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Este país também devia ser para novos e é por isso que temos em estúdio o mais jovem deputado da legislatura que agora começa. Tem 25 anos, foi eleito este domingo pelo Partido Socialista. Aos 23 já era assessor de António Costa, agora vai representar-nos no Parlamento. A primeira casa para onde foi morar, ainda em bebê, ficava umas ruas acima da Assembleia da República. Tornou-se militante socialista aos 14 anos, inscreveu-se sozinho e aos 16 apareceu de gravata num congresso pronto a participar. Licenciou-se em Economia, Política e Filosofia na Universidade de Warwick, em Inglaterra. É mestre em Economia pela Universidade Nova de Lisboa. Teve várias oportunidades de ser economista em empresas privadas, mas sempre teve o sonho de ser funcionário público. Em Inglaterra, participou numa espécie de geringonça dentro da associação de estudantes, juntando várias tendências de esquerda. É filho de dois médicos, é o mais velho de três irmãos. Apresenta-se como homem de ação, de palavra e de pensamento. Uma voz progressista, ecologista e de esquerda. Diz que é um tipo simpático. Vamos verificar a simpatia de Miguel Costa Matos na próxima hora. Miguel, bem-vindo. Obrigada por ter aceitado o nosso convite e parabéns por teres sido eleito deputado. Boa sorte para esta tarefa. Espero que representes bem o teu eleitorado e também o país, se possível. E minha primeira pergunta é sobre isto: como é que te sentes neste dia em que pela primeira vez acordaste tendo uma função tão importante no Parlamento?
É de facto algo que me deixa orgulhoso e cheio de responsabilidade, porque nós temos enormes desafios como geração e a nossa geração sentiu bastante perto aquilo que foi a crise, aquilo que também foi, penso eu, a recuperação nos últimos quatro anos. E por isso agora pegarmos e pensarmos nos desafios do futuro, que são enormíssimos, e poder ter uma voz a dizer e propor soluções, construir essas soluções, acho que enobrece. A mim enche-me de responsabilidade e de motivação, naturalmente.
Eu tenho mesmo de te fazer esta pergunta. Tu hoje acordaste ao som da Internacional Socialista? Ouvi dizer que é o teu despertador.
Já foi durante muitos anos o meu despertador, mas entretanto os iPhones baniram isso.
Como é que esta música entrou na tua vida?
Não sei, eu suponho que com 14 anos entrei na Juventude Socialista e fui procurar informação, mais ainda do que aquela que já tinha, para poder me filiar. E encontrei a Internacional Socialista e nela encontrei muitas das ideias com as quais concordava, uma ideia de o suor de quem trabalha não florescer nas mãos de outras pessoas, a ideia de cada um ter o que merece, não haver guerras.
Não haver um amo?
Claro, exatamente. E cada pessoa estar livre. Hoje em dia, a palavra liberdade é uma palavra muito popular, especialmente penso na nossa geração, mas na minha opinião, eu acho que liberdade rima é com socialismo e é com a visão do mundo que temos no Partido Socialista e na Juventude Socialista, que é de permitir que toda a gente tenha a oportunidade de realizar o seu projeto de vida e para isso precisamos de um Estado Social, etc.
Mas um despertador é uma coisa muito repetitiva, muito diária, nunca te cansaste da Internacional Socialista?
Acho que não, mas também como já tenho muitos anos de pausa, se calhar já desenjoei. Quem sabe um dia volto, se a Sofia me permitir.
teres crescido numa casa perto da Assembleia da República, achas que foi um presságio? O edifício já exercia alguma espécie de fascínio sobre ti quando eras pequeno?
Não sou supersticioso, mas sim, suponho que é uma coincidência engraçada. Minha mãe gosta sempre de dizer: "Começou ali, quando eras pequenino, torce-se o pepino."
E qual é a tua primeira memória política de algum evento em Portugal que tenhas acompanhado ou na televisão ou nos jornais?
Eu penso que em 2005, quando o Partido Socialista ganhou a maioria absoluta.
Com José Sócrates.
Com José Sócrates, com tudo o que de bom e de mau sabemos sobre ele hoje. Mas lembro-me bem de chegar à escola e de escrever com o marcador no quadro da escola os resultados eleitorais e estar cheio de esperança do que poderia acontecer. Um bocado estranho pensar que tinha 11 anos nessa altura.
Já eras socialista aos 11.
Se calhar.
Mas o socialismo foi-te herdado, de alguma forma, pela família?
Não, não tenho ninguém na família que propriamente seja militante. Meu avô participou muito no associativismo, dirigiu uma corporação de bombeiros, uma associação de bombeiros, mas os meus pais não tinham participação política, embora os valores, sempre estiveram lá. Valores de humanismo, de olharmos pelos outros, solidariedade. E acho que isso também é importante. Acho que faz parte de toda a gente, crescemos com os valores dos nossos pais.
Virão muito para te fazer esta pergunta: como é que alguém que viveu grande parte da vida em Cascais consegue ser tão convictamente de esquerda?
Cascais é um concelho muito diverso e temos pessoas de todas as classes sociais em Cascais. Mas eu acho que, em primeiro lugar, não é por classe social em que nasceu ou o sítio onde nasceu que vai fazer diferença às ideias em que acredita, porque todos temos uma cabecinha e isso é bem para pensar naquilo que acreditamos. E também acho que alguém como eu, que teve certamente muitos privilégios na vida, pode ver que é urgente fazer com que toda a gente possa ter acesso a essas oportunidades e que pelo menos a mim me permitiram crescer tanto.
Mas quando é que percebeste que o teu olhar pendia mais para a esquerda?
Houve um momento ali na altura da crise de 2008, em que comecei a perceber que realmente precisávamos de algo mais do que só capitalismo e mercado. Precisávamos realmente de ter um Estado que tivesse uma cabeça e que pusesse as coisas em ordem, que nos ajudasse a ter oportunidades a todos. E depois quanto mais procurei, mais percebi que na verdade, essa era a base fundamental.
Eu sei que leste muito sobre o socialismo. O que é o socialismo? O que é ser socialista? Consegues explicar-nos de forma simples?
De forma simples, o socialismo é a ideia de que todos devem ter oportunidades iguais para realizar o seu projeto de vida e que cada um deve ter aquilo que merece. No fundo, o mérito deve ser recompensado e cada um deve ter também segundo a sua necessidade. Não deve haver ninguém que está em condições indignas, em condições que violam os seus direitos humanos. E que a sociedade deve pedir a cada um para contribuir consoante as suas capacidades também. Isto tudo dentro necessariamente de um modelo que é democrático, num modelo que precisamente por valorizar a igualdade, por exemplo, também é feminista e olha para o futuro e, portanto, é sustentável também a nível ecologista. E para mim, acho que isso é fundamental.
E o que é ser antifascista?
Bom, antifascista, acho que os portugueses-
E porque é que tanta gente continua a chamar fascista a pessoas que são de direita, simplesmente?
A palavra fascista tornou-se um palavrão. Acho que até é um bocado perigoso a forma como às vezes usamos fascista fora daquilo que é um contexto apropriado. Mas também temos de ter noção que na semente do fascismo está um sentimento de ressentimento, está um sentimento de ataque a minorias, que também se vê muitas vezes na direita e temos que conseguir também pôr pressão social e política nas pessoas de direita para evitarem esses sentimentos de ressentimento e de ataque a minorias, de ataque, por exemplo, aos ciganos, como o André Ventura faz, e necessariamente, por isso, é normal que as pessoas usem fascista, porque de certa forma está aí o embrião da coisa e, portanto, antifascista é toda a gente que combate esse tipo de ideologias e que afirma uma sociedade onde todos possam ter lugar, independentemente da sua etnia, da sua religião, etc.
Tu estiveste três anos em Inglaterra e foi lá que participaste numa espécie de geringonça dentro da Associação de Estudantes, em que se juntaram várias tendências de esquerda. Foste tu que mediaste esse processo? Foste o Pedro Nuno Santos lá do sítio?
Não posso ter esses créditos todos. De facto, na verdade, quando eu lá cheguei e fui logo no primeiro ano eleito representante dos meus colegas, deparei-me com aquilo que já existia, que era uma espécie de geringonça, um diálogo que havia entre as pessoas que estavam numa esquerda na linha do PS ou na linha do Labour de lá, e depois as pessoas mais à esquerda, anarquistas, comunistas, etc. E enfim, todos conseguimos colaborar. De facto, ao longo desses dois anos pude conseguir intensificar esse diálogo e conseguimos várias conquistas para o caderno reivindicativo da Associação de Estudantes e mesmo um movimento ativista que teve imensa força e que pôs Warwick no mapa daquilo que era a luta contra a propina e que foi uma das grandes marcas daquele período em que lá estive.
E como é que foi esta tua experiência em Warwick? Foi a tua primeira experiência internacional?
Naturalmente. Já tinha ido para outros países, mas sair de casa dos pais aos 18 anos e durante três anos, foi uma experiência maravilhosa, porque a pessoa tem que aprender a fazer tudo, desde cozinhar, lavar a roupa, passar a roupa, etc.
Foste totalmente sozinho?
Fui totalmente sozinho. A minha mãe foi-me lá deixar com a minha irmã, mas depois foi cut off e amanha-te. A primeira semana foi apertar a mãos e dizer olá a toda a gente, tentar conhecer o máximo de pessoas possível e tentar descobrir-me um bocadinho.
Mas era uma vontade tua? Já tinhas desde o secundário de estudar assim no superior fora?
Desde o secundário que queria ir para o ensino superior fora e pensei muito, como acho que muita gente hoje em dia faz a licenciatura fora, faz o mestrado fora. E eu optei fazer a licenciatura fora, até porque depois queria voltar e fazer cá a minha carreira e arranjar uma namorada, criar família, etc. E por isso foi uma escolha, pôr isso logo no início de um período formativo para depois poder voltar para Portugal e estar cá.
Sei que te envolveste politicamente, já falaremos sobre isso, mas que outras coisas te ocuparam em Inglaterra, além da tua forte vertente política?
Em Inglaterra tive uma participação também em movimentos de treinar falar em público, em conferências de simular as Nações Unidas. É política, mas é uma forma diferente de política. Ainda tentei envolver-me no teatro e em música, que era algo que eu fazia muito quando estava no secundário, mas depois confesso que a política me absorveu totalmente e tem a mania de fazer isto, a política.
Mas começaste a gostar mais de falar em público depois desse curso ou já sempre falaste em público?
Não, é uma coisa que desde pequeno que eu gosto de fazer. Já no secundário tinha participado em umas competições aqui em Portugal. Acho que é bom, acho que temos um grande desafio que é como é que nós conseguimos chegar à nossa geração e de facto transmitir-lhes ideias e de forma apelativa, porque parece que a ideia que pelo menos muitos dos meus amigos têm é que os políticos falam de alguma forma um bocado cinzenta. Portanto, nós temos que inovar na comunicação e tentar ter um discurso mais apelativo.
Mas o que é preciso para se ser bom a falar em público? É preciso uma confiança inabalável.
É preciso confiança, é preciso teres as ideias lá também, a substância é absolutamente fundamental e é preciso olhares para os outros detalhes também. A linguagem não corporal é importante, onde a confiança presta um grande papel.
Em Inglaterra fizeste campanha pelo Partido Trabalhista, não foi? Foste bater-lhes à porta com a bandeira da JS? Como é que foi isso?
Não foi com a bandeira da JS. Eles lá têm um método de campanha muito diferente aqui de Portugal e é muito giro, porque de facto vai-se bater à porta da escada das pessoas e pergunta: "Olhe, em quem é que você vai votar? Olhe, tome aqui o nosso panfleto, estas são as nossas ideias". Não sei sinceramente qual é que é melhor, porque hoje em dia, pelo menos em Portugal, as pessoas passam pouco tempo em casa, sem ser à noite e lá acho que também é a mesma coisa. Mas cá há também feiras e assim, se calhar é um modelo de campanha que está um bocado antiquado. Acho que temos um grande desafio como políticos de pensar como é que chegamos às pessoas e ainda não há respostas certas.
Mas como é que foste tão bem incluído no partido, tão rapidamente, não sendo inglês?
Todas as universidades lá têm clubes dos vários partidos, Partido Trabalhista, Partido Conservador, e os jovens tendem a envolver-se e a criarem afinidades. E havia atividades muito giras que procuravam pôr-nos a discutir política entre nós. Aliás, é um modelo que procurei aqui aproveitar para a Juventude Socialista, que é simplesmente pôr malta jovem, discutir as causas por que se interessam e por isso gera laços de amizade. Depois vamos para a frente, para a rua, procurar convencer as pessoas das nossas ideias, depois de as termos discutido Desde o primeiro momento que me meti lá, gostei das pessoas e gostei da experiência.
Que principais diferenças apontas em relação à máquina partidária e à forma de fazer política de um partido como o Partido Trabalhista e o Partido Socialista?
Para além da diferença de fazer campanha, que eu acho que é bastante assinalável, eles lá têm um método muito focado no uninominal e, portanto, a pessoa candidata-se independentemente de estar numa lista ou não. Eu acho que isso é um modelo interessante, que nos dá alguns graus de liberdade, porque mesmo em diferentes tendências que existem nos partidos, existe valor em ambos os lados e portanto a pessoa lança-se com as suas ideias e tem que convencer as outras pessoas do valor das suas propostas e também da sua credibilidade para executá-las. Isso é algo que não muda só a estrutura do partido, muda a própria forma de pensar e de agir politicamente. Eu acho que isso é interessante.
Tu depois de três anos em Inglaterra, voltas para Portugal, fazes o mestrado em Economia na Nova. Aos 23 já eras assessor econômico de António Costa. Como é que isso aconteceu, conta aos nossos ouvintes. Eu sei que houve um concurso público e que passado muito pouco tempo o António Costa reparou em ti.
Pois é, é verdade. Eu terminei o mestrado e fui fazer um estágio para o gabinete de estudos do Ministério da Economia. No âmbito disso, o João Vasconcelos, que já não está conosco, pediu-me para ir trabalhar com ele e ajudar no âmbito desse estágio, no sentido de desenvolver a estratégia Indústria 4.0. Depois fui para o privado, porque estava lá a estagiar, não remunerado, como tantos da nossa geração. Durante esse período também concorri à função pública e entrei, fui o segundo classificado, salvo erro, no concurso das finanças. Poucas semanas depois de saber que tinha sido classificado para o concurso das finanças, recebi uma chamada e portanto os motivos, terás que perguntar ao António Costa, mas foi mais ou menos esta a história.
Eu sei que o ambiente está entre as tuas prioridades e preocupações, tal como a habitação. Comecemos pelo clima. Esta pode ser a primeira geração que vive pior e menos do que a dos nossos pais. Palavras de Miguel Costa Matos.
É verdade, eu acho que nós ouvimos muito isso durante o período da crise, que íamos agora ter que abdicar de um conjunto de coisas como geração, desde as dívidas, desde as alterações climáticas, desde o próprio envelhecimento da sociedade e, portanto, que a nossa geração não ia ter tantas oportunidades de crescimento como foi a dos nossos pais, que foi a geração a seguir ao 25 de abril. E, portanto, teve um conjunto de oportunidades que foi com a construção do Estado Social, a entrada na Europa, e que nós estamos aqui um bocado de fora disso. Isso para mim preocupa-me muito, e preocupa-me especialmente que as alterações climáticas possam gerar aqui um aumento de problemas ambientais, mas também problemas de saúde. Acho que há muitas evidências disso e de fato nós temos que tratar as alterações climáticas como um problema existencial para a nossa geração, porque é mesmo disso que se trata.
E as tuas preocupações em relação à emergência climática não são de agora. Sei que já te envolveste numa marcha pelo clima há uns anos, não foi?
Foi, ainda no secundário. Já na altura interessava-me muito pelas alterações climáticas e então, numa escola que é relativamente apolítica, decidi organizar uma manifestação num movimento que à altura havia para termos 350 partes por milhão de dióxido de carbono no ar. Entretanto, já ultrapassamos este limite imenso, mas a paixão pelo tema cá continua e acho que continua muitíssimo urgente agirmos sobre este tema.
E como é que olhas para o fenômeno Greta Thunberg?
Eu não percebo, sinceramente. Eu acho que ela é uma excelente porta-voz de todos aqueles que pretendem que haja ação urgente sobre as alterações climáticas. Eu não percebo como é que alguns políticos-
Podem ver maldade ali?
...veem maldade ali. Não sei, sinceramente. Se calhar não gostam de ver uma voz tão jovem falar tão bem, mas também acho que é esse o papel que nós temos que fazer e mostrar que de fato estamos cá e que têm que nos ouvir e que têm que agir sobre estes temas.
Na educação, temos uma escola do século passado?
Na educação, nós temos aqui um grande desafio. Eu acho que este modelo de ter professores à frente e alunos a ouvir apenas e depois a regurgitar tudo em exames, isso já não funciona. A antiga tarefa da memorização está um bocado ultrapassada e por isso eu acho que precisamos de pensar em novas formas de organizar a sala de aula. Precisamos também de dar mais autonomia às escolas para elas poderem fazer diferentes experiências. Por exemplo, acho que é muito giro aquela ideia de só abordando um tema, poderes ter diferentes disciplinas. Abordando o tema das alterações climáticas, poderes falar de ciências, poderes falar de história, de geografia, podes falar diferentes coisas. Acho que isso é muito interessante e de fato acho que é o resultado simples do que também nos diz a ciência e da educação, que foi uma das pequenas coisas que também consegui estudar em Warwick, e isto permitiu-me chegar a essa conclusão, para além da experiência básica de ser um estudante e perceber como a escola devia e podia ser mudada.
Como é que será uma escola do século futuro?
Bom, eu acho que tecnologia na escola é fundamental, mas além disso, acho mesmo que mudarmos a química, a relação na sala de aula é absolutamente fundamental e em vez de ser método de exposição, ser um método que faz com que todos nós façamos perguntas, tenhamos curiosidade sobre o mundo, porque aprender, no fundo, também é isso, é termos curiosidade, é fazermos perguntas e irmos à descoberta. E acho que a principal valência que nós temos que cultivar na nossa geração é também a pesquisa, porque a verdade é que o mundo está sempre a mudar, temos sempre conhecimentos e informações novas e se nós só sabemos regurgitar aquilo que aprendemos há 20 anos, então daqui a 15 anos vamos estar desatualizados e portanto precisamos continuamente ter esta capacidade de ser curiosos e de pesquisar no mundo sobre as informações novas.
E em relação à propina zero, é uma espécie de utopia ou achas que é mesmo possível em Portugal?
Não, tem que ser possível. A propina não existe há tanto tempo em Portugal e há muitos países da União Europeia em que a propina não existe. E por isso eu acho que é uma questão de nós vermos isso como uma prioridade no orçamento de Estado, pensarmos num horizonte de tempo também em que isso é um esforço razoável para se pedir aos portugueses e dizermos: "Não, nós queremos um ensino superior que seja gratuito, onde todos possam participar, independentemente da sua condição econômica e onde o conhecimento não seja algo que se vende", porque de certa forma é isso que a propina depreende, é que o ensino superior seja um mercado e não creio que isso seja uma lógica razoável.
A JS é unânime neste assunto, é a favor, metade do PS é contra. Como é que tu geres esta tua presença na JS e no PS?
A JS desde o início que tem ideias diferentes do PS. Aliás, muitos jornalistas gostam de dizer que nós somos uma espécie de ala esquerda do PS. Eu acho que não, acho que muitas vezes temos aqui um pensamento à frente do nosso tempo e isso, aliás, revelou-se já várias vezes. Foi o caso do casamento de pessoas do mesmo sexo, da interrupção voluntária da gravidez e do fim do serviço militar obrigatório. Eu acho que com o reforço de número de deputados da JS neste Parlamento, agora que vai tomar posse, e que foi, aliás, uma das grandes notícias desta noite eleitoral, vamos ter oportunidade de fazer mais uma vez história e de conseguirmos avançar com causas que o Partido Socialista se calhar ainda não adotou, mas que certamente em breve verá que são boas causas.
Tu dizias que estamos fartos de amigos que ainda vivem em casa dos pais porque os salários não pagam estas rendas. O que é que se pode fazer em relação à habitação?
A habitação é um desafio onde não há soluções fáceis. Acho que especialmente não são fáceis, porque nos últimos 20 anos a política de habitação do Estado foi relativamente pequena e a nível de habitação jovem resume-se a um programa que é o Porta 65, que tem neste momento, e apesar de termos aumentado o financiamento, cerca de um terço do que tinha de financiamento face ao início do século. Precisamos urgentemente de aumentar o número de ferramentas que temos e também de melhorar as ferramentas que já temos. Para já, habitação pública, em todo lado onde se resolve o problema da habitação, a habitação pública foi parte da solução. Nós em Portugal apenas temos 2% de habitação pública, portanto precisamos construir muito mais casas. Mas, naturalmente, se 98% são privadas, então também temos que incidir sobre isto. O governo tem aqui um programa interessante, a Câmara de Lisboa também. Eu acho é que temos que reforçar esses programas e assegurar que eles estão em execução e não só para a classe média, mas também para os estudantes. O programa do governo de duplicar o número de camas nas residências universitárias, acho que é absolutamente fundamental, não só para essa questão da habitação, mas também para a questão de mais acesso no ensino superior e ninguém ficar vedado por suas condições econômicas.
E este programa das rendas acessíveis, casas que as pessoas podem pagar, em que consiste exatamente?
O programa do governo prevê que a pessoa possa ter isenções no IRS sobre os rendimentos que recebe das rendas, quando faz um contrato de arrendamento num preço 20% abaixo do que é o preço de mercado. Ora, neste momento temos preços de mercado muito elevados, 20% é aquilo que é um bom equilíbrio para poder dar algum desconto para as famílias e, por outro lado, também ser suficientemente atrativo para que um senhorio possa aderir a este programa. Estamos a começar a ver alguns resultados e portanto é esperar com esperança que isto siga em frente bem.
Estamos à conversa com Miguel Costa Matos, o mais jovem deputado do Parlamento português. Miguel, quando se representa um partido, quanto de nós é linguagem do partido e quanto de nós é linguagem nossa?
Olha, não sei. Acho que na forma convém ser principalmente nossa e acho que isso também é o que transmite às pessoas que os políticos são como qualquer outra pessoa, são seres humanos. Mas naturalmente que passamos uma mensagem, e a mensagem que nós transmitimos não pode ser só nossa, também tem que ser nossa, mas também tem que ser aquilo que nós, como partido, chegamos a uma conclusão, que é aquilo que queremos defender, também para as pessoas não ficarem com expectativas de que a pessoa depois vai lá defender coisas totalmente dissonantes daquilo que o partido defende. E por isso eu acho que o partido, sendo um espaço de liberdade, e é, também é um espaço que nos leva a passar uma mensagem em conjunto, também porque é em conjunto que vamos depois conseguir implementá-la.
Mas já deste por ti a pensar de forma um pouco diferente daquela forma que pensa o teu partido e não o dizeres por estares a representá-lo?
Todos os militantes partidários percebem que a militância é um exercício de liberdade. Muitas vezes fala-se de independentes, mas os militantes partidários não são independentes de nada, nem são independentes de seguir sempre aquilo que o partido diz. Nós somos livres para pensar, mas naturalmente que nós estamos num partido porque concordamos com um conjunto de perspectivas sobre a sociedade, a ideologia, que não é nada mais do que uma visão sobre o mundo, e um conjunto de valores, e naturalmente sobre um conjunto de propostas políticas. É natural, e acho que já aqui exploramos um bocadinho algumas propostas onde eu se calhar ia um bocadinho além do partido e noutras onde se calhar o partido até ia além de mim, não sei. Isso faz parte da militância partidária.
Eu perguntava-te isto porque noto que já tens um discurso muito político, mesmo no estilo e na tua abordagem. Já és um político. Quais são as suas referências políticas, nacionais e internacionais?
O Jorge Sampaio é alguém que acho que é muito querido, mas eu diria que o António Costa, para qualquer pessoa que tenha crescido nos últimos 10 anos, é uma referência incontornável, não é só por ter trabalhado com ele. Acho que é mesmo uma pessoa impressionante. Se calhar por ter trabalhado com ele também, vejo um outro lado mais humano ainda e isso faz-me admirá-lo ainda mais. No estrangeiro, acho que há pessoas muito interessantes, como é o caso de Nye Bevan, que foi o fundador do Serviço Nacional de Saúde Inglês e que sempre teve uma postura muito forte de dizer que nós não devemos temer, não devemos abdicar dos nossos valores e, sobretudo, acho que isso é fundamental na nossa era política. Não podemos abdicar daquilo em que nós acreditamos, porque isso foi os problemas do passado, os políticos dos últimos 20 anos, foi aqueles que abdicaram dos seus valores e depois defraudaram as expectativas das pessoas. E por isso eu tenho muita admiração por aqueles políticos que realmente seguem aquilo em que acreditam, e felizmente temos bons exemplos disso.
Falavas agora da tua admiração por António Costa. Como é que é trabalhar de perto com o primeiro-ministro?
Bom, ele é uma pessoa de uma inteligência extraordinária e com uma sensibilidade política como nunca vi, e tem uma visão muito progressista e muito clara sobre o que quer fazer com a sociedade e tenta implementá-lo. Acho que é uma pessoa que nos orgulha muito ser primeiro-ministro de Portugal e acho que conseguiu grandes coisas e oxalá com estes resultados vá conseguir mais.
Olha, Miguel, há o jovem conservador de direita, uma página de humor, e há o jovem economista de esquerda, que é a tua bio no Twitter. Ser economista é necessariamente ter de ser de esquerda ou de direita?
Não, um economista pode ser de esquerda ou de direita e o problema está precisamente em que alguns economistas acham que há um pequeno campo do que é o ortodoxo e o que é permitido dentro da ciência econômica. Há diferentes visões também dentro da economia, como existem todas as ciências sociais, e acho que essa divergência de opiniões é muito boa. Eu, pessoalmente, como economista, vejo que na base do mercado poder existir, está o Estado também estar lá prestando um conjunto de serviços e de enquadramento regulamentar e normativo básico, e que também assegura às pessoas condições de vida, por exemplo, na pobreza, que também permite ao mercado ter mais gente para trabalhar, mais gente também para poder consumir. E, portanto, acho que é fundamental vermos isto de ambas as perspectivas e não só encararmos uma visão limitada de mercado.
Mas não existe uma economia neutra ou imparcial, como deve ser, por exemplo, o jornalismo?
Não existe e também não sei se existe jornalismo neutro. Na verdade, acho que todas as pessoas têm opiniões políticas e aquilo que pretende esconder, passar-se por neutro, por vezes está apenas a esconder aquilo que é a sua visão. E não estou a dizer aqui que tu ou o Observador não é neutro, nada disso, simplesmente a dizer que acho que faz parte das pessoas terem opiniões.
Há sempre um ângulo, não é?
Há sempre um ângulo, sempre.
E na guerra dos Centenos, quem é o teu Centeno preferido, economicamente? Sarmento ou o próprio Centeno?
Bom, acho que temos provas dadas de quem é que é o Centeno mais eficaz.
Tu és fã do Mário Centeno?
Acho que fez um excelente trabalho. Nós há muito tempo que não tínhamos uma capacidade de terminar um governo bem a nível económico, sem orçamentos retificativos, tendo baixado os impostos Tudo isto parecia impossível, aconteceu e aconteceu também muito devido à capacidade técnica e política do Mário Centeno e por isso acho que temos só que o elogiar e reconhecer.
No Parlamento imaginas-te a representar que parte da população? Os jovens? Os jovens de esquerda?
A Constituição diz que os deputados representam todo o país e, portanto, da minha parte, eu quero representar não só os jovens, mas pessoas de todas as gerações e não só as pessoas de esquerda, mas de todas as ideologias.
Vais levar causas, vais direcionar causas.
Claro, e acho que muitas vezes a nossa geração é aquela que menos tem a sua voz presente no Parlamento e por isso também acho que é importante sermos uma voz da nossa geração e falarmos dos problemas que nos afligem: habitação, trabalho, transportes e as alterações climáticas. Acho que tem que ser e acho que é natural que as soluções que eu vou defender vão ser soluções de esquerda e se uma pessoa direita não se sentir representada por elas, acho que faz parte, mas também vou tentar resolver os problemas das pessoas de direita, porque se têm problemas precisam de ser resolvidos.
Tu vais partilhar a Casa da Democracia com o Livre, mas também com a Iniciativa Liberal e com o Chega, para além dos que já lá estavam. Anima-te este cenário?
Quem é democrata gosta sempre que haja mais partidos dentro do Parlamento e por isso não vejo problema nenhum em termos elegido um conjunto de pessoas. Sinceramente, não partilho da visão do mundo da Iniciativa Liberal.
Porquê?
Porque acho que os grilhões que eles veem no Estado são grilhões que já estão a ser, em muitos casos, simplificados. E muitas vezes o Estado, em vez de ser uma prisão para as pessoas, é na verdade o que nos permite ter educação, o que nos permite ter saúde com acesso igual para todos, o que nos permite ter uma universidade, o que nos permite as estradas e o que nos permite a todos usufruir de uma economia avançada e de uma sociedade que é aberta ao mundo. Acho que o segredo para a liberdade não está nalgumas das soluções da Iniciativa Liberal, está, na verdade, num Estado Social mais forte, como defende o PS.
E como é que olhas para o Chega de André Ventura?
É muito preocupante ver o Chega chegar ao Parlamento. Acho que demonstra que estamos a fazer algumas coisas mal e também para nós é uma responsabilidade, de nós conseguirmos chegar às pessoas que votaram no Chega e às pessoas que se calhar pensaram em votar no Chega e dizer-lhes: "Não, não é preciso irem atrás destas soluções, não é este o caminho. Portugal vence por ser um país multicultural, diverso, vence por ser um país onde todos tenham lugar." E é urgente nós mostrarmos isso e mostrarmos que a política é um espaço nobre e, portanto, aqueles cartazes do Chega não têm qualquer sentido.
E o Livre? Vais piscar os olhos ao Livre?
O Livre, desde o início que começou que com uma vontade de piscar o olho e de procurar construir soluções. Eles, entretanto, não conseguiram entrar no Parlamento, mas aquilo que eles pretendiam, que era ter uma união das esquerdas para construir um país melhor, foi conseguido ao longo destes quatro anos e por isso eu acho que se eles já estavam a piscar o olho há quatro anos, desta vez que já lá estão, vamos piscar-nos mutuamente.
Com que partido é que te coligavas facilmente, de todos os que conseguiram eleger-se?
Acho que o Livre é aquele que tem um conjunto de propostas que são próximas do Partido Socialista, no sentido de juntar uma defesa da União Europeia, que é muito clara, evidente e fundamental também para a nossa geração, pela nossa forma de viver abertamente no espaço europeu, mas também para assegurarmos a riqueza da nossa sociedade, a prosperidade, porque a União Europeia também é muito importante para isso. E, por outro lado, defende um Estado Social forte e defende também a continuidade deste caminho.
Eu agora gostava de te pedir leituras que recomendes aos nossos jovens, sem teor político. Sei que gostas muito de poesia. Quem é que são os teus poetas de eleição?
Os meus poetas de eleição. Sophia de Mello Breyner é alguém que teve um dom único com a palavra e que muito aprecio. Além disso, António Gedeão. Acho que aquela do sonhar é algo que deve acompanhar qualquer pessoa que está na política, porque estar na política é constantemente sonhar e pensar em novas possibilidades e por isso ele é uma referência. Não é o único poema, há vários e por isso quem já conhece e tem ali aquela música, convém ir ver mais poemas de António Gedeão, que são muito bons.
E prosa, que boas prosas leste nos últimos tempos?
Virgílio Ferreira tem que ser uma referência.
És existencialista?
Esse é um bocado pesado, não sei se me classificaria assim, mas acho que é algo que é muito fácil de nos relacionarmos com ele e com os sentimentos que ele escreve. E depois José Saramago, acho que é intemporal. Li recentemente um ensaio sobre a cegueira e achei absolutamente maravilhoso.
Vais casar em breve, em 2020. Sei que estás muitíssimo apaixonado e que dedicas muitos poemas à tua noiva. Vais pedir a António Costa para te ajudar a escolher o sítio para o casamento? Ele já percebe um pouco do assunto.
Ele tem que ajudar agora a filha dele. Eu e a Sofia já escolhemos o local, agora resta tratar os restantes detalhes de programar a cerimónia. Oxalá seja uma cerimónia bonita e feliz certamente será e, portanto, estou na expectativa.
Como é que imaginas que serão os teus próximos quatro anos?
No Parlamento, a defender as causas da nossa geração, no fundo, a procurar conquistar espaço e conquistar oportunidades de podermos falar dos nossos problemas e construir consensos o mais alargado possível sobre aquilo que são as soluções que temos que arranjar para os desafios que temos na habitação, nas alterações climáticas, porque acho que acima de tudo, muitos dos nossos desafios não são coisas que se resolvem apenas com uma lei. Precisam de programas consistentes e sustentados ao longo do tempo. E por isso nós precisamos de conseguir construir um consenso na sociedade portuguesa sobre aquilo que precisamos de fazer para resolver os problemas de vez e não ser só a fogo de vista, porque se calhar isso também é algo que desilude as pessoas da política. Passa uma lei, mas depois não acontece nada e, portanto, temos que assegurar que as coisas têm um caminho a fazer e que esse caminho acontece.
E aos jovens que olham para ti, tão novo, 25 anos, o mais jovem deputado da Assembleia da República, que conselhos dás a quem se queira juntar também à política e fazer-se ouvir?
O conselho que eu dou às pessoas que possam estar interessadas na política é: venham. É uma atividade muito exigente, porque devia ser, porque aquilo que é procurar representar as pessoas exige de nós o maior empenho e exige de nós paixão. A paixão de conhecermos os problemas da nossa geração, de quem nós procuramos representar, a criatividade de procurarmos soluções e, por isso, se são pessoas criativas, se são pessoas apaixonadas por ajudar o outro e arranjar soluções, venham para cá, venham para a política e participem, porque, de facto, aquilo que pude testemunhar ao longo destes 11 anos, desde que estou na Juventude Socialista, é que pequenas coisas, pequenos contributos fazem toda a diferença e cada militante consegue ter um verdadeiro papel a prestar. Não é só andar a hastear bandeiras, é verdadeiramente ter um papel a prestar para mudar o mundo.
E a melhor forma ainda é juntar-se a uma Jota ou nem por isso?
Há muitas diferentes formas de fazer política e não vou dizer que é a única, mas eu diria que uma juventude partidária é algo que nos permite aprender como fazer política e que nos permite também formar valores e conhecer outras pessoas que são absolutamente extraordinárias, porque tal como tu, estão apaixonadas por fazer melhor, por mudar a vida das pessoas. E eu acho que encontrar pessoas assim e partilhar esse caminho com elas e procurar também influenciar aqueles que são os políticos que fazem as leis e que mandam nos programas que o Estado faz, é absolutamente entusiasmante e acho que é aquilo que também permite uma maior probabilidade de conseguirmos ter um impacto real na sociedade.
Faz discursos como se estivesse a candidatar-se à Presidência da República desde os 14 anos, mas depois vai beber copos com a malta e é dos últimos a sair. Gosta de gravatas e no Instagram até tem o hashtag #AsGravatasDoMiguel. Participou em peças de teatro, lê poesia, editou o jornal da escola, foi presidente da Associação de Estudantes. A Internacional Socialista é a canção da sua vida, desde os 16 anos que a adotou como despertador. Colaborou no programa eleitoral do PS, filiou-se aos 14 na JS, foi sozinho à sede entregar a ficha de militante e começou logo a envolver-se. Leu muito sobre o socialismo e mesmo em Inglaterra tinha sempre uma bandeira do PS e da JS no quarto. Desde sempre que o maior sonho é ser político, ser ativista, fazer pela sociedade. Não vai à missa, mas é crente e é sempre muito educado. A partir da meia-noite deixa de ouvir as pessoas por estar cansado, não consegue ser inconveniente e por isso fica ali sem estar a ouvir absolutamente nada. Acorda cedo, é amigo do seu amigo, muito leal, muito precoce na política. Já é deputado eleito e há quem diga que é claramente o favorito para liderar a JS em 2020. Cá vamos estar para acompanhar as peripécias socialistas do mais jovem deputado do Parlamento português, Miguel Costa Matos, que nos fez companhia na última hora no Observador.
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