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Estou no Museu Municipal de Castro Daire, distrito de Viseu. Estou acompanhada pela responsável deste museu, Cristina Gomes. Bom dia!

Bom dia.

À nossa frente temos peças indumentárias muito diferentes daquelas que estamos habituados a ver hoje, nomeadamente uma peça que era utilizada para quando fazia muito frio e chovia.

Isso mesmo. Nós temos aqui algumas peças que eram utilizadas no dia a dia das pessoas que viviam aqui em Castro Daire. Hoje vê-se também nos grupos folclóricos, porque eles estão a representar as nossas tradições e os nossos trajes. Isto são caroças. Caroças, croças, varia consoante as aldeias têm nomes diferentes, mas a peça é a mesma, que é feita de junco, e é feita em camadas mesmo para que quando a chuva cai, a chuva não entra, a chuva escorre.

Hoje em dia, alguém utilize, a não ser por uma questão de manter a tradição, alguém utiliza isto no dia a dia, mesmo com o real objetivo de se proteger do frio e da chuva?

Eu penso que não. Penso que quem usa atualmente são os grupos folclóricos, mesmo para representar esta época e esta peça tão identitária do nosso território. Tal como a capucha, mas a capucha atualmente ainda existe quem a use, mais na parte norte do concelho.

Gerações mais antigas.

Sim, as pessoas utilizam muito ainda a capucha, que é feita de burel e que também se fosse ao pisão, ficava impermeável, porque ela era pisoada através de um processo de pisoagem e a peça tornava-se impermeável, o que também era muito bom para a época de inverno.

Em Castro Daire ainda há quem fabrique estas peças hoje em dia?

Ainda há, é verdade. Poucas pessoas, talvez. Eu conheço neste momento duas pessoas, mas uma encontra-se adoentada e já não fabrica, mas conheço outra pessoa ali na freguesia de Guzente que sim, que ainda faz.

E que comercializa essas peças.

Comercializa, sim. Isto é de louvar e é de preservar também, porque também são técnicas únicas.

Estas peças que aqui estão expostas parecem estar em bastante bom estado. São de que altura, são de que ano?

Algumas já da altura da fundação do museu. Quando o museu foi criado, algumas já estão aqui desde essa altura. Não lhe consigo dizer. O museu foi criado em 1993, já eram peças que foram recolhidas nessa altura. Outras, esta aqui é mais recente, que pedimos a um desses artesãos que ainda faz, para que pudesse fazer, no caso de aquela se tornar mais gasta e com a antiguidade, para que consigamos preservar ainda mais tempo as peças que temos.

É também um objetivo conseguir, no futuro, ter mais exemplos destas peças indumentárias ou já não é possível, já não é exequível? Como é que também fazem essa gestão do que aqui têm em exposição?

Nós temos que aproveitar as oportunidades. Enquanto os artesãos fizerem, nós temos que mandar fazer e aproveitar e ter essas peças aqui. Para além das caroças, da capucha, também temos ali um traje de cerguilha, que é um traje muito bonito e muito diferente, que é a mistura de lã com linho.

É comum?

Aqui no nosso território, sim.

E este--

Não é que fosse muito utilizado, era para ser um bocadinho mais fresco, porque o burel é mais quente. O linho é muito fresco, ali havia o intermédio, era um tecido que nem era muito quente nem muito fresco, era o intermédio.

E na altura em que ainda se utilizava este tipo de traje, quem é que usava? Eram as camadas das pessoas mais pobres, classe mais trabalhadora, eram os mais ricos, alta sociedade, quem é que utilizava este tipo de traje?

É assim, o burel era o tecido que era usado no dia a dia, porque as pessoas precisavam de se vestir, precisavam de ter o tecido para se poder agasalhar. Era no dia a dia. Estes trajes que temos aqui são do dia a dia, porque estas caroças eram utilizadas também pelos pastores. Os pastores quando iam com os seus rebanhos para a serra, o pastor levava sempre a sua caroça e o seu cajado ou a sua sachola, caso também fosse virar umas águas, também em dias de chuva, ela era muito utilizada pelas pessoas no dia a dia.

E essa memória do que era vestido antigamente, o que utilizavam para se poder aquecer ou arrefecer quando tinham que ir trabalhar, pode ser visitada aqui no Museu Municipal de Castro Daire, onde estão expostos vários exemplos do que vestiam as pessoas em Castro Daire há algumas décadas. Cristina Gomes, muito obrigada.

Obrigada.