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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.
Então, Paulo Ferreira, afinal havia outro.
Afinal havia outra e eu sem nada saber.
Desculpa, não resisti.
Não resististe.
É mais forte.
É verdade, faz-nos lembrar esse grande momento da música portuguesa.
Mónica Sintra.
Mónica Sintra. Havia outra, cantava ela.
O Paulo ficou surpreendido. Também eu.
Havia outro, dizemos nós. Havia um quarto tripulante. E o refrão continua: "E ela nada sabia." E nós não sabíamos. De facto, as autoridades portuguesas inclusive foram surpreendidas. Um quarto tripulante português que ia a bordo da flotilha, que queria chegar a Gaza. Diogo Chaves foi detido, tal como aconteceu com Mariana Mortágua, Miguel Duarte e Sofia Aparício. Não era propriamente um passageiro clandestino ali na flotilha, mas a sua presença, de facto, nunca tinha sido comunicada durante todo o trajeto às autoridades portuguesas.
Tentou passar despercebido pelas autoridades portuguesas.
Ou não sentiu a necessidade de o dizer.
Mas não terá partido de Portugal. Ele estava a viver em Amesterdão.
Exatamente. E só agora, mesmo perante a necessidade de apoio logístico e diplomático, é que se soube que também se ia a bordo. No fundo, era o quarto passageiro. Mas muito mais discreto do que os restantes.
Pelo menos para nós aqui.
Para nós.
Mas é sempre bom ter um médico como candidato autárquico, não é?
Eu diria que dá sempre jeito ter um médico por perto. Como colega de trabalho, num grupo de amigos, na família.
Um médico e um canalizador.
Exato. Que às vezes é um bocadinho a mesma coisa.
Na verdade, desentopem os dois canos. Vias, canos.
Vias, exatamente. É sempre importante ter um médico por perto, de facto. E no caso da corrida autárquica ao Porto, isso está garantido. Manuel Pizarro não deixa a profissão, a sua formação, porque ele já não exerce, pelo menos a tempo inteiro, há muito tempo. Ele não deixa ficar a formação em casa e ontem o candidato socialista disse que receitava um Xanax a Pedro Duarte para que Pedro Duarte se acalmasse. Foi provocado pelos jornalistas, que lhe fizeram uma pergunta à porta de uma farmácia, o que é que receitava ao seu principal oponente. E Manuel Pizarro disse que não vale a pena andarmos nesta guerrilha partidária. Os candidatos têm a obrigação de fazer propostas pela positiva e não andarem a combater uns com os outros, porque ele acha que assim é mais saudável. E de saúde também percebe o médico.
Paulo bem sabe.
Não sabemos se Pedro Duarte vai ou não aceitar e aviar a receita e começar a tomar Xanax, mas eu acho que esta pergunta é uma pergunta importante. Devia começar a ser incluída nos inquéritos que se faz aos candidatos. Qual é o medicamento que receitaria ao seu oponente? Podem sair surpresas interessantes dali.
Pode sim. Então e António José Seguro recebeu um apoio improvável, Paulo?
Muito improvável, quem diria? Vasco Lourenço decidiu e declarou ontem publicamente o seu apoio a António José Seguro, capitão de Abril, líder da Associação 25 de Abril, que navega politicamente claramente em águas muito mais à esquerda do que António José Seguro. Apoia o socialista que, curiosamente, ainda nem tem o apoio formal do seu próprio partido. Vasco Lourenço apela mesmo à desistência de António Filipe e de Catarina Martins, no sentido de haver uma frente de esquerda concentrada, neste caso, em António José Seguro. Vasco Lourenço diz que ele é o único, dos apresentados à esquerda até agora, dos candidatos, que pode passar à segunda volta e, portanto, acha que a concentração de votos faz sentido. De qualquer forma, por esta ninguém esperava. Eu, pelo menos, não esperava. Acho que ninguém estaria à espera e aposto que nem o próprio António José Seguro sonhava em conseguir um apoio destes. Porque ainda por cima ele, de alguma forma, a crítica que algum setor do PS lhe faz e, sobretudo, o resto da esquerda, é que ele não é suficientemente de esquerda. E portanto, cá está, vai dar jeito seguramente a Seguro.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.