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Este país também devia ser para novos e é por isso que temos em estúdio uma das vozes mais firmes e belas do universo dramático português, enquanto atriz, criadora e enquanto pessoa que diz poesia. Se gostam de poemas, fiquem mesmo por aí. Nasceu no Porto, experimentou Jornalismo, é licenciada em Interpretação pela Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo. Fez o último ano na Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa e por cá está, na capital, há oito anos. Já vamos perceber se perdeu ou não o sotaque. É desde 2016 coordenadora do ciclo de poesia Clube dos Poetas Vivos, no Teatro Nacional Dona Maria II. Faz teatro, mas é sobretudo uma pessoa de teatro. Encena, encarna, faz-se ouvir, dá a ver, provoca, agita. As questões LGBTI, inclusão e equidade são temas que lhe podem tirar o sono. Isto porque estamos diante de uma acérrima defensora de todas as liberdades e direitos. As suas referências e o bom gosto literário não têm limites. Poucos são tão conhecedores de poesia contemporânea e poucos a dizem tão bem, também. Frequentou a escola francesa durante 12 anos, por isso fala francês como se fosse a língua materna e tem uma relação estreita com esta cultura, na música, na literatura e no cinema. Fez ballet durante oito anos, mas gostava era de desenhar e de escrever. Dizem que escreve como poucas, pelo que apenas podemos esperar um dia ter o privilégio de ver um livro de Teresa Coutinho ganhar vida. Antes disso, vamos tentar perceber como seria a primeira página de um livro sobre a tua vida, sobre a tua história. Teresa, bem-vinda.
Obrigada.
Por onde é que começavas ou a quem é que dedicavas?
Que pergunta. Antes de mais, obrigada pelo convite, Diana. Difícil. Acho que começava uma primeira página de um livro, talvez pela minha avó. Primeiro, porque acho que a infância é sempre a primeira página de um livro da nossa vida. E a minha avó foi uma figura muito marcante até ao momento em que desapareceu, que foi na adolescência. Porque era uma pessoa especial. Obviamente que os meus olhos de neta a fazem ainda maior, provavelmente do que ela era, não sei, mas para mim era uma mulher muito astuta, inteligente.
Tu dizias que gostavas de ter metade da astúcia e inteligência dela, não é?
Sim, digo isso porque acho que a minha avó, não tendo sido uma pessoa com uma vida que tenha fugido muito àquilo que seria a vida das mulheres daquela altura, ou seja, foi uma mãe de família, viveu sem trabalhar, viveu em casa. Mas foi uma matriarca e eu acho bastante impressionante como é que se consegue exercer a inteligência e a astúcia sem ao mesmo tempo sermos opressivos. E a minha avó não era opressiva, mas era uma mulher que levava a sua avante e eu achava isso extraordinário. Eu estava sempre a vê-la controlar a família, as filhas, depois os netos. Era uma mulher especial, talvez dedicasse à minha avó.
Eu pergunto-te por onde é que começavas, porque há uma fase da vida a que te referes muitas vezes nos textos que vais partilhando e que pode ser considerada uma fase de iniciação a muita coisa, que é a adolescência. E estamos constantemente a ouvir dizer que é uma fase muito complicada na vida de um jovem adulto. Como é que foi a tua? Eu sei que eras rebelde, profundamente rebelde. Quão rebelde?
Era rebelde. Eu acho que rebelde é uma palavra, talvez eu esteja a ser injusta comigo. Eu acho que não era rebelde. Eu acho que tive uma adolescência em que, por ter necessidade de viver a minha vida em verdade e em honestidade com os meus, tive que fazer face a coisas um bocadinho complicadas, sobretudo numa idade tão nova. Tinha 16 e portanto, quando se começa a olhar para as questões da identidade e que passam muitas vezes pela sexualidade e por uma série de outras coisas. E numa altura, apesar de tudo, eu agora ia dizer a minha idade, mas digo. Os meus 31 anos.
Nasceste em 1988.
Exatamente. Portanto, foi há 15 anos, ou 16. Apesar de tudo, já mudaram algumas coisas. Isto para dizer que fui muito rebelde, na medida em que também foi muito difícil viver de acordo com a minha identidade nessa altura. Daí as questões LGBTI, eu sou homossexual.
Tu dizes que a rebeldia anda muitas vezes de mãos dadas com a reivindicação e a sensação de inadequação. O que é que reivindicavas e de que forma é que te sentias inadequada?
Sabes, eu acho que agora não parece reivindicação nenhuma. Eu acho que ninguém pode reivindicar existir. Existe-se. Na altura, reivindica-se porque se sente que não se tem lugar. E quando eu digo que a rebeldia muitas vezes anda de mãos dadas com a sensação de inadequação, quer dizer, nós só somos rebeldes se o maior à nossa volta, é um bocado aquela coisa do Brecht. Toda a gente fala da força do rio, mas ninguém fala das margens que o comprimem, da força da corrente. Eu acho que é um bocado isso. Hoje olho para trás, quer dizer, rebelde. Eu queria era viver, amar, ser feliz, dançar, estar com amigos.
Mas há muitas pessoas que passam pela vida com uma espécie de adormecimento em relação a essas questões de identidade. Por que achas que foste tão exigente ou tão intensa na adolescência a reclamar e viver a tua identidade?
Por que acho que fui tão intensa? Porque eu acho que sou intensa.
Não consegues perceber de onde é que vem essa intensidade?
Não, acho que consigo perceber que tenho uma herança. Acho que os meus pais são duas pessoas intensas, à sua maneira. Latinos, meu pai é um homem intenso, a minha mãe também, de outra forma. E eu acho que fui educada nesse contexto de se dizer muita coisa em casa, de haver muita conversa à mesa e eu ter muita voz, por exemplo, que eu acho que é uma coisa que te dá uma sensação desde cedo. Às vezes pode ser duro, porque pode ser uma adulta precoce. Mas quando tens muita voz, também sentes que Enfim, tens muita coisa para dizer e, portanto, preenches esse espaço que te é dado com muita coisa para dizer. E depois acho que, de facto, talvez porque esse mundo interno de que estivemos a falar, da questão da identidade, também é durante muito tempo, eu acho que para qualquer pessoa que viva uma sensação de inadequação ou de estar à margem, é durante muito tempo um lugar de esconderijo. E portanto, quanto mais escondido, mais visceral e mais intenso.
E sugaste o tutano da vida nesses anos pouco fáceis?
Eu acho que sim. Quando eu digo isso, o que quero dizer é: foi uma adolescência em que eu quis um bocado partir a loiça, como se costuma dizer. Se calhar parti um bocado a cabeça aos meus pais, coitados. Mas partir a loiça porque quis viver, quis mesmo, e um bocadinho contra tudo e todos. E acho que suguei o tutano e coisas que se calhar preferia não ter sugado, mas que venho ainda arrasto.
Foi também nesta altura que começaste a escrever os primeiros poemas, uns péssimos, outros menos maus. Como é que tropeçaste na poesia e quais eram os temas que levavas para o papel?
Eu tropecei na poesia primeiro porque os meus pais liam os dois poesia. Havia muita poesia lá em casa e os meus pais tinham um círculo de amigos variado e tínhamos alguns amigos que eram poetas. O que foi uma coisa também muito marcante para mim, porque algumas dessas pessoas eram mulheres, eu até te disse isso naquilo que te escrevi. E ter mulheres que escreviam por perto também foi uma coisa muito importante, porque era um exemplo que estava muito presente. Ou seja, é possível ser-se mulher e escrever, e vais a sítios falar, e a tua voz é ouvida, e se calhar até escreves melhor do que não sei quantos tipos. Portanto, tudo isto foi muito importante. E a poesia era muito lida. A minha mãe é professora, portanto também havia essa relação com a palavra muito forte. E eu comecei por ler muita poesia desde muito pequenina. Eu lembro-me que a minha mãe me deu logo aquele livrinho da Sophia de Mello Breyner, que era um livro que eu acho que quase toda a gente leu. Um livro que era o meu primeiro livro de poesia. E depois comecei a ler cada vez mais. Então eu estou na fase pré-adolescente, adolescente, meu Deus, era tudo que fosse mesmo sangue, suor e lágrimas, eu li, e depois comecei a escrever. Isto andou um bocado de mãos dadas. Eu acho que quanto mais se lê, se se gosta de escrever, depois também mais se escreve. E foi nessa altura. Eu digo que os poemas eram péssimos porque eu leio-os e dá-me uma certa ternura.
Ainda os tens, guardaste?
Alguns, sim. Dá-me ternura porque acho que os temas são quase sempre os mesmos, não é verdade? Não mudaram muito.
Escrevias sobre o amor?
Escrevia sobre amor, claro. Amor, querer viver, sei lá, os sonhos todos do mundo. Enfim, sim.
Os hábitos de leitura é uma coisa que me interessa sempre trazer para cima da mesa. Para quem não leu poesia, por onde é que achas que poderia começar, eventualmente?
Não é fácil. Eu acho que isso é como perguntar qual seria o primeiro filme que tu poderias ver. O "Cinema Paraíso"? Não sei, talvez fosse até um filme... Não sei. Eu acho que depende muito da vida que se teve. E do lugar em que estamos na vida. Por acaso eu falei na Sophia, acho que a Sophia é uma excelente porta de entrada para a poesia, mesmo para quem é mais jovem. Depois há outros poetas. Sim, acho que a Sophia. Acho que mantenho a Sophia.
Há quem acredite-
Ou Pessoa.
Ou Pessoa, sim.
É invitar a Sophia ou Pessoa.
Para alguma coisa estão nos livros da escola.
Sim.
Há quem acredite que a poesia vai ser a nova arte a crescer a nível de showbiz, assim um pouco como o que está a acontecer com o humor. Achas que é possível?
A nível de showbiz, o que queres dizer?
Sim, espetáculos de poesia, slam poetry. Nos Estados Unidos já está a acontecer muito.
Há, sim, nesse sentido.
Há muitos livros a vender bem, de poesia.
Sim. Eu acho o slam poetry incrível. Eu vejo aqueles vídeos, há muito nos Estados Unidos, em Nova Iorque, uns clubes, eu acho aquilo absolutamente inacreditável. Aliás, eu até gostaria, francamente, de ir enfim por lá uns tempos e experimentar, porque eu gosto de dizer poesia, mas acho que aquilo está num lugar também de muito menos rede. Porque aquilo depois mistura, está muito próximo também do rap e da improvisação e portanto, eu acho muito interessante. Sim, acho que é possível. Quem me dera, eu adoraria. Está-se sempre a dizer que a poesia é o parente pobre das outras artes e da literatura. Quem me dera que a poesia pudesse ganhar esse lugar mais.
Se isso acontecesse em Portugal, serias de certeza uma das nossas estrelas na arte de dizer poesia. Começaste a dizer em casa, começaste a gravar-te e a ouvir-te? Como é que isso aconteceu?
Comecei a dizer em casa. Lembro-me que a primeira vez que disse assim, que tive coragem de dizer, foi numa festa que os meus pais deram lá em casa e em que estava, se não me engano, não quero mentir, mas estava a Ana Luísa Amaral. E eu quis ler um poema à minha mãe. Assim cheia de nervos. Então li o poema e a Ana Luísa acho que no fim disse qualquer coisa tipo: "Esta miúda não lê nada mal." Eu devia ter para aí 15 anos. E comecei a ler em casa e depois fui um bocado descobrir o circuito das leituras que se faziam nos bares do Porto. O Porto tinha um circuito de bares onde se lia, o Pinguim. Depois houve um bar que me foi especialmente querido, que era o Maria Vai com as Outras, de amigas minhas do Porto e onde se fez uma coisa chamada Sextas na Cave, que era na cave do Maria Vai com as Outras, organizado por amigas minhas, pela Amanda, pela Ana, e onde eu cheguei a ler também uma série de vezes e alguns poetas eram convidados e estavam lá. E aí diverti-me também muito a ler, li no Pinguim, enfim, li em alguns sítios.
Isso acontece ao mesmo tempo que descobres o teatro, ou antes?
Não, o teatro antes, eu diria. Quando eu entrei no secundário, criámos um grupo, eu e uns amigos, que se chamava A Fazer Cenas. E fazíamos ensaios na paróquia de Leça, na igreja. Maravilhoso. E chegamos a fazer O Urso, do Tchekhov e mais algumas peças, e foi aí que comecei a fazer teatro. Devia ter 15 anos. Foi a única vez que a minha avó me viu em cena, justamente, e por isso é uma memória muito querida e especial. Acho que o teatro veio um pouco antes, mas as coisas andam muito de mãos dadas, porque a curiosidade consome-te. Tu começas a ler teatro, depois lês poesia.
Depois queres dar poesia para o teatro.
Exatamente.
Eu imagino que andes sempre com poemas por perto. Temos aqui dois livros. Não nos queres ler um poema à tua escolha?
Posso ler. Eu trouxe a Hilda Hilst, que é uma poeta brasileira maravilhosa. E trouxe o Rui Cairo. Saiu recentemente esta antologia do Rui Cairo. Por acaso eu não tinha pensado. Deixa lá ver o que eu posso encontrar aqui, que não seja dar uma grande seca à procura. É maravilhoso, é do Rui Cairo e chama-se "É Assim": "Não interessa o que se diz, o que se escreve não interessa. Não interessa como se diz, seja embora o como não te tou isento de interesse. Não interessa a hora, o dia, o lugar, não interessa onde, nem a quem, nem para quando, nem para quê. Não interessa porque se diz o que se diz. Muita coisa há que não interessa, aliás, quase nada interessa, tratando-se de dizer. Não interessa quando se diz, mas interessa menos ainda, isto é, nada mesmo, o que se diz ou o que tal queira dizer. Interessa o quê, então? Interessa o mar. O mar em si mesmo e aquilo que acontece quando o mar nos cai em cima, prevenida ou desprevenidamente. O mar. O mar, sim, interessa. Mas convenhamos, o que é que há a dizer quando o mar nos afaga ou nos cai todo em cima e nos submerge e afoga? Toda a água, todo o frio, todo o azul, todo o verde que há no mar. Como agora dizer-se, ao iniciar uma qualquer explanação, como dizer-se: é assim. Não há nada a dizer. E quando então alguma coisa se diz, o que é que isso pode querer dizer ou que raio de interesse poderá ter? Estão a ver a situação. O mar, toda a monstruosa porção de água que o mar é, todas as cores, todo o frio e toda a espuma, toda a luz também e escuridão que há no mar, tudo em cima de nós, assim de repente. Que interesse tem dizer? E dizer o quê? E como?"
Dizes poemas todos os dias. Obrigada por este momento.
De nada. Leio todos os dias.
E o que ajuda mais? É o teatro que ajuda mais à poesia ou é a poesia que ajuda mais ao teatro?
Eu acho que tudo se mistura. Eu encontro muita poesia no teatro e acho que ler poesia também é teatro, obviamente. Acho que essas coisas todas se misturam, porque têm todas a ver com uma necessidade de qualquer de tu chegares ao outro. Eu lembro-me sempre da Ana Luísa Amaral que dizia numa entrevista: "Ninguém escreve pra gaveta". E eu acho que ninguém escreve pra gaveta e de certeza que ninguém faz teatro pra gaveta e ninguém lê poesia pra não ser ouvido.
Tu além de tropeçares na poesia, também tropeçaste na Agustina Bessa Luís, não sei se nos livros, mas na figura, na mulher, tropeçaste algures num jardim, não foi?
É verdade, essa história é incrível. Eu quero acreditar, eu acho que era ela, tenho quase a certeza absoluta. Eu tive aulas de pintura durante uma fase da minha infância em casa da filha da Agustina, que eu acho que era uma casa de família, da Mónica Baldac. E um dia a Mónica manda-nos, a mim e a uma amiga, à Luísa, ir para o jardim desenhar o que víssemos. E eu, obviamente, em dois segundos perdi-me no jardim, já preocupada com as plantas e com os bichos, e já tinha minhocas nos bolsos. Enfim, já estava muito longe da minha preocupação com o desenho. Entretanto, vou dar a um pátio, se bem me lembro, acho que era assim um pátio. Aquilo era uma casa muito bonita em frente ao Douro, e está uma senhora com alguma idade sentada nesse pátio, com ar austero. Na minha cabeça, eu posso ter fantasiado, mas ela estava a tomar chá. Na altura, não liguei nenhuma. Tive assim um encontro de terceiro grau com ela e depois fui à minha vida. Passado uns anos, pensei: "Era a Agustina Bessa Luís!"
Muito bom. Eu vou aproveitar que estamos a falar de Agustina Bessa Luís para entrar num capítulo que já entraste há pouco, exemplos de força no feminino, que acho que é um aspecto que te caracteriza muito bem. Há uns anos fizeste um espetáculo chamado Ways of Looking, com o Guilherme Gomes, que foi apresentado no Nacional, e o Guilherme contava-me que foi uma experiência única do ponto de vista de discussão viva. E contava-me também que na altura denunciaste o fato de ele só ter homens como referências literárias. Ele diz-me que lhe abriste os olhos. Eu pergunto-te se há muitos olhos para abrir ainda.
Eu acho que há. Olha, eu acho que esse é um assunto sensível. Eu digo isto porque muitas vezes tenho esta conversa e há muita gente que me diz: "Mas caramba, há tanta coisa que se tem feito, há tanta coisa feita." Agora estou a falar de um ponto mais geral, enfim, do lugar da mulher, estas questões todas da desigualdade de gênero que estão na ordem do dia, pelo menos para alguns de nós, graças a Deus. Mas eu acho que há muitos olhos pra abrir ainda, obviamente. Não é por acaso que tu podes estar com um amigo que é um tipo perfeitamente alerta e ele leu muito poucas vozes femininas. Porque realmente a partir de certa altura elas começam a surgir, como no teatro. Há um momento em que há muito menos mulheres a conseguirem exercer o seu métier, trabalhar, sobretudo em lugares que sejam hierarquicamente elevados, e depois a partir de uma altura isso começa a acontecer mais. Mas eu acho que ainda é uma batalha, ainda é difícil. E na poesia, eu recentemente estive no Clube dos Poetas Vivos, a Margarida Vale de Gato que dizia uma coisa, não quero atribuir à Margarida palavras que não sejam dela, ia ser feita uma antologia de vozes, já não sei, as vozes destes 10 anos, e a Margarida Vale de Gato dá-se conta que não havia nenhuma mulher, além de Ana Paula Inácio, e o resto eram só homens. Não nos está nada distante. Agora, claro que há imensas coisas, imensas revistas, imensas editoras a publicar vozes femininas fantásticas. No Clube dos Poetas, isso é uma preocupação minha, por exemplo, há o mesmo número de convidados, homens e mulheres, mas não só na poesia, em tantas outras áreas. E então se começarmos a falar a nível social, sim, há muitos olhos tapados.
Eu partilho contigo que estou a ter algumas dificuldades em trazer mulheres a este espaço.
Pois.
"A ideia de ser mulher nunca esteve dissociada, para mim, da possibilidade de se ser poeta, artista, independente, senhora de si, como referem Maria Teresa Horta ou Ana Luísa Amaral em poemas diferentes." São palavras de Teresa Coutinho. Sei que cresceste com exemplos potentes no feminino, tão potentes como os masculinos, tão capazes, tão ou mais brilhantes. Que exemplos foram esses?
Olha, eu acho que tive a sorte de ter na minha família. A minha avó era uma mulher forte. A sua presença era uma presença marcante, sem ser opressiva, e eu acho que isso norteou-me de alguma maneira. E depois é isso que tu disse, a Ana Luísa Amaral. Nós tínhamos alguns amigos, amigas, neste caso, que foram exemplos. Não é por nada de extraordinário, é por tu as ver existir. E a existência delas contempla muita coisa. Contempla serem académicas, serem poetas, serem artistas, estarem em lugares de liderança ou de ensino do outro. É exatamente como a questão de nós sermos homossexuais, por exemplo. Se tu cresces sem nunca teres tido um exemplo de alguém que viveu a sua vida livremente, tu se calhar achas que isso não existe. Hoje, felizmente, nós temos imensos conteúdos, até na televisão, em que as questões LGBT estão todas mais ou menos representadas. Não são assim tantos, mas ainda há alguns. Mas se tu cresces sem nunca teres visto, sequer perto de ti ou sabido uma história de alguém que pôde viver como quis, tu não sabes se isso existe. E eu acho que em relação às mulheres é um bocado igual. Eu imagino que a minha avó, eu não tenho tido propriamente exemplos de mulheres a viver a sua vida como lhes deu na gana. E eu tive duas ou três mulheres por perto que eram pessoas com um ascendente sobre os outros, grande. E isso é importante.
E tu consideras-te feminista? Como é que olhas para esta vaga de feminismo em Portugal e no mundo? Achas que é honesta ou é uma trend?
Acho que há coisas diferentes. Eu sou feminista no sentido em que, para mim, o feminismo é defesa de igualdade de direitos. E o feminismo existe para responder a um problema, não é uma coisa que de repente as pessoas se lembraram: "Agora era excelente pormo-nos aqui todas a falar de coisas que não existem". Não, há homens feministas, portanto, todos. O feminismo existe porque, de facto, é um problema milenar a desigualdade de direitos. E depois, obviamente, eu acho que tem muito a ver com a questão do aparecimento da internet e das redes sociais, etc. Isso depois se transmuta em 1001 outras manifestações, umas que eu acho mais interessantes e que têm a ver com o feminismo, outras que eu posso achar se calhar um bocadinho mais inócuas ou, como se costuma dizer, muita parra e pouca uva. Mas também, francamente, não perdi muito tempo a olhar para elas, porque estou mais preocupada em olhar para coisas que eu própria ainda estou a tentar perceber. A ler algumas coisas que vão mesmo lá atrás, e que expliquem, por exemplo, porque é que o pensamento... Há uma tipo francesa que tem um livro, ela chama-se Christine Delpy, e tem um livro que se chama "Qui-vive l'autre". Tem um qualquer coisa antes, mas eu não me estou a lembrar. E em que ela vai à génese do pensamento ocidental. A Platão e aos filósofos que nós lemos e que admiramos, e que são todos homens. E ela diz uma coisa maravilhosa, que é este nosso "penso, logo existo". Isto eu agora estou a fazer, se calhar vou ser apedrejada, mas quem estaria a lavar a casa ou a limpar o chão para um homem se poder pensar e logo existir? O que eu quero dizer é que muito deste pensamento importantíssimo e fundador para nós, vem de cabeças masculinas. Como o cinema durante uma altura é feito, agora estou a passar para Enfim, para tempos mais recentes.
Isto tem a ver com a educação, não é? É um problema estrutural de educação?
Sim, é um problema estrutural que eu acho que agora está obviamente a ser alterado e estamos a agitá-lo e estamos a pensar sobre ele, mas há muitos lugares no mundo em que as coisas se passam de maneira absolutamente tenebrosa. E outra coisa, eu acho que quando a crise se instala, e quando digo crise, digo a catástrofe. Penso sempre no "Handmaid's Tale", que é esta série que é da Margaret Atwood, vem de um livro da Margaret Atwood, que se passa numa realidade distópica em que a mulher serve só para parir ou para fazer de jarro ao lado do marido. E nós dizemos: "Esta realidade está tão distante." Há muitos países em que é assim, não é assim tão distante. E mais, eu acho que quando nós vivemos situações em que estamos perto de catástrofes, digamos, políticas, e acho que nós estamos mesmo na Europa a começar a sentir a ascensão de extremismos assustadores, eu acho que a mulher é logo aquela na frente da linha que começa logo a sentir na pele perda de direitos. É assim, porque é histórico.
O que é que encontras em nomes como Hilda Hilst, Clarice Lispector ou Fernanda Young? Que eu conheci graças a ti e agradeço. Já vi entrevistas dela no YouTube. Tens uma forte ligação à cultura francesa, mas também há aqui uma forte ligação à cultura brasileira.
Sim, também. Atenção que eu adoro a minha querida Luísa Netto Jorge, eu até estou a olhar para Luísa Netto Jorge e as outras todas, Maninha Margarida Vale de Gato, enfim, a Raquel Abreu Guerra, todas as poetas, Ana Luísa, todas as poetas portuguesas. Parece agora que estou poetas e os meu rockeiro e o Herberto. Mas voltando ao que tu estás-
São muitas as escritas.
Sim, e homens maravilhosos que eu leio e vejo. Mas sim, a Hilda Hilst foi uma descoberta um bocadinho mais recente e por isso é que também a referi. Eu acho que ela é absolutamente esmagadora. Acho que a Hilda Hilst para mim-
Tu encontraste cá o livro dela?
Comprei o livro cá.
Nunca consegui encontrar.
Porque entretanto abriu aquela livraria no Príncipe Real, que é a Livraria da Travessa e que tem uma série de editoras brasileiras que não estão em muitos sítios e, portanto, tens a Hilda, tens a Ana Cristina Cesar.
Ok, anotem a sugestão, Cristina.
A Hilda Hilst é uma poeta maravilhosa. É tu estares a ler alguém que tu achas que, um bocado como a Maria Gabriela Lancel para mim, das nossas portuguesas, mas eu acho que ela toca quase todas as facetas do humano. É uma mulher que fala da morte, do amor, da mística e da fé. E depois tem esta coisa maravilhosa, há uma história sobre ela, aliás, há um filme sobre ela que se chama "Hilda Pedindo Contato". E é sobre uma fase que eu acho que ela atravessou em que ela tentava contactar com os mortos. Diz-se que ela se refugiava numa quinta que tinha, e tinha uma espécie de rádio, uma coisa qualquer onde ela chamava os mortos e há umas gravações da voz dela que são inacreditáveis. No filme ouve-se que é ela a dizer: "Hilda pedindo contato. Clarice, se você estiver aí, me dá um sinal." Depois ela acaba a dizer: "Os mortos vivem?" É lindo, é maravilhoso. Portanto, a Hilda Hilst, que eu acho que é uma poeta maravilhosa. A Fernanda Young, falei dela porque ela cita, isto a propósito da poesia, ela diz numa entrevista que o Mário Quintana escreve: "Um poema pode salvar um afogado." E eu acho mesmo que a poesia salva, também me salvou a mim, e ela di-lo com aquele jeito dela.
A Fernanda Young dava vontade de ser mulher, escreveste tu sobre a Fernanda.
Sim, eu conheci a Fernanda Young através dos programas que passavam na GNT. Era eu pré-adolescente e adolescente e a Fernanda Young aparecia no "Saias Justas" e no "Irritando Fernanda Young". E depois comecei a procurar mais coisas sobre ela e depois vi "Os Normais", que foi uma série que ela escreveu com o marido, que era uma série absolutamente maravilhosa sobre um casal, muito bem escrita e muito inteligente, e era uma mulher com humor ácido, muito radical e muito sincera nas suas opiniões. E eu digo que dava vontade de ser mulher porque naquela altura eu achava-a uma ave rara. Na vida pública não havia muitas mulheres como ela, uma mulher toda tatuada, com 40 mil cortes de cabelo e aquilo ali tudo muito perto da vertigem, mas ao mesmo tempo muito sólido. Era uma mulher garra.
Vale a pena descobrir. Eu gostei muito de conhecer e foi graças a ti, devo-te isso a ti. O Guilherme contava-me também que nos bastidores deste "Ways of Looking" liam muita poesia um ao outro e a quantidade de vezes que fazíamos o outro chorar é uma violência. É fácil fazer-te chorar? O que é que te faz chorar?
Acho que já foi mais fácil fazer-me chorar.
Já foi uma vez que choraste sem ser em cena?
Qual foi a última vez que chorei? Por acaso não foi há muito tempo. Chorei talvez há uns dias na praia. A entrar no mar.
Com o mar, esse encontro com o mar?
Sim, chorei por mim, por comoção minha, mas no mar.
Não achas que a sensibilidade é muitas vezes ainda vista e sentida como uma fraqueza?
Não.
Não?
Para mim não é nada e felizmente também-
No meio artístico de certeza que não é sentida dessa forma.
Acho que aí os homens são um bocado as vítimas, se calhar, desse pensamento. Eu, felizmente, estou rodeada de homens que exercem a sua sensibilidade sem problemas nenhuns, mas, se calhar, para muita gente ainda é, sobretudo para homens, imagino que ainda seja muito difícil A vulnerabilidade é uma coisa muito difícil. Porque, se calhar, para muita gente a vulnerabilidade ainda não é compreendida como uma faceta da força. Nós só nos podemos vulnerabilizar se soubermos também quem somos, o que é que essa vulnerabilidade quer dizer, que isso não nos diminui perante o outro. E portanto, sim, talvez ainda seja, mas para mim não é. E para muitas das pessoas que me rodeiam, felizmente, também não.
Estamos à conversa com Teresa Coutinho, que experimentou jornalismo, dois anos que não foram particularmente felizes para ti. Como é que reuniste coragem para desistir? Não contaste aos teus pais. Na altura, inscreveste-te no ESMAE, no Porto. E como é que foi a reação?
Eu era muito infeliz em jornalismo. Eu fui para jornalismo porque tinha que ir para algum lado e como gostava de escrever, fui para jornalismo, mas não era feliz. Fiz lá dois ou três amigos de quem gosto muito, mas não foi uma experiência. Faltava imenso. Acho que há um ou outro professor que se lembra de mim, porque eu ao mesmo tempo era assim um bocado espalhafatos e arrogante, se calhar, mas não fui muito feliz. E depois inscrevi-me nas provas à ESMAE, percebi que isto não estava mesmo a correr bem, portanto vamos lá agarrar a vida pelos cornos, perdoe-me a expressão.
E depois os teus pais apoiaram-te?
Claro. Sim, depois entrei, foi uma surpresa, e apoiaram-me.
Falavas de arrogância e eu tenho aqui um excerto teu: "À distância destes anos, acho hoje que fui uma aluna com uma certa lata e uma enorme vontade de aprender, cheia de convicções cegas e por isso mesmo uma grande dose de arrogância. Tenho, contudo, um enorme respeito e apreço pela arrogância que tive." Eu achei muito interessante esta tua forma de estares grata em relação àquilo que viveste e foste. Que respeito é que podemos ter pela arrogância que tivemos no passado?
Eu acho que é diferente ser-se arrogante aos 20. Quem sou eu? Só tenho 30 anos. A arrogância que eu tive com 20 anos ou 20 e tal anos, foi uma arrogância de achar que tinha visto qualquer coisa. Porque eu queria muito fazer teatro e eu acho que quando tu te apaixonas muito por uma coisa, tu ficas um bocado cego, mas também ficas muito seguro de que aquele é o caminho. A arrogância vem desse sítio de querer questionar tudo, de querer aprender tudo e ao mesmo tempo de haver uma série de coisas que tu achas que não se fazem assim nunca na vida. É como aquelas verdades absolutas que tu tens na adolescência: "Eu nunca vou." E depois um dia vais, porque cresces e percebes que afinal. E eu acho que fui essa aluna em alguns momentos. Fui uma aluna um bocado arrogante no sentido de querer muito levar as minhas convicções avante, provar que o professor não estava certo ou porque é que está a agir assim, quando afinal isto é tudo vida ou morte e estamos aqui todos aos papéis quando devíamos era estar, a viver. E depois, claro, passa algum tempo e tu percebes que os professores até se calhar estavam, alguns deles, a fazer um bom trabalho, outros também têm vidas, mas tu estás a viver a tua e aquilo é um bocado tudo no fim da linha. E a arrogância vinha um bocado desse lugar também de paixão.
Trouxeste essa arrogância para Lisboa há oito anos. Como é que foi deixar o Porto? Foi pacífico? Voltas lá muitas vezes?
Volto muitas vezes. Na altura foi ótimo, porque eu queria sair. Aliás, na altura tentei ir para Paris e depois não consegui, porque não havia protocolos.
Mas passaste uma temporada já em Paris.
Passei. Fui fazer um verão à Jacques Lecoq. Hoje dá-me vontade de rir porque na altura achava que ia fazer teatro físico. Oh, meu Deus! Mas foi uma experiência espetacular ter estado lá. Mas depois quis ir para lá estudar e não foi possível, porque não havia protocolos entre as escolas e acabei por vir para Lisboa. Na altura foi muito bom, porque tinha muita vontade de sair do Porto. Estava um bocado cansada. Depois comecei a ter muitas saudades, porque eu amo o Porto, amo as pessoas do Porto, amo tudo. O sotaque, que eu espero que ainda consiga lá um bocadinho.
Algumas palavrinhas ainda diz.
Sim, e vou lá sempre que posso, porque tenho lá família.
Mas achas que a cena artística é mais intensa em Lisboa do que no Porto? O Porto também é culturalmente forte.
Eu acho que na altura em que eu saí, era muito mais difícil fazer teatro no Porto. Pelo menos o que se sentia na escola é que havia um distanciamento enorme entre o percurso escolar e depois o eventualmente chegar às instituições. Quando digo instituições, digo Teatro Nacional, mesmo as companhias que existiam no Porto pareciam uma coisa muito distante. Eu acho que hoje em dia não é assim. Até porque acho que provavelmente houve um esforço da parte também dos teatros de se aproximarem das escolas e porque acho que obviamente também as pessoas que estavam no poder mudaram e porque houve também pessoas que surgiram no panorama cultural portuense muito importantes. E que agitaram muito o estado das coisas. O Paulo Pimentel, eu não o conhecia nada bem, mas tenho perfeita noção de que foi uma pessoa que apareceu e que deu um abanão ao panorama cultural portuense muito importante. Essa coisa da cena artística, é importante que se diga que houve sempre muita gente a fazer coisas absolutamente incríveis no Porto. Elas não são muitas vezes faladas aqui. E essa cisão é que me parece um bocado disparatada. Eu lembro-me de vir para cá e as companhias que eu conhecia do Porto não eram conhecidas pelos meus colegas do conservatório Enquanto que nós sabíamos tudo o que se passava aqui na ESMAE, aqui ninguém sabia quem eram os Bons Raparigos, ou o Ensemble, ou a Palmilha Dentada, ou o Teatro do Frio.
Porque é que achas que isso acontece e como é que se poderia contrariar?
Acho que as pessoas que estão à frente dos teatros têm essa responsabilidade também de fazer com que as coisas mudem. E as pessoas que pensam a cultura acima das pessoas que estão à frente das instituições, ou seja, as pessoas que estão mesmo no poder e que estão ligadas à cultura, têm também essa responsabilidade. Eu acho que se está a mudar. Há uma coisa que se chama Rede UNICE, associada ao Teatro Nacional, em que de repente tu tens uma série de lugares que antes não recebiam, pelo menos o mesmo número de espetáculos que agora recebem. Há uma frequência de apresentações de espetáculos que são produções do Teatro Nacional e que vão a esses sítios todos. Há uma produção do Teatro Nacional que depois vai cumprir essa rede UNICE, e vai a esses lugares apresentar o espetáculo. Isto não se passa só no Porto, passa-se em muitos outros sítios do país.
Tu além de atriz, criadora, escritora, vês-te num cargo de gestão, de agente cultural, de gestão de cultura, de ministra da cultura?
Essa pergunta. Eu queria dizer isto de uma maneira que fosse o mais desempoeirada e honesta também. Eu acho que é inevitável, se tu és muito apaixonada por uma coisa, tu não quereres pensar nela a fundo e não quereres perceber onde é que as coisas não correm bem. E onde é que elas poderiam correr melhor e de que forma que tu podes contribuir para isso. Não sei se como ministra eu poderia fazer alguma coisa de muito excecional, francamente, mas quer dizer, que obviamente tenho vontade de pensar uma série de coisas? Tenho. Até porque eu vivo a pele, porque sou atriz e criadora e estou em contacto com pessoas que têm muito mais anos do que eu nisto. E sei como é que as coisas se passam, como é que se passam para companhias que não têm apoio, como é que se passam para companhias já com imenso tempo e que de repente veem os seus apoios cortados em quase metade. Isto não é uma realidade, não é um apelo.
Como é que achas que a cultura é tratada em Portugal? É bem tratada?
Não, não é.
O que é que se poderia fazer, assim uma medida para melhorar? Acho difícil, mas consegues pensar numa ou duas medidas?
Olha, eu não sei. Queria dizer alguma coisa que não fosse um lugar comum. Eu acho que uma coisa importante é que as pessoas que podem mudar as coisas, vão aos lugares ver como elas acontecem. E não estou a dizer que isso não pode neste momento já estar a acontecer. A cultura é imensa coisa. Perguntaste-me se a cultura é bem tratada. A cultura é tanta coisa, quem sou eu para estar? Mas se falarmos, por exemplo, do teatro. É preciso perceber o que é que é isto, ou de ter uma companhia, ou de fazer um espetáculo, o que é que implica. É preciso que quem está depois sentado a uma mesa a dizer: "Olha, vamos então estabelecer que os apoios funcionam desta maneira." É preciso que saibam o que é manter uma companhia durante quatro anos ou o que é fazer um espetáculo pontual, o que é que implica, como é que um artista pensa espetáculos a quatro anos distância. Quer dizer, essas coisas todas, porque depois isto tudo é uma conversa que obviamente que é uma seca. Porque na verdade, a arte, aquilo que nós pensemos, o que é a súmula ou o que é a origem da ideia da arte. É o oposto disto tudo. É uma espécie de movimento espontâneo, visceral, que corresponde a rasgos de criatividade. E depois, obviamente, que é muito difícil tu sistematizares a arte. Esse é o grande problema, é quando tu começas a sistematizar, muitas vezes, quem sistematiza não conhece.
E faz-se muitas vezes a pergunta: é útil a arte? A arte é útil?
Estás a pensar dizer uma coisa que eu não disse, que eu acho que há muitas pessoas que conhecem as coisas por dentro e que sabem quais são os verdadeiros problemas. Há muitos, mas assim os mais complicados de depilar e que têm que se depilar rapidamente e que podem estar nesses cargos. Não estou a dizer que isso não está a acontecer. Tu se calhar também já sentiste isso. Alguém que vai parar a um lugar e tu dizes: "Mas porque é aquela pessoa que está ali e não é outra, que sabe tão mais?" Se a arte é útil.
Calma, será?
Eu acho que a arte não tem que ser útil. Não acho que tenha que ser, não tem que ter utilidade nenhuma. Ao mesmo tempo, eu acho que a arte talvez seja a coisa mais potente do mundo. Não sei se isto responde.
Abandonemos temporariamente a arte para entrar no assunto que te toca em particular as questões LGBTI ou LGBTQ+. Qual é que usas? LGBTI?
Eu digo LGBTI, sim.
Ok. Então este fim de semana eu estava a conversar com dois conhecidos numa esplanada e eles diziam, ambos homossexuais, uma rapariga e um rapaz, e eles diziam que não eram muito a favor da mensagem final da Marcha Gay e que mesmo sendo homossexuais consideravam que era uma questão de tempo e de hábito, porque a lei já está a olhar para a igualdade. Achas mesmo que é uma questão de hábito até que as pessoas se comecem a respeitar e que as marchas gays são perfeitamente dispensáveis. Concordas?
Não.
Achas que é uma questão de hábito?
Não Discordo absolutamente. Primeiro, é preciso perceber que a marcha, que hoje é vista como uma festa e uma celebração, surge nos Estados Unidos como uma resposta ao Riot or Stonewall. E surge como um movimento de protesto e de resposta a uma enorme violência que a comunidade gay estava a sofrer. Não estou nada de acordo com isso. Eu acho muito importante que se continue a fazer a marcha. Recentemente houve um despacho que esteve na ordem do dia e basta irmos ler as caixas de comentários e os comentários continuam a ser aberrantes acerca de problemas.
Do ponto de vista histórico, a marcha é um marco, ou não?
Eu acho que sim.
Costumas participar? Eu nunca fui, não sei como é o ambiente.
O ambiente é de pessoas que estão a celebrar. É um ambiente maravilhoso, pessoas que estão a celebrar a liberdade. Eu acho que não há nada mais bonito para celebrar do que a liberdade. A liberdade de ser, independentemente de quem se ama ou da aparência que se tem, ou se neste momento se está numa transição para se ser outra coisa qualquer, tão ou mais importante do que aquela que se era. Essas questões todas que têm a ver com identidade, eu acho que têm que ser tratadas com muito cuidado, porque eu acho que é sempre fácil nós dizermos: "Eu acho isto ou aquilo, mas depois há ali um nível que eu acho demais." Mas não é conosco. E quando não é conosco, é sempre fácil dizer essas coisas. Eu acho que a marcha gay, por exemplo, neste momento, até pela questão trans, porque não é só uma marcha gay, é uma marcha LGBTI ou LGBTQ+, que inclui uma comunidade alargada de pessoas, todas a celebrarem a sua identidade. E isso quer dizer imensa coisa, porque as pessoas são todas infinitas na sua especificidade. E quando tu tens, por exemplo, na ordem do dia, um despacho como aquele que saiu, e que foi tão comentado, falado e discutido, em que se está a tentar preservar o bem-estar de crianças trans nas escolas. E eu não estou a dizer que isso não mereça discussão e não mereça ser pensado, mas depois é possível dizerem-se coisas tão violentas como algumas que eu li. Tu percebes que há pessoas que estão na marcha, eu tenho amigos meus que estão na marcha, que têm 19 anos e são trans. São ainda muito jovens, e que estão ali a poder dizer: "Sou como sou, exatamente como me apetece, danço, grito, faço o que me apetece e tenho espaço para isso." E a marcha é também isso. A marcha é só um encontro para lembrar as pessoas de uma coisa que deve existir o ano todo.
E como é que tu, Teresa Coutinho, pessoa com coração que luta pelos direitos LGBT e pela igualdade, olha para figuras como o Bolsonaro, por exemplo? Na rádio não há expressão, mas a Teresa fez uma expressão maravilhosa.
Isso faz-me chorar um bocadinho, por acaso, dá-me vontade de chorar. Olho para Bolsonaro como um autêntico pateta.
Inofensivo? Patetas às vezes são inofensivos, não é?
Não, completamente ofensivíssimo. Acho que ele é perigosíssimo, como acho que outros líderes de Estado neste momento são perigosíssimos. Quando eu digo pateta, eu não sei em que raio de tempo é que nós vivemos, em que um tipo que é um analfabeto e um tonto, que não diz nada que se aproveite, surge como aquele tipo que carrega a verdade. Porque muita gente diz isto: "Ele vem dizer aquilo que as pessoas estavam todas mortinhas por dizer e ninguém dizia." Mas desde quando aquilo que as pessoas estavam mortinhas por dizer, afinal, é o que se dizia na Idade Média e não é o que se dizia há 15 anos e há 20 anos? O que está a acontecer? Eu acho que isto merece muito pensamento. Eu estou a pôr as coisas de forma muito básica, perdoem-me. Mas o que eu não percebo é que fenómeno foi este, esta coisa da verdade, esta pós-verdade. De repente, vem uma série de tipos que são uns idiotas. O Obama, não é que eu seja uma fã louca do Obama, mas o Obama dizia no outro dia num discurso: "Não é cool ser ignorante." Não é! Não é cool dizer-se barbaridades, ser um homofóbico, um transfóbico, um machista. Não é cool! Não é cool achar que as pessoas podem ter armas em casa e que uma criança pode dar um tiro em si própria porque o pai tem a arma. Não é cool! Não queria pensar o porte de armas. Não é. E por que isso de repente passou a ser cool? Quando há 40 anos andavam pessoas a lutar justamente com a ideia da ignorância instalada, a querer alfabetizar as pessoas. Não foi assim há tanto tempo. Basta ler algumas coisas sobre o 25 de Abril, sobre o estado em que Portugal estava antes do 25 de Abril, a ignorância, o analfabetismo, o lugar das mulheres, enfim, essas questões todas. Já nem falo das questões de identidade. E por que de repente? Em umas dezenas de anos estamos outra vez a achar que é cool um gajo que há uns anos nós dizíamos: "Coitadito, aquele ainda não leu nada. Não sei se sabe..." Estás a perceber o que eu quero dizer? Não leu, não viu, é um tontinho. Com todo o respeito por pessoas que se calar não leram e não viram e não estão de todo nesse lugar. Mas é que este tipo, para além de não ter lido, se calhar não ter visto, ser um ignorante, é mau. Esse é o problema.
Teresa, o que também não é cool são as perguntas que eu vou deixar-te fazer, porque estamos a ficar sem tempo. Eu não vou apresentar a lista de peças e trabalhos que já fizeste, são muitos. Pergunto-te que papel gostarias de vir a interpretar e a apresentar no teatro? Tens alguma ideia em mente que gostavas de concretizar?
Que papel? O que eu tenho em mente, eu tenho muita vontade de fazer o espetáculo que vou fazer para o ano. Para não dizer uma daquelas personagens da tradição teatral, porque há algumas que realmente eu acho maravilhosas, outras que não me interessam tanto, mas posso dizer que tenho muita vontade de fazer o espetáculo que vou fazer e que é sobre a mulher, também a mulher no teatro.
Já tem título?
Chama-se "Solo".
Isto é em 2020.
Sim.
E com quem é que gostarias de contracenar? Vivo ou morto, português ou estrangeiro.
Eu gostaria de contracenar com a Gena Rowland, porque acho que ela era e é absolutamente genial. E depois o Artaud, sei lá, talvez.
E em relação à astrologia, o que é que encontras na astrologia? Há ali qualquer coisa que tu gostas, não é?
Não é bem astrologia. A mística é uma coisa que me interessa, mas quando eu digo mística, eu acho que o misticismo e o lado da vida. Se quiseres que eu me cale, fazes-me assim um sinal e eu calo. O lado da vida que não se vê. Isso interessa-me muito. Quando falo desse lado, falo da fé também, embora eu não seja católica, mas a fé foi uma questão que se me pôs em muitos momentos da vida. E depois comecei, a partir daí, a questionar uma série de outras coisas, que são aquelas que não se veem, mas que eu acho que regem muito a nossa vida e que têm a ver, obviamente, com uma espécie de transcendência destas coisas todas terrenas e corpóreas e onde é que nós nos comunicamos sem ser por isto que está aqui a acontecer agora entre nós.
Tens fé, és mulher de fé?
Tenho fé em muita coisa. Não posso dizer que acredite em Deus, embora, como te disse, seja uma questão que me acompanha, mas sou uma mulher que acredita em deusas, se calhar. Não, acredito em muitas coisas. Sou uma mulher de muitas perguntas e muitos questionamentos nesse aspeto, e acredito no cosmos.
"Os poemas são casos de pele, quando são bons, sentem-se logo. Quando são muito bons, sentem-se sempre." Eu lembro-me de guardar esta frase há uns anos, não tenho a certeza, mas acho que é do Alberto. E há uma outra do Mário Quintana que diz que "um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente e não a gente a ele". Eu queria saber o que é para ti um bom poema, antes de nos leres mais um.
O que é que é para mim um bom poema? Para mim um bom poema é um poema em que eu sinta que há uma voz que me está a falar. E isto pode parecer uma coisa assim um bocado lugar comum, mas não é. Os poetas, mas acho que isso é no teatro, com criadores de teatro, com músicos, é tu teres uma voz e essa voz ser só tua, não ser de mais ninguém. E isso sente-se. Tu lês um poema e percebes que há uma voz que é singular, aquela pessoa quer mesmo dizer alguma coisa com aquilo. Tu tens mesmo alguma coisa para dizer. E às vezes são coisas perfeitamente corriqueiras e quotidianas, mas são tuas. E eu acho que isso é o que faz para mim poema que me prende. É quando eu digo: "Epa, esta pessoa está-me a tentar dizer qualquer coisa".
E podes presentear-nos com mais um?
Posso presentear-vos com o que quiserem. Já que li o Ruy Cairo, se calhar lei o Ailda. Não, vou ler o Manel Resende, que esteve no Clube dos Poetas Vivos e que é um poeta superior para mim. Chama-se "Com que então era isto". "Com que então era isto a vida. Para que serviram tantos olhos entornados, tanto requebro no corpo, tanta catedral, tanta obra de arte, tanto filósofo enjoado? Chegados aqui, quando declina a força animal sobre o seu chão de palha e pó, haverá alguma mão enfermeira que nos conchega a fronte e nos abrace ainda de úmida humanidade. O terrível segredo espreita dentro da carne e das dobras do tempo que ainda restam, só ele nos responde e nem sempre nos brinda com a mansa loucura que nos traz, enfim, a paz. E depois? E depois, nalgum sítio em África, um antigo camponês vai lavrar ainda o campo sempre virgem, com as mãos sujas só de amor, mas os meninos já morrem de todos os vícios. De arma aperrada, a fuzilaria drapeja por toda a parte, em tiros disparatados e inconsistentes e apenas dignos de palavras menos próprias. E se digo isto não é de compaixão por tanto filho da puta vestido de homem, mas porque o medo também me assalta, e tenho direito a isso. Tenho ao menos o direito de me soerguer de noite na cama gelada, onde todas as coisas me cercam e não eram para ali chamadas."
Por vezes damos por nós a gaguejar quando andamos à procura do problema ou da pergunta. A Teresa parece falar só quando sabe qual é a pergunta. Tem uma facilidade grande em identificar as próprias dúvidas e é das que acredita que a arte pode, sim, alguma coisa contra a barbárie. Parece sempre uma pessoa mais séria do que é, na verdade. Está sempre a brincar, ganha muito depressa a simpatia das pessoas. Tem olhar crítico e por vezes luta com o paradoxo comum a muitos atores de dar o litro por algo com que não se identifica assim tanto. E apesar de não ser um exclusivo dos atores, para a Teresa, é particularmente doloroso lidar com isso. É através da poesia que vai decifrando o que a rodeia. Dizem que é Sónia Braga meets Gal Costa, que Portugal merece. Uma voz ativa e uma montra viva que não deixa escapar questões que importam. Tem chama, urgência, timbre, calor e veia poética. Não é só atriz, é uma criadora e é no palco, onde faz um manguito monumental à mediocridade dos dias, que a podemos ficar a conhecer melhor. Está em cena este mês com "O Banho do Tomoko", no Clube Stefania e dificilmente sairá de cena ou da cena artística. Fiquem atentos, nós também vamos ficar. E claro que estamos gratos, muito gratos pela última hora de conversa no Observador. Obrigada. Ler depois de tu leres é só ridículo.
Que bem! Eu gostei tanto.
Foi ótimo.
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