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A nossa cultura está de visita a Carregal do Sal e ao Museu Municipal Manuel Soares de Albergaria. Estamos a percorrer as salas deste museu, que já foi habitação, uma casa com várias vidas. Hoje é um museu que pretende contar a história dos carregalenses. Falamos de vários setores. Nestes episódios falamos de agricultura, do vinho e do trigo. Estamos agora numa outra sala. Deixámos a sala de etnografia e estamos agora numa sala, diria um átrio, onde estamos a ser presenteados com vários quadros pintados. Mas quem melhor do que eu vai explicar que quadros são estes, qual a história, de onde vieram? É Marco Lopes, aqui comigo. Conte um pouco mais sobre todos estes quadros que nos rodeiam nesta sala.
Sim, estamos na única sala de exposições temporárias. Todas as outras são de exposições permanentes. Neste momento, temos aqui uma exposição que irá estar até o final deste mês. Normalmente as exposições ficam aqui cerca de dois meses. Neste momento, temos aqui diversos quadros da pintora e artista Joana David, que é uma artista plástica e ilustradora natural de Aveiro. Tem um percurso consolidado na criação artística e na formação de novos talentos. Ela é cofundadora da Art Academy Creative Center, que está sediada em Tábua, em parceria com o mestre David Serra, e é um espaço dedicado ao ensino artístico, experimentação visual e promoção cultural. Quem, depois de visitar esta exposição, acredito que fique com vontade de conhecer a artista e de aprender com ela. A exposição aqui em causa tem como nome Emoções Bucólicas e foi concebida com o propósito de evocar reminiscências da infância remota e rural, que é tão transversal ao nosso povo português. Temos aqui diversas situações do dia a dia que nos transportam para essa ruralidade portuguesa.
Sim, para descrever um pouco mais aos nossos ouvintes. Temos bastantes cenas da vida do campo, a pastorícia, um senhor a trabalhar, uma mãe com as duas crianças, a própria floresta tão característica do nosso país. Vemos muitos animais aqui a representar a criação de animais. Vemos também ali algumas galinhas, alguns galos, bastantes crianças, o que nos transporta para uma dimensão bem portuguesa daquilo que é o passado. Pergunto se a própria artista já esteve aqui a visitar este espaço, se para enquadrar todas estas obras neste espaço, como é que foi este processo?
Sim, nós criámos uma espécie de parceria, inclusive com esta academia de artes. A Joana David, a autora, já veio aqui visitar-nos por diversas vezes e numa delas trouxe inclusive os seus alunos. Esta é uma espécie de intercâmbio. Ficaram aqui a conhecer as terras carragalenses. Já conheciam alguns trabalhos da autora, mas havia aqui alguns que o público ainda não tinha visto e portanto, sim, houve essa qualquer coisa entre municípios e entre visitantes. Se calhar eu destacava aqui, em termos de ruralidade, a alusão aos rebanhos e à transumância, que ainda hoje existe. E também a criação. Fazer aqui a ponte para o queijo da serra. Nós estamos aqui numa região em que ainda se produz queijo de denominação de origem protegida e mais uma vez, as reminiscências do passado, a existência outrora de rebanhos e ainda hoje eles povoam as nossas ruas.
Nesta sala, acho que é impossível não repararmos numa coisa que está à margem desta exposição temporária, mesmo que ali guardada a um cantinho, acho que para qualquer pessoa que visite é impossível não reparar e passamos quase para uma outra dimensão. À nossa frente temos uma carreta funerária.
Uma carreta funerária que, de facto, não está aqui bem enquadrada, mas está aqui num cantinho, está aqui à parte, mas é um objeto curioso que serviria para transportar os caixões das pessoas falecidas desde a missa, desde a igreja, o local onde se faria a missa, até ao cemitério. Temos a curiosidade de saber que nem todas as pessoas tinham direito a serem transportadas nesta carreta funerária, apenas aquelas que tinham mais poder económico é que iriam em cima desta carreta, o caixão iria preso por duas cintas de couro e era puxada por duas pessoas. Quem não tinha tanto poder económico saía da igreja para o cemitério, o caixão ia carregado com duas, ou três, ou quatro pessoas e não tinha direito a este transporte.
Mais ou menos a partir de quando é que isto se começou a fazer ou quando se deixou de fazer? Por outras palavras, mais ou menos de quando é este objeto que aqui temos à nossa frente, bastante curioso.
Sim, isto terá cerca de 150, 200 anos. Acredito que isto terá deixado de ser usado quando os transportes rodoviários, os primeiros carros, quando começaram a aparecer, provavelmente substituíram este transporte mais arcaico e mais manual.
E é a partir deste transporte que ajudava a levar aqueles que já morreram para a eternidade, que vamos continuar a transportar-nos também nós ao longo das salas deste Museu Municipal Manuel Soares de Albergaria, em Carregal do Sal. E é por cá que está a Nossa Cultura da Rádio Observador Viseu.