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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.

A pergunta parece que está errada.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.

Vamos fazer de conta que estamos na Vichy Soares. Agora uma sopa. Paulo, demasiados cozinheiros a mexer na panela podem estragar a comida, a sopa?

Esse é um problema clássico em muitas cozinhas, mas também é um problema clássico com o Estado português, em que o Estado português cai todos os dias. Basicamente, transpondo para o Estado, quando há demasiadas entidades a tratar do mesmo assunto, os atropelos e as contradições aparecem. Vamos olhar para este caso dos quatro helicópteros Black Hawk, que o ministro da Defesa Nuno Melo anunciou na semana passada. Há uma polémica sobre se podem ou não ser utilizados em emergência médica, o que implica poderem aterrar nos heliportos dos hospitais. E aqui chegamos às divergências. A Autoridade Nacional de Aviação Civil, a ANAC, diz que só podem aterrar num dos sete heliportos hospitalares, que é, no caso, o hospital de Braga. Mas depois, se nós olharmos para a Autoridade Aeronáutica Nacional, que regula, supervisiona, se quisermos, a atividade da Força Aérea, esta autoridade, por sua vez, já certificou os helicópteros para aterrar em todos os hospitais onde há heliporto. Portanto, cá temos o Estado a tropeçar nas suas próprias pernas, duas entidades com funções semelhantes a dizerem coisas diferentes. São cozinheiros a mais.

Bruno, então vivemos no país dos recordes?

Dos recordes e das eleições. Antigamente eram pontes e feijoadas, que nos valiam.

Já que falamos de comida.

Estamos a falar demasiado.

Feijoada na ponte, não era?

Feijoada na ponte, que entrou também para o Guinness. Agora mudámos de área. É eleições umas atrás das outras, legislativas, autárquicas, presidenciais, para o Benfica, e que entram também no livro dos recordes. E agora, João Cotrim de Figueiredo tinha atingido as 7500 assinaturas necessárias para se candidatar à presidência em apenas 48 horas e fez grande publicidade sobre esse facto. Só que apareceu André Ventura.

Até pelo título.

E conseguiu as 7500 assinaturas em cinco horas. Recorde batido. Não sabemos se estava alguém do Guinness para registrar este recorde, mas Cotrim de Figueiredo é que lançou o desafio, orgulhando-se de conseguir essas assinaturas.

Em dois dias.

Em dois dias, em tão pouco tempo. Ventura, que gosta sempre destes desafios, tratou de acelerar o passo. Só que recordes contam pouco para as contas finais. No final, vai ganhar quem tiver mais votos e não quem for mais rápido a chegar às 7500 assinaturas.

Paulo, então e não se consegue mesmo melhorar o SNS cortando nas despesas?

O bastonário da Ordem dos Médicos garante que não se consegue isso. Numa entrevista ao Público, Carlos Cortes está contra cortes de despesa, por isso mesmo. E há aqui um problema, no entanto, com isto. Como a última década nos mostra, também não é aumentando a despesa, isto é, fazendo disparar o orçamento, que a coisa se resolve, porque o dinheiro tem sido cada vez mais e os problemas também cada vez maiores. Já sabemos que quando temos um problema de gestão e lhe atiramos dinheiro para cima, uma das duas coisas desaparece e, por regra, não é o problema que desaparece. E podemos chegar, pelo menos, a consenso sobre isto. Os problemas de saúde são, numa margem sensata, independentes do orçamento disponível. Isto é, colocando só um pouco mais de dinheiro ou tirando só um pouco mais de dinheiro, não é por aí que a coisa vai mexer muito. Portanto, é preciso é mudar regras, procedimentos e basicamente contar também com alguma flexibilidade de todos.

Entretanto, o barco da Justiça está a meter água.

Não é só o da Justiça, mas também o da Justiça. Neste país não pode chover muito, que entra logo água por todos os lados, em escolas, outros edifícios públicos. Nenhum resiste a estas depressões e os tribunais, pelos vistos, ainda menos. O secretário-geral dos funcionários judiciais disse ao jornal Público que basta chover que os problemas dos tribunais vêm à tona. Mas aqui está a falar dos edifícios, porque os problemas dos tribunais, os outros, não é preciso chover para ficarem à vista. E as imagens que entretanto foram divulgadas de tribunais em Faro, em Albufeira, em Mafra, não são imagens muito dignas, com baldes e funcionários aos quais só faltavam as barbatanas, porque de resto havia tudo. Havia água havia com fartura. Faça chuva ou faça sol, os maiores problemas da Justiça, é verdade, são outros. E já nem acreditamos naquela velha máxima que diz que depois da tempestade vem a bonança. Aqui depois da tempestade, vem outra tempestade.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.

A pergunta parece que está errada.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.