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A questão é difícil.
Eu acho que a sua questão é muito importante.
Eu não lhe vou responder essa pergunta, porque não me apetece.
Ficará eventualmente a pergunta no ar.
É uma boa pergunta essa.
Está na hora do Ainda Bem, que faz essa pergunta hoje. Paulo Ferreira e Judite França falam-nos de fenómenos de autarcas já vacinados, mas também de preocupações que terminam com a noite eleitoral de ontem.
É verdade, agora que já passou o dia das eleições, já podemos voltar a esquecer o problema de voto dos imigrantes.
Ontem, tanto Marcelo como Ana Gomes falaram disso durante o dia.
Ambos se referiram a essa dificuldade que os imigrantes portugueses têm para votar, tendo que se deslocar, por vezes, centenas de quilómetros até ao consulado mais próximo. Eles falaram disso à saída do voto de cada um. Mas é assim há décadas. Os candidatos e políticos lembram-se disso no dia das eleições e até às 20h, até começarem a surgir os resultados da noite eleitoral. E depois voltam a esquecer-se disso e nem presidentes, nem governantes ou Parlamento conseguiram ainda encontrar tempo nas agendas para alterar a forma de votação dos imigrantes e assim resolver o problema. As comunidades portuguesas também valem sempre umas palavras muito bonitas no 10 de Junho, mas pouco mais do que isso. Também, obviamente, não se pode ter tudo. Já tem essas palavras. E vamos continuar a fingir que o aumento da abstenção só acontece porque há mais portugueses imigrantes, de facto, nos cadernos eleitorais?
Foi o discurso de muitos responsáveis políticos.
Mas o melhor mesmo é olhar para os dados, analisarmos os dados. E os dados oficiais só do território nacional, portanto vamos excluir os dados dos círculos da imigração, dizem que votaram nestas eleições menos meio milhão de pessoas do que há cinco anos. A abstenção medida só no território nacional passou de 50% para 55%. É, para todos os efeitos, um grande aumento. Podemos, claro, invocar a pandemia e o facto de ter sido uma eleição que tinha um vencedor antecipado, o que pode ser, de facto, desmobilizador. Mas a tendência vem de longe, mesmo de quando não havia pandemia, desta vez só se acentuou. Portanto, mais uma vez, isto parece ser uma daquelas preocupações pra alimentar as televisões entre as 19h e as 20h nas noites eleitorais.
E depois se esquece. Então só na noite eleitoral é que o Chega se preocupa com o número de pessoas numa sala?
É verdade, parece que houve ali um incidente com os jornalistas ontem à noite.
De repente, o Chega decidiu mandar os jornalistas pra fora da sala no Marriott Hotel. Aparentemente, era um problema de acreditações. O partido justificou o inusitado com o facto da sala ser limitada e não haver muitos lugares. Durante a campanha não houve problema nenhum com o distanciamento físico, basta recordar um jantar com 160 pessoas no restaurante. A ordem pra sair foi pouco depois de se conhecerem as primeiras projeções, em que o staff de Ventura percebeu que já estavam abaixo do que prometiam e do que o líder do Chega tinha apostado até a liderança do partido. Ora os jornalistas recusaram-se a sair, o problema foi resolvido com a verificação das acreditações, uma a uma. Finalmente, a pandemia já merece todos os cuidados. E qual é o fenômeno que leva a que os autarcas nacionais sejam vacinados num ápice?
É uma boa pergunta, de facto. Já temos dois que conseguiram entrar na primeira fase.
O que é basicamente inexplicável, a não ser pelo facto de estarmos em Portugal. Primeiro, foi o presidente da Câmara de Reguengos de Monsaraz, na semana passada, que vestiu o seu casaco de administrador da fundação que gere um lar, onde em agosto morreram 18 pessoas, e que na altura sacudiu responsabilidades para considerar que agora, para ser vacinado, devia ser contemplado. Agora é outro autarca que, sem fazer parte do grupo prioritário, também já está imunizado. Por quê? Ora, neste caso, porque sobraram doses da vacina. E eu estou a ser literal. Cada frasco tem seis doses e não houve planeamento suficiente para saber que na Misericórdia de Arcos de Valdevez, onde estavam a ser vacinados e funcionários, iam sobrar doses. Resultado, a enfermeira decidiu ligar ao presidente da Assembleia Municipal para ficar com uma dessas sobras. E assim temos mais um autarca a ser mais rápido do que todos os outros portugueses. E já agora, vai haver consequências?
Até agora nada, claro.
Isto porque Portugal também é especial. Aqui ao lado, em Espanha, o chefe das Forças Armadas, que se vacinou sem ser prioritário, como os nossos autarcas, demitiu-se. Tão simples como isso. São consequências efetivas que em Portugal nunca existem.
A questão é difícil.
Eu acho que a sua questão é muito importante.
Eu não lhe vou responder essa pergunta, porque não me apetece.
Ficará eventualmente a pergunta no ar.
É uma boa pergunta essa.
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