os outros e conosco?
Eu acho que existe uma iliteracia no sentido em que cada vez mais nos é vendido e talvez imposto, de que é suposto estarmos sempre felizes ou sempre contentes. Porque é mais fácil ou é-nos mais simples estarmos ao lado ou lidarmos com alguém que não tem problemas. Não temos de estar disponíveis para ouvir, não temos de estar disponíveis para nos ajustarmos ou para nos adaptarmos àquela pessoa que se calhar está a precisar de algum carinho ou está a precisar que a tranquilizem, porque está muito ansiosa ou está a precisar que lhe digam: "Olha, afasta-te um bocado porque estás demasiado zangado neste momento para conseguirmos conversar sobre isto." E, portanto, eu acho que a iliteracia vem de um lugar que é o suposto estarmos sempre bem.
Já vamos falar sobre isso, sobre a ditadura da felicidade. Numa era em que a felicidade está escancarada nas redes sociais, nas férias das pessoas que seguimos, não há uma maior frustração e uma maior resistência em relação aos dias em que não nos sentimos tão bem?
No sentido em que as outras pessoas nos vendem que estão sempre bem?
Sim. E contrasta com o nosso estado de espírito. E eu também me sinto tão bem.
Sim, porque não partilhamos tantas vezes ou quando partilhamos, até fazemos aqueles comentários depreciativos: "Já viste esta pessoa, está a contar estas coisas da vida dela nas redes sociais?" Se calhar as redes sociais não serão sempre o melhor sítio para expormos que não nos sentimos bem. Ao mesmo tempo, podem ser um grande veículo para naturalizar e para passar mensagens de como às vezes as pessoas também não se sentem sempre bem. Estou a lembrar-me do caso de alguns canais de pessoas que sofrem de depressão ou que têm ataques de pânico e que fazem canais em que falam sobre como é que está a ser para elas a lidar com esta situação, viver no dia a dia, os dias que têm bons, os dias que têm maus. E eu acho que isso também começa a acontecer.
Há quem fale na ditadura da felicidade, é até já uma obra publicada. E esta indústria, a indústria da felicidade, já move muitos milhões de euros, 4000 milhões de euros. Falo da autoajuda, de mindfulness, de coaching. E é preciso reparar que 4000 milhões de euros corresponde a 20 vezes o tamanho da economia portuguesa e a quatro vezes o valor de mercado de empresas como a Apple ou a Microsoft. E a pergunta que te faço aqui é se há uma grande vontade de se ser feliz ou há uma grande vontade de se mostrar que se é feliz.
Eu acho que a maioria das pessoas que eu encontro nas sessões têm uma grande vontade de ser felizes e se calhar muitas vezes chegam até mim no momento em que já não conseguem parecer ser felizes. É mais fácil se parecermos. Não precisamos de mudar tantas coisas, mas eu espero que a vontade seja mesmo querermos ser felizes e estarmos felizes.
E qual é que achas que é a doença emocional, mental do século? A ansiedade, a depressão, o burnout? Que diagnóstico é que fazes?
Eu acho que ter de escolher uma dessas, que acho até bastante difícil, escolheria a ansiedade.
Por que a ansiedade afeta tantas pessoas? O que é a ansiedade?
Ansiedade é uma resposta natural, no fundo, que nós temos perante qualquer coisa que achamos que é ameaçadora. E, portanto, a ansiedade é precisa, porque é aquilo que faz com que o teu corpo se comece a mexer e que te prepare para a resposta àquele problema. Portanto, que estejas pronta para fugir se for preciso, ou para ficares o mais imóvel possível até o perigo passar.
Mas isso é um pouco como o estresse positivo e negativo, e o estresse que é bom e o estresse que é mau, mas a ansiedade tem níveis chatos. Não é muito positivo.
Era isso que eu ia te dizer agora. O problema da ansiedade é quando a ansiedade passa a ser em níveis de intensidade, frequência e duração ao longo dos teus dias, que tu não consegues controlar. Ou seja, ela aparece em momentos em que tu realmente não estás em perigo. E isso torna-se bastante assustador. Por que o meu corpo está a reagir assim, se não está a acontecer nada?
E o que está a acontecer em nós nesses momentos?
O nosso corpo está a achar que nós estamos em perigo, ou nós sentimos. E às vezes pode ser um perigo que vem de dentro, pode ser um pensamento, qualquer coisa muito assustadora de que nós nos lembramos ou qualquer coisa que já não deveríamos estar a pensar.
A ansiedade até tem mais que ver com aquilo que estamos a pensar em relação ao futuro, ao que vem aí.
Sim.
Ou ao que foi feito e devia ter sido feito de outra forma.
Mais relativamente ao futuro e ao que vem aí. Mas eu acredito que influenciado por coisas que já fizemos, ou já conseguimos fazer, ou não conseguimos fazer.
No dia 10 de outubro assinalamos o Dia da Sanidade Mental. Tratar de uma doença do foro psicológico tem a mesma atenção e reconhecimento do que tratar uma doença física exterior, que está à vista de todos?
Não, eu acho que não.
Ainda há preconceito em relação a isso?
Eu acho que há principalmente estigma, relativamente a procurarmos ajuda no que toca à saúde mental. E eu acho que o Dia Mundial da Saúde Mental é um dia muito importante também para fazermos essa sensibilização, que deve acontecer todos os dias. E eu acho que também o papel dos psicólogos acaba por ser esse, que é também desmistificarmos qual é o nosso papel e na verdade, como é que podemos ajudar as pessoas ou o que é ir procurar ajuda psicológica, o que acontece nas sessões. Eu acho que por um lado, há o estigma do: "Eu devia ser capaz de resolver isto sozinho" ou "Isto não é assim tão grave". Ou "Os psicólogos são pra malucos." Por outro lado, eu acho que as pessoas ainda não sabem assim tão bem, apesar de eu achar que se tem feito um caminho muito bom, o que faz um psicólogo.
O que faz um psicólogo? Conta-nos, Maria Inês Galvão, o que fazes.
Um psicólogo clínico, de uma forma mais poética, ajuda a pessoa a ajudar-se. Ou seja, o meu papel é ouvir aquela pessoa, que às vezes consegue, de uma forma mais fácil ou inicialmente mais contida, falar sobre os seus problemas ou aquilo que a está a perturbar de alguma maneira, que pode ser tristeza, pode ser ansiedade, podem ser relações com outras pessoas, pode ser a morte de alguém.
E como é ser psicóloga de pessoas mais velhas do que tu? Eu sei que tens pacientes de todas as idades, alguns com 30, 40 ou até mais. É fácil? Sentes paternalismo? Tens de convencer aquela pessoa que tu podes ter quase metade da sua idade, mas que a consegues ajudar de qualquer forma.
No início, isso era um problema. Eu trabalho só com adultos, portanto a partir dos 17, é o paciente mais novo que eu tenho. No início, isso era uma coisa que me preocupava bastante. Como é que eu, com este meu ar jovem, vou conseguir convencer esta pessoa de que sou capaz ou suficientemente capaz de o ajudar. Isso agora já não é um problema e eu acho que vem, obviamente, da prática, de sentires que vais sendo capaz de estabelecer relações com outras pessoas e que tens mais segurança no teu trabalho. Mas eu acho que principalmente tu convences, entre aspas, a outra pessoa de que és capaz na relação com ela, na forma como te sentas, na forma como escutas, na forma como és empático. Não preciso de saber imensas coisas, preciso só de estar muito interessada em saber as coisas daquela pessoa.
Mas já sentiste alguém mais difícil de convencer de que com a tua tenra idade a poderias ajudar?
Eu não tenho situações demasiado caricatas. Tenho pessoas que a dada altura do processo, às vezes mais no início, outras vezes já só como confissão, me dizem: "Mas a Inês tem esse ar tão jovem".
Angelicão. Bonito.
"Como é que eu vou partilhar esta coisa tão pesada consigo?" Isso já aconteceu.
E conseguiu partilhar?
Conseguiu, pois.
Tu já eras boa ouvinte e conselheira na infância, tens traços de psicóloga em pequenina?
Eu acho que sim. Eu agora não sou conselheira, os psicólogos não dão conselhos.
Nenhum? Nenhum conselhozinho?
Define conselho. Faça assim, faça assado.
Não só um, se calhar dás três.
É que não são conselhos na medida em que isto não é uma receita. E se calhar interessa mais explorar quais é que são os próprios conselhos que a pessoa pode dar.
Dás sugestões? Deixas no ar? Pode ir por aqui.
Talvez que tipo de coisas é que acha que poderia ajudá-lo a chegar a esta meta que pretende. E portanto, é mais estimular que a pessoa encontre os seus próprios recursos ou o que é que funciona pra ela, porque aquilo que eu acho que pode funcionar pra mim ou pra outra pessoa que eu tive na hora anterior, praquela pessoa pode não funcionar. É nessa medida que não damos conselhos. Mas se eu era boa ouvinte? Eu acho que sim. Eu acho que os meus amigos já recorriam a mim pra conversar sobre os problemas deles.
É uma característica fundamental, não é?
Eu acho que sim. Eu acho que há características que nós já temos e que nos ajudam a ser psicólogos, por estarmos interessados nos problemas das outras pessoas, sermos capazes de estar a conversar de outra pessoa sem necessariamente estarmos a conversar sobre nós. Se bem que às vezes também é preciso conversar sobre nós. Mas que depois as características que tu vais desenvolvendo enquanto psicóloga, também de alguma maneira, contribuem pra pessoa que tu és. Portanto, isto é sempre uma coisa que se vai alimentando uma à outra, a pessoa e a pessoa psicóloga.
Eu imagino que sejas boa ouvinte no consultório e fora das consultas. E analista. És analista fora das consultas. Estás a conhecer alguém, aí começas a analisá-la.
Isso dá muito trabalho.
Mas não acontece? "Hum, deves ter um transtornezinho".
Não.
Não fazes isso?
Não.
Como não?
Não faço porque fazer esse tipo de análise implica um conhecimento muito mais aprofundado sobre aquela pessoa. Quando eu estou a conhecer alguém, a análise que eu posso fazer é como é que esta pessoa me faz sentir ou se eu estou confortável ou não, se eu gosto ou não gosto. Acho que no fundo, a análise que nós todos fazemos.
Mas tens uma bagagem mais capaz do que pessoas que não estudaram psicologia.
Se calhar a mim interessa-me, não sei se a outras pessoas interessará, às vezes compreender porque é que será que esta pessoa é assim. Isso interessa-me. Eu acho mesmo que não faço isso enquanto análise, porque como te digo, isso daria mesmo muito trabalho.
O que é que salta logo à vista nessa análise de uma pessoa que não conheces? É uma pessoa que fala demasiado sobre si própria, é uma pessoa que não fala nada.
Isso não salta à vista de todos.
Sim, o que isso quer dizer? Uma pessoa que fala demasiado sobre si própria e que monopoliza uma conversa, por exemplo.
Não sei. Terá necessidade de ser ouvida? Será que há outros contextos da vida dela em que precisaria de ser ouvida e não é ouvida? Como é que ela faz as pessoas à sua volta sentir-se? Faz com que as pessoas se sintam desconfortáveis, que não tenham espaço? Será que alguém é capaz de lhe dizer: "Olha, eu também gostava de falar sobre mim" ou "Olha, estás sempre a falar sobre ti".
Sim, uma pessoa normal, que não seja psicóloga, é capaz de achar: "Esta pessoa está cheia de si própria". Tu sentes que ao deparares-te com uma situação dessas, tentas compreender: "Esta pessoa é assim porque se calhar está a passar por Y ou Z".
Eu, Maria Inês, acho que tento compreender, mas isso não significa que não seja pessoa também.
Também julgas.
E portanto enquanto pessoa, tenho a opção de quero permanecer numa relação com esta pessoa, ou não quero permanecer na relação com esta pessoa. Enquanto se a pessoa está no meu consultório, eu quero permanecer na relação com esta pessoa porque
Quero ajudá-la a relacionar-se melhor com as pessoas lá fora. E as relações entre paciente e psicólogo são quase um ensaio das relações que acontecem lá fora. E é muito importante para a nossa sanidade mental as pessoas que deixamos entrar na nossa vida, não é?
É fundamental. Tem muita influência, porque nos ensina como funcionam as relações e como é que nós somos capazes de nos relacionar com os outros e como é que os outros se relacionam connosco. E a forma como os outros nos tratam também nos faz pensar muitas vezes sobre quem é que nós somos e quais é que são as nossas características.
Estamos à conversa com Maria Inês Galvão, psicoterapeuta, psicóloga clínica, que foi escuteira durante 13 anos e fez ballet durante 11. O que te formou melhor? O escutismo ou a dança?
Tenho só de te fazer uma correção.
Então.
Eu não sou psicoterapeuta, sou quase psicoterapeuta.
Estás a fazer uma pós-graduação em psicoterapia.
Exatamente. O que me formou melhor? Os escuteiros ou...?
Ou o ballet.
Que pergunta muito difícil.
São muitos anos.
Que pergunta muito difícil. Eu acho que são duas atividades complementares, ou seja, a dança teve uma influência em mim diferente dos escuteiros, mas a ter de escolher uma, escolheria os escuteiros.
O que te trouxe o escutismo? Com U, não é?
Sim, com U.
Qual é a diferença, para quem não sabe, entre escutismo e escotismo com O?
Escutismo com U, são o CNE, que é o Corpo Nacional de Escutas, que são os escuteiros católicos. O escotismo é a AEP, é a Associação de Escuteiros de Portugal, que está mais associada aos escuteiros não católicos, mas isso não significa que eles não tenham religião, significa mais é que a espiritualidade é mais diversa. Eu penso que esta será uma explicação justa e simples. O que eu acho que o escuteiros me trouxe não foi nada que eu acho que não pudesse ter aprendido ao longo da minha vida de outras maneiras, mas acho que me trouxe de uma forma mais rápida, porque é preciso trabalhar em equipa, é preciso seres responsável pelas tuas coisas, o teu material, não perderes. É preciso cuidares de outras pessoas que dependem de ti, que também cuidam de ti. É preciso, à noite, saberes rir das coisas que aconteceram e preparares peças cômicas para estarmos divertidos. É preciso também criar momentos de reflexão para pensarmos o que é que hoje não correu tão bem e que pode amanhã correr melhor.
E dá-te acesso a uma grande diversidade de personalidades logo desde cedo também, não é?
Sim.
E tu és católica por causa do escutismo ou já eras antes?
Eu fui escuteira porque os meus pais eram escuteiros.
Ok. Herdiste o escutismo.
Sim, herdei. Acho que a escolha de ser escuteira não esteve muito relacionada com a religião, na verdade.
Mas és católica? Acreditas em Deus?
Isso é muito importante?
Não, é uma curiosidade. Eu li num texto teu que muitos de nós só passam realmente para a fase adulta quando têm o seu primeiro desgosto amoroso. De que forma é que um desgosto amoroso nos pode mudar?
Que pergunta tão difícil. Eu acho que o desgosto amoroso, se for o primeiro desgosto amoroso, como eu escrevia nesse texto que te estás a referir, é a primeira vez em que tu estás em contacto com, eventualmente, uma rejeição, de um nível que não te traz sentido antes. Portanto, o teu namorado ou namorada é alguém que tu escolhes para partilhar um conjunto de coisas, de intimidade emocional e físico, o que seja, que outras pessoas não têm acesso e, portanto, é uma pessoa muito especial. E a primeira vez que tu és rejeitado ou que os projetos que nós temos para a relação não funcionam, mostram-nos que às vezes as coisas são difíceis, às vezes as coisas não funcionam só porque duas pessoas gostaram ou gostam muito uma da outra. E portanto, molda-nos no sentido em que é preciso...
Mas de que forma é que passamos à fase adulta? O que fica completamente em baixo fica é a tostinha, não é? A tostinha depois de uma relação.
Na fase adulta, na medida em que se calhar perde-se algum desencantamento.
Alguma ingenuidade.
Sim. Não significa que quando nos voltamos a apaixonar, não voltemos a sentir exatamente as mesmas coisas como qualquer adolescente, as borboletas na barriga, a paixão, a alegria, a vontade constante de estar com aquela pessoa. Mas se calhar depois quando passamos para a fase do amor, fazemo-lo de uma forma muito mais consciente e muito mais adulta no sentido de maduro.
E tu continuavas neste texto a dizer que ironicamente voltamos sempre à juventude quando se relembra o que é estar apaixonado. E eu pergunto-se o que é estar apaixonado psicologicamente. É capaz de ser das experiências mais fortes que o ser humano pode sentir. Há alguma resposta científica da psicologia para o que é estar apaixonado?
É uma confusão de hormonas, em primeiro lugar. É explosões de alegria e de vontade de estar próximo daquela pessoa. É o adormeceres a pensar naquela pessoa, acordares a pensar naquela pessoa. Algumas pessoas perdem o apetite.
Ganham? É só perder?
Mas normalmente perdem o apetite, eu acho, quando estão apaixonadas. Muitas borboletas na barriga e o estômago sempre colado quando a pessoa diz qualquer coisa, quando olha para nós, quando nos dá a mão, quando nos manda uma mensagem. Portanto, eu acho que estar apaixonado é uma confusão.
Mas já te aconteceu alguém ir ao teu consultório e dizeres: "Olhe, desculpe, mas isso é só uma paixão, está com essa ansiedade toda porque está apaixonado." Não acontece, pois não?
Nunca me aconteceu. Não sei se alguém terá essa história, mas a mim nunca me aconteceu.
E adoecer de amor? É possível?
Sim, possível é. Não sei se será suposto. Suposto na medida em que se adoecemos de amor, o que nos fez chegar aí? De que forma não fomos capazes de nos proteger para ficarmos doentes?
Vamos então deixar a paixão e vamos passar a outro transtorno, aliás, transtornos. Qual achas que é o mais difícil, mais desafiante ou mais assustador de todos os transtornos possíveis? Deves conhecer muitos.
Quando falas em transtornos, falas em perturbações?
Perturbações.
Da personalidade?
Da personalidade. Imagina, pode ser desde ataque de pânico ao transtorno de fúria, agressivos.
Sim. Eles são todos muito diferentes. Acho que falaste de um que vou escolher, por achar que é muito assustador para as pessoas que o sentem, que são os ataques de pânico. Os ataques de pânico são assustadores, porque normalmente acontecem quando as pessoas estão em repouso, ou seja, não estão a fazer nada que supostamente as deixasse ansiosas. Estão a ir dormir, estão com os amigos, estão a conduzir e de repente o corpo delas dispara, o coração começa a bater de forma muito acelerada, começam a transpirar várias reações do corpo e pensam: "Isto de certeza que é tão grave que eu vou morrer". E eu acho que o pensamento de que vou morrer e não tenho capacidade para me regular e para conseguir tranquilizar-me é muito assustador.
E transtorno de personalidade, qual é o mais complicado?
Eu acho que isso é uma pergunta um pouco injusta.
Eu sei que é, e difícil também.
Pronto, em minha defesa.
Um que seja difícil de lidar para a pessoa que tem de conviver com a pessoa que tem esse transtorno.
Sim, eu acho que a perturbação de personalidade borderline é uma perturbação difícil para a própria pessoa.
E em que consiste?
É uma desregulação emocional muito intensa, ou seja, há grandes oscilações de emoções. Há um grande medo do abandono e do vazio, mas ao mesmo tempo é quase como se tivéssemos tanto medo que depois fazemos tudo para o confirmar. Muitas vezes está relacionado com desregulação emocional, como automutilações, e nessa medida é muito difícil e até perigoso. Mas tem uma gênese em situações também muito difíceis para a pessoa e, portanto, é muito facilmente, eu acho, empatizável, em que pais que foram maltratantes ou rejeitantes e muitas vezes também culminado em conjunto com situações de abuso que as pessoas sofreram ao longo da vida e portanto ficaram completamente desestruturadas. A sua visão do mundo é completamente desestruturada.
Isso é muito interessante o que dizes. A maior parte dos transtornos e traumas que nós temos vêm da infância, quase todos.
Alguns, sim.
Por que a infância é assim tão permeável a transtornos e a traumas?
E a tudo.
E a tudo.
Porque a infância é o momento da nossa vida em que nós estamos a aprender tudo. Que estamos a aprender quem é que somos, quem são os outros, como é que nós nos podemos relacionar conosco próprios e também como é que os outros se relacionam conosco. E eu acho que também muito na forma como, principalmente os nossos pais, vou dizer os nossos pais, porque à partida serão as pessoas que estão mais próximo de nós e com quem nós temos as primeiras relações. A forma como os nossos pais se relacionam conosco, ensinam-nos muito sobre como é que as relações funcionam. E não é por acaso, que de alguma maneira nós temos tendência a repetir padrões. Tem a ver com aquilo que nós aprendemos, com a forma como nós aprendemos a relacionar-nos com as pessoas.
E é uma das perguntas que vocês gostam mais de fazer ou de saber nos consultórios é a infância das pessoas, não é? Como é que é a relação com seu pai, com sua mãe, com seu irmão, com seus primos.
Mas já imaginaste como é que seria estares sentada numa cadeira à frente de alguém que de repente te pergunta: "Olhe, como é que era a relação com a sua mãe e com o seu pai?"
Acho interessante. Acho que é uma boa análise fazermos.
Sim, eu acho que sim.
Eu me interesso mesmo nesta postura de entrevistadora, gosto sempre de saber coisas sobre a infância. E na minha vida pessoal, quando conheço alguém, também gosto de saber. Imagino que na psicologia, então, seja mesmo um terreno fértil.
Também, eu acho que sim. Invariavelmente nas primeiras sessões, quando as pessoas me dão alguma pista de onde é que aquilo vem, normalmente eu convido as pessoas a falar sobre isso quando estamos a falar sobre determinada coisa e eu lhes pergunto: "De onde é que ela acha que isto vem?" Portanto, qual é a história daquele problema ou daquela emoção. E aí começamos a falar sobre a infância e depois dá para fazer essas perguntas.
Por falar em voltar à infância e voltar atrás, o que achas da hipnose? Que agora está na moda. Muitas pessoas a recorrer à hipnose para curar depressões e ansiedade.
Eu não pratico hipnose.
Hipnoterapia. Qual é a tua opinião?
Eu acredito que há outras formas mais eficazes e mais relacionais das pessoas chegarem até a resolução dos seus problemas.
Mas é um inimigo da psicologia, é um concorrente? No mercado é.
Talvez. Eu não me sinto ameaçada. Espero que isto não soe demasiado presunçoso. Eu não me sinto ameaçada, mas acho que pode ser um concorrente. Tudo o que vende resolução de problemas de uma forma fácil É um concorrente e é perigoso.
Mas achas que não terá razões para ter sucesso? Ouve-se cada vez mais pessoas dizer que conseguiram sair de situações complicadas através da hipnose. És cética?
Sou um bocado cética.
Nunca investigaste? As investigações sobre hipnose já remontam a 1816, já é uma coisa antiga.
Até das origens da psicanálise. Mas eu identifico-me mais com outras formas de intervenção.
Olha, Inês, a psicologia surge na tua vida de várias formas, mas há um obstáculo de percurso que te empurra diretamente para lá, que foi não teres média para entrar em medicina. Que área da medicina é que seguirias? Psiquiatria?
Não.
Não?
Não era isso que eu queria.
Então?
Eu, dos meus sonhos de menina, queria ser pediatra.
Ok. Mas diz-me uma coisa, psicologia e psiquiatria tocam-se ou não?
Eu acho que se tocam e têm de se tocar, e eu acho que se devem tocar cada vez mais, na medida do trabalho conjunto. Eu acho que se psicólogos e psiquiatras estiverem mais dispostos para trabalhar em conjunto, eu acho que podemos fazer um melhor trabalho por aquela pessoa, eventualmente. Eu acho que a medicação ajuda, em muitos casos, a regular alguma sintomatologia, esta pessoa no caso da ansiedade ou da depressão, ajuda as pessoas a terem vontade ou a conseguirem levantar-se da cama, ter vontade de se movimentar, de cuidar de si, o que seja. Mas a psicoterapia faz o trabalho de transformação do que está na origem deste problema, o que faz com que a pessoa esteja tão ansiosa ou o que levou a que a pessoa chegasse a este estado deprimido, a esta tristeza profunda, sobretudo. Portanto, a medicação não vai lá remexer ou arrumar essas páginas do livro. A medicação vai tranquilizar a pessoa.
Então qual é que dirias que é a principal diferença? É psicologia é diálogo, ou monólogo, whatever. E psiquiatria é medicação.
Eu acho que há psiquiatras que fazem um bom trabalho de diálogo também. No estar interessado em saber a história daquela pessoa, minimamente, para tentarem dar a medicação o mais adequada possível. E eu acho que as novas gerações de psiquiatras e as pessoas com quem eu tenho trabalhado, são assim. Mas a psicoterapia é diálogo ou outras formas, pode ser não verbal, mas é mais transformação emocional.
Mas imagina, quando alguém sente que precisa de se reerguer e compartilha isso com alguém, há sempre aquela questão: "Ah, devias ir a um psicólogo, não, tens é de ir a um psiquiatra." Onde é que a pessoa deve ir? A um psiquiatra, a um psicólogo, como é que se percebe? Como é que se sabe?
Eu acho que o bom trabalho de um ou de outro, do psiquiatra ou do psicólogo, será perceber, respondendo à tua pergunta, se alguém chegar até mim e eu achar que aquela pessoa está tão desregulada que é difícil para ela estar no seu dia a dia cotidiano, no seu dia a dia normal, o meu papel é, e faço, encaminhá-la para um psiquiatra, conversar com ela sobre como é que se sente relativamente a tomar medicação. Normalmente, quando as pessoas vêm até nós e não foram ao psiquiatra, é porque têm algumas reticências em tomar medicação ou não. Ou alguém que tem um amigo que já esteve no psicólogo ou um familiar: "Olha, isto ajudou-me, por que não experimentas?", conversas com alguém. Eu acho que o psicólogo está muito associado a ter com alguém que te vai ouvir e que te vai ajudar. Mas eu acho que um bom profissional também deve encaminhar as pessoas para um lado ou para o outro. Também há muitos psiquiatras a encaminhar para terapia, para que isto funcione.
E diz-me uma coisa, é fácil manter a sanidade mental? Não andamos todos sempre um pouco à beira da loucura?
Eu ontem conversava sobre esta frase que uma vez um professor meu disse, que era: "Uma pessoa saudável é quem tem um bocadinho de todas as perturbações da personalidade."
Isso é bom.
E portanto, eu acho que andamos todos um bocadinho à beira desse precipício, que pode ser muitas coisas, mas se não estivermos suficientemente atentos ao que nos está a empurrar para lá. Se estivermos a trabalhar muito, a dar tudo de nós sempre em tarefas e não nos lembrarmos que se calhar também precisamos de descansar e não é só porque precisamos e que merecemos, se calhar, sim, vamos ficar mais exaustos, vamos estar menos disponíveis para regular as nossas emoções. Portanto, diria que no frenesim do dia a dia, podemos sentir-nos empurrados para esse precipício, mas também cabe-nos a nós termos algumas estratégias também para pararmos e fazermos pausas e termos tempo para respirar.
E é aí que entra ou deveria entrar o autoconhecimento, a autorreflexão, a autoavaliação, que eu sei que é uma coisa que fazes muito. Como é que se faz autorreflexão?
Pode ser exaustiva, às vezes.
Sim.
Com cuidado.
Com cuidado, com pinças.
Se a autorreflexão for exaustiva, acaba eventualmente por se transformar em autocrítica ou em algo que não é exatamente produtivo, mas é qualquer coisa que nos persegue. Mas a autorreflexão de sabermos o que estamos a sentir, como é que estar com esta ou com aquela pessoa nos faz sentir, como é que nós lidamos com o nosso trabalho, eu acho que é fundamental para sabermos o que podemos fazer para ou ser melhor ou nos sentirmos melhor. Se não soubermos quem somos ou como é que lidamos com determinada situação, será mais difícil termos recursos. Eu lembrava-me agora de um verso, por isso o meu pensamento ficou um bocado mais arrastado, do André devedeiro, que diz: "Quando mais próximos estamos de nós, mais palavras temos para tudo."
É bonito.
E portanto, eu acho que é isto.
Para os nossos ouvintes mais jovens que queiram seguir por psicologia, eu lembro-me que é uma das áreas com mais desemprego. Lembro-me disso já na altura em que andava a ver cursos. Como é que aos 27 anos já tens praticamente três, quatro anos de experiência clínica? Quem é que acreditou em ti, numa área tão difícil de singrar?
As pessoas da PSINOV, que foi o sítio onde eu fiz o meu estágio curricular e que no final do estágio me convidaram para permanecer lá e fazer o meu estágio profissional. O nosso estágio profissional é um estágio de acesso à ordem, o que significa que sem ele não somos psicólogos, não podemos exercer psicologia e, portanto, é um passo obrigatório para todos e que dá muitas dores de cabeça a recém e deslicenciados, mas no nosso caso é mestrado integrado. Portanto, eu fiquei muito contente. E desde que me convidaram para permanecer lá para o estágio profissional, sempre foi claro que quereriam que eu permanecesse na equipe e continuasse a trabalhar com eles. E foi muito importante para mim ter este espaço para crescer lá, porque é uma clínica onde além de darmos consultas, também acontecem outras coisas, os workshops, as formações, avaliação psicológica. Portanto, tem acesso a muitas áreas da psicologia, que vamos intercalando com as consultas, também é uma lufada de ar fresco.
E psicólogos no espaço público, quem são os teus preferidos? De Joana Amaral Dias a Eduardo Sá. Não há assim tantos, estive a ver.
Nenhum desses.
Não?
Não.
Não és fã?
Ia dizer uma coisa um bocadinho enviesada, mas eu acho que os psicólogos da PSINOV também estão no espaço público. É só preciso ter um bocadinho mais de atenção.
Não, mas mais conhecidos, não há assim tantos nomes de psicólogos que sejam reconhecidos. Que vejas na rua. Deviam existir mais psicólogos no espaço público. Na rádio, nos jornais.
Provavelmente. Mas eu acho que o papel dos psicólogos no espaço público tem de ser vender a psicologia real. É preciso ter algum cuidado enquanto somos psicólogos no espaço público, também para não vendermos mensagens de que tudo funcione bem para toda a gente, de que é fácil A, B ou C, ou que é difícil. Às vezes a terapia é difícil.
Achas que a psicologia no espaço público é pop? Psicologia pop?
Acho que em Portugal, talvez.
Ok. E se o nome António Branco Vasco andasse no espaço público, gostavas de o ouvir?
Adoraria.
É um professor de quem gostas muito, não é?
Muito, não sei como é que descobriste o nome dele.
Quem é? Conta-nos, para quem não conhece.
É um professor catedrático, que é formador na pós-graduação que eu estou a fazer, é o meu supervisor clínico lá na associação. É um investigador, alguém que tem contribuído muito para a integração em psicologia, que é uma área que eu gosto muito. E que é alguém que eu acho que é muito conhecido também lá fora e talvez não tanto cá dentro como seria suposto. Ou preciso, até na minha opinião. Não sei se ele vai adorar eu estar a falar sobre ele aqui.
Claro que vai.
Mas eu acho que a postura dele não é uma postura pop e, portanto, é alguém que...
Que já te ensinou muito.
Muitíssimo.
Que te inspira.
Muitíssimo.
Estamos quase a chegar ao fim desta conversa. Vou fazer-te algumas perguntas rápidas.
Ok.
É possível ter um burnout sendo psicóloga?
Claro que sim.
É? Um psicólogo precisa de outro para fazer psicoterapia?
Um psicólogo precisa de outro psicólogo? Às vezes os psicólogos precisam de psicólogos.
Fazes terapia a ti própria?
Não, isso não funciona nada bem.
Não. Autorreflexão não é proprio terapia.
É, mas não é terapia.
Ok. E já precisaste de um psicólogo?
Já precisei de um psicólogo.
Que não fosses tu.
Claro, sim.
E o que é que dirias a quem despreza o trabalho de um psicólogo? E há muita gente que duvida da psicologia, já aqui dissemos.
Mas para o tentar convencer?
Para tentares defender a tua área.
Eu acho que a psicologia pode ser muitas vezes desprezada, porque as pessoas acreditam que é só conversar. E psicologia não é só conversar ou não é só alguém vir e desabafar. É uma conversa que está assente em investigação e em dados científicos. E, portanto, o meu trabalho tem objetivos e tem tarefas concretas, adaptada a cada pessoa, para eu a ajudar.
E Freud é mesmo o rei disto tudo?
É um pai.
Pai da psicologia?
Um pai.
É sempre o nome mencionado quando se fala de psicologia.
Porque é um dos primeiros nomes que aparece da psicologia, de uma área que é a psicodinâmica e a psicanálise.
Já levaste algum caso mais complicado para casa? Andaste assim a bater com a cabeça, com o sofrimento de uma ou outra pessoa?
Já, às vezes, ou com o sofrimento dessa pessoa ou até com a minha perceção de incapacidade para naquele momento ter conseguido fazer aquilo que eu acharia que seria o melhor para aquela pessoa. Mas a sorte ou a vantagem é que existe uma segunda oportunidade para voltarmos a tentar ajudar. Mas sim, às vezes há casos que são mais complicados e também por isso é muito importante termos colegas com quem conversar, termos amigos psicólogos e amigos não psicólogos com quem conversar.
E quando tu analizas alguém, precisas de entrar na pele da outra pessoa e manter a tua pele ao mesmo tempo. Como é que isso é gerido?
Então, usando a tua metáfora, se calhar, mantinha a minha pele, mas nos sapatos da outra pessoa.
E essa capacidade de entrar na pele do outro, se tivesse um sinónimo em português, podia ser empatia. Não achas que muitos dos problemas que enfrentamos no dia a dia se resolveriam com uma maior dose de empatia?
Provavelmente. A empatia é a capacidade de conseguirmos olhar para o mundo ou para aquela coisa pelos olhos da outra pessoa, portanto, torna-nos mais compreensivos.
Uma das coisas que eu mais admiro no ser humano é a capacidade de se reerguer perante uma queda, perante um abandono, uma desilusão, uma perda. O que é fundamental para continuar?
Esperança de que se precisarmos com a ajuda de alguém, eventualmente vamos conseguir.
Está sempre pronta para aprender mais, para saber mais e desde os tempos de escuteira que parece ter como missão deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrou. Faz o que pode para o melhorar, o mundo, seja enquanto psicóloga, seja na cultura, dedicando-se a desenvolver atividades que possam enriquecer a cidade onde cresceu, Leiria. Nesse sentido, faz parte da Associação Cultural Eco. Tem muita consciência sobre si própria, conhece os seus pontos fortes e os fracos. É investigadora, formadora, mestre em psicologia clínica, está a fazer uma pós-graduação em psicoterapia. Diz que o seu trabalho diário se faz de alguma criatividade, que vem do conhecimento científico. Para marcarem uma consulta com a doutora Maria Inês Galvão, é ligarem para a PSINOW, que tem site e presença em todas as redes sociais. Quanto a nós, agradecemos a consulta da última hora no Observador. Uma boa conversa, diria eu, é sempre uma ótima terapia. Obrigada, Inês. Também conhecida por Pipoca, entre amigos.
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