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A Rádio Observador Viseu está com a nossa cultura de visita a Vila Cova à Coelheira, bem perto de Vila Nova de Paiva. Ainda pertence ao mesmo concelho. Estamos no Centro de Memória Judaica, um centro que pretende dar a conhecer alguns pontos da tradição da herança judaica, não só a nível geral, a nível da própria religião, mas também aqui mesmo de Vila Cova à Coelheira, que foi habitada por judeus já no passado. Muitos dos habitantes de hoje ainda são descendentes desses mesmos judeus que, se em tempos ficavam um bocadinho envergonhados desta herança, hoje reconhecem a importância de ela ser preservada e é esse o trabalho feito por este Centro de Memória Judaica. Dois pisos com muita história e muito significado também, muitos objetos trazidos por judeus americanos que doaram estes objetos. Também alguns membros da família desses dois judeus ajudaram a compor o espólio que aqui está presente. Conosco tem estado a Cláudia Ferreira a percorrer estes vários objetos, estas vitrines. Passámos por alguns símbolos, algumas histórias. Estamos agora perante uma vitrine com dois objetos muito ligados à parte judaica que está ligada à própria religião, não é?
À prática mesmo da religião. E aqui posso fazer mais uma vez uma analogia, que é esta peça, tiflin, que nós aqui temos, não é nada mais, nada menos que duas caixas que contêm versos da Bíblia. Como veem, são umas caixinhas pequeninas, mas que depois têm aqui um sem fim, parece quase que nem acaba, de pele. Porque isto é pele, é cabedal. Este aqui, consegue perceber que tem aquela pequena ligação. Era o que ficava na cabeça de quem iria rezar e este aqui ficaria no braço das pessoas. E esta pele era apertada à volta dos braços e à volta da cabeça das pessoas com o intuito de que a religião deve ser praticada com algum sacrifício. E a analogia que eu posso fazer é quantas são as pessoas da religião católica que fazem promessas, no nosso caso, de ir a Fátima a pé, de fazer aquelas voltinhas lá no santuário de joelhos. Isso não é praticar a religião com sacrifício? Por isso, aqui está. Eles praticam a religião com este sacrifício. É uma forma diferente. Outra coisa é, na religião católica, tocam os sinos da igreja para chamar pra missa, ao toque, porque anuncia que alguém faleceu. Ao toque, até arrebate, que atualmente já não se usa tanto, mas que antigamente se usava muito, que era quando havia um incêndio para as pessoas se juntarem e irem ajudar a apagar os incêndios. Há vários toques.
E até a função de relógio, que às vezes toca as horas certas.
Exatamente. Mas esses sons do sino da igreja, nós também podemos fazer aqui uma analogia ao shofar. O shofar não é nada mais, nada menos que o chifre de carneiro, que era utilizado para chamar o povo para a prática judaica. Existem quatro toques diferentes do shofar. Eu posso até aqui mostrar um.
Vamos a isso.
E o shofar, o que ele tinha? O shofar, simplesmente sopravam neste corno de carneiro. Então vamos aqui tentar ouvir um dos toques. Acho que já chega. Neste caso, este toque era utilizado para um som festivo, para chamar as pessoas para uma festa, para algo do gênero. E já que estamos a falar em festa, por que não falar da festa do casamento que nós temos aqui ao lado? É que, de facto, o que nós temos aqui representado debaixo desta luz, neste quadro, não é nada mais, nada menos que o contrato de casamento do senhor Kenny e da senhora Rachel, que eles nos fizeram chegar porque era algo que na prática da religião judaica era muito comum e ainda continua a ser comum, que é fazer o ketuba. O ketuba não é nada mais, nada menos então que o contrato de casamento, que deve ser assinado antes da cerimônia e que deveria ter todos os benefícios, e bem explicados, de quais seriam os direitos da mulher, neste caso, o benefício monetário Que a mulher teria no caso de o seu marido a abandonar, a deixar por outra pessoa ou então no caso de ele falecer. Isto porque, assim como tudo evoluiu, esta situação também evoluiu. Mas antigamente, a mulher de uma família judaica, o trabalho dela era ficar em casa para tomar conta da casa, da família no geral, e dos filhos. Era proporcionar a roupa adequada, era a comida. Quando muito, poderiam ajudar os maridos se eles tivessem, imaginem, um pequeno comércio de venda de pão ou de bolos, que ela poderia fazer em casa, mas não era remunerada. O que quer dizer que se as mulheres não eram remuneradas, no caso de falecer ou de entretanto querer a separação dela, ela tinha de ter algum benefício, porque o trabalho dela era continuar em casa. Não poderia ir trabalhar para um espaço público. E então, este contrato de casamento era muito importante e continua a ser muito importante, porque atualmente ainda continuam a realizar este Ketubas, este contrato, com algumas alterações, como é óbvio, porque as mulheres hoje em dia também já trabalham. É uma das peças, se calhar poderá dizer-se, mais pessoais, porque é mesmo deles os dois, é o contrato de casamento. Eles tiraram esta fotocópia a cores, neste dourado que nós temos aqui emoldurado. Vê-se de facto aqui as assinaturas deles e como eles estão nos Estados Unidos, tem o contrato em inglês e também tem em hebraico e assinado nas duas línguas. Normalmente, quando chego aqui nas visitas, os senhores nunca gostam muito deste pormenor. Vai-se lá saber por quê. Mas de facto, era uma necessidade, naquele tempo, que a mulher tivesse essa vantagem, por assim dizer, essa vantagem financeira, monetária, caso lhe acontecesse alguma situação. Numa situação de divórcio, era óbvio, que seria o ex-marido a assegurar. Numa situação de morte, ainda tinha de ficar lá quem seria a pessoa que iria assegurar a sua sobrevivência e da sua família, caso tivesse filhos menores. Quando os filhos homens já pudessem ir trabalhar, aí já seria um pouquinho diferente, mas tudo isso teria de ficar bem assinalado, bem descrito no dito contrato de casamento, mais conhecido em hebraico por Ketuba.
Era já uma espécie dos primórdios do acordo prenupcial que hoje em dia se faz. E é mesmo aqui que termina esta visita ao Centro de Memória Judaica de Vila Cova à Coelheira, que mostra que o passado existiu, que os tempos evoluíram, mas que muitas das tradições continuam a ser preservadas e devem ser preservadas. A ajudar-nos esteve Cláudia Ferreira. Obrigada, Cláudia, por esta visita.
Obrigada eu.
A nossa cultura despede-se agora do Centro de Memória Judaica, mas vai continuar noutros episódios a conhecer mais museus do distrito de Viseu.