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Este país também devia ser para novos e é por isso que temos em estúdio uma jovem arquiteta que se divide entre Portugal e a Noruega. Está sempre de malas feitas, passa muito tempo dentro de aviões, adora viajar. Fez um interrail aos 20, fez Erasmus em Oslo, teve um projeto no Chile. A viagem e o movimento enraizados na infância e adolescência ajudaram ao pensamento crítico sobre as cidades e o espaço público. É filha única, desde pequena habituada a criar os próprios projetos e brincadeiras. Não era uma criança muito sociável, gostava mesmo era de passar tempo entre desenhos e trabalhos manuais. Hoje é aquela pessoa que se é preciso parceira para qualquer coisa, alinha em tudo, é aventureira, adora escrever, faz cadernos de viagens para arrumar pensamentos e fazer uma espécie de análise sobre o que viu e o que sentiu. Fala norueguês, fala inglês, fala português, talvez fale outras línguas, porque ao que parece tem tempo para tudo, consegue desdobrar-se completamente. É desorganizada de uma forma extremamente organizada. Pode estar no maior lodo, mas com o maior sorriso. "No lodo, mas feliz", podia ser o lema de Mariana Calvete, é o que dizem os amigos que a tratam por Nita. Nita, bem-vinda.

Obrigada.

Estás cá esta semana no meio do teu caos habitual. Estavas a dizer-me que até foi sorte apanhar-nos nesta segunda-feira. Tu vieste na sexta-feira, não é?

Eu cheguei na sexta-feira. É um dos períodos que eu estou em Portugal. Como sabes, divido-me entre a Noruega e Portugal. Estou duas semanas cá, seis semanas lá, vai variando um bocadinho.

E ficas até quando agora? Ficas duas semanas, então?

Agora são duas semanas, sim.

Como é que tu fazes esta divisão entre Portugal e Noruega? Estavas a dizer que não é fixo.

Não é fixo, porque tenho um trabalho que é um bocadinho imprevisto. Tenho algumas reuniões que vou tendo que adaptar de vez em quando, mas a ideia é sempre fazer esta divisão, que agora faz sentido, duas semanas cá, seis semanas lá, mas quem sabe o que vai ser daqui pra frente. Mas muita flexibilidade.

Sim, o teu ateliê deu-te esta flexibilidade. Sei que era muito desejada por ti e pela tua família. Como é que negociaste este acordo para trabalhar remotamente?

Foi feito de forma muito natural. Primeiro foi assim, tomei uma decisão, que a minha vida não podia ser só lá, nem só cá. E eles como são muito abertos e como eu já te expliquei um bocadinho, eles querem mesmo é que as pessoas estejam bem pra fazerem o seu trabalho de forma plena. Eles perceberam que: "Vamos dar uma hipótese a este plano, que parece um bocadinho absurdo".

Mas foste tu que avançaste e propuseste?

Sim.

Que demonstraste essa vontade de passar algum tempo em Portugal?

Sim, porque não é de forma nenhuma uma coisa normal no ateliê. Aliás, sou só eu que faço.

É só tu que fazes em todo o ateliê. E como é que os teus colegas veem isso? É pacífico? Eles são de lá?

Muitos são de lá, outros não. Também há alguns espanhóis, de outras nacionalidades, mas cada pessoa, como eu te disse, tem que gerir como é que se sente melhor e como é que cria o tal equilíbrio que leva à produção criativa e à produção que nós temos de fazer. E isto é o que faz sentido pra mim.

Faz sentido pra ti, mas é exigente ou não?

É muito exigente, porque a organização tem que ser ainda mais. Nós já temos um dia a dia um bocadinho caótico, entre gerir muitos projetos, gerir equipas, gerir o trabalho criativo e o trabalho técnico, que já é uma dificuldade, e aqui entra a viagem.

Com que estás familiarizada desde sempre.

Sim.

Uma das coisas mais surpreendentes ou interessantes do teu trabalho na Noruega, do ponto de vista das condições de trabalho, é a tua autonomia em relação a horários e a calendário. Há uma grande flexibilidade de horários e as recompensas por esforços extras são certas. Não tens horário de entrada, ou seja, entras até uma certa hora, a hora que queres. E todas as horas que fazes a mais são pagas ou são contabilizadas para dias de férias. É assim? Isto existe mesmo?

Existe mesmo, é assim. Claro que há expectativas, o trabalho tem que ser feito. As deadlines são pra cumprir e têm que ser cumpridas. Por isso, claro que não posso tirar férias amanhã, se me apetecer. E tenho horário de entrada, tenho as sete horas de trabalho que devem ser cumpridas, mas que posso adaptar de vez em quando, consoante o dia que tenho e as atividades que tenho, as atividades pessoais.

Mas como é que tu gestes isso? Imagina, hoje trabalhei mais três horas e vai pra um caderno, vai pra um quadro que é só teu ou que é da equipa?

Não, é um programa digital que todos escrevem as suas horas e os comentários, o que é que fizeram nessas horas, porque nós próprios também somos responsáveis por faturar aos clientes. Somos arquitetos, mas fazemos essa parte toda, por isso é tudo transparente, no fundo.

E como é que foi isso que te conquistou a ficar na Noruega, essas condições? Era possível isto acontecer em Portugal?

Não sei se era possível, espero que seja possível.

E conheces algum ateliê que faça isso?

Não, na verdade.

Vai ser tu a vir pra Portugal introduzir esse esquema.

Não, eu acredito que daqui pra frente seja cada vez uma coisa mais aceitável em Portugal, até porque nós estamos a aproximar-nos disto. As gerações mais novas também vão muito pra fora, voltam e depois aprendem alguma coisa. Mas a principal diferença é esta, na confiança. A sociedade norueguesa está toda estabelecida na base da confiança. Ou seja, eu dou-te a minha palavra e vou fazer aquilo que eu disse.

Ok. E também uma das principais diferenças é a hierarquia. Há menos hierarquia.

Há menos hierarquia, porque claro que há os cargos de maior importância no ateliê. Há os donos do ateliê ou os fundadores do ateliê, que têm sempre a responsabilidade pelo projeto. E depois, logo a seguir, há os responsáveis pelo projeto, que é o cargo que eu tenho agora, que têm em cada projeto a responsabilidade de trazer esse projeto à construção ou o que quer que seja. E depois há os outros arquitetos que Por estarem há menos tempo ou por não quererem ter a responsabilidade, ajudam só nas equipes. Mas a diferença é que estas hierarquias não são pela idade ou pela experiência, são um pouco pelo que tu quiseres. Ou seja, se tu quiseres ter mais responsabilidade, desde que mostres e que trabalhes, não tem nada a ver se tens 20 anos, se tens 40 anos.

E dizes também que é muito importante cada um conhecer-se a si próprio e perceber como trabalha de forma mais eficiente. Tu já te conhecias suficientemente bem, antes de ires pra lá, pra saberes que responsabilidades podias ter ou não?

Não. Eu sempre tive uma vontade de me conhecer a mim própria e muito ativa. Como te disse, através dos cadernos, sempre pensei imenso e sempre tentei fazer com que os meus processos criativos fossem o mais eu possível. Mas claro, quando cheguei lá, não sabia nada do que é que ia fazer. Não fazia ideia o que era gerir equipes, não fazia ideia o que era estar em projetos tão grandes como estou agora. Nem sabia que era isso que queria, na verdade. Então foi tudo um processo que foi acontecendo.

E achas que esse modelo de trabalho é favorável à produtividade?

É, porque no fundo tu tens mais estima pelo que estás a fazer. Aquilo é teu, não é do patrão que te mandou fazer não sei o quê. Aquilo é teu, tu é que propuseste, tu é que esticas os objetivos, esticas as ambições. Portanto, quanto mais ambiciosa fores, mais esticas as ambições do projeto em que estás a trabalhar e então mais vontade tens de fazer. E então, de certa forma, vais adaptando o teu workflow e as tuas horas de trabalho àquilo que tu queres.

Isso é um contraste gigante com o que se faz em Portugal, muitas vezes o excesso de horas e a produtividade em queda, não é?

Sim, mas a questão lá é que este excesso de horas não é feito de forma obrigatória, primeiro. É feito quando tu queres e quando o projeto necessita e é feito por vontade própria, porque eles acreditam muito que não é possível motivar pessoas. A motivação tem que ser intrínseca, ou seja, tu tens que te automotivar. É essa a diferença. Então eles dão-te as ferramentas e depois tu é que tens que criar.

E tens conhecimento que é assim em muitas áreas na Noruega ou é particularmente no teu ateliê?

Não, isto é em várias áreas.

É cultural?

É cultural e claro que é um pouquinho mais na arquitetura, talvez, e no espaço das artes, no design, mas vejo que há isso em várias áreas.

Há também uma grande aceitação da importância da vida familiar e de todas as outras coisas que devem acontecer nos tempos livres. A vida profissional é tão importante como o resto. Isto aqui é muito bom de ouvir. É mesmo assim? Há mesmo esse respeito pela vida extralaboral?

É mesmo assim. Eu no início achei um pouquinho estranho, porque às vezes em reuniões importantíssimas, estava alguém que dizia: "Temos que começar a fechar, porque eu tenho que ir buscar as crianças à infantária." Ou, por exemplo, quando estamos a tentar arranjar uma data pra uma reunião e alguém diz: "Nessa semana estou de férias, não pode ser". Ou: "Nessa semana tenho um ensaio para uma peça de teatro que faço nos meus tempos livres", ou qualquer coisa desse gênero. Portanto, qualquer argumento da vida privada é válido na vida profissional.

Isso tem a ver com o fato de saber que se a pessoa estiver feliz no seu lado familiar, amoroso, etc, estará também mais feliz e mais atenta no trabalho que realiza?

Sim, e vai trazer outras coisas, outros interesses e outras paixões que vão informando a nossa área, porque a arquitetura ainda por cima é muita coisa. E então tu podes ir buscar informação e inspiração. É muito difícil.

Tu chegaste a trabalhar em ateliês em Portugal?

Trabalhei num ateliê em Portugal, no Ateliê Amar Calmais, enquanto estudei.

Ok. E tu consegues dizer que país achas que é mais produtivo? Consegues dizer-nos?

Produtividade é muito difícil. É muito difícil de definir, principalmente nestas áreas criativas, porque às vezes chegas ao final do dia e tens um dia: "Esse dia consegui fechar uma ou duas soluções que não estava a encontrar desde há duas semanas". Mas o que eu acho é que, no geral, na Noruega, eles tentam concentrar mais as coisas em menos horas. Eles tentam, porque ninguém trabalha muitas horas extras todos os dias.

Sim.

Claro que há horas extras, eu também faço muitas horas extras, é impossível não haver em arquitetura, porque as coisas nunca estão fechadas. Mas eles tentam sempre ser muito eficientes nas coisas que fazem e ser pragmáticos, às vezes demais, tenho que confessar, que às vezes parece-me que as coisas são assim muito...

E mesmo na hora do almoço, vocês não têm hora do almoço. A hora do almoço é pra comer, é o tempo que demorarem a comer, não é?

A hora do almoço é meia hora, oficialmente. Às vezes é um pouquinho mais, às vezes é um pouquinho menos. E é no ateliê. E é muito rápido.

Pra depois também saírem mais cedo e conseguirem aproveitar ainda a luz do dia, porque lá anoitece mais cedo, os dias são mais curtos.

No inverno, sim, no verão é o contrário.

É o contrário?

Sim. No inverno anoitece às 15:00.

Às 15:00?

Às 14:00, às vezes.

A sério? Como é que tu adaptaste-te a isso?

Pois, isso foi complicado. Quer dizer, não foi complicado, é uma questão de mentalidade. Sim, mas depois durante o verão tens quase sempre dia. O sol põe-se à meia-noite, às vezes. Mas eu acho que é por isso que eles se adaptam muito às estações. E veem o lado bom de todas as estações. Isso foi uma coisa que eu também aprendi lá, que cá era sempre: "Está a chover, estou deprimido".

Então qual é o lado bom das estações, Mariana? O que é que aprendeste?

Lá eles têm muita cultura de: "Outono, vamos apanhar os cogumelos, vamos apanhar as amoras, vamos apanhar isto." No inverno: "É tão bom, vamos esquiar." Depois vem o verão: "Tão bom, vamos para os jardins, vamos estar..." Têm o lado bom de todas as estações e não veem Claro que há a parte mais negativa da coisa, que está muito escuro durante o inverno.

Andas de lanterna na rua? Tens um chapéu com uma lanterna?

Devia andar, mas ando de colete refletor.

Andas? A sério? Como é que tu te movimentas lá? Andas de carro?

Ando a pé ou de bicicleta.

Então vives perto do trabalho.

Sim.

E onde é que achas que é possível ter melhor qualidade de vida? Em Portugal ou na Noruega? Tu agora consegues perceber melhor do que nunca, se calhar, porque te divides de forma tão regular.

Claro que as pessoas são diferentes. Há pessoas que dão muito valor ao ir jantar fora, aos restaurantes, ao convívio, às lojas, mais o lado consumista da coisa. E nesse aspeto, claro que aqui em Portugal é muito mais fácil ter esse tipo de serviços, são muito mais acessíveis. Mas aquelas pessoas que dão algum valor à família ou ter tempo para fazer diversas coisas, como desporto, como tempos livres, trabalhar em projetos próprios, trabalhar em projetos para o empregador. Para aquelas pessoas que querem fazer muitas coisas com o seu dia a dia e não conseguem decidir "sou uma pessoa da família ou sou uma pessoa do trabalho?", acho que é mais fácil atingir isso na Noruega.

E como é que tu descreverias a Noruega? Que país é este? Eu nunca estive lá. Há muita gente que não faz ideia, ouvimos muito falar da Noruega. Sabemos que o bacalhau não é da Noruega, pois não?

É muito deles.

E mais coisas sobre a Noruega.

A Noruega é um país...

Tu fizeste Erasmus lá?

Eu fiz Erasmus lá.

Em Oslo.

Foi onde tudo começou, um pouco. E eu também não sabia quase nada sobre a Noruega quando fui para lá. Sabia que era considerado um país superdesenvolvido. E é verdade, em certos aspetos, mas a Noruega é um país muito novo. Eles há 50 anos eram agricultores. E isso nota-se muito. Lá está naquilo que eu estava a dizer da cultura. Eles não têm a cultura de cidade como nós temos. A questão de ir jantar fora, a questão de encontrar amigos espontaneamente num café.

Isso faz-te falta?

Faz-me muita falta. Faz-me muita falta, porque lá é tudo muito mais planeado, porque é uma coisa nova pra eles. Claro que já fazem isto há imensos anos e Oslo é uma cidade completamente europeia, é uma capital europeia, mas ainda há muito a questão das cabaninhas, de irem à sexta-feira, toda a gente vai pra cabaninha. E a natureza, adoram as caminhadas na natureza, são muito ligados à paisagem e aos desportos.

E foi amor à primeira vista, a Noruega, quando fizeste Erasmus?

Não.

Não?

Acho que não.

Quanto tempo é que esse país demorou a conquistar-te?

Olha, por acaso tenho andado a ler os meus cadernos dessa altura.

Tu relês as coisas?

Eu vou lendo de vez em quando.

E discordas de ti própria? Como é que é esse processo?

Discordo às vezes, mas principalmente aprendo como é que vou lidando com as coisas. Mas uma das coisas que me fez imensa confusão no início é que é muito difícil chegar às pessoas.

São mais desconfiadas?

Não são mais desconfiadas, mas não são super dados logo do início. Nós aqui às vezes estamos num café a conversar com uma pessoa.

Não dão dois beijinhos?

Não dão dois beijinhos.

Como é que se cumprimentam? É um passou bem?

É um passou bem, se não conheceres. Ou se já tiveres alguma intimidade, és capaz de ter um abracinho.

São mais formais no trato, então.

Sim, mas depois o abracinho é uma coisa que não...

É uma coisa calorosa.

Sim, por exemplo, pra nós é uma coisa muito mais íntima. É dar o tal abracinho. E quando sentes aquele abracinho mesmo bem dado, é porque pronto, esta pessoa é mesmo...

Gosta de ti.

Sim, e já entraste naquela esfera que elas protegem tanto.

E falar norueguês. Ouvi dizer que sabes falar perfeitamente norueguês. Foi fácil. Estás na Noruega há quantos anos?

Estou na Noruega há cinco.

Há cinco anos. Quantos anos demoraste?

Foi no primeiro ano que eu aprendi. Foi nos primeiros cinco meses, mais ou menos, que foi quando decidi aprender a sério, porque percebi imediatamente que para ter alguma responsabilidade no atelier, tinha que aprender a língua, e que é muito mais fácil aprender enquanto não tenho a tal responsabilidade. Portanto, comecei logo num curso intensivo. Primeiro comecei a aprender por mim, porque os cursos normalmente é melhor ires pra um nível mais acima.

Foste à internet, compraste livros? Como é que fizeste?

Comprei livros e depois comecei a ler livros. Ler livros que já tinha lido.

E é fácil aprender norueguês?

Não é muito fácil. A gramática é superfácil a comparar com a portuguesa. Que tenho visto pessoas a aprender português que se veem gregos para a gramática. Mas em termos de pronúncia é muito difícil.

Diz assim: "Eu sou a Mariana Calveti, estou na Rádio Observador. Beijinhos." Só para percebermos o que é que soa o norueguês. Rádio é igual, eu só ouvi a palavra rádio.

Sim, mas é um bocadinho assustador que eu agora falo e penso, e até sonho, por vezes, em norueguês.

E o inglês? Tu foste para lá falar inglês ou não?

Fui para lá falar inglês.

Eles falam bem inglês.

Sim, toda a gente fala muito bem inglês. E agora falo inglês diariamente também, porque lá está, temos elementos da equipa que não falam o norueguês e também trabalhamos com imensas pessoas da Europa toda. E é uma grande mistura de línguas na minha cabeça.

Tu agora chegaste na sexta-feira, andas a sonhar em inglês, em norueguês ou em português?

Sim, e já vou dando uns pontapés na gramática de vez em quando.

Em português?

Sim.

É normal, não se pode ser boa em tanta coisa, não é?

Sim.

Eu sei que apesar dessas condições de trabalho apelativas que falámos, passas muito tempo no atelier, és gestora de projeto. Tens muitas responsabilidades. O que é que te ocupa neste momento?

Neste momento estou dividida entre três projetos bastante grandes. Um é uma biblioteca com um banco e apartamentos, tudo no mesmo edifício, que está em obra, vai acabar agora em fevereiro. Foi o primeiro projeto que eu ganhei o concurso. Fiz o concurso como líder do projeto, foi a primeira vez, e fiz o acompanhamento todo até agora. Foi uma das primeiras coisas que eu pedi quando cheguei ao ateliê, que queria fazer um projeto desde o primeiro esquisse ou do primeiro desenho, até estar tudo feito. E depois trabalho com um museu, que ainda estamos numa fase preliminar, de licenciamento, e um edifício muito interessante de escritórios, que é o primeiro projeto privado que eu estou a trabalhar.

Com ambições sustentáveis, não é?

Com muitas ambições sustentáveis.

Que é uma coisa que te preocupa e com a qual te identificas, não é?

Sim.

Desde sempre? Na faculdade já incentivam os futuros arquitetos a pensar de forma sustentável ou é uma coisa mais recente?

Eu tenho que dizer que foi quando cheguei à Noruega que percebi exatamente o que os arquitetos poderiam fazer em relação à sustentabilidade, porque eu acho que é talvez a maior crítica que eu faço à universidade aqui em Portugal, é que ainda, ou talvez quando eu tirei o curso, não sei, ainda não era um foco. Claro, tivemos a disciplina de ambiente, acho eu, mas não havia uma grande componente de sustentabilidade.

Agora está na ordem do dia, nunca se falou tanto em ambiente e sustentabilidade como agora.

Mas a questão é que eu acho que, primeiro, quando eu fiz Erasmus em Oslo, e acho que já há muito mais tempo, que na Noruega eles levam isto mesmo muito a sério. E a questão da reciclagem ou a questão de andar de bicicleta, disso já nem sequer se fala. Agora falam-se de coisas muito maiores, que é: como é que vamos não voar?

Como é que vamos não voar, Mariana? Há respostas, há?

Não, mas é o que me atormenta muito, a minha gigante pegada ecológica nestes voos todos.

E tu trazes isso, imagino, para os teus projetos. O que se pode fazer? É escolher melhores materiais?

É assim, há muitas coisas. Nós orientamo-nos um bocadinho pelos 17 objetivos das Nações Unidas. E depois temos um grande foco, não só nos materiais, mesmo na construção, que é uma grande parte de toda a, não se chama poluição, mas de tudo o que se constrói, tem uma grande pegada de dióxido de carbono, e nós tentamos diminuir o mais possível. E para isso usamos determinadas certificações, por exemplo, o BREEAM ou o WELL, que são certificações universais, que tu podes usar como guia para tudo o que tu fazes no teu projeto, vai de encontro a essas ambições. É materiais mais sustentáveis. Nós usamos madeira, muito, mesmo muito. 90% dos nossos projetos têm toda a estrutura em madeira.

Já tiveste muita experiência de trabalhar em madeira, não é?

Sim.

No shield também.

No shield também.

Outro projeto pessoal na Noruega.

Sim. Aliás, quando eu fui de Erasmus, queria muito perceber um bocadinho mais disso da construção em madeira, porque aqui em Portugal nós não exploramos assim muito, lá está, não é muito acessível. Mas não é só os materiais. Porque nós, como arquitetos, podemos desenhar coisas de outra forma. Um dos grandes focos no ateliê, apesar de eu não ter trabalhado muito nesses projetos, é a habitação. Como é que nós podemos morar de forma mais sustentável? Podemos partilhar mais espaços? Temos mesmo de construir tanto como nós construímos? Por exemplo, fizemos agora um projeto que é uma habitação coletiva, em que as pessoas compram apartamentos muito pequenos, mais pequenos do que estão habituados. E depois há salas de convívio, uma cozinha gigante, onde as pessoas se organizam para fazer jantar uns para os outros, fazem workshops, constroem os próprios móveis. E tudo isto vai gerando um certo pensamento sustentável que vai inspirando uns aos outros. E é nisso que eu acho que é muito importante, porque nós, como arquitetos, podemos inspirar a muitas coisas, mais do que reciclar.

Também li algures que preferes escadas a elevadores.

Sim, no meu ateliê sou conhecida porque gosto muito de desenhar escadas. Já na faculdade gostava imenso de desenhar escadas, acho que é uma coisa muito bonita e que pode mudar tudo. Se tu tiveres uma escada incrível, que te vai dar uma perceção do espaço completamente diferente, que te vai dar uma viagem, quase, pelo edifício, nunca mais apanhar o elevador.

E é fácil explicar às pessoas que é mais sustentável pela escada, apesar de ser mais confortável de elevador?

A ideia é que as pessoas nem sequer pensem nisso.

As escadas serem tão bonitas que temos mesmo de ir de escada.

E já vimos isso em vários projetos, que as pessoas acabam por usar mais as escadas. Por exemplo, se tiver um anfiteatro ao lado da escada em que as pessoas se possam sentar, ou se a escada for assim no meio de um espaço incrível, que tenha luz, a ver de algum sítio. E por acaso num desses certificados que se pode obter, tu ganhas pontos por isso. Se puseres a escada num sítio que apele mais ao movimento do que apanhar o elevador, por exemplo, ganhas pontos porque é uma forma de sustentabilidade.

Tu dizias-me que sempre quiseste perceber o que faz com que os países nórdicos sejam considerados os mais desenvolvidos da Europa. Conseguiste perceber, entretanto? E sentes esse desenvolvimento no teu dia a dia lá?

É assim, eles são muito refletidos naquilo que fazem. Não tomam decisões muito espontâneas no sentido de: "Isto é muito bonito, isto é muito bom, vamos apostar tudo nisto". Eles pensam muito.

São cautelosos.

São cautelosos, exatamente. E mesmo na economia são muito cautelosos, como tu sabes, que têm um dos maiores fundos mundiais. Mas eu acho que isto tem tudo a ver com o frio, na verdade. Isto está dentro deles. Então eles tinham que poupar os recursos que tinham nos períodos de bom tempo, para gastar durante o tempo de inverno.

O mal dos nossos pecados é o calor que temos.

Eu acho que sim, eu acho que o sol.

Em Portugal estavas habituada a desenhar para um clima quente, a norte é muito diferente desenhar para sul, para um clima quente e para norte?

É muito diferente, porque tens imensas preocupações que não tens cá. É claro, há aquele clichê do desenhar telhados mais inclinados por causa da neve, e isso explica a uma criança as diferenças, porque aqui não precisamos, podemos ter coberturas planas. Lá uma cobertura plana é algo que vai ser muito caro, para dizer assim. Vais ter que fazer detalhes muito complicados para poderes gerir isso. Depois é as variações térmicas também, que apesar de não ser, por exemplo, aqui consegues ter uma amplitude térmica muito grande. Lá tens temperaturas mais constantes, mas uma grande diferença entre verão e inverno. Tudo desde o isolamento.

Os costumes também são muito diferentes, também influenciam depois a construção.

Sim, e isso ainda é uma das coisas mais interessantes, porque, por exemplo, aqui desenhamos mais esplanadas. E desenhamos muitas praças e estar nas praças e os bancos.

Qual é o equivalente norueguês às esplanadas e às praças?

É uma coisa muito engraçada, porque eles usam muito os espaços. Por exemplo, uma biblioteca é um espaço que está cheio durante o dia, é um local de convívio, não é um local de silêncio.

Não é de silêncio?

Não é um local de silêncio, de todo. É um local de família, de levar as crianças.

Mas no meio dos livros? As pessoas estão a conviver, que engraçado.

E aliás, já fui a um festival de música dentro de uma biblioteca. É certo. Portanto, lá está, eles têm que se adaptar e têm que adaptar estas situações.

Ok, mas isso é em todas as bibliotecas, não há bibliotecas que são estritamente para estudar ou para o silêncio?

Claro que há sempre salas dedicadas ao estudo e salas dedicadas a ouvires música, por exemplo, salas dedicadas a veres filmes, tudo há dentro de uma biblioteca.

Como é que é a biblioteca em que andas ocupada? É de convívio ou é de estudar?

É de tudo um pouco, mas só para teres uma ideia, podes ir espreitar o Facebook depois.

Diz-me qual é a página para nós todos consultarmos.

Podes ver no site do Helland Hart, que é o atelier onde eu trabalho, e eu tenho feito algumas partilhas também. E é só um espaço. Tu entras e vês a biblioteca toda, por exemplo. Então depois tens uma série de espaços que podes habitar de forma diferente.

E é uma biblioteca generalista?

É uma biblioteca generalista, num sítio muito pequenino, numa câmara muito pequenina, cheia de ambições, em que aquele edifício vai ser provavelmente o ponto alto dos próximos anos.

Ok, promissoras. Como é que a criança que desenhava e fazia plantas e montava Legos se decidiu ser arquiteta? Tens ideia quando é que esse clique deu?

Eu acho que foi um bocadinho no secundário. Foi um bocadinho quando percebi que para além de gostar de desenhar, ao estar com outros colegas que também gostavam de desenhar, mas tinham perfis diferentes. Alguns gostavam de desenhar e desenhar e acabava ali. Ou não acabava ali, era muito mais coisas, claro, mas não tinham aquela componente organizativa que eu tinha, que eu desde pequena gostava muito de organizar coisas e a arquitetura é um bocadinho organizar o espaço. É um bocadinho organizar o mundo.

Os médicos da sociedade.

Os médicos da sociedade. Mas eu acho que percebi que não gostava só de desenhar pelo desenho em si. Aliás, nem era o desenho, o resultado final que me interessava tanto, mas os processos que existiam na minha cabeça enquanto desenhava e usar o desenho como meio para atingir qualquer coisa. Então aí percebi que não era só uma arte plástica.

Mas como é que percebeste que era arquitetura e não era design? Lembras-te de em pequenina dizerem: "Esta rapariga vai ser arquiteta". Lembras-te de dizerem? Não?

Não. Eu queria ser professora quando era pequena.

Porque gostavas de explicar as coisas.

Adorava explicar coisas, adorava passar trabalhos de casa às minhas avós e tudo mais.

Passar trabalhos de casa às avós?

Exato.

Para pores os certinhos? Eu gostava de fazer os certinhos. A vermelho.

Exato. Não, mas eu acho que foi um processo. Não me lembro daquele dia que disse: "Ah, é arquitetura". Mas lembro-me que quando cheguei à parte de vou para a universidade, não houve questão nenhuma. Era arquitetura. E quando cheguei à faculdade percebi: "É mesmo isto". Porque é onde percebi melhor que arquitetura são muitas coisas e, lá está, uma arquiteta pode fazer algum design. Claro que há muitos designs, há muitas arquiteturas, há paisagismo, há interior, há muitas coisas. Mas cada vez mais esses mundos se vão misturando um bocadinho e cada vez mais vais participar em equipas com muitas disciplinas.

Eu tenho vários amigos que estudaram arquitetura e foi através dessas conversas com amigos que percebi que a arquitetura é de facto um curso muito abrangente. Vocês têm uma data de cadeiras diferentes dentro do vosso curso.

É um bocadinho difícil até de perceber no início. Principalmente aqui, como eu também percebi enquanto estava de Erasmus, não são todos os países que têm tanta diversidade. Mas nós temos uma componente super artística, temos uma componente super técnica, temos a história, temos a-

A geografia, a matemática.

A matemática, a estética, temos muito de pensamento, que é uma coisa que não há em muitos países, principalmente nos nórdicos, não há muito os pensamentos e as reflexões e as discussões ótimas, deliciosas que nós temos aqui, não há muito lá em cima. Mas depois também temos uma componente super técnica, que também não há muito lá em cima, por isso eu acho que a nossa A universidade é muito completa, na verdade, e muito exigente, porque são um monte de coisas que tu chegas lá.

Tens de encaixar. Na arquitetura, reconheces a importância do espaço onde estamos para a nossa saúde. Todos os espaços contam para a nossa saúde mental, onde vivemos, onde trabalhamos e de que forma é que influenciam o nosso bem-estar?

Eu acho que sim, cada vez acho mais que sim, porque os espaços dão-nos as nossas limitações. Dão-nos a inspiração que temos, dão-nos o bem-estar físico. Isso é talvez o mais óbvio. Dão-nos o ar, o sol, essas coisas todas muito óbvias, mas também nos dão algo que nós se calhar nem sequer conseguimos explicar muito bem. Mas quando nós estamos num espaço bom e com boa arquitetura, nós estamos melhor. E eu dizia-te que há um crítico nórdico que dizia que a arquitetura é a medicina da sociedade. Foi muito inspirador ver uma conferência dele, porque ele dizia: "Com estes desenhos que nós fazemos e com estes espaços que nós criamos, nós temos a oportunidade de ensinar as pessoas um bocadinho sobre elas próprias e como é que reagem em determinado espaço, como é que pensam, e temos também a oportunidade de as ensinar a que se um espaço for melhor, elas têm mais estima por ele". Isso nós vemos em muitas cidades. As cidades mais organizadas são melhor usadas, muitas vezes. E isso também se vê, por exemplo, em escolas. Algumas escolas que estão mais bem tratadas que outras, e às vezes é um bocadinho por causa da arquitetura. Por acaso, quando eu entrei aqui, lembrei-me de um edifício que eu visitei em Zurique.

Aposto que o teu cérebro é um monte de associações. Entraste aqui e lembraste de qualquer coisa que viste.

Exato, lembrei-me porque foi a última vez que eu estive numa editora. É uma editora que é feita em madeira e quando eles fizeram esse edifício, toda a gente que trabalhava na editora queria mudar-se para esse edifício. Eles têm três edifícios diferentes e toda a gente que trabalhava lá era muito mais produtiva, mais feliz, por causa do clima.

Isso faz-me lembrar quando eu visitei o New York Times, pensei: "Adorava trabalhar aqui". Achas que é essa a psicologia, de o espaço é tão agradável que dá-te vontade de trabalhar ali e logo vais ser um trabalhador mais motivado e feliz?

Sim, e às vezes nem sequer sabes dizer porquê. Não sei, toda a gente tem aquele cantinho lá em casa que gosta mais de se sentar a ler ou aquela janela.

E no processo de construíres um espaço, o que conta mais, tu ou o outro? O que é melhor para ti ou o que é melhor para a pessoa que quer aquela construção?

Eu acho que aí são os dilemas de todos os arquitetos.

Acho que é o dilema. Como é para ti?

Quando tu vais aprendendo mais, vais vendo que o mais importante é o outro. É o outro, aquilo que o outro quer ou aquilo que o outro quer, mas não sabe que quer. E é isso que tu vais aprendendo a entender, o que a outra pessoa, o teu cliente ou a cidade onde tu estás a fazer a tua intervenção, o que necessita. E muitas vezes as pessoas, os clientes, não sabem transmitir o que querem. Viram aquilo na revista, viram aquilo, mas não sabem traduzir exatamente e isto dá as imensas discussões.

Tens de fazer o quê? Psicologia do cliente? É?

Cada vez mais eu acho que nós precisávamos de saber um bocadinho mais sobre psicologia.

Não há psicologia no curso de arquitetura?

Por acaso, não.

Não? Olha, falta essa. Já tem tanta coisa, mais uma.

E retórica também precisamos, às vezes, para transmitir algumas ideias e explicar.

Tu contaste-me que foi durante o Erasmus, em Oslo, que começaste a dar mais valor aos três anos de estudo em Portugal e que descobriste algumas lacunas na formação de outros colegas, de outros países. Que lacunas foram essas que saltaram mais à vista?

Como te disse agora, é um bocadinho isso de que lá em cima, no norte, como eles têm muito foco nesta coisa da liberdade e de cada um poder fazer aquilo que quer e perseguir os seus propósitos muito cedo, eles não têm muita academia, não têm que saber fazer estes desenhos, não têm que saber calcular estrutura, basicamente, não têm que saber história. E isso senti um bocadinho de falta. Depois lá, acho que alguns projetos são um bocadinho vazios, quando tentas perceber um bocadinho como é que eles fazem isso. Mas depois há outros extremos. Vais a Itália e depois tens aquela conservação, aquela reabilitação, muito de voltar àquilo que era. E no norte, por exemplo, não há muito isso, porque não há cidades assim tão antigas, não há intervenção como nós temos em edifícios históricos muito antigos. Mas também há, claro, os edifícios em madeira. Mas eu acho que é um bocadinho isso. Eu acho que nós somos muito completos, na verdade, aqui em Portugal, a nossa formação.

É um bom curso para tirar em Portugal, arquitetura?

Pelo menos, eu acho que a licenciatura em arquitetura é mesmo muito boa aqui, em qualquer uma das universidades, pelo menos as públicas, que é o que eu conheço mais, não conheço muito das privadas. Mas depois o mestrado, acho que há algo de bom em nos darem mais liberdade, porque aqui, pelo menos até eu completar o curso, o mestrado era um bocadinho uma continuação da licenciatura. Havia na mesma a receita do que tinhas de fazer e seguir, e as cadeiras, esta e esta. Enquanto nos países nórdicos e outros países da Europa, tu tens um projeto que tens que fazer e tens que te mexer para resolver aquela coisa. Primeiro, és tu própria que crias o projeto e isso prepara-te muito mais para o que será a tua vida. Porque ninguém te vai dizer o que é que tens de fazer, vais ter de

A realidade para os cursos não é assim tão incrível para os arquitetos em Portugal, pois não? Em termos de empregabilidade, como é que vês isso?

Para já, acho que é complicado. Claro que eu tenho estado afastada nos últimos anos e só tenho ouvido as histórias dos meus amigos, mas ainda há poucas condições. Ainda há muito a ideia de que o arquiteto jovem tem que fazer muitas horas, o arquiteto jovem não tem grande voto na matéria, para começar. E eu acho que ainda há um pouquinho a questão do arquiteto que tem o ateliê.

Que tem um estatuto. Isso não acontece tanto na Noruega, então?

Não acontece tanto.

Pelo que percebo.

Mas o outro lado da moeda é que estão a existir imensos ateliês novos em Portugal, que eu não estou superatualizada, mas que tenho visto, de pessoas novas que se juntam e que fazem coisas diferentes e que têm tido imenso projeto internacional.

Ter um teu cá não está nos planos?

Talvez.

Talvez? Está aqui em aberto.

Talvez.

De Oslo vais para Valparaíso, no Chile. Que experiência foi esta de construir três pavilhões com recursos locais?

Foi uma experiência muito divertida, muito inesperada.

Intensa.

Muito intensa. Primeiro, porque como a maior parte das coisas na minha vida, não a planeei, chegou muito rápido a escolha desse tal curso. E depois, estivemos um mês, apresentou-nos o desafio, que era desenhar três pavilhões, cada equipa tinha um pavilhão, eu estava numa delas, para desenhar um pavilhão que nós pudéssemos construir quando chegássemos lá, sem saber muito bem as condições do local. Ou seja, nem sequer sabíamos muito bem onde é que íamos pousar, que tinha de refletir uma série de princípios que nós definimos nós próprios. E depois chegamos lá, tínhamos acesso a determinados materiais. No meu caso foram imensas tábuas de madeira, todas da mesma dimensão.

A tua adorada madeira.

Exato. Num dos outros projetos foram velas de velejar. E quando chegamos lá, tivemos que projetar, tendo em conta as condições do local. Tivemos de conhecer os alunos locais lá na faculdade, porque tivemos que trabalhar com eles. As barreiras linguísticas, porque eles não falam o inglês, tal como os noruegueses. Os noruegueses não falam espanhol. Houve imensas barreiras e a barreira cultural, que foi ainda talvez a maior, porque eles têm uma aproximação muito poética à arquitetura.

Poética?

Muito poética. Aliás, eles na escola de Valparaíso recitam poesia e, por exemplo, às quartas-feiras, têm desportos lá nesse sítio. Eu não expliquei, mas é um sítio que se chama Cidade Aberta e que é um espaço experimental para arquitetura. Ou seja, os alunos que estão em Valparaíso, isto é em Ritaoca, que é a alguns quilômetros, usam este espaço, este terreno enorme, à beira-mar, são dunas, para experimentar à escala real materiais e como é que as estruturas se aguentam, como é que reagem ao vento e tudo mais. E eles, para além dessa componente muito prática e muito material da arquitetura, têm a questão do sentirem e de estarem predispostos para fazer arquitetura. Então eles lá nas quartas-feiras têm os desportos e tudo mais, cuidar do corpo para cuidar da mente, para depois criar. E fazem uma roda gigante, que é superbonito, e gritam os seus lemas e tudo mais.

Eu viste isso, semana estava a ler o jornal, estava a ler uma entrevista a um pianista que dizia, a meio da entrevista, que estou em casa, em toda a parte, e em nenhuma. Ele que vive em Portugal, mas não é português. E li também o teu perfil e percebi que gostavas muito de mudança. O que é casa para ti? Consegues definir casa?

Casa é muita coisa, acho eu, porque casa, claro que casa, pensas logo casa de infância. Claro que a casa dos meus pais é talvez a casa ainda. Apesar de eu andar pelo mundo todo. É Leiria, ainda. Mas eu acho que muito facilmente consigo chamar casa a muitas coisas e acho que é uma das coisas que me têm dito mais, é que eu me adapto com muita facilidade a coisas. Lá está, porque gosto de andar sempre a mudar e eu acho que é um pouquinho da profissão também, porque gosto muito de absorver intensamente os espaços em que estou e então vou muito facilmente apropriando-me deles.

Gostas da estabilidade da instabilidade.

Exato. Gosto muito.

Além da mudança, gostas da dança. É uma paixão recente, não é? O que a dança te traz?

Foi uma coisa que eu descobri muito recentemente. Não sabia que eu gostava tanto de dançar e não sabia que dança era tanta coisa, também. Não sabia que dança era uma das melhores atividades que tu podes fazer para a tua saúde mental, por exemplo. É uma atividade supersocial, é uma atividade que requer uma concentração e estar no momento.

Estás no presente, que é um desafio hoje em dia.

Que é um grande desafio, mas não estás no presente sozinha. Estás no presente com toda a gente à tua volta. Estás a aprender como é que reages aos sons, a tua musicalidade.

Mas tens que ter muita coordenação.

Tens de aprender.

Ok. Consegue adquirir-se coordenação se não fores muito coordenada? É o meu caso.

Sim, eu acho que tinha um pouco essa ideia: que as pessoas ou tinham jeito para dançar ou não tinham. Eu achava muito isso e até achava que era alguma coisa que as pessoas deviam ter um pouco de vergonha se não soubessem. Mas quando tu começas a dançar, principalmente socialmente, que é como eu danço, a pares ou individual, mas de forma coordenada em grupos, começas a perceber que tudo se aprende e que tudo é uma expressão de ti própria. E não há bem ou mal, há diferentes expressões.

O que é que sentes depois da dança? Ficas muito bem-disposta, no final?

Fico super bem-disposta. Aliás, é incrível que toda a gente entra na sala de dança super down.

Deixam ali tudo.

Deixam ali tudo.

Antes da dança descobriste a corrida, não foi?

Exatamente. Também foi uma coisa que eu odiava. Aliás, como muita gente odeia. E descobri na Noruega, descobri pelo meu namorado, que adora correr. E descobri que também é uma coisa que te faz estar muito no momento e que é o meu tempo sozinha, neste momento. É o tempo que eu uso para processar.

Refletir. Refletes enquanto corres.

Sim, refletir e ouvir música, também. E é o espaço alone.

E ajuda depois ao rendimento no trabalho e em tudo o resto?

Sim, claramente. E isso é uma coisa completamente provada, que eu acho que ainda aqui em Portugal, por exemplo, não há uma grande aceitação disso. Enquanto eu, se estiver no atelier, se tiver uma reunião complicada e à 13h dizer: "Não dá, vou dar uma corrida, volto daqui a duas horas", está tudo bem. Toda a gente tem essa aceitação de que a atividade física, qualquer que seja, ajuda a produtividade. Isso é inquestionável.

Mais um momento de autoconhecimento que facilita a vida. Estamos mesmo a chegar ao fim desta conversa, diz-nos só um ou dois, ou três arquitetos que admires muito. Portugueses. Pode ser portugueses.

Pode ser portugueses. Eu vou dizer todos os clichês, que são os da Escola do Porto, o Siza, o Alves Costa, alguns internacionais, o Barragán, gosto imenso. Mas, ultimamente, eu tenho percebido que cada vez vejo menos arquitetura feita por arquitetos, mas tenho muitas referências da natureza, de cidades construídas há muito tempo, mas principalmente de coisas muito orgânicas. Acho que no curso nos incentivam muito a ver muita arquitetura. Agora eu vivo muita arquitetura porque viajo sempre que posso, mas a coisa de ver nos livros e de estudar arquitetos acontece cada vez menos, na verdade.

Em relação ao futuro, ouvi dizer que há um doutoramento no ar que poderá vir a acontecer. Mentiram-me ou não?

É possível.

Tens saudade da vida académica.

Tenho um pouco de saudade da vida académica. É verdade, mas ainda não consegui materializar exatamente o que quero fazer. Gostava muito de estudar algo ligado com processos criativos. E como lidar com estas novas problemáticas do nosso dia a dia. São orçamentos supercurtos, são prazos supercurtos, mas quer-se um resultado superinovador, excecional. Pelo menos na Noruega, não sei muito bem como é agora. Tem que ser tudo muito bom, porque há grandes ambições. Os clientes são cada vez mais ambiciosos, querem tudo mesmo muito diferente, mas muito pouco tempo. Como é que nós podemos otimizar os nossos processos criativos? Como é que podemos ser muito criativos em muito pouco espaço de tempo? É uma coisa.

E voltar definitivamente para Lisboa, está nos planos ou ainda é uma coisa longínqua?

É possível.

Pensa nisso.

Talvez.

Acredita que a arquitetura tem um papel fundamental na educação, educar para ter mais estima pelo que nos rodeia, o ambiente, o património, as cidades, as pessoas. Vê a arquitetura como missão social, gosta de desenhar edifícios privados, vilas e casas de férias com à vontade económico, mas a paixão é maior quando pode criar espaços culturais e sociais. Nos últimos anos desenvolveu uma biblioteca, um museu e outros edifícios públicos na Noruega. Em pequena queria ser professora porque adorava explicar coisas e explicou-nos bastante. A arquitetura não surgiu cedo, mas já se adivinhava. Desde pequena que desenhava plantas em papel quadriculado antes de começar as construções em Lego. Em jantares preferia sentar-se na mesa dos adultos e ir desenhando nas toalhas de papel ou fazendo algumas contas enquanto ouvia as conversas dos crescidos. Cresceu, é arquiteta e gestora de projetos em Stavanger, na Noruega. Formou-se na Faculdade de Arquitetura de Lisboa, onde fez parte da Associação de Estudantes, do Conselho Pedagógico, da Revista Esfera, corre, dança, faz esqui. Foi presidente da Associação de Estudantes do Liceu em Leiria e apesar de não ter qualquer tipo de perfil para a atividade política, lá ganhou as eleições e nós ganhamos uma hora de conversa e a companhia da Mariana Calvet na última hora, no Observador.

Vá minha geração, nasceste cansada, mimada, doente por tudo e por nada, com medo de ser inventada. O que é que te falta agora que não te falta nada? Poderá uma pobre canção contribuir para a tua regeneração? Ou só te resta morrer desintegrada? Mas minha geração valeu a trapaça. Ai, até teve graça tanta conversa.

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