O Sindicato de Moradores de Lisboa, que esteve num encontro em Madrid na última semana, considera que a reversão do despejo de uma idosa na capital espanhola é “uma vitória imediata e direta” da mobilização popular.
“Espero que esta mobilização […] que está a acontecer em Madrid e que correu mundo seja uma inspiração, que mostre que a organização sindical na habitação […] é um modelo de luta que faz sentido, que pode ter resultados diretos“, declarou à Lusa Teresa Mamede, membro do Sindicato de Moradores de Lisboa, criado em junho por iniciativa da Habita!, associação pelo direito à habitação.
Teresa Mamede recordou que Maricarmen Abascal, a senhora de 87 anos que foi despejada do seu apartamento no centro de Madrid, lutou durante oito anos “não só para defender a sua casa, mas para defender a casa de todas as pessoas”.
Nessa luta, foi acompanhada pelo Sindicato de Inquilinas de Madrid, que, ao confirmar-se o despejo, contou com “uma onda de solidariedade enorme, não só no Estado espanhol, mas também em muitos outros países”, observou Teresa Mamede.
“É importante que as pessoas não se esqueçam de que isto não aconteceu do dia para a noite, há todo um trabalho de luta, de organização popular por trás”, lembrou a ativista, que esteve em representação de Lisboa no encontro realizado na semana passada, na capital espanhola, pelo Sindicato de Inquilinas de Madrid e pela European Action Coalition, plataforma europeia pela habitação.
No encontro e na rua, já que Teresa Mamede e muitos outros dos representantes de 70 organizações participantes acabaram por se juntar à “resistência” contra o despejo de Maricarmen.
“Passámos a noite à frente da casa dela de terça para quarta e estivemos lá com os nossos corpos a tentar bloquear o despejo”, relatou, denunciando a violência da resposta das autoridades espanholas.
“Foi uma brutalidade a quantidade […] de meios policiais que foram mobilizados para efetivar aquele despejo de uma mulher de 87 anos que viveu toda a sua vida naquela casa […] e foi uma brutalidade ver como a polícia atuou contra as pessoas que estavam pacificamente a tentar impedir aquele despejo de acontecer”, acusou.
Além disso, “os jornalistas foram impedidos de reportar a situação”, o que “colocou em muito maior risco as pessoas que estavam dentro do cordão policial, porque não tinham quem pudesse noticiar e mostrar a violência que estava a acontecer”.
As imagens de Maricarmen a sair de maca da sua casa acabariam por gerar “uma onda de indignação enorme, replicada em manifestações espontâneas em todo o Estado espanhol”, às quais acorreram “milhares de pessoas para exigir que Maricarmen voltasse para a sua casa e que isto nunca mais acontecesse”, acrescentou.
A reação acabou por ir além do individual: “Isto não é sobre o caso da Maricarmen, é sobre o facto de Maricarmen sermos todas nós, todas nós estamos em risco de que isto nos aconteça, nem uma pessoa reformada, com a idade que ela tinha, com as vulnerabilidades de saúde que ela tinha, está livre disto acontecer e nós também não”, disse Teresa Mamede.
A solidariedade extravasou os movimentos em defesa da habitação e agregou organizações ligadas ao trabalho, à justiça climática, à educação, aos serviços sociais, numa “unidade muito ampla”.
Este tipo de organização só está a dar os primeiros passos em Portugal e “ainda não” há conversações entre os movimentos em defesa da habitação e os sindicatos de outros setores, referiu.
Essa é uma das razões para perceber a diferente reação ao caso recente de uma jovem mãe, viúva e desempregada, com dois filhos menores, despejada de uma habitação social no Bairro do Condado, freguesia de Marvila, em Lisboa.
A contestação ficou-se pelos vizinhos e pela comissão de moradores, não tendo crescido para a sociedade em geral. E a Câmara Municipal de Lisboa recusou reverter o despejo, justificando que existem 2.800 processos de famílias à espera de habitação social.
“Nós podemos chegar a esse nível de organização, mas […] temos que começar a organizar-nos seriamente, a unir-nos, a criar redes, a criar estas formas de agregação coletiva que permitem que, se há um despejo como o despejo da Maricarmen, como muitos despejos que acontecem exatamente iguais em Portugal, possa haver uma resposta rápida do movimento social a essa violência do Estado”, assinalou.
Teresa Mamede destacou ainda que o desfecho feliz para Maricarmen Abascal não levou os manifestantes a abandonarem as ruas de imediato.
“Só vão desmobilizar se as exigências em cima da mesa forem aceites na sua totalidade. Dizem que não vão aceitar migalhas, sem efeitos duradouros, concretos e amplos na sociedade”, sublinhou, acreditando que a acampada em Puerta del Sol “continuará” até que sejam aprovadas todas as reivindicações.
O caso de Maricarmen ganhou tal proporção que o Governo espanhol acabou por aprovar, esta terça-feira, um pacote de medidas para a habitação que limitam despejos, proíbem a compra de casas por fundos de investimento e prolongam automaticamente contratos de arrendamento, e que seguirá para o parlamento na sexta-feira.
[Annie está de volta a Havana. Apesar das relações privilegiadas com altas figuras do regime, quer viver como os cubanos, divertir-se como os cubanos e… sofrer como os cubanos. Mas continua a ser filha do diretor da PIDE. E Fernando Silva Pais e Armanda Palhota não estão dispostos a deixá-la passar tão facilmente para o lado do inimigo. Já pode ouvir o terceiro episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]