O atelier instalado há um ano numa rua residencial das Avenidas Novas passa tão despercebido que talvez fechasse portas por falta de fregueses que dessem por conta dele. Mas não é o caso: Carlos Guerreiro, 67 anos de idade, trabalha há 54 anos como encadernador, dourador e restaurador de livros, tendo construído uma base sólida de clientes. A única coisa que mudou nos últimos doze meses foi a saída do Bairro Alto – onde esteve nos últimos 44 anos e só saiu devido a uma ação de despejo – para a nova morada onde recebe os clientes.
A saída da rua São Boaventura causou a perda do título de Loja com História, mas o que de facto levou à classificação daquele espaço é o ofício que Carlos exerce desde os 12 anos de idade – e que leva consigo onde quer que esteja. “Uma criança de 12 anos deve brincar, não trabalhar”, pontua, ao justificar a sua escolha naquela altura como um hábito comum da época, com o qual hoje não concorda. Nascido em Angola, chegou a Portugal aos nove anos de idade.
Apenas três anos depois, encadernou o seu primeiro livro, que guarda até aos dias de hoje na montra que abriga também alguns trabalhos anteriores e relíquias, como um boletim de 1944 do Sporting Clube de Portugal, a sua equipa do coração. Para o número 146 da Rua Filipe da Mata, trouxe todos os seus materiais — incluindo as ferramentas que modelou em ossos doados por um talho do Bairro Alto. Vieram também as máquinas que auxiliam a cortar, dourar e coser as obras. “Algumas foram produzidas antes da Segunda Guerra Mundial, mas não falham um milímetro”, diz, a exemplo de uma guilhotina centenária.
▲ O passado preservado no atelier do artista que prepara o futuro da profissão
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
São muitos anos a dar uma nova vida às capas de livros já desgastadas, páginas amareladas pelo tempo e soltas quando os fios que as costuravam já não resistem. Carlos Guerreiro solta com destreza o miolo de bíblias, enciclopédias e livros. O encadernador é também pintor, alfaiate, dourador e restaurador. Num fogareiro a gás, aquece as peças metálicas que marcam as capas, dando título, linhas e ornamentos ao que antes era um corte simples de pele. Há ainda aqueles que são envoltos por uma mistura de cores de tintas transferidas com tanto cuidado que nem sequer deixam texturas no papel — não são estampas fabricadas, é mesmo tudo feito à mão.
Não há limites para a criatividade, e pode ser este o segredo que faz com que Carlos continue a ter o mesmo gosto pela profissão mesmo após cinco décadas a exercê-la. “Uma pessoa quando faz as coisas com gosto não se cansa”, afirma. A calmaria da nova morada sem a agitação dos turistas agradou ao artesão, que tem agora também mais espaço para transmitir os seus conhecimentos para os interessados em manter vivo este ofício. O seu filho não quis seguir os passos do pai, escolhendo trabalhar como lavrador. Mas se depender da vontade de Carlos, o ofício de encadernador não vai desaparecer.
▲ O engenheiro informático José Manuel, lisboeta de 58 anos, aprende o ofício com Carlos Guerreiro há cinco anos
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
“Gosto de ensinar, é muito importante, em especial para quem tem gosto pelas artes”. É o caso do engenheiro informático José Manuel, lisboeta de 58 anos que decidiu iniciar o seu percurso neste meio através de um curso de desenho na Universidade de Belas-Artes. Depois, participou num workshop de encadernação e decidiu então investir em aprender na prática. Nas suas mãos, tem agora os cadernos da quarta classe de um amigo, repletos de treinos de caligrafia com letra cursiva. Sob a supervisão do professor Carlos, que o acompanha há cinco anos e lhe empresta as ferramentas, retirou argolas enferrujadas e está a desenvolver capas para conservar as recordações. Há ainda mais uma aluna, Patrícia, que aproveita o tempo livre aos sábados para também aprender com o mestre encadernador.
Religiosos, realezas e raridades
O facto de o cliente ser mais ou menos famoso não define o preço do trabalho, mas sim o nível de dificuldade e as horas necessárias para finalizar. Carlos não se envaidece ao pensar nas suas criações que foram parar às mãos de figuras conhecidas em todo o mundo. Este ano, foi convidado para entregar nas mãos do Papa Leão XIV, no Vaticano, um trabalho que fez para o próprio. Foi a pedido do Patriarcado de Lisboa que transformou em livro uma compilação de cartas de fiéis portugueses, envoltas por uma capa feita também no seu atelier em Lisboa. “A oportunidade veio numa altura em que não me deu muito jeito. Não tive tempo, estava cheio de trabalho”, justifica.
Dispensou também convites do chef José Avillez para jantar num dos seus restaurantes, cujas ementas foram feitas pelo encadernador. Não só o Bairro do Avillez, mas também o Café de São Bento, o Gambrinus e o Tia Alice, em Fátima, contrataram o artesão. “Eu gosto mesmo é de tascas”, confessa. Não lhe perguntar as suas favoritas no Bairro Alto, onde costuma regressar para reencontrar os amigos, seria desperdiçar as recomendações de quem lá esteve por tantos anos: “Tasca do Chico, Papo Cheio, Cantinho da Rosa e Casa da Índia”. As da recente vizinhança ainda estão por descobrir.
Quando o Observador é recebido por Carlos no seu novo espaço, encontra-se a finalizar mais um entre vários trabalhos de clientes: o restauro de uma bíblia cuja inscrição aponta ser de 1879. A capa velha, já deteriorada, foi trocada por uma nova. Carlos tentou replicar as características da original, como a cor da pele e os detalhes gravados. Ao chegar ao balcão, pousa o livro. “Tem que abrir sempre bem”, explica, folheando as páginas com as mãos marcadas pelas ferramentas afiadas e aquecidas. Em alguns momentos, tem também a ajuda da sua mulher, Marília Ferreira, de 61 anos, para costurar os papéis.
▲ O fogareiro, o primeiro livro e a ferramentas feitas com ossos de animais
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
Nem todas as obras podem ter a capa substituída, como ocorre com relíquias e edições únicas, que perdem o seu valor comercial se sofrerem alterações. É o caso de um dos exemplares de A Mensagem (1934), de Fernando Pessoa, que Carlos guarda com muita estima numa caixa que ele próprio desenvolveu no mesmo estilo da obra para preservá-la. As suas mãos já estão habituadas ao cuidado minucioso com as raridades, afinal, durante os vinte anos em que trabalhou no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, recorda ter lidado com centenas de documentos históricos — como por exemplo a carta escrita por Pero Vaz de Caminha à coroa portuguesa na chegada ao Brasil. Trabalhando de forma independente desde 1977, o artista exige dos clientes um seguro para as obras raras, cuja identificação é feita com o apoio de colegas alfarrabistas. “Há livros que justificam as pessoas gastarem dinheiro, tal como um carro de coleção. Seja pelo valor histórico ou estimativo”, diz.
A ligação com as raridades e os arquivos monárquicos não ficou no passado. Um senhor “americano, nascido no Irão e que conhece meio mundo”, conta Carlos, é quem o indica para clientes como a Rainha Isabel II, para quem desenvolveu, “há uns vinte anos”, algumas pastas de protocolo. Para proteger a condecoração do Rei da Grécia, Constantino II, criou em 2020 uma caixa forrada em pele chagrin e interior em seda moiré. As gravações com os símbolos daquela casa real foram feitas em dourado. “Às vezes, tenho pena quando entrego os trabalhos para as pessoas. Faço como se fossem para mim, então gostava que ficassem comigo”, brinca.
O telefone toca. É o cliente a perguntar pela bíblia, ao que Carlos confirma já estar pronta. A prioridade na sua pilha de afazeres são os portfólios dos alunos de Belas-Artes, que o procuram para desenvolver capas para as apresentações de trabalhos académicos. “Mas ninguém fica para trás. Entrego tudo sempre no prazo”, garante. Parar de encadernar? “Só mesmo quando eu morrer”, diz, convicto. As raras pausas no ofício são para um hobby que faz também (quase) com o mesmo gosto: a pesca. “O mar dá-me força, mas estou sempre com saudades dos livros”.
[Dois meses após o desaparecimento, e já depois de o genro, Raymond Quendoz, lhes ter anunciado que ia divorciar-se dela, os Silva Pais recebem finalmente notícias da filha. Annie está bem. Recusa dar detalhes sobre o seu paradeiro mas há cada vez mais evidências de que fugiu do marido para se juntar à revolução cubana. E, se isso aconteceu, uma coisa é certa: Annie tem de ter tido a ajuda e o aval do próprio Fidel Castro. Resta apenas saber porquê. Já pode ouvir o segundo episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]