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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, é isso.
Bruno, já estamos cansados dos discursos do Trump.
O melhor é perguntarmos aos tradutores e intérpretes da ONU, ainda que ontem, nas televisões, a maioria tenha optado pela legendagem automática e da inteligência artificial, o que também diz muito sobre estes tempos. Mas Donald Trump voltou à Assembleia Geral das Nações Unidas e uma vez mais trouxe com ele aquilo que já se tornou uma espécie de gênero literário, o discurso Trump. E desta vez o tema principal foi o Irão. O presidente norte-americano defendeu a guerra contra Teerão, disse que os Estados Unidos impediram o Irão de obter uma arma nuclear e depois apresentou uma escolha muito pouco diplomática: ou há um acordo ou então pode aniquilar a República Islâmica. Ao mesmo tempo, disse acreditar que ainda será possível chegar a um acordo depois das eleições norte-americanas de novembro e que não está preocupado com o resultado dessas eleições, porque ele não é candidato. Ou seja, a mesma pessoa que ameaça aniquilar um país, também prevê que, afinal, talvez seja possível fazer um acordo com esse país. E não ficou por aqui. Trump voltou a defender o poder militar norte-americano, criticou a ONU, atacou organismos internacionais e garantiu que os Estados Unidos não aceitarão que o seu poder seja condicionado por instituições internacionais como o TPI. No fundo, foi Trump vintage, mas até o vintage já cansa. Olha, e sobretudo com os combustíveis mais caros.
Mais caro. Paulo, temos de estar preparados para o pior?
Pois, o melhor é assumir desde já que vamos continuar com preços altos dos combustíveis por muito tempo. Isto é, sem perspectivas de que haja uma quebra, um alívio e que seja consistente. E que ele regresse ali a € 1,50, €1,60, €1,70 por litro, como andou durante tanto tempo. E o aviso vem de quem sabe, vem do co-CEO da Galp, que ontem disse isso mesmo. Ele disse que a situação vai perdurar pela quebra na refinação e pelos estoques reduzidos. Ou seja, João Diogo Marques da Silva diz que mesmo que por magia, o conflito, o por magia somos nós a dizer, o conflito dos Estados Unidos com o Irão termina amanhã e que logo a circulação no Estreito de Ormuz seja imediatamente reaberta plenamente. A destruição de uma parte da capacidade de refinação de combustíveis vai demorar muito tempo a ser reposta. Trata-se basicamente de instalações industriais. E este será aqui o gargalo mais estreito do mercado nos próximos tempos. A boa notícia é que pelo menos não nos vai faltar combustível porque a refinaria de Sines garante o abastecimento. Portanto, nem tudo pode ser mau. Pagamos é mais caro, não é?
É isso. Então agora vamos mudar, não sei se para melhor. Vamos até ao imobiliário. Paulo, temos bolha ou não temos bolha?
Pois começa a falar-se disso, a falar-se, isto é, a discutir seriamente se há bolha ou se não há bolha.
Os jornais económicos hoje estão todos a falar disso.
Bolha é a palavra mais presente. Os preços, de facto, estão a desacelerar, mas continuam a aumentar e a aumentar bastante. Há um estudo da UBS, da União de Bancos Suíços, que diz que Lisboa apresenta um risco acrescido de bolha imobiliária. O que é isto? O que é a bolha? Traduzindo isto, no fundo é uma sobrevalorização significativa e persistente, continuada no tempo, dos preços dos imóveis. E isto sabemos que temos, em Lisboa e no resto do país. Qual é o problema? É que geralmente só se torna evidente esta sobrevalorização após uma correção, isto é, depois de uma queda. Portanto, só quando a bolha rebentar é que sabemos se tínhamos uma. Já o FMI diz que os preços das casas parecem esticados, mas que o risco de uma correção, de uma descida, se quisermos, a curto prazo, é contido. Portanto, numa coisa estão todos de acordo, os preços são muito exagerados e podem ser insustentáveis. Se a bolha rebentar, logo saberemos. Isto é um bocadinho como acertar na totobola à segunda-feira, não é?
Exato.
Pronto.
Então Bruno, e se a bolha rebentar, a banca portuguesa aguenta?
Ai, aguenta, aguenta, como dizia o outro senhor. Ou talvez não. A resposta do governador do Banco de Portugal é: em princípio, estamos preparados, mas não convém abusar da confiança. Álvaro Santos Pereira diz que a banca portuguesa está hoje numa situação robusta e resiliente e mais preparada para enfrentar choques do que estava há 20 anos. E isto deve logo preocupar-nos. Quando dizem que está bem, se calhar não está assim tão bem. O FMI também chegou a uma conclusão semelhante. Diz que os bancos têm capital e liquidez suficientes e que os testes de esforço mostram que conseguem absorver cenários adversos. E é aqui que entra novamente a questão do mercado imobiliário, que o próprio FMI identifica como o principal risco de médio prazo para a estabilidade financeira portuguesa. Os bancos portugueses estão bastante expostos ao mercado residencial e, portanto, uma queda significativa dos preços das casas pode acabar por chegar aos balanços dos bancos. A banca está preparada para um naufrágio? É essa a pergunta. Sim, só que os coletes salva-vidas podem não chegar. E convinha mesmo muito que não houvesse naufrágio.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, é isso.